sábado, 20 de abril de 2019

Reflexões sobre Camilo Castelo Branco (Ensaio)



Reflexões sobre Camilo Castelo Branco

Quando levantei os olhos dos livros de Camilo, nos quais durante anos a minha alma chorou quantas lágrimas neles se desfiam, e vi, projetada já no espaço de mais de duas décadas, decorridas sobre a tragédia de Seide, a sombra gigantesca deste extraordinário espírito, sem uma coluna de granito ao menos, a sobrepujar os horizontes, com o seu nome esculpido a letras de ouro, a refulgir ao sol da nossa terra e a apontá-lo às almas de todas as gerações, senti-me envergonhado da vergonha que pesava sobre a minha Pátria!

Foi no referver dessa revolta contra tanta miséria moral e intelectual desta terra, oficialmente representada por uma fauna de medíocres, onde só raramente tem reflexo o vigor e a claridade mental da raça, escrevi em 1913:

"Para não acamaradarmos com todos os nacionalíssimos parvos e maus, teremos de lavrar um protesto fervoroso contra o indiferentismo indigno e pelintra... É preciso cavar na injustiça inconsciente do maior número, e aplicar a férula aqueles que, apegados no comum de seus ódios e soberbas, pretendem desluzir a grandeza imponente da obra do mestre. É preciso quebrar o silêncio, descondensar o escuro indiferentismo que tombou sobre a campa de Camilo. É preciso que os malévolos não vinguem cobrir de ingrato esquecimento a sua memória...

Os ossos de Camilo, para deslustre de nós todos, ainda estão num cemitério do Porto, deixados ali para o canto de um jazigo, emprestado à família pela família de Urbino de Freitas!... Camilo Castelo Branco... não tem encontrado nos portugueses, salvo uma ou outra exceção, isolada ou desaparecida, quem se levante a reclamar, por amor da dignidade nacional, o que de justiça pertence ao lustre imarcescível do seu nome."

Era justificada a minha indignação, tanto referindo-me a Camilo, como a muitos outros, dos grandes, dos maiores!

A nossa história quase que tem em cada página um nome, que, só por si, é uma epopeia.

Pois, excetuando o infante D. Henrique; o Afonso de Albuquerque, que ficou uma espécie de manecas, vestido de Vasco da Gama, no alto da coluna; o Camões, que parece um enjeitado, enconchado nas ombreiras de uma escada; o Eça, que por exceção revive em obra perfeita, mas que, por mais pequena que seja, é sempre grande demais para a estreiteza do Quintela; excetuando o senhor D. Pedro IV e o V, mais o Duque de Saldanha e a Morgadinha de Val Flor, que não se sabe porque pararam assim... em estátuas... pelo mundo... até o que tão prodigamente se dá hoje a qualquer rabiscador de pensamentos livres, tem sido negado ao Herculano, ao Garrett, ao Fernão de Magalhães, a D. João de Castro, ao Antero, ao Padre Antônio Vieira, ao Bernardes, ao Fernão Lopes... a Camilo Castelo Branco!

E, todavia, tinha-se dito e escrito muito a respeito de Camilo, e muito se tem dito e escrito, depois do que eu escrevi em 1913!

Mas não passava tudo de palavras fugazes, apesar de nos discursos aquecidos se chegar no louvor a exageros condenáveis!

E eu, que sempre tenho sabido respeitar o valor que os vivos me merecem, e considerar e venerar as cinzas dos mortos que deixaram aumentada a grandeza espiritual da nossa terra, com o propósito de arrancar ao abandono desolante o rasto que deixou na terra essa brilhante estrela das letras portuguesas, procurei definir a mim próprio, tendo ouvido e lido quanto se dizia e escrevia, o motivo da homenagem da nação a Camilo Castelo Branco.

As reflexões que, na intimidade do pensamento, apresentei a mim próprio, vou agora dizê-las ao público.

É feitio dos portugueses, em geral, não se especializarem e, por isso, adejarem, simplesmente, por todos os assuntos, produzindo obra de superficialidade, que se banaliza em si, e causa não poucas perdas e danos, como sementeira de falsas aparências feita na ignorância comum, por se tornar seara bravia, donde toda a gente tira farta colheita de erros.

Por serem superficiais, também os portugueses se lançam de repente, entontecidos, nos entusiasmos exagerados, porque a aragem, soprada pelas primeiras impressões, se torna logo em tumultuoso vendaval. E, como esse tumulto, sem base de raciocínio, sem corpo de crítica mental, é paixão momentânea, que, arrefecido o primeiro impulso, esmorece, passado ele, quedam fatigados, indiferentes, quase arrependidos, a bocejar de tédio, como sucede aos borrachos, delidos os fumos da bebedice.

Ora eu queria que a nação se erguesse em peso, e, numa só voz, como uma enorme potência espiritual, entoasse a sua oração de amor e de glória ao espírito vivo de Camilo.l Mas queria que a nação, orando assim no Templo da Pátria, tirasse da própria consciência a força e a luz do seu exaltado louvor!

Já que é impossível, porém, ter o gozo inefável de sentir a harmonia dessa voz excelsa de um povo ascendido a tão alta per feição, que ao menos aqueles que são, ou pretendem ser, consciência na triste obscuridade da alma do maior número, não ensinem mal os outros, apregoando absurdos motivos de homenagem, nem sejam desleais a todos, a si próprios, e à pureza em que deve manter-se o espírito dessa homenagem, manchando-se com intuitos de deprimir alguém à custa da exaltação de Camilo!

Que saia puro, pelo cérebro e pelo coração, o culto que as nossas almas dão à memória do Mestre.

A pureza pelo coração consiste em conservar no culto a serenidade do sentimento, não lhe pondo mancha de ruim paixão; quer dizer, não escurecendo a luminosidade natural e própria do espírito que se venera, com a intenção de, engrandecendo-o, diminuir a luz própria de outros espíritos.

Cada espírito tem a sua área de ação radia numa determinada esfera; e no circuito em que a sua luz revoluciona, constitui uma personalidade, revela uma grandeza espiritual, una e inconfundível.

Quem fosse, por exemplo, alentar louvores a Camilo, com a preocupação de depreciar a grandeza do Eça, cometeria um erro intelectual tão grande, que só podia ter explicação na cegueira de uma paixão baixa; pois que, nem diminuindo o Eça se aumenta a grandeza de Camilo, nem vice-versa. O Camilo e o Eça são dois grandes espíritos, distintos, inconfundíveis, não precisando, para serem grandes, que nós nos tornemos indignos deles e de nós próprios, procurando, aos olhos dos ignorantes, diminuir um em proveito do outro.

A pureza do cérebro será não ultrapassar os limites da grandeza aonde queremos que ascendam nossos louvores.

Cuidemos de Camilo no que ele foi grande entre os grandes, e, não exorbitando aí da sua grandeza, tenhamos ainda mais cautela em não nos desviarmos da razão, apregoando e sugestionando falsos motivos à homenagem pública!

Se para interessar a sensibilidade nacional no culto de Camilo, é preciso mentir à nossa consciência e dar mau ensinamento, que fique circunscrita a homenagem, mas não se falte ao respeito devido à Verdade.

A cada passo se fala e se escreve da dor na vida de Camilo... Chama-se-lhe O Desgraçado... O Torturado, chegando quase a considerar-se, senão a impor-se, a dor na vida de Camilo, como uma faculdade suprema do seu espírito, como uma manifestação do seu gênio, e, como tal, na órbita formidável da sua grandeza, e objeto da admiração, da adoração, do louvor, da homenagem de uma nação inteira!

Pois eu, que ouso afirmar, que Camilo, no que foi verdadeiramente grande, no que foi mil vezes maior do que mestre da língua, não pertence a Portugal, porque é da humanidade toda, revolto-me contra a confusão da dor na vida de Camilo com a sua obra enorme — único objetivo das honras nacionais e do culto eterno da Pátria!

Desgraças... torturas... dores!!

Se houvéssemos de erguer um monumento a todos os desgraçados e torturados, tinham de ser tantos, que, perante o manifesto absurdo de tão vária e vasta consagração, acabaríamos por erigir um só monumento à Dor Humana! Mas esse ninguém o faria mais perfeito que o próprio Camilo; mas esse é a própria obra de Camilo— que foi o estatuário sublime do corpo vivo da Dor!

Mas ha mais ainda.

Quando aqueles que chegam à loucura de fazer de Camilo um herói de revólver em punho, desfechando contra a dor própria, julgam que lhe acrescentam à grandeza, confundindo o espírito, que imortalizou, numa obra, a sua humanidade, com o homem vulgar, que se atirou da própria obra abaixo, diminuem-no, amesquinham-no; e quem sabe se o desgraçam ainda mais, se lhe fazem ainda mais torturante a tortura que o atormentou!

Pois quê! Esse espírito, que levou as suas inúmeras criações, a subir os calvários da Dor, e as elevou aos mais altos e acerados picos da mesma Dor, purificando-as, salvando-as na resignação sublime, para lhes abrir, lá no mais alto, o mais belo dos sorrisos sobre asas de anjos a roçar no Céu, é grande por ter sucumbido?!

Onde está a heroicidade, a grandeza do suicida?!

Em renunciar à vida?!

Mas qual é, em definitiva, o fim que almeja o homem nessa renúncia? Por que é que se mata?

Por que lhe falha o entendimento? Por que se lhe perturbam as funções do sistema fisiológico? Por que se torna um anormal? Mas, nesse caso, o suicídio é um ato de loucura, e o homem que se mata é um louco; não é um herói.

Se admitimos no suicida o funcionamento normal do sistema fisiológico, que busca o homem que se mata? Qualquer que seja a sua filosofia ou qualquer que seja a sua crença, enche-lhe o coração a esperança de sofrer menos, matando-se, ou até de não sofrer nada. Foge à dor que está sofrendo, em busca de uma dor menor, ou, e principalmente, em busca da ausência da dor, que ele se habituou a localizar no corpo contra o qual atenta! Mas isto não é ser herói; é ser cobarde.

A alma de Camilo fraquejou; e, por isso, sucumbiu a uma adversidade vulgar. E se essa adversidade vulgar tomou aos olhos de si próprio maior vulto, porque ele era dotado de faculdades superiores, maior devia ter sido a resistência...

Quem quer que seja, o suicida é um defectista...

Aquele que, num súbito momento, ao desabar do infortúnio sobre si, se mata, como quem, empurrado, sem contar, à borda de um precipício, se despenha no abismo, tem desculpa perante nós, porque o seu ato não foi senão a consequência de uma perturbação momentânea do sistema de relação, de um estado súbito de loucura.

Mas ninguém lhe poderá chamar herói. Aquele que premedita a fuga, com intenção de não sofrer os embates da vida, comete uma defecção, perante todas as filosofias do mundo e todas as religiões da terra.

E quanto mais absoluto for o critério materialista que presida ao julgamento do fato, mais ressaltará a cobardia do suicida; porque, segundo esse absurdo critério, o refratário, ao fugir à dor, mais esperança terá em mergulhar na inconsciência, na cinza da personalidade, na ausência do sofrimento, no nada, no sossego eterno!

E é isto heroicidade?! E é isto grandeza?!

Deixemos Camilo, em paz, no mistério do seu drama, que é, afinal, o mistério do drama humano.

Não pretendamos fazer das fraquezas atos heroicos. Não confundamos a vida do homem com a obra do escritor; porque a grandeza e a excelência desta estão nela própria e não nas circunstâncias que levaram Camilo a fugir à dor que o torturava.

De mais a mais, a razão da sua dor estava nele próprio... era a razão da sua vida. Não ajuntemos, com as nossas leviandades de pensamento e de crítica, maior mal ao mal imenso que ele a si próprio fez. Não há na literatura portuguesa romancista que, de longe ou de perto, se possa comparar a Camilo!

Camilo é uma das maiores glórias literárias destes últimos séculos!

É quanto basta e é tudo; porque está nisso a sua grandeza, e podemos proclamá-la, sem ofensas à Razão, sem prejuízo de ideias, sem dano aos homens e... sem lisonjas à sua memória.

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CARLOS BABO
"À beira do centenário de Camilo". Portugália Editora. Lisboa, 1920.
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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