quinta-feira, 16 de maio de 2019

A enfiada de petas (Fábula Portuguesa), por Teófilo Braga



A enfiada de petas

Era uma vez um homem, que não pôde pagar a renda ao fidalgo de quem era caseiro, e foi-lhe pedir perdoança; o fidalgo pensou que o que ele estava era a mentir, e disse-lhe:

— Só te perdoo as medidas da renda se me disseres uma mentira do tamanho de hoje e amanhã.

Foi-se o lavrador para casa e contou a coisa à mulher sem saberem como se haviam de arranjar com o senhorio, que os podia pôr no olho da rua. Um filho tolo, que tinha, disse-lhe:

— Oh meu pai, deixe-me ir ter com o fidalgo, que eu hei de arranjar a coisa de modo que ele não tenha remédio senão dar a perdoança das medidas.

— Mas tu não atas coisa com coisa.

— Por isso mesmo.

Foi o tolo e pediu para falar ao fidalgo, dizendo que vinha ali pagar a renda. O fidalgo mandou-o entrar, e ele então disse:

— Saberá vossa senhoria, que a aneza foi má, mas isso não faz ao caso; meu pai tinha tantos cortiços de abelhas que não lhe dava com a conta; pos-se a contar as abelhas e acertou de lhe faltar uma; botou o machado às costas e foi procurar a abelha; achou-a pousada na carucha de uma amieira; vai ele cortou a amieira para caçar a abelha, que por sinal vinha tão carregadinha de mel, que ele crestou-a, e não tendo em que guardar o mel meteu a mão no seio e tirou dois piolhos e fez da pele dois odres que encheu, mas quando vinha a entrar em casa uma galinha comeu-lhe a abelha; atirou à galinha com o machado para a matar, mas o machado perdeu-se entre as penas; chegou o fogo às penas, e depois que elas arderam é que achou o olho do machado; dali foi ao ferreiro para lho arranjar, e o ferreiro fez-lhe um anzol, com que foi ao rio apanhar peixes, e saiu-lhe uma albarda, tornou a deitar o anzol e apanhou um burro morto há três dias que pestanejava; botou-se a cavalo nele e foi ao ferrador para lhe dar uma mezinha, e ele deu-lhe o remédio de sumo de fava seca, mas nisto caiu-lhe um bocado num ouvido, onde lhe nasceu tamanho faval, que tem dado favas e comido favas, que ainda aí trago quinze carros delas para pagar a renda a vossa senhoria.

O fidalgo já enfadado com tanta patranha disse:

— Oh rapaz, tu mentes com quantos dentes tens na boca.

— Pois, senhor, está a nossa renda paga.

(Airão)
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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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