sexta-feira, 17 de maio de 2019

As crianças abandonadas (Lenda Portuguesa), por Teófilo Braga



As crianças abandonadas

Um pobre homem casado tinha muitos filhos, sem ter que lhes dar a comer; de uma vez, quando os pequenos já estavam deitados, disse ele para a mulher:

— O melhor é levá-los comigo para o monte quando for à lenha, e deixá-los lá.

O filho mais novo apanhou a conversa e levantou-se sorrateiro, e foi à ribeira e trouxe para casa muitos seixinhos. Ao outro dia pela madrugada o homem saiu com os filhos para o monte, e o mais novo foi espalhando os seixos pelo caminho. Ao cair da tarde o homem carregou a lenha, e disse aos filhos que ficassem guardando o resto, que já vinha por eles. Mas, voltou ele? Assim que anoiteceu, os pequenos começaram a chorar; ora o mais novo, disse:

— Eu sei o caminho.

E foi procurando os seixinhos brancos que tinha deixado cair pelo caminho; o que é certo é que deu com o caminho de casa mais os irmãos. Estava a porta fechada e estava-se à ceia. Dizia a mulher:

— Está este caldinho tão bom. Quem me dera aqui agora os nossos filhos! Onde estarão a estas horas?

— Estamos aqui, mãezinha.

A mãe foi abrir-lhes a porta. Passaram tempos, a pobreza aumentou, e o pai combinou outra vez a i-los deixar no monte; assim fez. O pequeno apanhou a conversa, e desta vez, como não pôde ir buscar os seixos, encheu uma algibeira de tremoços, e foi-os espalhando. À noite quando o pai se veio embora, o pequeno começou a procurar os tremoços, e os pássaros tinham-nos comido, e não pôde achar o caminho. Ele mais os irmãozinhos perderam-se no descampado, até que foram dar a uma casa onde morava um homem ruim; a mulher assim que os viu, disse:

— Ai meninos, que vindes aqui fazer, que o meu homem come gente!

— O que nós queríamos era comer alguma coisinha, disse o mais esperto.

Entraram; a mulher deitou os seus filhos em uma cama, e pôs-lhe umas carapucinhas e levou os pequenos perdidos, para outra cama. O pequeno mais esperto não pregava olho, e lá pela noite adiante, viu entrar o homem ruim, de dentes arreganhados:

— Cheira-me aqui a gente nova!

A mulher confessou-lhe tudo; ora o pequeno tinha ido tirar as carapucinhas aos outros e tinha-as metido nas cabeças dos irmãos e da sua. O homem mu passou pela cama das crianças, e pensando que eram os seus filhos foi ter à outra cama, e como os não viu com as carapucinhas, degolou-os logo a todos, e começou a comer neles. Os pequenos pelo aviso do irmão escapuliram-se, e quando já iam muito longe é que o homem ruim deu pelo engano; calçou umas botas de sete léguas, e tal passada deu que os pequenos lhe ficaram atrás; andou, andou e de cansado voltou e adormeceu no caminho. O pequeno roubou-lhe as botas de sete léguas, e assim pôs-se a salvamento mais os irmãos, e como o rei tinha guerras muito longe, ele levava as ordens, e trazia as notícias, e assim ganhou muito dinheiro com que tirou toda a sua família da pobreza.

(Airão)

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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