quinta-feira, 16 de maio de 2019

As nozes (Fábula Portuguesa), por Teófilo Braga


As nozes

Havia um príncipe, que foi passear; no meio de uma estrada encontrou uma velhinha, e o príncipe pediu à velha a sua benção. Ela deu-lhe três nozes, e lhe disse:

— Meu príncipe, não partas estas nozes senão perto de água.

Ele foi para diante, e partiu uma das nozes. Saiu uma menina muito linda, que lhe pediu água. Como ele não tinha água, ela morreu. Mais para diante, partiu outra noz; sucedeu o mesmo, não haver água e a menina morreu. O príncipe prometeu a si mesmo de não tornar a partir a última senão ao pé da água. Chegando a uma fonte, partiu a derradeira noz; saiu uma menina, que lhe pediu água, ele deu-lha e a menina viveu. O príncipe muito contente levou-a consigo até ao jardim do palácio do rei seu pai, e aí a meteu entre a ramada de uma árvore, que tinha uma fonte por baixo, e foi-lhe buscar vestidos para a trazer para a corte. Uma preta vinha à fonte com um potinho de barro e viu na água a cara da menina; pensando ser a sua cara, quebrou o pote dizendo:

— Uma cara tão linda não vem à fonte!

A mãe batia-lhe, e ela repetia sempre o mesmo; a mãe chamava-lhe tola, até que lhe deu um odre para ir à fonte, porque assim não o quebrava. A preta foi, e lavou a cara, e olhando para cima viu a menina, e foi a casa chamar a mãe. A mãe veio e perguntou à menina como é que ela tinha ido para ali. Ela contou, e a mãe chamou a menina e começou a dar-lhe matadelas na cabeça, e vai senão quando mete-lhe dois alfinetes reais nas fontes, donde a menina se tornou em pombinha branca e voou por esses ares fora. A preta pôs a filha no lugar da menina; veio o príncipe e ficou espantado de a ver tão negra. Ela respondeu-lhe:

— Os ardores do sol, o vento e a chuva me enegreceram.

O príncipe ficou pelo que ela dizia, levou-a para o palácio, e estava já para recebê-la, quando lhe veio uma grande doença, que não lhe sabia nada com fastio. O jardineiro viu uma pombinha, que falava e dizia:

Eu ando de galho em galho,
De flor em flor,
Ai que dor!

E a pombinha voava e tornava a dizer:

Eu ando da hortelã para o loureiro,
À roda da minha horta;
Como irá o príncipe
Com a sua esposa preta Carlota?

O jardineiro foi contar tudo ao príncipe, que mandou untar todas as árvores de visco, para apanhar a pombinha. Apanhou-se a pombinha, e a preta logo desejou os fígados dela. O príncipe não quis que ela se matasse; indo-lhe a fazer festa, ao passar a mão pela cabeça da pombinha achou os dois alfinetes e puxou-os; ela tornou-se outra vez na menina, e o príncipe muito contente casou com ela, e mandou matar a preta e a mãe da preta.

(Ilha de São Miguel — Açores)

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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