5/09/2019

A feiticeira (Conto), de Afonso Arinos


A feiticeira

Não. Não aguento tamanho pouco caso: era o que faltava! E, diante destes olhos, fazer o que ele fez, minha Senhora da Conceição!

Assim pensando aí vinha a Benedita — alta, esbelta, mostrando na saia leve de cambraia a opulência dos quadris de mulata bem fornida. Sacudia a cabeça, enraivecida, endireitava o corpo e, pousando as mãos na cintura, parava de repente, em atitude de desafio. Continuava depois a marcha, perseguida pela mesma ideia má; estrada afora, ia esmagando, sob os sapatinhos de couro cheios de pelos brancos, as flores e os arbustos. Às vezes, num gesto estouvado, desmanchava a laçada do lenço de seda cor de ouro fosco, que tão bem lhe coifava a grenha luzidia.

— Eu mostro a esse diabo! Há de me pagar o atrevimento! E traçava nervosamente o xale fino, de cor vistosa, que havia comprado na véspera para assistir à procissão. Chocalhavam— lhe no pescoço as contas escuras de "lágrimas-de-nossa-senhora" e as bichas de ouro faiscavam ao sol, brunindo, com o reflexo, a face afogueada da rapariga.

Na lombada do morro assomava, a espaços, o cômoro dum cupim, sobre o qual os pica­paus gritavam num assanhamento de voracidade contra os pequenos insetos.

O sol, a pino, afugentava da grimpa das árvores o passaredo que se escondia no meio das franças. Entre as folhas dum ingazeiro cochichavam periquitos, mansamente, preguiçosamente, como invadidos da calma canicular, velando de quando em quando as pupilas redondas. No meio das folhas secas, farfalhantes, passava um calango, traçando na rápida corrida um ziguezague de fogo com a pele azul-dourada do seu dorso.

E caminhava a Benedita, forgicando planos, tramando contra o desaforado Miguel que, ainda há pouco, passara por junto dela, fingindo não dar por isso, tão preocupado parecia com outra conquista. Pois era assim que ele pagava a dedicação de Benedita, o seu amor quente e caricioso, o seu gosto em lhe agradar sempre, em vestir-se bem, enfeitar-se toda para lhe aparecer? E ainda agora mesmo não acabava de fazer o sacrifício de vir de tão longe só para vê-lo na procissão? Atrevido! Desavergonhado! Ela não tinha sangue de barata para aturar tanto desaforo. Deixá-lo estar: haveria de pedir conselho a tio Cosme para enfeitiçar o Miguel. Oh, o tio Cosme era sabido, em coisas de feitiçaria!

E, assim pensando, chegou à larga porteira que dava entrada ao pátio espaçoso, fechado por muros pardacentos. Cobria-os uma carapuça de capim seco para protegê-los contra a ação dissolvente das chuvas. No fundo, erguia-se o sobrado branco, com uma escada de pedra ao lado.

Benedita entrara.

Uma laranjeira, numa das faces do sobrado, derramava ondas de perfume no quarto que olha para o nascente. Do lado direito, uma porta no muro dava acesso ao pomar, abrindo quase sobre um rego d'água abundante, murmuroso, arrastando em pequenas balsas de folha de umbaúba, borboletas de grandes asas oculadas de azul. A água do rego caia coleando os canteiros e lambendo preguiçosamente as raízes das mangueiras seculares, das laranjeiras em flor. Debruçada sobre a porta dizente ao pomar, uma grande árvore viçosa, de compridas folhas encarnadas, atraía um enxame de besouros, de marimbondos zumbidores e de beija-flores cinzentos, cuja cauda branca abria-se em tesoura. E os pequenos seres alados, numa embriaguez de sons e de cores, banqueteavam-se no leite viscoso da árvore. No centro do largo pátio, um cavalo escarvava a terra, dobrando depois os joelhos e espojando-se voluptuosamente, à procura de refrigério. Junto ao muro da frente, velho boi carreiro, de pescoço alçado, orelhas aprumadas e olhos fitos na lombada do morro fronteiro, mugia, dolentemente, chorando talvez os companheiros longínquos, despedindo-se talvez, com esse gemido selvagem, repassado de angústia, dos campos saudosos de Cana-Brava, onde até então pompeara a sua independência de filho dos sertões. Um joão-de-barro, cheio de susto, chamava ansiosamente pela companheira, pulando e remexendo-se na porta de sua casinha, levantada sobre o galho do jenipapeiro, à beira do curral. A companheira respondia ao longe e continuava a caçar insetos. Ouvia-se também ao longe o gemido das juritis num chavascal escuro.

Todos os seres vivos procuravam a sombra, na hora canicular da sesta.

E o sol a pino requeimava a terra numa grande inundação de luz.


***

Junto à porta que dava para o pomar, quando entardecia, Benedita, de costas para o pátio, conversava com um preto velho. Era o tio Cosme.

A carapuça de lã, carregada sobre a fronte, anuviava mais esse rosto adusto, punha um quê de sinistro naquela fisionomia ao mesmo tempo enigmática e feroz, burlesca e solene. O olhar torvo, rompendo frio e perverso dos bugalhos vermelhos, como os dentes afiados rompem da mucosa rubra do jaguar, pairava sobre a Benedita, agudo e penetrante.

O negro vestia de algodão de cor fusca. A camisa, trazia-a ele aberta ao peito, mostrando a pele franzida e riscada de betas furfuráceas. Protegiam-lhe os pés contra os seixos da estrada alparcas de couro cru. Curvado como estava e apoiado a um bordão, cuja ponta enegrecida tinha sinais de sangue, certamente de répteis que inalara pelos caminhos, deixava pender do pescoço, na ponta de cordões escuros, amuletos de couro, unhas e presas de onça, que livram de quebrantos e de enfermidades.

Empregava essas patranhas em serviço de seu ódio aos brancos, de vingança contra os sofrimentos de sua raça. Espécie de pajé negro, era Cosme o espírito de revolta entre os seus malungos. Ninguém ousava ofendê-lo, porque um terror supersticioso, ao qual os próprios fazendeiros não escapavam, opunha uma verdadeira muralha a qualquer agressão à sua pessoa. Verdadeiro duende no meio daqueles homens simples, ninguém duvidava da eficácia de suas pragas.

Quando o preto, juntando os dedos na boca, fazia um beijo, parecia que de seu corpo iam brotar miríades de malefícios. Gozava de má fama entre os seus brancos, que já o haviam libertado com a condição de ir se ele para longe. Profundamente supersticioso, tornava-se o oráculo dos outros negros e da gente miúda, vivendo sempre com beberagens e práticas estranhas para curar doenças, livrar de má sorte e despertar o amor. As suas respostas às consultas, os seus conselhos, as suas receitas eram postas em prática com verdadeiro rigor. Quantas vezes, no chão frio da velha choça, não se estorceu, escabujando, algum crioulo sacudido ou mulato pernóstico, aos golpes sucessivos e enérgicos duma corda de fumo, crendo que uma sova com esse instrumento lhe limparia o corpo de mau-olhado? Quantas vezes também a sinhá-moça não encontrou no fundo da xícara de café, que lhe trazia a mucama, um pó estranho que não era outra coisa senão unha raspada?

Cosme pouco aparecia, vivendo sempre pelas matas. Para as crianças era um verdadeiro tutu de quem fugiam às léguas.

Benedita, mulata nova e bonita, era cria da casa e da estimação de sinhá. Viveu separada dos escravos, no meio da família do fazendeiro. De ânimo viril e de natureza impetuosa, a educação num meio superior à sua condição levantou-lhe algum tanto o espírito.

Embora supersticiosa, não sofria a mesma dominação absoluta, a mesma fascinação que o tio Cosme exercia sobre todos os escravos.

Contudo, o feiticeiro não deixava de exercer influência sobre o seu espírito. A vida misteriosa, o caráter sombrio e o torvo aspecto de Cosme geravam-lhe na alma um certo temor e uma certa fé no feiticeiro. Toda vencida de paixão pelo Miguel, que, ciente disso e cheio de vaidade, vivia a fazer-lhe pirraça, mais duma vez lembrou-se dos preparados do tio Cosme. Entanto, só nesse dia, depois de tanto desaforo, é que se resolveu a falar-lhe, quando o viu encaminhar-se para a sua palhoça, escondida ali pelas cercanias. O porte esbelto de Benedita, ao lado da pequenez felina do velho, dava à mulata a semelhança duma veada despercebida, prestes a ser presa da jaguatirica que prepara o bote, alapardada junto a um tronco de árvore.

— Entregue-me o menino, que a coisa se decide — disse finalmente o preto.

— Deixe desses brinquedos, tio Cosme. O Juquinha foi criado nestes braços, dormindo sempre na minha cama. A gente não há de comer os filhos, feito sucuriú, nem deixar alguém matá-los.

Daí a instantes, enquanto Benedita entrava em casa correndo por acudir a labuta, ele saía pátio afora, com os beiços flácidos arrepanhados no canto num risinho mau, tartamudeando:

Negro do quilombo
Grita na cidade:
Viva o rei do Congo,
Nossa majestade!

Viva!
Viva Viva Viva
Viva a majestade.

E, arrastando o bordão pela terra, monologava:

Menino! menino! o bracinho tirado do corpo ainda quente, há de mexer tachada de café ao fogo. Quem o beber, mexido assim, na hora de torrar, perde logo o pouco-caso e apanha rabicho. E eu tenho encomenda... Deixe ver: uma, duas, três pessoas que querem remédio para desprezo... A Rosa ainda ontem me falou nisso. Ora! num instante o Quim larga da outra: é só o tempo de beber o café, das mãos da Rosa. Eu apronto a coisa: tiro o bracinho do menino... Hei de afogá-lo primeiro: não custa muito. Quando pego algum nhambu na urupuca, ele nem chega a sofrer: sei dum lugar no pescoço que é só apertar um pedacinho de tempo — o bichinho morre logo. Assim o menino: é mesmo que passarinho...

E pouco a pouco, batendo pausadamente as alparcas no chão duro, foi entrando no mato, em demanda de sua palhoça.

O taquari vicejava à sombra do arvoredo, carregando o verde-escuro dos troncos e espalhando as hastes por todos os lados, numa rede emaranhada.

Das árvores anciãs caíam, em solenidade hierática, de patriarcas das selvas, longas barbas de musgo. Daqui e dacolá, em pontes pênseis de cipós, corriam caxinguelês e saguis ciavam gritozinhos brejeiros.

A palhoça do negro estava suspensa do barranco de uma grota, ao fim da mata. No fundo resplandecia o cascalho, umedecido sempre por um olho-d'água que chorava...

Pequenas trilhas de cutia desciam ao lacrimal; e um cheiro forte de mata-virgem envolvia a cabana encoberta de baguaçu escurecido de fumaça. Dentro, na meia luz, jacás aluados, cônicos, armadilhas contra os ratos silvestres, pendiam do teto, ou formavam cantoneiras toscas nas paredes de barro seco, áspero, ouriçadas de pontinhas de capim. Cabaças e cuités de todos os tamanhos, facões quebrados, arcos velhos de barril, penas de diferentes pássaros, insetos secos, couros e peles, cascos de tatu e cágado, coisas de mil formas — tudo aclarado pela luz fumarenta de um fogacho, numa trempe de pedras soltas ao fundo.

Cosme entrou a resmungar. Procurou a cabeça e as garras de anhuma, pregadas ao portal, e murmurou, segurando os objetos:

— Anhuma! pássaro bento, bicho bem mandado! Vais benzer este remédio para a gente tomar. Tu sabes fazer cruz na água do rio; pois faze cruz aqui.

E com a cabeça de anhuma fazia cruzes sobre um líquido estranho, dentro de uma cumbuca.

Deu voltas pelo âmbito da palhoça, onde a luz morrente do sol no ocaso, varando o teto de palmas, formava figurinhas brancas, esguias, volitando no ar. Regougou frases incompreensíveis e, curvando mais o corpo, penetrou no escuro, junto à parede do fundo, onde procurava alguma coisa — gravetos, sem dúvida — que atirou à trempe de pedras soltas, formando uma colunazinha de fumo. Ajoelhando-se no chão, debruçou-se nas mãos e soprou, em longos sopros compassados; pouco depois, erguia-se a labareda, viva, ruidosa, sacudindo no ar a coma rubra, no meio dos estalidos dos gravetos abrasados.

Levantou-se de novo e tirou da parede um urucungo, instrumento bárbaro, companheiro único das vigílias do negro, fonte de sons tristonhos, dolentes, que chamava duendes e fazia a alma bronca do feiticeiro espanejar-se em asas de morcego.

Sentou-se no chão, recostado à parede: apoiou o queixo ao joelho e, prendendo, por uma ponta, no dedo grande do pé, o arco do urucungo, de corda retesada, segurou esta entre os dentes e pegou a bater-lhe com uma varinha, modulando a toada com a boca.

Manso e manso, começaram a evolar-se uns sons estranhos de música primitiva, rude e simples. O ritmo triste, lutuoso, derramava-se pelo ambiente, dando vida a formas fantásticas que pareciam agitar-se na sombra.

A luz vermelha do fogo, há pouco atiçado, esbatia o rosto sinistro do bonzo; e as feições distendidas, os olhos arregalados, a boca armada de dentes brancos, sarcasticamente arreganhada, davam ao feiticeiro o tom funambulesco e dramático de gênio mau das cavernas, curupira das brenhas, cercado de manitós dos mortos malditos.

Fora, curiangos desferiam pios guturais, rápidos, em cachoeira de notas; grandes pererecas coaxavam formidavelmente no bojo dos taquaraus; e a noite caía vagarosa e fatídica como véu pesado sobre um eremita morto.

Pouco a pouco, as vozes dos vivos, o bulício das aves e das feras na mata, cessou; então, as almas penadas começaram a peregrinação, em formas impalpáveis, fugitivas...

Só, no meio do silêncio das matas, da quietação dos campos, o urucungo gemia, às crebras pancadas da varinha sobre a corda retesada; crepitava a labareda e os olhos de Cosme, abertos, parecia esperarem alguém, do meio da noite...

Benedita vagou pelas matas o dia todo, sem rumo, voltando muitas vezes sobre os seus passos, a ver se encontrava o feiticeiro com o menino. Que havia de dizer à Sinhá? Como havia de explicar-lhe o desaparecimento do Juquinha? Maldito Cosme! É ela que tinha culpa de ter procurado o feiticeiro! Foi castigo de Deus. Entrava em desespero, pela morte quase certa do pequenino; só se lembrava do Miguel para lhe atribuir uma parte da desgraça sucedida. Ah, tentação do inferno! Para que lhe veio à ideia captar à força as simpatias do Miguel? Agora só lhe restava morrer. Sentia-se culpada da morte do pobrezinho, do Juquinha que era como se fosse seu filho. Nesse momento tinha esquecido as noites mal dormidas com os caprichos e as impertinências da criança, para recordar somente as suas carícias, e o cabelinho louro, os seus olhos azuis e o modo especial de pronunciar: mãe pleta. Não, não podia esmorecer! Para que a vida depois disto?

Com os pés intumescidos de andar, as vestes rotas e a carne dolorida de mil arranhaduras, saiu do mato ao escurecer, indo dar perto da praia, onde o córrego, brincando com os muitos seixos de seu leito, encrespava as águas em pequeninas ondas marulhosas...

A estrada que levava à cidade se estendia pelo morro completamente deserto, passando junto ao grande ingazeiro próximo à praia.

Benedita seguiu por ela: decididamente ia matar-se. Amanhã veriam o seu corpo dependurado do ingazeiro, à margem da estrada. Talvez lhe atribuíssem, por isso, a morte ou o sumiço do menino: mas, que importa? Deus sabia de tudo. Com o favor d'Ele e da Senhora do Rosário, ela seria perdoada. E assim pensando, andava em direção ao ingazeiro, cuja fronde enorme avultava na meia sombra do crepúsculo.

De repente ouviu leves passos junto de si e uma voz, procurando ser carinhosa, pronunciava o seu nome de mansinho.

A rapariga voltou-se e exclamou, reconhecendo a pessoa:

— Fuja de mim, maldito Não me venha tentar agora!

— Benedita!

Ela, então, não tendo forças para fugir, olhou em roda de si, procurando uma arma, uma pedra para arremessar contra quem parecia inimigo tão temeroso.

— Assim mesmo é que são as coisas. Agora que estou aqui, amotinado, humilde...

— Miguel! Demônio! Vá para o inferno! Nossa Senhora me valha pelo amor de seu Santíssimo Filho! Livre-me desse diabo, desse matador!

— Ah, você já sabe? Foi uma desgraça: mas que havia de fazer?

— E inda tem boca para dizer isso, meu Deus.

— Pois é verdade. Ele morreu e eu assisti à sua morte, no meio do mato. Como é que você soube?

Benedita, pensando que Miguel se referia à morte do Juquinha, teve um movimento de repulsão e de horror. Fazendo um esforço supremo, deu um grito terrível e desatou a correr. O rapaz aparecia-lhe agora como a figura do demônio ou de algum ente maldito que a feitiçaria do Cosme atirava sobre ela. Miguel acompanhava-a:

— Escuta, olha, Benedita; escuta uma coisa só pelo amor de Deus.

Esgotada de forças, a moça caiu e deixou-se ficar soluçando.

Miguel, sem ousar tocá-la, ia dizendo com a palavra cortada pelos ofegos que lhe causara a corrida:

— Olha Benedita, eu não tive outro remédio. Estava caçando naquele mato de cima, bem longe. Tinha ouvido as jacutingas darem sinal e ia atrás delas quando ouvi um chorozinho abafado. Disse comigo: uai! a modo de que é jaguatirica arremedando passarinho; mas, não... Estive assuntando, assuntando... Depois fui pelo rumo da voz e dei com ele, com aquele diabo, que Deus perdoe, em pé, no meio do mato, benzendo uma coisa. Olhei para o chão e vi o menino com os pezinhos amarrados e as mãozinhas atadas por cima do peito, choramingando.

— Que é isso, tio Cosme? — gritei.

O negro levou um susto e fez menção de vir para cima de mim, com um facão de mato. Levei a arma a cara, quase sem sentir, e fiz fogo. Foi só: pá, terra! O negro rolou no chão botando sangue pela boca e fazendo cada careta... Meti as mãos na cabeça; estava perdido, minha Senhora do Rosário! Olhei, então, para o menino a ver se vivia. Felizmente! Carreguei-o, mas ele estava sem fala. Tinha um chorozinho muito sumido... Reconheci logo que era o filho do sô Manuel Alves, o Juquinha...

Benedita não havia cessado de chorar; mas nesse ponto da narrativa de Miguel, o seu choro se tornara convulso.

O rapaz ficou longo tempo calado, de pé, olhando tristemente a mulata.

— Agora, disse ele, você nunca mais há de levantar os olhos para mim. Eu sou um matador, tenho de ir para a cadeia... E depois a alma do tio Cosme há de me perseguir sempre... Ah, como será, meu Deus

Pouco a pouco Benedita foi se acalmando, até que pôde soerguer-se; e, pondo-se de joelhos, rezou em voz baixa, conservando-se algum tempo como que em êxtase. Em seguida:

— E minha sinhá! — exclamou.

— Ih! nem é bom falar. Eu não lhe contei o caso como foi. Ela pensava que o Juquinha se achava com sô Manuel Alves, na roça, e por isso não ficou com muito susto. Perguntou logo como eu tinha encontrado o menino e onde você estava. Eu disse que tinha achado o menino dormindo perto do mato, na beira da estrada. E eu não quis saber de muita conversa, não: meti o arco para fora logo. Depois, fui à contagem. Foi mesmo por Deus. Se não venho de lá, a esta hora não te encontrava aqui.

Benedita levantou-se e caminhou para Miguel. O rapaz recuou um pouco, timidamente. Ela, num transporte de paixão e de alegria, saltou-lhe ao pescoço, chorando. Entre lágrimas dizia:

— Olha em que dá o feitiço... Ah! esse feiticeiro quase me matou. Que castigo, meu Deus... Eu te conto o que foi... Pensei que o Juquinha tinha morrido... Tio Cosme me arrebatou das mãos o menino para matá-lo e fazer feitiço com ele... Valeu-me Nossa Senhora... Havemos de ir a pé à Lapa do Muquém cumprir uma promessa...

E Miguel, ao contato daquele corpo macio e tenro, apertava-o fortemente ao peito, machucando de beijos as faces e os beiços da rapariga, enquanto apontavam no céu, a medo, as primeiras estrelas.

Passava no momento uma aragem fresca impregnada do cheiro das matas; e os ramos do ingazeiro, balouçando ao longe, traçaram no chão estranhas figuras negras.

Súbito Miguel, ouvindo no meio da praia deserta o berro de um cabrito perdido, procurando o aprisco, estremeceu:

— Vá para casa, Benedita; eu te acompanho, eu te apadrinho. Olha a alma do tio Cosme, na figura de um cabrito, bicho amaldiçoado. Vamos sair daqui.

E, juntos, se encaminharam para o sobrado da fazenda, que se avistava ao longe com as janelas iluminadas. A presença da rapariga, moça e bonita, foi arrefecendo o terror supersticioso que a morte do Cosme infundia em Miguel. Sua vaidade de homem reagia. Não queria parecer fraco junto da rapariga.

Pelo caminho Miguel foi contando à Benedita, para distraí-la, a lenda das estrelas — uma grande boiada, cujo pastor é São Pedro, e que de noite se espalha pelo azul. Apontava para uma e para outra — vê aquela, coitada, tão sozinha! Parece perdida da manada... E a boiada luminosa pascia no azul, mansamente...

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