quarta-feira, 8 de maio de 2019

A Rosa de Saron (Conto), de Teófilo Braga


A Rosa de Saron
(Poema em Prosa)

Era noite; o som do sino corrido ecoara pela Judiaria; emudeceu como se as passadas lentas de um convidado de pedra troassem no meio das risadas de um festim. A alegria e o ruído do trabalho suspenderam-se; os mesteirais e homens de ofício fecharam as portas; os cristãos, odiando a raça maldita, separaram-se, deixando-a ao medo da noite. Então na pequena casa do judeu acende-se a luz do lar; cansado de receber insultos durante o dia, de ver em roda de si a vileza e a traição, a lei e o fanatismo a ameaçá-lo, esquece por um instante os planos da sua indústria, os recursos com que produz o ouro e os capitães com que há de comprar a sua segurança, e entra no foco mais íntimo da família. Entra prostrado; banha-lhe o suor as faces, traz o desgosto pintado na cara encanecida, vem afadigado das longas migrações, amedrontado pelos terrores das grandes crises do estado; ao asilar-se no remanso da casa, entra como o errante do deserto num oásis desconhecido; o rosto tranquilo da esposa lembra-lhe o tipo de Ester, da Sulamita, de Débora, da Sibila palestiniana, e abraça-a com a sofreguidão com que umas fauces ressequidas se dessedentam numa nascente viva. Vêm depois os filhos, debruçam-se-lhe dos ombros, prendem-se-lhe às pernas, enlaçam-se em volta do corpo, e nessa hora o judeu sente-se outra vez forte para todas as lutas, para todos os opróbrios, para todos os vexames, com alma para afrontar a miséria e o queimadeiro. Fala das tradições de Israel, da sua migração através dos séculos, da terra prometida, e do Messias, não o ídolo papal que se impõe pela fogueira, mas a boa nova da igualdade e da liberdade humana.

***

Na Judiaria, habitava um velho negociante de joias e pedrarias; quando algum potentado casava, mandava sempre ali escolher o presente de noiva, a compra de corpo, o dom da manhã. Ele tinha as pérolas das mais lindas do fundo do mar; as rochas mais encantadas do Oriente tinham entregues ao joalheiro os brilhantes facetados da água mais límpida; topázios, esmeraldas, adereces, diademas, nunca o tesouro da Senhoria de Veneza reuniu riquezas de tanto gosto e primor. Viera de Espanha, no tempo da grande expulsão dos judeus por Fernando e Isabel; o facho de Torquesada iluminou-lhe o caminho de Portugal, terra da tolerância e da paz. O clima, o ar, a doçura do céu, lembram-lhe o Oriente; ele ama como filho a boa terra lusitana. Voltava do trabalho à hora do sino corrido; deixava o tesouro que faria a inveja de bastantes tronos, mas vinha ver outro tesouro, o mais querido, e estremecido — uma filha de quinze anos. Chamava-lhe o bago das vinhas de Engadi; chamava-lhe a Rosa das campinas de Saron, irmã gémea da filha de Jefté, pura como Débora, deslumbrante como a Sulamita.

***

O pai entrara para casa; veio a filha abraçá-lo quase à porta. Se o bom do velho não recearia que lhe descobrissem essa flor escondida! Esperava-o a tranquilidade do lar; os risos e folguedos das outras crianças faziam-lhe esquecer os apupos e maldições da gentalha. Jogral de um povo rude, o lar tornava-o um patriarca, um levita, sacrossanto como Moisés descendo o Monte do Senhor. Sentou-se de cansado. Tinha perto de si o Guemara; ao lado vem assentar-se a filha, Ebla, assim chamada do nome da Lua, como conta o velho Livro de Enoque. Ebla falou-lhe:

— Nunca mais tornaremos a ver Sião, e os túmulos dos profetas? nem escutaremos o sussurro dos nossos rios?

O pai, enquanto as outras crianças brincavam, pousou o dedo sobre o verso do Guemara, volveu-lhe um sorriso doloroso.

— Virgem do coro das donzelas de Sião, os nossos filhos continuam a nossa existência na terra; assim como o castigo vem dos pais sobre a cabeça dos filhos, o Senhor também recompensa nos filhos os bens que os pais tiverem merecido. Há quantos séculos andamos longe de Sião bem-dita; eu sinto que os meus não pisarão o solo da terra prometida; mas vejo-te ao meu lado, como a flor que brota de uma ruína; eu não poderei entrar na Cidade dos profetas, serei como Moisés no alto do Abarim; mas o Senhor deu-me uma esperança, fez-te nascer no meu lar, filha. Assim o fanatismo e a atrocidade me não arranquem a vida. Uma noite, eras tu ainda pequenina, em Toledo; a noite ia escura e carregada, chovia, cruzavam-se os raios. Sou na Judiaria uma voz sinistra: Às onze horas do sino da Catedral, a hora em que devíamos abraçar a religião de Cristo, seriamos lançados nas fogueiras das praças ou abandonar para sempre a formosíssima terra de Espanha. Os meus tesouros lá ficaram, e dei-me por feliz em trazer-te comigo. Portugal anda entregue às descobertas e aventuras do mar; os ódios de raça ainda cá não tinham sido exaltados pela classe dos tonsurados. Trouxe-te ao colo, e tu me deste animação e alento na fugida.

— Ó meu pai, acudiu Ebla, passou hoje pela nossa porta uma cigana, cantando romances e seguidilhas de Espanha, e pedi-lhe para ela cantar...

— E que ouviste? interrompeu o judeu aterrado.

— Ela contou-me que el-rei D. Manoel vai em breve casar com a filha de Fernando e Isabel a Católica, e que ela só aceita a mão de esposo com a condição de desterrar para sempre os judeus para fora de Portugal. E acompanhava a notícia com a cantiga castelhana:

Ea! Judios
á enfardelar!...
los Reyes mandan passar la mar.

O velho judeu ficou assombrado; fechou o Guemara, e repousou a cabeça sobre o livro. De repente sentiu-se ecoar pela Mouraria o som seco e repetido de uma matraca, e de espaço a espaço, a voz do pregoeiro das justiças, bradar:

“Ordem del-rei para os judeus de Lisboa se apresentarem na alvorada com uma dança judenga, guizos, touras e guinolas, para irem receber o séquito da nova rainha. Sofrerá pena de morte o que levar armas consigo. O rabi da Judiaria irá na frente das danças.”

Debaixo das janelas do velho judeu soaram estas palavras. O canto da cigana revelado pela filha lembrou-lhe um presságio funesto.

— Patriarca no lar e truão nas ruas! cumpra-se o destino a troco da paz. — E levantou-se com o aspecto venerando de sacerdote magno, e foi sacudir a sua vestimenta de guizos, procurar a palheta, enquanto esperava o toque da alvorada.

***
Lisboa tumultuava em festa imensa; arcos e flores, salvas de artilharia, estandartes, músicas, anunciavam o dia da chegada da infanta D. Isabel, mulher do monarca Venturoso. Já se sentia o estrépito do cortejo real; pelas portas da cidade vem entrando as danças dos mesteirais. Primeiro, vinha a Folia, com gaitas e pandeiros à velha portuguesa, dançando em volta de um tambor; trazem guizos nos pés, cantam letrilhas de folgar e sainetes galantes; os guizos dos artelhos no retinente som confundem as coplas. Com gentil ademã no ar volteiam lenços acenando. Vinha depois a Carraquisca, a dança dos barqueiros e mareantes dos galeões do Tejo; trazem andando um balanço que imita um bâmbula dos pretos, aprendido lá nas conquistas. Vai passando a Cativa, uma outra dança de agrilhoados mouros, bailando aos modos da Salé, vão confessando preito à nova rainha. Já vem perto a Gitana, toda feita de ranchos de raparigas vestidas de variegados panos, cintos de ouro e vermelho; voam-lhes as roupagens com o vento cruzando facas entre si, ao doce baile da Mourisca, que os sentidos fez perder com a trisca dos volteios. Eis que chega também a Dança judenga! Os apupos do povo alevantaram-se furiosos chamando-lhes traidores; as vaias e as pedradas eram pelo ar sem conto; a plebe desenfreada atira-se de roldão sobre a judenga ao entrar da cidade, e abafam as queixas dos oprimidos com risadas. Vinha na frente o velho Rabi, dirigindo a guinola e toura, quando um malvado lhe arrepela as barbas brancas. Os olhos do venerável velho chamejaram de indignação e vergonha; levantou a palheta de bobo que bamboava nos ares, e descarregou-a na cabeça do atrevido, com a mesma altivez de ânimo do velho Cônsul da cadeira curul. O vilão caiu por terra e lá ficou calcado aos pés da multidão que se atropelava e ruía furibunda sobre a desgraçada dança judenga. O velho Rabi fugiu a todo o custo; a multidão precipita-se após ele; gritando, chamando-lhe refece assassino. A noite vinha descendo, e protegido pelas sombras do crepúsculo se ia livrando dos golpes que lhe atiravam. O velho ia quase exausto, a turba que o perseguia ia rareando após ele; já poucos o seguiam; mais um esforço, e ficaria salvo; as pernas parecem falhar-lhe, falta-lhe o ar; sente vontade de atirar-se ao chão e deixar-se retalhar. Mas um raio de luz e de vigor lhe atravessou o espírito; lembrara-se de Ebla, da sua filha!

Ia o velho Rabi a entrar já na Judiaria, estava quase à porta de casa quando um dos poucos populares que ainda vinha atrás dele lhe deitou a mão. Inesperadamente veio-lhe um socorro imprevisto; um donzel do séquito do príncipe Dom Afonso, e que andava ainda triste com a morte do seu jovem amigo, sentiu um impulso do bem e defendeu o velho judeu. Desembainhou a espada e os populares retiraram-se. O Rabi bateu à porta; abriram. À luz de um candil viu o rapaz cavaleiro a cara mais linda de nazarena, os olhos mais lânguidos que não teria a Sulamita; o sorriso mais puro, a graça, a meiguice, a expressão de Quirub. Que contraste! na rua o gênio do mal a segui-lo, em casa o anjo da candura a iluminá-lo, a inspirar-lhe serenidade.

O velho Rabi vinha ensanguentado e roto; ao receber o abraço de Ebla tirou-lhe do pescoço um colar de pérolas, e veio dá-lo ao desconhecido. O rapaz cavaleiro beijou-o, e tornou-o a entregar.

— Quem és, que te mostras tão generoso e cavaleiro? perguntou o Rabi.

— Dom Tello; e adeus!

O rapaz cavaleiro perdeu-se na sombra da noite; ai dele se a essa hora entrasse em casa do judeu; a lei era implacável; condenava-o à pena do fogo.

O velho Rabi sentou-se ofegante, com a cabeça encostada aos ombros da filha. Quis começar a falar-lhe mas as lágrimas e os soluços irrompiam frequentes. Alfim, pode ligar as palavras e contar-lhe o sucedido.

— Oh meu pai; parece que os nossos desastres não acabaram aqui. Hoje passou rente à gelosia uma cigana, e parou a cantar, e dizia que el-rei D. Manuel casando com a infanta de Castela, a primeira promessa do seu dote era tirar aos judeus os filhos de menos de quatorze anos, e batizá-los à força, e matar os mais velhos e pô-los fora de Portugal...

— Filha, é o céu que manda esse aviso; tu foste a minha providência.

E desceu a um subterrâneo da casa, e lá se entreteve sozinho dispondo as suas riquezas para a hora da expulsão.

Ebla ficara por instantes só; revolvia na mente o dito da cigana; nas cantigas a cigana dissera-lhe mais coisas: Que um cavaleiro rapaz e formoso a adorava; que por ela seria capaz de abandonar a religião em que nascera e segui-la até aos confins do universo. E que se um dia visse um rapaz trigueiro, de bigode preto e olhos vivos, faiscantes, era D. Tello, aquele que a adorava. Ebla atou na mente esta lembrança; lembrou-se que Tello, o rapaz cavaleiro acabava nesse instante de salvar o pai. Nasceu-lhe na alma um amor repentino; veio-lhe uma vontade de vê-lo, de lhe falar; notou a generosidade de não aceitar mas beijar o colar de pérolas. Solícita e a medo assomou à gelosia; a luz do candil refletiu-se fora, através das grades da adufa. Sentiu uns passos na rua, depois uma voz mansa e suave que proferiu no silêncio da noite:

— Ebla!

Estes sons entraram na alma da donzela; e obedecendo à fascinação daquela voz, lançou a cabeça de fora. Viu na sombra um vulto, que a irradiação lhe iluminou como a imagem vaga descrita no cantar da cigana. Aquela voz, como vibrada por um verdadeiro amor, disse-lhe com o império de uma vontade irresistível:

— Vem.

Ebla desceu em cabelo, e sentiu-se envolver num abraço apaixonado, veemente, expressivo. Era a primeira vez que sentia o amor. Deixou-se levar sem saber porque, nem para onde.

Naquela noite, com as festas do casamento de el-rei D. Manuel, as portas da Judiaria ficaram abertas. Ebla e D. Tello afundavam-se na escuridão da noite, quando entra na Judiaria um tropel imenso de homens de armas e de cavalo; ia na frente o alcaide da justiça. Ao som de uma matraca restabelecera-se o silêncio, e pela escuridão sombria e soturna da Judiaria soava uma voz sinistra, como de sentença:

“Pregão d’el-rei D. Manoel, para os judeus, ao toque da alvorada, embarcarem para fora de Lisboa, sob pena de morte.” A palavra morte acendia na multidão um entusiasmo frenético que apupava, ameaçava e esbravejava cantando entre risos alvares:

Ea! Judios
á enfardelar!...
los Reyes mandan passar la mar.

Aquele grito sinistro, toda a judiaria se levantou em peso; do fundo do seu subterrâneo saiu o velho Rabi, solícito, temeroso, mas constante. Ouviu proferir a sentença ominosa. Chamou pela sua filha, e foi acordar as outras crianças que dormiam; a mulher voltou apressada do pé dos tesouros. Tornaram a chamar por Ebla; o grande ruído das ruas e da multidão nada deixava perceber. Chamou por Ebla com uma aflição de morte; viram a porta aberta; multidão de gente que tripudiava, lançando fogo às casas. O velho pai parecia um leão ferido.

— A maldição desta raça caiu inteira sobre mim. Perdi tudo ao levarem-me essa filha. A minha condenação, a minha morte para salvá-la. Se há no mundo alguma força superior, que seja o destino das coisas, Javé ou Jesus, acaso ou as potências do inferno, conjuro tudo sacrifico-lhe a minha vida, a minha sorte pelo aparecimento de Ebla. De que vale todo esse ouro e pedrarias se perdi Ebla; levaram a minha joia de mais valia, e com ela todas as esperanças e alegrias da minha vida...

Era incomportável a dor do velho; ia continuando, frenético, doido; queria fazer-se cristão para procurar a filha, quando ecoou de novo a voz do alcaide da alta justiça:

“Soou agora o toque da alvorada; o incêndio lavra já na Judiaria! — Ao embarque, ao embarque nos galeões do Tejo, ou a morte à escolha.”

O velho Rabi saiu com a sua mulher e dois filhos pequenos, levados em tropel confuso e lamentos para o Tejo, aonde se enchiam os galeões de Holanda, e ressoava o eco lúgubre:

los Reyes mandan
passar la mar.

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