quarta-feira, 29 de maio de 2019

Carlotinha da mangueira (Conto), de Gentil Braga



Carlotinha da mangueira
Onde vai a menina a estas horas tão só e pensativa, sem que se lhe dê do ardor da calma, nem do vento cálido a lhe queimar o rosto? Que pensamento a dirige para a sombra da mangueira coberta de amarelos e de vermelhos frutos?
Não há no enleio, nem na sisudez de sua figura a expressão indizível da amante; não se lhe pinta no olhar a imagem da paixão; não mostra nos gestos o incentivo do recreio; vai num enlevo d'alma incompreensível buscar a sombra da mangueira coberta de amarelos e de vermelhos frutos.
É débil a menina como o junco da beira d'água, e como ele direitinha e flexível; parece que um sopro a torce e que a instantânea duração de um beijo a pode sufocar; nos lábios nunca se lhe viu o riso e dos olhos jamais lhe correu o aljôfar de uma lágrima. E tão só e pensativa vai em procura da sombra da mangueira coberta de amarelos e de vermelhos frutos.
Nas noites de luar dorme sempre a menina ao relento em uma esteirinha leve ao sopé de um jasmineiro. Nas noites escuras vela até alta madrugada à luz de um antigo candeeiro, brincando com uma borboleta negra, que uma vez lhe pousou no ombro e que, depois de morta, foi guardada num branco envoltório de cânfora.
Logo que se ergue da esteirinha leve e antes que seja nado o sol, a menina procura as roseiras do seu rosal e bebe o orvalho das flores; quebra o grelo mais viçoso e o esconde no seio da terra; tira da haste mais elevada uma folhinha verde e guarda-a na boca.
De tarde a menina beija a brisa, que passa, e na voz imita o gorjeio de uma ave; solta os cabelos defronte do sol, que lhos doura de mil reflexos; derrama um copo d'água sobre as raízes de um limoeiro, e senta-se por fim na areia, imóvel e calada, volvendo entre os dedos uma conchinha rosada, que seu irmão lhe deu.
Um dia viu ela um pirilampo a esvoaçar sobre o seu vestidinho branco, e assustou-se; de outra vez ouviu o canto de acauã e entristeceu; lavou, por fim, uma criancinha morta, e tremeu convulsivamente.
Mas, onde vai a tais horas a menina, pensativa e só, procurando a sombra da mangueira altiva, que enche os ares com a copa de sua folhagem viçosa, coberta de amarelos e de vermelhos frutos?
Gira em torno do tronco a menina até que de fatigada cai no chão; depois que se lhe extingue a vertigem da roda, recomeça ela o giro para de novo cair; três vezes se ergue e outras tantas volteia; cessa, por fim, de mover-se e procura abrir com os dedinhos fracos o tronco da árvore em lugar nodoso e velho. Corre-lhe o sangue dos dedos e a menina solta um grito agudo de tristeza e de dor.
Por que faz ela isto e o repete sem cessar? A menina foi rica no seu berço e viu depois a miséria à sua mesa. O pai, empobrecido, suicidou-se; a mulher do suicida morreu louca no hospital. Um irmão da menina faleceu naufragado, vindo em um navio cheio de ricas mercadorias. Tão só e desprotegida, a menina recebeu abrigo em casa de sua madrinha e com ela vive.
Depois que se passou o ano de luto, a menina começou a ter sonhos e ver neles a imagem fantástica do pesadelo afortunado, sempre a lhe pousar sobre os seios, a rir-se, a brincar e a fazer-lhe promessas enganosas.
A menina o vê nas proporções minguadas de um boneco, mas lindo, vivo, vestido de azul e com um barretezinho dourado na cabeça; a menina o ouve e deixa-se seduzir pela linguagem harmoniosa do gênio da riqueza.
E o pesadelo lhe canta uma cantiga, que assim diz:
"Eu dou a riqueza aos pobres para que eles possam viver felizes.
Dou palácios encantados à margem de uma lagoa azul, à sombra de uma floresta verde, no meio de jardins viçosos.
Na mesa dos meus palácios reina constante o banquete; as mais esquisitas iguarias, as mais doces e sazonadas frutas e os mais delicados vinhos nela contentam o paladar dos que têm fome e sede.
Sempre o festim alegra os meus convivas; fulgem mil luzes nos cristais das salas; grata harmonia desprende-se dos caprichos musicais; o tapete macio esconde os pés dos que dançam.
Nas alcovas do sono tranquilo embala a cama suavemente ao que nela se deita; arde o perfume nas caçoulas douradas e o rouxinol acordado canta no rosmaninho da janela para adormecer ao que deseja dormir.
Amor impera nos meus palácios encantados e vive à luz da beleza dos dois sexos; Vênus Astarte percorre constantemente os meus domínios, espalhando rosas e beijos por onde quer que passe; a saúde derrama a alegria em todos os semblantes.
A mocidade eterna é o dom querido partilhado aos meus eleitos; quando um raio de luar triste lhes quer pratear os cabelos, um outro do sol formoso os doura e ameiga e os torna luzentes e crespos.
A tristeza e o cuidado jamais entraram às portas dos meus palácios encantados; o tédio e o desgosto sempre fugiram espavoridos dos meus prazeres; a morte não ousa aproximar-se das arcadas dos meus vestíbulos.
Feliz o que pode, dormindo, erguer os braços e apoderar-se do meu barretezinho dourado; terá com a posse dele a chave da minha fortuna e tudo o que me pertence lhe pertencerá também.
E ai daquele, que por mim escolhido para lhe cantar sobre o peito, não conseguir erguer os braços e apossar-se do objeto mágico, que serve de enfeite à minha cabeça.
Esse, de tão infeliz que é, poderá com muito custo abrir com os dedos o tronco da mangueira em lugar nodoso e velho para encontrar no âmago o anel brilhante, que, metido em um dos meus dedos, me prenderá para sempre."
***
Assim cantava o gênio da riqueza, e a menina de ouvi-lo à noite folgava no desabrochar risonho da esperança, mas sem que de vez alguma pudesse erguer os braços e colher nas mãos o objeto mágico, lindo enfeite de cabeça do gênio.
E, de tão infeliz que era, ia todos os dias nas horas da calma à procura da sombra da mangueira, e depois das três voltas em redor do tronco, procurava abrir com os dedinhos fracos a casca nodosa e velha da árvore, sem conseguir penetrar o âmago, onde se esconde o anel brilhante da prisão, dando, por fim, um grito agudo de tristeza e de dor, e vendo os dedinhos feridos e o sangue a correr para o chão.
Carlotinha, Carlotinha; por que não te alegras com as meninas da vizinhança, que vão à missa aos domingos e voltam contentes; que trabalham de dia, cantando, e à noite conversam entre si, rindo e gracejando uma das outras; que escolhem noivos entre os rapazes da terra, e vivem satisfeitas da existência, que têm?
Se fosses à missa, eras um anjinho de mais para a igreja e uma nuvem de incenso branco e perfumoso para o turíbulo; serias, se trabalhasses, a imagem da alegria, estampando-se na costura ou no bordado; se escolhesses um noivo, todas as suas companheiras te invejariam a sorte.
Carlotinha, Carlotinha; por que não choras como aqueles, que sofrem, e no pranto encontram alívio às mágoas do espírito e do coração? A lágrima é consolo, e bem-aventurado é aquele, que chora, porque a divina bondade o socorreu na aflição e derramou-lhe o bálsamo santo do conforto nas feridas de suas dores.
Mas, a menina não chora e nem ri; tão só e pensativa procura sempre a sombra da mangueira nas horas calmosas e fere os dedos, cavando-lhe o tronco em lugar nodoso e velho.
***
Caiu a tarde no vale e na pitombeira do mato o acauã cantou o seu canto agoureiro; voz tristonha e monótona acordou os ecos da campina, e quem ouviu o canto pensou na desgraça, que em breve sucederia.
Só Carlotinha não ouviu o canto da ave pressaga, tão pensativa estava a olhar para o sol e a sacudir os cabelos, a molhar as raízes do limoeiro e a revolver nas mãos a conchinha rosada, que seu irmão lhe deu.
À noite velou a menina junto do candeeiro antigo e brincou com a borboleta escura, que um dia lhe pousou no ombro e que ela guardou com cuidado no branco envoltório de cânfora.
Ao cair lento dos orvalhos da madrugada saiu a menina ao terreiro do sítio e procurou as roseiras do seu rosal. Mas, não pôde beber o rocio, que umedecia as flores, porque as flores estavam secas; não quebrou o grelo viçoso para o esconder na terra, porque os galhos estavam duros; não apanhou a folha verde, porque todas estavam murchas.
Ao nascer do sol estava Carlotinha encostada ao tronco da mangueira, imóvel, inteiriçada e fria, tão fraca e branca, tão triste e linda, que fazia dó o ver-se-á, e o coração se apertava. O primeiro raio do sol, beijando a boca da menina, vibrou nela um som fraquinho e harmonioso; de todo o seu corpo desprendeu-se a música suave do vento a bater nas folhas da anêmona, e, quando a procuraram nas horas calmosas do dia, viram-na morta e encostada ao tronco da mangueira.
No dia seguinte falava-se e dizia-se que Carlotinha, a doida, tinha cessado de sofrer.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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