segunda-feira, 29 de abril de 2019

Sousândrade, o poeta maldito (Ensaio)



Sousândrade, o poeta maldito

Eu já conhecia Sousândrade "de nome", quando José Chagas, há uns dois anos, falou-me da poesia desse estranho poeta maranhense e do crescente interesse que ela vinha despertando, sobretudo no sul do país.

Sousândrade nasceu em 1833 em Guimarães e faleceu em São Luís — considerado "louco e maníaco" — em 1902, sendo necessários sessenta anos, após sua morte, para que sua obra fosse considerada a que "mais se aproxima, tanto pelas audácias formais como pela sofrida humanidade, da atmosfera rarefeita da poesia contemporânea, que assim encontra, na complexidade humana do poeta maranhense, um dos seus mais surpreendentes precursores".

Sousândrade vivendo em São Luís, não se conformou com o classicismo de sua formação e tentou conciliá-lo com o romantismo de sua época. Logo seria considerado original, tanto pelos temas que preferia, como pela forma de tratá-los. Viajou pela Europa, Norte da África e Oriente Próximo, retornando ao Brasil (quando publicou seus primeiros livros) e finalmente seguiu para os Estados Unidos, onde permaneceu longo tempo, e quando trabalhou no seu mais famoso poema "O Guesa", que veio ao público pela primeira vez em Londres, em 1881. De volta a São Luís, integrando-se na vida pública, tentou criar aqui uma Universidade. Os últimos anos do poeta "maldito" foram de extrema miséria e solidão. Até sua filha, não lhe suportando o gênio, abandonou-o sozinho na bela chácara da Vitória, à beira do rio Anil. Sua figura, nas ruas de São Luís, era de verdadeiro tipo popular, motivo de gracejos e pilhérias e os moleques atiravam-lhe "motejos e pedras", sendo necessária às vezes a interferência das autoridades.

Semana passada tive a alegria de ver uma das mais felizes iniciativas do Departamento de Cultura do Maranhão, um "Memorandum" em homenagem ao  incompreendido" autor de "O Guesa", poema com o qual Sousândrade pensou "representar  a complexa visão dramática que tinha do mundo" e descrever  "o destino trágico do poeta, tanto na dimensão pessoal, como social". O poeta é um ser sacrificado e um predestinado que não se deve afastar da luta contra todas as formas de opressão. E sobre uma certa circunstância social, na qual "as relações de produção hostilizam os ideais humanísticos", os dois irmãos paulistas  do  chamado "Grupo Concreto" — Augusto e Haroldo de Campos —a quem devemos em parte a "descoberta", considerada no seu "Sousândrade: o terremoto clandestino",  que o poeta maranhense "lançou a uma problemática internacional, à luta anticolonialista, buscando uma conscientização de americanidade em termos continentais e denunciando premonitoriamente as contradições do capitalismo" — conseguindo assim, ao mesmo tempo, uma poesia que os dois irmãos paulista chamaram de "poesia simultaneamente engajada e de vanguarda".

Também considero imperdoável "esse escândalo de irresponsabilidade brasileira"quanto à obra de Sousândrade, escrita há mais de um século e somente agora revista, sentida e amada. Perdoa-se menos isto, que se perdoaria aqueles de seu tempo que, vivendo na estreiteza local, não lhe souberam entender o verso, avançando demais, confundindo loucura com genialidade.

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ARLETE NOGUEIRA DA CRUZ
Jornal do Maranhão, 7 de maio de 1967.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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