quinta-feira, 9 de maio de 2019

Pedro Barqueiro (Conto), de Afonso Arinos



Pedro Barqueiro

— Eu lhe conto — dizia-me o Flor, quase ao chegar à Cruz de Pedra. — Naquele tempo eu era franzinozinho, maneiro de corpo, ligeiro de braços e de pernas. Meu patrão era avalentoado, temido e tinha sempre em casa uns vinte capangas, rapaziada de ponta de dedo. Eu tinha uma meia-légua, trochada de aço, que era meu osso da correia.

E, consertando o corpo no lombilho, soltou as rédeas à mula ruana, que era boa estradeira. Inclinou-se para o lado, debruçando-se sobre a coxa, e apertou na unha polegar o fogo do cigarro, puxando uma baforada de fumo.

— Estávamos, um dia, divertindo-nos com os ponteados do Adão, à viola — disse ele. — Eu estava recostado sobre os pelegos do lombilho, estendidos no chão. A rapaziada toda em roda. Pouco tínhamos que fazer e passava-se o tempo assim.

Eis senão quando entra o patrão, com aqueles modos decididos, e, voltando-se para um moço que o acompanhava, disse: — "Para o Pedro Barqueiro bastam estes meninos!" — apontando-me e ao Pascoal com o indicador; não preciso bulir nos meus peitos largos. — "O Flor e o Pascoal dão-me conta do crioulo aqui, amarrado a sedenho".

Para que mentir, patrãozinho? O coração me pulou cá dentro, e eu disse comigo — estou na unha! O Pascoal me olhou com o rabo dos olhos. Parece que o patrão queria experimentar. Éramos os mais novos dos camaradas, e nunca tínhamos servido senão no campo, juntando a tropa espalhada, pegando algum burro sumido. Eu tinha ouvido falar sempre no Pedro Barqueiro, que um dia aparecera na cidade sem se saber quem era, nem donde vinha. Cheguei uma vez a conhecê-lo e falamo-nos. Que boa peça, patrãozinho! Crioulo retinto, alto, troncudo, pouco falante e desempenado. Cada tronco de braço, que nem um pedaço de aroeira.

Estou com ele diante dos olhos, com aquela roupa azuleja, tingido no Barro Preto; atravessado à cinta um ferro comprido, afiado, alumiando sempre, maior que um facão e menorzinho do que uma espada. Esse negro metia medo de se ver, mas era bonito. Olhava a gente assim com ar de soberbo, de cima para baixo. Parecia ter certeza de que, em chegando a encostar a mão num cabra, o cabra era defunto. Ninguém bulia com ele, mas ele não mexia com os outros. Vivia quieto, em seu canto. Um dia, pegaram a dizer que ele era negro fugido, escravo de um homem lá das bandas do Carinhanha. Chegou aos ouvidos do patrão esse boato. Para que chegou, meu Deus! O patrão não gostava de ver negro, nem mulato de proa. Queria que lhe tirasse o chapéu e lhe tomassem a benção.

Daí, ainda contavam muita valentia do Barqueiro, nome que lhe puseram por ter vindo dos lados do rio São Francisco. Essas histórias esquentavam mais o patrão, que eu estava vendo de uma hora para outra estripado no meio da rua, porque era homem de chegar quando lhe fizessem alguma.

Tanto eu como Pascoal tínhamos medo de que o patrão topasse Pedro Barqueiro nas ruas da cidade.

Subiram de ponto esse receio e a ira do patrão, quando soube de uma passagem do Pedro, num batuque, em casa de Maria Nova, na rua da Abadia.

Chegara uma precatória da Pedra-dos-Anjicos e o Juiz mandou prender a Pedro. Deram cerco à casa onde ele estava na noite do batuque. Ah! Meu patrãozinho! O crioulo mostrou aí que canela de onça não é assobio. Não é dizer que estivesse muito armado, nem por isso só tinha o tal ferro, alumiando sempre; e com esse ferro deu pancas. Quando cercaram a casinha e lhe deram voz de prisão, o negro fechou a cara e ficou feito um jacaré de papo amarelo. Deu frente à porta da rua e encostou-se a uma parede. Maria Nova estava perto e me disse que ele cochichou uma oração, apertando nos dedos um bentinho, que branquejava na pele negra de sua peitaria lustrosa.

Chegaram a entrar na casa três homens da escolta, e todos três ficaram estendidos. Pedro tinha oração, e muito boa oração contra armas de fogo, porque José Pequeno, caboclinho atarracado, ao entrar, escancarou no negro o pinguelo de um clavinote e fez fogo. Pedro Barqueiro caminhou sobre ele na fumaça da pólvora e, quando clareou a sala, José Pequeno estava escornado no chão como um boi sangrando.

Dois rapazinhos quiseram chegar ainda assim, mas Pedro Barqueiro descadeirou um e pôs as tripas de fora a outro, que escaparam, é verdade, mas ficaram lá no chão gemendo por muito tempo.

Daí para cá, Pedro evitava andar pela cidade, onde só aparecia de longe e à noite. Mas todo o mundo tinha medo dele e vivia adulando-o.

Um dia, como já lhe contei, apareceu lá em casa um moço pedindo auxílio a meu patrão para agarrar o negro. Era mesmo um escravo, o Barqueiro; mas há muitos anos vivia fugido. Já lhe disse que o patrão queria tirar o topete do valentão, e, para isso, escolheu pobre de mim e Pascoal.

— Que dizes, Flor? — falou o patrão rindo-se.

— Uai, meu branco, vossemecê mandando, o negro vem mesmo, e no sedenho.

— Quero ver isso.

— Vamos embora, Pascoal!

Quando íamos a sair, o patrão bateu-me no ombro e, voltando-se para o moço, disse muito firme: — "Pode prevenir a escolta para vir buscar o Barqueiro aqui, de tarde. Hão de dar duzentos mil-réis a estes meninos".

Desci ao quarto dos arreios, passei a mão na meia-légua e no facão e apertei a correia à cinta.

Pascoal já estava na porta da rua, assobiando. Tinha por costume, nos momentos de aperto, assobiar uma trova, que diz assim:

Na mata de Josué
Ouvi o mutum gemê;
Ele geme assim:
Ai-rê-uê, hum! Airê.

Quando Pascoal me viu, soltou uma risada.

— Está doido, rapaz! — gritou-me.

— Por quê?

— Queres mesmo enfrentar o Pedro Barqueiro? Ele faz de nós paçoca. A coisa há de se fazer de outro modo.

Pascoal tinha tento e eu sempre tive fé nele. Era um cabritozinho mitrado. Saía-lhe cada ideia... Mandou-me guardar a meia-légua e o facão. Depois, foi à venda, escolheu anzóis de pesca e veio para casa encastoá-los. Eu, nem bico! Ajudei a acabar o serviço, certo de que Pascoal tinha alguma na mente.

— Deixa comigo, ajuntava ele.

Isso ainda era cedo; o sol estava umas três braças de fora, no tempo dos dias grandes. Lá por casa madrugávamos sempre para ir ao pasto e trazer animais de trato.

— Vamos fazer uma pescaria, disse-me o Pascoal. — Ali para os lados do Batista, há um poço, onde as curumatãs e os piaus são como formigas. O rancho do Pedro Barqueiro fica perto. Ele mora só e eu conheço bem o lugar. Pela astúcia havemos de prendê-lo. Quando eu gritar: "Segura, Flor!" — tu agarras o negro, mas segura rente!

E fomos. Nessa hora me veio bastante vontade de fugir ao perigo, de ir passear, porque tinha como certo suceder-nos alguma. "Que é lá, Flor!" — disse de mim para mim. "Um homem é para outro". E, depois, o Pascoal não me deixava nas embiras. Quando descemos o Gorgulho e fomos virando para o lado do córrego, fiquei meio sorumbático. Nesse tempo eu andava arrastando asa à Emília, filha do José Carapina. Era uma roxa bonita deveras e não estava muito longe de me querer. Posso dizer mesmo que na véspera olhou muito para mim, ao passar com a saia de chita sarapintada de vermelho, umas chinelas novas e de cordovão amarelo. Ah! Que peitinho de jaó, patrãozinho! Empinado, redondo, macio como um couro de lontra. Com o devido respeito, patrãozinho, eu estava na peia, enrabichado e foi nesse mesmo dia que ela me deu esta cinta de lã, tecida por suas mãos, que guardo até hoje.

Ai! Roxa da minha paixão — pensava eu — como hei de morrer assim fazendo cruz na boca? O diabo da ideia me atarantou pelo caminho e cheguei a dar tremenda topada numa pedra, no meio da estrada. Curvei-me sobre a perna, agarrei o pé com as mãos e estive dançando, sem querer, um pedacinho do tempo. Depois levantei. Pascoal sentara num barranco e encarava para mim, rindo. Levantei a cabeça e olhei para cima, assuntando. No céu galopavam umas nuvens escuras, a modo de um bando de queixadas rodando pelo campo. Um vento áspero passava, arrancando do jenipapeiro as frutas maduras, que esborrachavam no chão assim — prof! — espantando os juritis que nadavam esgaravatando a terra e comendo grãozinhos. Duas seriemas guinchavam, esgoelavam. Depois, vi que estavam brigando — me lembra como de fosse hoje — e uma avançada para outra dando pulinhos, sacudindo as asas, com o cocuruto arrepiado e os olhos em fogo. O coração pareceu dizer-me outra vez — "Olha, Flor, o que vais fazer". Nesse entretanto, o Pascoal, que me encarava sempre do ponto estava sentado, gritou-me: "Esqueceste a cabeça em algum lugar? Vamos embora, que já vai tardando".

Fiquei desacochado, caí em mim e fui marchando disposto. Daí em diante, fui brincando com o Pascoal, que era muito divertido e tinha sempre um caso a contar. Chegando embaixo, arregaçamos as calças e descemos o córrego, cada um com o seu anzol na vara, ao ombro.

Era preciso que ninguém desconfiasse do nosso conluio para prendermos o Pedro Barqueiro.

Aí, quase que tínhamos esquecido o perigoso mandado, tão diferente andava a conversa com as caçoadas do Pascoal.

Para entrar na história, patrãozinho, achamos Pedro Barqueiro no rancho, que só tinha três divisões: a sala, o quarto dele e a cozinha.

Quando chegamos, Pedro estava no terreiro debulhando milho, que havia colhido em sua rocinha ali perto.

— Vocês por aqui, meninos? Olhem! Vão ali naquele poço, para baixo da cocheira. Tem uma laje grande e de cima dela vocês podem fazer bichas com os piaus.

— Louvado seja Cristo, meu tio! — havia dito o Pascoal, e nisto o imitei.

— Se quiserem comer uma carne assada ao espeto, tirem um naco; está na fumaça, por cima do fogão, uma boa manta. Olhem a faca aí na sala, se vocês não têm algum caxirenguengue.

Pascoal entrou, e viu recostado a um canto da parede o ferro alumiando. Pegou nele, saiu pela porta da cozinha e escondeu-o numa restinga, ao fundo. Depois, me assobiou, eu acudi e fui procurar a "lazarina" de Pedro — uma boa arma, de um só cano, é verdade, mas comedeira.

— Há alguma jaó por aqui, tio Pedro? — perguntou Pascoal.

— Nem uma, nem duas, um lote delas. Se você quer experimentar minha arma, vá lá dentro e tire-a. Não errando a pontaria, você traz agora mesmo uma joá.

— Quero matar um passarinho para fazer isca, meu tio.

— Pois vá, menino.

E Pascoal descarregou a arma.

Pedro tinha se levantado e falava com Pascoal do vão da porta da entrada.

Era hora.

Pascoal me fez um sinalzinho, eu dei volta e entrei pela porta do fundo para agarrar o Barqueiro pelas costas. A combinação era essa. Enquanto Pascoal o foi entretendo, eu fui chegando soturno, quando ele gritou: — "Segura!" — eu pulei como uma onça sobre o negro desprevenido.

Conheci o que era um homem, patrãozinho! Saltando-lhe nas costas, dei-lhe um abraço de tamanduá no pescoço. Mas o negro não pateou, e, mergulhando comigo para dentro da sala, gritou:

— Nem dez de vocês, meninos! Ah! Se eu soubesse...

Patrãozinho, eu sei dizer que o negro me sacudiu para cima como um touro bravo sacode uma garrocha. Mas eu via que, se o largasse, estava morto, e arrochei os braços.

— Chega, Pascoal! — gritei.

— Eu quero manobrar de fora. Ânimo! Segura bem que nós amarramos o negro.

Que tirada de tempo! O negro, às vezes, abaixava a cabeça, dando de popa, e minhas pernas dançavam no ar, tocando quase o teto do rancho. Lutamos, lutamos até que Pascoal pôde meter um tolete de pau entre as canelas de Pedro, de modo que ele cambaleou, e caiu de bruços. Nós dois pulamos em riba dele. Eu, triunfante, gritava: "— Conheceu crioulo? Negro é homem?" Ele era teimoso, porque dizia ainda: "— Nem dez de vocês, meninos! Ah! Se eu soubesse..." Pascoal trazia à bandoleira um embornal para carregar peixe e veio dentro dele escondida uma corda de sedenho, comprida e forte. O Barqueiro estava no chão; e foi preciso ainda fazermos bonito para agarrá-lo.

— Agora, puxe na frente, seu negro! — gritou-lhe o Pascoal.

Havíamos juntado os braços dele nas costas e apertamos com vontade. Ficou completamente tolhido.

Eu ia segurando a ponta do sedenho e levava o negro na frente. Mesmo assim, houve uma hora em que ele me deu um tombo, arrancando a correr. Por seguro, a corda estava-me enrolada na mão e eu não a larguei. Nesse instante Pascoal tinha corrido atrás dele e lhe descarregado na nuca um tremendo murro, que o fez bambear um pouco e me deu tempo de endurecer o corpo e segurar firme a corda.

O Barqueiro, depois que saiu do rancho, não piou.

Chegamos à casa de tarde e o negro ia no sedenho.

— Eu não disse — gritava o patrão muito contente — que só bastavam esses dois meninos para o Barqueiro? Está aí o negro.

E o povo corria para ver e a frente da casa do patrão estava estivada de gente.

Recebemos os duzentos mil-réis.

— Tinha me esquecido de contar-lhe que eu fizera uma promessa à Senhora da Abadia, de levar-lhe ao altar uma vela, se voltasse são e salvo. Cumpri a promessa no dia seguinte para a noite. Queria um pé para estar com a Emília.

Comprei um trancelim de ouro para aquela roxa de meus pecados e um xale azul. Ela era esquiva. Fez muito momo nessa noite, e não quis dar uma boquinha, com o devido respeito ao patrãozinho.

Saí da casa de José Mendes, onde dei a festa, quando os galos estavam amiudando.

A estrela-d'alva, no céu escuro, parecia uma garça lavando-se na lagoa. O orvalho das vassouras me molhou as pernas e eu estremeci um bocadinho. Entrei num beco que ia sair na rua de Trás, onde eu então morava.

Ia meio avexado e peguei a banzar. Emília! Emília do coração! Por que me amofinas com esse pouco caso? E desandei a cantar, bem chorada, esta cantiga:

Tá trepado no pau
De cabeça para baixo,
Com asas caídas
Gavião de penacho!

Todo o mundo tem seu bem,
Só pobre de mim não tem!
Ai! Gavião de penacho!

De repente, pulou um vulto diante de mim. Quem havia de ser, patrãozinho? Era o Pedro Barqueiro em carne e osso. Tinha, não sei como, desamarrado as cordas e escapado da escolta, em cujas mãos o patrão o havia entregado.

O ladrão do negro tinha oração até contra sedenho!

Sem me dar tempo de nada, o Barqueiro me agarrou pela gola e levantou-me no ar três vezes, de braço teso, e gritou:

— Pede perdão, cabrito, desavergonhado, do que fizeste ontem, que te vou mandar para o inferno! Pede perdão, já!

A gente precisa ter um bocado de sangue nas veias, patrãozinho, e um homem é um homem! Eu não lhe disse nem pau nem pedra. Vi que morria, criei ânimo e disse comigo que o negro não havia de pôr o pé no meu pescoço.

Exigiu-me ele, ainda muitas vezes, que lhe pedisse perdão, mas eu não respondi. Então, ele foi-me levando nos braços até uma pontezinha que atravessava uma perambeira medonha. A boca do buraco estava escura como breu e parecia uma boca de sucuri querendo engolir-me. Suspendeu-me arriba do parapeito da ponte e balançou meu corpo no ar. Nessa hora, subiu-me um frio pelos pés e um como formigueiro me passou pela regueira das costas até a nunca; mas minha boca ficou fechada. Então, o Barqueiro, levantando-me de novo, me pousou no chão, onde eu bati firme.

O dia estava querendo clarear. O negro olhou para mim muito tempo, depois disse:

— Vai-te embora, cabritinho, tu és o único homem que tenho encontrado nesta vida!

Eu olhei para ele, pasmado.

Aquele pedaço de crioulo cresceu-me diante dos olhos e vi — não sei se era o dia que vinha raiando — mas eu vi uma luz estúrdia na cabeça de Pedro.

Desempenado, robusto, grande, de braço estendido, me pareceu, mal comparando, o Arcanjo São Miguel expulsando o Maligno. Até claro ele ficou essa hora! Tirei o chapéu e fui andando de costas olhando sempre para ele.

Veio-me uma coisa na garganta e penso que me ia faltando o ar.

Insensivelmente, estendi a mão. As lágrimas me saltaram dos olhos, e foi chorando que eu disse:

— Louvado seja Cristo, tio Pedro!

Quando caí em mim, ele tinha desaparecido.

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