quarta-feira, 29 de maio de 2019

As ruínas da Glória (Conto), de Fagundes Varela



As ruínas da Glória
A pouca distância da cidade de São Paulo, a um lado da estrada que vai para Santos, havia um pequeno botequim, ou para melhor dizer, um desses estabelecimentos que os franceses chamam — "cabaret" — destinados propriamente para beber e palestrar.
Era seu dono um alemão que, há mais de vinte anos, se achava no Brasil, homem de cinquenta a sessenta anos, rubro, corpulento, porém fleumático como o são quase todos os filhos dessa bela terra de Schiller. Por uma noite do mês de outubro achava-me eu e dois amigos nesse botequim. A chuva caía a cântaros sobre a terra, o trovão rugia no espaço, e a ventania sacudia com violência as vidraças da salinha onde estávamos.
Nossa conversação era alegre e expansiva, os cachimbos fumegavam cheios de excelente "werwick" — e o ponche crepitava diante de nós fazendo voltear fantasticamente a sua chamo de um belo azul-pálido.
Tínhamos por costume, eu e meus dois amigos, passar o dia todo em casa, e sair à noite — à busca de aventuras, como dizíamos.
Líamos nesse tempo fervorosamente todas as obras sombrias e exaltadas que aviventam a imaginação e povoam a alma de quimera e sonhos irrealizáveis.
Semelhantes ao herói da Mancha, nosso cérebro tinha-se embebido dessas ilusões sinistras e o contínuo excitamento da imaginação nos acostumava a viver em um mundo de visões e fantasias.
Eu era um ardente apologista do autor de Manfredo, amava a noite e as trevas e em falta de Yung-Fram invocava os meus espíritos do topo de uma colina.
Alberto procurava divisar nas trevas da noite as sombras dos guerreiros. Recitava a maior parte dos poemas de Ossian, e gostava das neblinas, do vento e da tempestade.
Finalmente, José era apaixonadíssimo do desvairado fantasista alemão Krespel, Deunner, Trabacchio e o medonho Copelius de contínuas estavam a seus olhos entre círculos de chamas avermelhadas como ele dizia.
A trindade era perfeita, pelo que se vê.
Conversamos alegremente, disse eu, tínhamos bebido nossa boa quantidade de ponche e, depois de muito palestrar, dispúnhamo-nos a sair.
— Vamos, dizia Alberto de pé no meio da sala.
— Vamos, repetimos nós.
— Porém, vejam, senhores, disse-nos o alemão do seu canto, a chuva continua cada vez pior e é uma temeridade...
— Qual temeridade, por algumas gotas de água no lombo não nos devemos amedrontar; vamo-nos embora.
— Acendamos os cachimbos, disse José, e partamos sem demora. Dito.
Nesse momento a porta abriu-se, uma rajada de vento entrou pela sala e um vulto apareceu no limiar.
— Quem está aí? gritou o alemão.
— Eu! respondeu uma voz rouca.
E o homem entrou para a sala.
Sua figura era alta e magra, seu rosto macilento como o de um cadáver, seus movimentos pausados e lentos.
Sobre o nariz curvo como o bico de um abutre estavam acompanhados uns óculos azuis, através de cujos vidros se viam brilhar os olhos, dois carbúnculos. A boca era fina e cerrada, a barba lisa e pontiaguda.
Não sei o que havia de frio e tumular naquele homem que nos impressionou; dir-se-ia o fúnebre hóspede da balada alemã, o visitante sinistro que coberto da poeira da campa deixava o cemitério para ir bater à porta de um castelo em noite de festa.
— Que quer o senhor? perguntou-lhe o alemão.
— Velas e uma garrafa de vinho, respondeu o desconhecido depositando o dinheiro sobre a mesa. Depois voltou-se e principiou a contemplar-nos atentamente.
Palavra que o seu olhar me derramava uma sensação inexplicável pelo corpo; era como a lâmina de um florete que me ia tocar no coração.
A voz do alemão veio tirá-lo de sua contemplação.
— Eis aqui o que pediu, disse ele. O desconhecido tomou as velas e a garrafa, pô-las embaixo do capote e saiu.
— Quem é este homem? perguntei ao dono da casa.
— A falar-vos a verdade, não sei; há perto de um ano que ele anda por estes arredores, aparece várias vezes por aqui, e tenho ouvido dizer que se hospeda nas ruínas da Glória.
— Nas ruínas da Glória! exclamou José.
— Sim, é talvez um mendigo, ou vagabundo.
— A propósito, disse Alberto, vamos às ruínas da Glória... Este sujeito me interessa, é uma dessas personagens "hoffmânnicas", que prometem um belo romance! Há naquele tipo todos os requisitos para um livro de lenda, talvez um Castil belga, de Victor Hugo; vamos à Glória!
— Está dito, vamos descobrir o ninho desta ave noturna; vamos.
E nós nos levantamos a um tempo.
Alguns instantes depois estávamos na estrada e caminhávamos em direção às ruínas da Glória.
A Glória foi antigamente um desses templos vastos e sombrios, que nos países cristãos muitas vezes sói encontrar-se longe do bulício das cidades no seio das montanhas, nas planícies ou nas margens dos rios.
Não era propriamente um convento, um mosteiro, porque nenhuma ordem de monges habitara aí, porém ao lado da igreja, os grandes salões, os corredores prolongados, os quartos, as celas não tinham sido feitos por luxo ou superfluidade. Dizem que havia ali noutras eras um seminário onde os moços que desejavam seguir a carreira eclesiástica se recolhiam e estudavam dirigidos por um bispo santo e ilustrado que aí morava.
Poucas ou nenhumas são as informações que tenho a respeito da Glória; mais tarde com a morte do bispo o seminário desfez-se e a habitação ficou deserta.
Longe da cidade em lugar ermo e agreste, bem difícil era cuidar-se do antigo seminário; o edifício foi-se arruinando com o correr dos tempos de maneira que hoje não é mais do que um resto de demolidas paredes, uma torre erguida entre plantas bravias e um montão de pedras.
No tempo em que se passava esta história havia ainda uma parte do edifício poupada pelo tempo, eram dois salões ainda bem conservados, apesar do limo e da umidade das paredes, algumas câmaras ao rés-do-chão, e uma grande varanda no fim de um corredor cujas paredes ameaçavam cair a cada momento.
Dito isto continuemos a narração.
A chuva tinha cessado o seu ímpeto, porém o céu era sombrio como uma lousa de mármore preto sobre um túmulo servindo-me da expressão de Lamennais, e o vento corria gelado e desabrido intrometendo-se pelas dobras de nossos capotes.
Estávamos já perto do portão coberto de lianas e trepadeiras selvagens que precede as ruínas.
Bebemos cada um alguns goles de Kirschenwaser por causa do frio, empurramos depois a porta e entramos no campo vasto e despido que está diante da arruinada igreja.
Como tudo era triste! parecia-me que entrávamos para uma região nua e gelada onde a vegetação tentava erguer-se debalde, onde o vento corria sem empecilhos. Lá no fundo, por entre as brumas da noite, a torre erguia-se muda e silenciosa como um imenso fantasma; os vultos confusos das árvores desenhavam-se por detrás dela agitando-se ao vento da tempestade.
De quando em quando surgia uma chama esverdeada, parecia lamber as ruínas e depois desaparecia; atrás vinha outra, depois outra torcia-se, girava e também se esvaecia, para dar lugar a novas que se erguiam.
Lembrei-me das legendas dos — Lutins e Farfadets — e confesso que me senti um pouco impressionado; minha emoção aumentou quando contemplei a torre, cuja cúpula de porcelana molhada pela chuva se iluminava de pálido brilho aos fogos errantes da noite.
— Vê, Alberto, como é triste assim aquela torre! Dir-se-ia o rei das florestas com seu diadema de fosforescências.
— É verdade, respondeu-me Alberto, lembra-me...
E o meu amigo começou a recitar aquela balada de Goethe intitulada — "Der Koenig".
A poesia era triste e funérea; quando Alberto acabou de recitar, todos estávamos trêmulos e impressionados; olhávamos uns para os outros receosos e depois transportávamos os olhares para a sombria torre que se erguia ao longe e na sua tenebrosa mudez pareceu ter-se vestido com toda a majestade sinistra do — Rei dos Aulnes.
— Para diante! gritou José. E nós nos encaminhamos para as ruínas. Ao chegar junto delas uma coruja ergueu-se arrebatada e foi pousar, piando lugubremente, sobre as denegridas muralhas.
— Mau, mau, murmurou José. Paramos. Estávamos junto ao vestíbulo.
— Então? ninguém entra? perguntou Alberto. Eu e José ficamos quietos e mudos.
— Ah! têm medo! Pois eu vou. Dizendo isto, afastou com uma bengala as plantas bravias que interceptavam a passagem e desapareceu pelo vestíbulo arruinado.
Nós ficamos algum tempo a olhar um para o outro, depois José me disse:
— Ele volta já: eu o conheço; vendo que o não acompanhamos não terá ânimo de continuar.
Depois de esperarmos algum tempo, como Alberto não aparecia, eu disse a José:
— Vamos, que diabo de medo tens tu?
— Espera, retorquiu-me ele.
— Deixo-te só se não vens, e adiantei-me para o vestíbulo. José seguiu-me.
Passando o vestíbulo subimos um pequeno degrau, de pedra; — um corredor frio e tenebroso apresentava-se diante de nós; José parou:
— Ah! tu não entras? disse eu, espera; — e enfiei-me pelo corredor; meu companheiro deu um salto e uniu-se a mim.
Seguimos pelo corredor adentro; o ar era bramido e de um cheiro estranho, o chão escorregadio, as trevas cercavam-nos profundamente e nós caminhávamos tateando.
Três minutos tínhamos talvez andado quando pelo ar mais frio e desembaraçado, por esse zunido agudo e contínuo que julgamos ouvir no silêncio, percebemos que estávamos em um salão: então eu parei, José segurou-se a meu braço.
— Fiquemos aqui, disse eu, gritemos por Alberto, há já bastante tempo que nos deixou.
Três vezes repetimos gritando o nome de nosso amigo e nossa voz retumbou lugubremente pelos desertos recintos, os morcegos agitaram-se no ar batendo as longas asas, porém, ninguém respondeu.
— E esta? chamemos novamente por ele.
— Alberto! Alberto!
Mesmo silêncio; a noite era fria e tempestuosa, as aves noturnas piavam dolorosamente, porém nosso amigo não respondia.
Uma ideia sinistra passou-me pela cabeça.
Vamos para diante, José; vamos para diante, repeti aceleradamente.
Então principiamos a errar pelas trevas, o recinto parece que amplificava cada vez mais suas paredes, porque nós andávamos e não encontrávamos um termo!
O chão era úmido e escorregadio, o ar estava prenhe de um aroma estranho, um cheiro de ruínas, um odor de sombria antiguidade.
— Oh! gritemos de novo, disse eu, trêmulo e assustado.
— Alberto! Alberto! clamamos com todas as forças dos pulmões.
Porém nada! Apenas um gemido abafado e doloroso chegou a nossos ouvidos.
— Deus! clamamos horrorizados. Afastei um passo. José tremia convulsivamente agarrado em mim.
De repente uma luz surgiu ao longe e o vulto de um homem atravessou lentamente o fundo do aposento. Reconheci imediatamente o desconhecido do botequim, porém, longe de nos tranquilizar, a sua presença veio aumentar o nosso terror.
Com efeito, era-lhe medonha a figura naquele momento.
O esverdeado cadavérico do rosto crescia ao clarão mortiço da vela, seus óculos azuis davam aos olhos um aspecto de duas negras concavidades, a cabeça calva e reluzente semelhava uma fronte de morto! A funérea solenidade do seu andar, a imobilidade do rosto fazia-me recordar todas as lendas que ouvira na minha infância.
Depois de haver atravessado lentamente o fundo do salão, chegando perto de um corredor, voltou o rosto para trás, exalou um gemido e desapareceu.
Parecia-me que as trevas se condensavam em torno de nós. A figura do desconhecido entretanto, não me saía dos olhos e eu julgava ainda ouvir aquele doloroso gemido que lhe escapava do seio.
Oh! é talvez um desgraçado! disse eu comigo, para que hei de temê-lo? Vítima do mundo e dos homens, vem talvez, deslembrar seus martírios na triste quietação destas ruínas!... porém, onde está Alberto, meu Deus?...
— Voltemos, voltemos, dizia José, talvez ele já saísse.
— Custe o que custar! clamei eu desesperado, devesse eu morrer, é preciso buscá-lo! Vamos.
— Mas, para onde? para onde? dizia José, não vês que tudo é escuro, que não conhecemos estes lugares?...
— Pois então gritemos, repliquei.
— Para quê? não nos temos cansado de gritar? Olha, Alberto já saiu.
— Ah! ocorre-me uma ideia, exclamei, puxando José pelo braço.
— Qual?...
— Chamemos o desconhecido, disse eu com mais força; o caso é sério e devemos banir estes terrores infantis.
E sem esperar mais tempo pus-me a gritar.
— Oh! senhor! Oh, senhor destas ruínas! Oh! lá!...
— Oh lá...
Poucos minutos depois a luz apareceu e o sombrio habitador das ruínas apresentou-se no limiar de uma porta, mudo, impassível como uma estátua; através porém de seus óculos os olhos vivos e penetrantes como pontas de floretes estavam fixos sobre nós.
Senti-me esmorecer-me um momento, porém, lembrando-me de Alberto, a resolução voltou.
— Senhor, disse eu, um nosso companheiro... um amigo que veio conosco desapareceu aqui, nós o buscamos, porém é impossível achá-lo sem vosso auxílio, socorrei-nos, pois.
O desconhecido abanou lentamente a cabeça, e disse com voz rouca e pausada:
— Moços, fizestes mal, muito mal em vir aqui a estas horas; há trinta anos que um drama de lágrimas e de sangue reproduz-se aqui todas as noites entre o pio das aves e o sibilo do vento! fizestes mal, muito mal em vir aqui!...
Senti-me possuído de um terror inexprimível a estas palavras e José agarrou-se lívido a meu ombro. Entretanto, era preciso ver o fim de tudo isto, saber de Alberto; venci a minha repugnância e continuei:
— Mas atendei, senhor, é impossível agora partirmos sem o nosso companheiro, ajudai-nos a procurá-lo, nós vos seremos reconhecidos.
Nesse momento um turbilhão de vento úmido e gelado entrou pelo* vasto recinto e o trovão fez-se ouvir surdo e medonho no céu.
— Vedes? murmurou o velho, a tempestade principia a sua orquestra, em breve tempo os acordarão para cantar a monodia dos túmulos!... Muitos são os que repousam aqui! muitos!... entre eles há vinte anos que minha filha dorme no seu leito de pedra, vestida ainda com as suas roupagens de noiva e a sua coroa de ciprestes! Tenho chorado lágrimas de sangue, tenho me arrebentado em soluços há dez anos sobre os ladrilhos de sua sepultura, para que ela me diga uma dessas palavras ternas e doces que repetia outrora nos braços de seu noivo, para que ela me perdoe! porém, tudo é baldado!
E o desconhecido calou-se; eu estava impressionado, não mais de terror, porém de uma tristeza sombria, de uma compaixão sem termos.
No entretanto a tempestade crescia e o vento uivava dolorosamente nos arvoredos lá de fora.
— Bem, disse o desconhecido, lentamente do vão da porta, vamos procurar o vosso companheiro, quero ficar só, quero que saiais o mais depressa possível, vamos.
Começamos então a errar pelos aposentos sombrios do arruinado edifício; adiante ia o desconhecido com a vela na mão, lento e pausado, eu o seguia; José era arrastado por mim, lívido e convulso.
Depois de termos atravessado em vão alguns aposentos e corredores, depois de havermos gasto talvez um quarto de hora nessa sombria procissão, um gemido doloroso e pungente como partido de um leito de morte chegou a nossos ouvidos.
Meus cabelos se eriçaram; José deu um grito e puxou-me para trás.
— Oh! murmurou o. velho, é do leito dela que saiu aquele gemido! Sim, porque é aí que ela dorme! Oh! deve-lhe doer muito a ferida que tem no seio, que verte continuamente ondas de sangue!... muito!
Assim falando caminhou para o lugar donde partira o gemido! era no fundo de um pequeno aposento, de uma porta que dava para um jazigo.
Chegando aí ergue a vela à altura da cabeça para melhor ver; por detrás dele mergulhei ávidos olhos no jazigo; um homem estava de bruços no chão e sua respiração soava estrepitosa.
Recuei um passo.
— Aproximai-vos, aproximai-vos, vinde velo, é o vosso amigo! através dos frios ladrilhos que segredos não terá ele murmurado à minha filha!
Cheguei-me de novo e contemplei atentamente o vulto; era Alberto, não havia duvidar-se.
Tomei-o nos braços, ergui-o, estava lívido e banhado em suores frios, seus dedos crispados pareciam cerrar fortemente alguma coisa.
— Alberto! exclamei, procurando pô-lo de pé; ele abriu os olhos, correu-os em torno, desvairado, como se procurasse alguém e depois tornou-os a cerrar exalando um suspiro.
— Ajudai-me a levá-lo, disse eu a José, e saímos.
Poucas horas depois tínhamos conseguido chegar a casa; Alberto ressonava febril em seu leito; José tinha ido ver o médico e eu velava o doente.
***
Três dias tinham decorrido depois dessa noite sinistra; à cabeceira de Alberto, de quando em quando, aparecia a figura calma e pálida do Dr. V., que examinava atentamente o doente e depois retirava-se para conversar comigo e José.
O delírio e a febre não tinham abandonado o pobre mancebo, de contínuo, no seu desvairar, ele repetia palavras suplicantes, parecia invocar uma personagem desconhecida, depois supunha apertar no seio alguma imagem querida e encontrando o vácuo caía desmaiado sobre o travesseiro.
Dessa noite fatal uma impressão profunda tinha-me ficado n'alma; aquele velho estranho, suas palavras fantásticas, tudo estava vivamente gravado em minha imaginação.
José estava ocupado, Alberto livre um momento de seu delírio parecia dormir; aproveitei a ocasião para conversar com o Dr. V. e ver o seu modo de pensar a respeito de todos esses fatos extraordinários.
Era o Dr. V. um homem de cinquenta anos, sua mocidade tinha-se passado debaixo do céu brumoso da Alemanha para onde o mandara seu pai estudar.
Apesar de ter no cérebro um mundo de inteligência e de conhecimentos, o Dr. V. tinha um modo de pensar estranho e admitia as crenças as mais absurdas.
A Alemanha é o país das alucinações da inteligência, disse-o Gerard de Nerval, dos abismos da ciência germânica partem vapores que atordoam o espírito. O doutor tinha-se embebido de todos esses sonhos nebulosos de todos esses sistemas extraordinários de excentricidade que povoam a terra de Schiller e de Goethe.
— Muitas vezes ouvi eu o som da rebeca gemedora de Krespel, dizia-me ele, e o eco dos sinos de cristal debaixo do sabugueiro; Klein Zach é uma realidade na Alemanha, e os Copelius encontrei-os aos centos.
— Bem, doutor, disse-lhe eu, depois de haver ainda uma vez contado a história da noite das ruínas; dizei-me francamente o vosso modo de pensar a respeito disto, não julgais que em todo este drama há alguma coisa de além-túmulo?
— Quem sabe? murmurou o doutor limpando amorosamente os vidros dos óculos com o lenço de assoar, quem sabe?...
— Porém, dizei-me, a aparição dos espíritos não repugna a razão, não é contrária à ideia de bondade e justiça que depositamos em Deus?
— A crença no mundo tenebroso, respondeu-me o doutor, tem existido em todos os povos, em todas as gerações. Santo Agostinho, na "Cidade de Deus", e Legendre, no seu "Tratado da Opinião", dizem que negar o prestígio dos demônios e dos espíritos é não crer na Escritura Santa; a Bíblia nos fala da aparição de Samuel e muitos outros fatos sobrenaturais; Suetônio conta que, depois de assassinado, Calígula errava em seu palácio à noite, sob a forma de uma larva gemedora. Além disto a razão nos atesta claramente que depois desta vida haverá um lugar de recompensa e outro de punição; ora, quem nos diz que a felicidade dos bons não será uma vida nova em um planeta de delícias, e o castigo dos maus errarem continuamente por esse mundo em que viveram até que na consumação dos séculos, quando estiverem purificados dos seus delitos, mergulhem-se no seio da divindade de que são aparências?
Confesso que gostei desta tirada panteísta do doutor. Tive sempre uma inclinação irresistível pelas doutrinas de Spinosa.
Restava-me, entretanto, uma dúvida.
— Admito a vossa hipótese, porém, dizei-me que culpa têm os vivos em tudo isto para serem perseguidos pelas sombras e aparições?...
— Os espíritos, replicou o doutor, sorvendo uma pitada de rapé, os espíritos também são muitas vezes emissários da divindade; ora, é para punir um malfeitor que eles aparecem, ora, para um aviso celeste, ora, enfim, para aliviar muito sofrimentos. Assim, aparecem aos assassinos, as sombras de suas vítimas, aos virtuosos o espectro do finado que lhes vem pedir orações, aos mancebos a imagem de suas noivas ou amantes, mortas na flor dos anos...
Nesse momento, um gemido triste e prolongado partiu do seio de Alberto, eu e o doutor voltamo-nos vivamente para o leito do doente.
Alberto tinha-se solevantado no travesseiro e com a boca espumante, os braços estendidos, os olhos inflamados e sanguinolentos olhava fixamente para o fundo do aposento e murmurava: — Vem! Vem!...
— Meu Deus! Doutor, o que será isto, vede como está! exclamei eu.
— Oh! dá-me um pano de tua branca vestimenta, anjo de asas douradas e diadema de luz!... leva-me contigo para o país dos sonhos eternos. Vem porque minha alma chora de amores por ti!
Dizendo estas palavras o moço escondeu o rosto abraseado nas mãos e caiu esmorecido sobre o leito.
— Vedes? disse o doutor com voz sinistra, vedes?
— Sabe Deus só o que vai por aquela cabeça.
Uma dor amarga e sem limites passou-me pela alma, encostei a fronte sobre a mão e comecei a pensar.
Seriam onze horas da noite, tudo estava quieto e silencioso; uma bugia ardia junto do leito do doente, o resto perdia-se na sombra.
De repente um calafrio correu-me pelo corpo, ergui-me pálido.
— Que tendes? perguntou-me o doutor.
— Não ouviste um ruído de passos ali no fundo? disse eu apontando.
— Não; respondeu-me o médico.
Nesse momento o ruído fez-se ouvir de novo, porém mais pronunciado, mais distinto.
O doutor, até ali impassível, franzia o sobrolho e levantou-se.
— Por Deus que agora ouvi eu! exclamou, tomando a vela e dirigindo-se para o fundo do aposento. Eu o segui.
Tudo estava sossegado; nada demais havia ali.
— Vede! no entanto eu ouvi bem distintamente um arrastar de passos.
— E eu.
O doutor voltou lentamente e colocou a vela sobre a mesa e pôs-se a meditar, pensativo sentei-me também; Alberto ressonava suarento e febril, e a vela ardia muda e silenciosa no seu castiçal de bronze.
Alguns dias passaram-se depois disto; o delírio tinha abandonado Alberto, porém o moço estava lívido e descarnado e sua razão parecia ter-se abalado profundamente.
Uma noite, tinha o Dr. V. ido à sua casa fazer algumas determinações, José o acompanhou e eu apenas achava-me ao lado do doente. Depois de me haver tristemente contemplado com seus olhos amortecidos, meu pobre amigo tomou-me a mão e disse:
— Eu sei que não me levantarei mais daqui, por isso é preciso que te conte tudo, tudo antes de morrer...
— Morrer! Alberto, não digas isso! exclamei aproximando-me mais do leito.
— Não me procures iludir, prosseguiu ele, a voz que me murmurou esta sentença ainda a tenho eu no ouvido; escuta-me.
Ele acomodou-se um momento no seu leito e continuou:
— Naquela noite em que fomos às ruínas afastei-me de ti e de José, bem te lembras: enfiei-me pelos corredores e aposentos e depois de errar alguns momentos, senti uma curiosidade irresistível, uma atração insuperável chamar-me para um ponto das ruínas, caminhei; de repente uma espécie de harmonia misteriosa, doce, baixinha, chegou-me ao ouvido e um clarão tépido e brando veio de longe ferir-me os olhos, adiantei-me mais, então divisei um vulto de mulher que me estendia os braços. Oh! ela era bela como um anjo de Deus; seus longos cabelos de reflexos dourados escapavam em ondas de uma grinalda de ciprestes que tinha na cabeça, seus olhos eram puros e meigos, sua tez branca como a neve, de um lado do seio suas alvas roupagens estavam caídas, e uma onda negra de espumoso sangue corria em borbotões de uma larga ferida, e ensopava-lhe a vestimenta.
"Fiquei estático no meu lugar, imóvel como se fosse ferido do raio. Então a sombra moveu imperceptivelmente os lábios e sua voz harmoniosa me chegou aos ouvidos: — Vem! dizia ela. Eu ouvi, meu amigo! eu ouvi, disse Alberto incendendo os olhos, não foi ilusão; tão certo como estou neste leito de morte e como daqui só sairei para o cemitério, eu a ouvi!
Segunda vez mais lânguida, mais triste ela me disse: — Vem!... Então um calafrio de felicidade correu-me pelo corpo, minhas artérias bateram com violência e eu estendi o braço dando um passo. Tudo desapareceu e eu apenas encontrei o vácuo, caí... quando despertei tu me erguias."
Alberto respirou um momento e com voz cansada continuou:
— Agora todas as noites eu a vejo bela, ensanguentada sempre! eu a vejo e amo-a porque ela é um anjo, porque ela me chama! Eu não posso mais viver, há uma voz que me murmura n'alma que quando o gelo da morte me cair sobre os olhos eu serei eternamente feliz; oh! eu não quero mais viver!
Dizendo isto Alberto caiu desanimado sobre o travesseiro. Um momento depois dormia um profundo sono. À noite chegou o doutor.
— Como vai o moço? disse.
— Melhor, falou sossegadamente comigo e depois adormeceu; notei-lhe apenas um desânimo e uma tristeza sem termos.
— Bem, vamos vê-lo.
E o Dr. V. encaminhou-se para o leito de Alberto, ouviu-lhe a respiração, passou-lhe a mão pela testa, tomou o pulso e voltando-se para mim disse:
— Sabes uma coisa? Vosso amigo está salvo.
Imensa foi a alegria que senti dentro d'alma a estas palavras; parecia-me que tiravam um grande peso de sobre meu peito, que despertava de um pesadelo.
Uma hora depois o doutor retirou-se dizendo que como não havia mais perigo era desnecessária a sua presença ali essa noite, que no dia seguinte voltaria.
Como Alberto dormia sossegadamente, deixei um criado junto a seu leito e fui para um quarto descansar um pouco.
Depois de haver dormido longo tempo, fui despertado pelo criado que me sacudia ansiosamente de um lado para outro repetindo o meu nome.
— Que diabo é isto? gritei eu sentando-me na cama.
— Oh! senhor! levante-se, levante-se depressa que o Sr. Alberto morre.
Pular da cama, enfiar meu sobretudo, atravessar a casa e ir ao quarto de Alberto foi um momento.
Quando cheguei o meu amigo estava mais lívido que a morte, o suor corria-lhe em abundância na fronte, seus olhos ardiam de uma chama terrível.
— Alberto! Alberto! o que tens? disse eu arrojando-me ao leito e tomando-lhe a mão.
— Vou morrer, meu amigo! murmurou ele com voz fraca e arquejante.
— Oh! não! tu não morrerás! exclamei eu. Guilherme, vai à casa do Dr. V., dize-lhe que venha a toda a pressa, a correr.
— É inútil, murmurou Alberto, é inútil... Sinto já o hálito da morte passar-me pelo rosto, sacudir-me os cabelos!...
— Pelo contrário, meu amigo, o doutor disse que em poucos dias ficarias bom.
— Não me dês esperanças, disse ele, passando a mão pelo rosto onde a morte principiava horrivelmente a sua obra de demolição, não há medicina que me cure! Hoje eu a vi pela última vez, seu rosto estava mais belo do que nunca, porém o sangue que lhe corria do seio era mais abundante! Ela me chamou com ânsia... preciso ir... Há alguma coisa que me diz dentro d'alma... que em poucos minutos estarei com ela!
Aqui a voz do meu amigo foi se tornando cada vez mais fraca e rouquenha. Ele pendeu a cabeça ao meu ombro, e eu sentia seu peito ofegar convulsivamente.
Um instante depois ele ergueu de novo a cabeça; seu semblante estava horrivelmente descomposto! então, com essa voz triste e sumida, voz de moribundo, falou assim:
— No entretanto... quantas saudades... não levo eu deste mundo! quanta amargura... não tenho agora na alma!
E as lágrimas precursoras da morte, gota a gota caíram de seus olhos.
— Oh! não ter-vos junto de mim... nesta hora suprema... Oh! meu pai!... Oh! minha mãe!... não poder vos abraçar e...
Alberto calou-se de novo, sua cabeça caiu sobre meu ombro, de novo a voz dele, surda, murmurou estas palavras:
— Adeus... adeus...
Depois cerrou-me a mão fracamente e pareceu descansar um pouco-.
Alguns minutos passaram-se e a mão de Alberto que eu guardava entre as minhas, tornou-se gelada: afastei-lhe rapidamente a cabeça do seio, ele rolou inerte sobre o leito. Estava morto!
Nesse momento a lamparina que ardia em um canto exalou seu último clarão e apagou-se. Ouvi então um ruído semelhante ao de um vestido de mulher; depois uma sombra branca, lenta, atravessou diante de mim até o leito de Alberto, e ouvi o estalar de um beijo sobre a face pálida e fria de meu desgraçado amigo; depois resvalando no ar desapareceu a sombra.
Saí doido do aposento. O dia entrava pelas janelas.
— Como vai Alberto? perguntou-me José quando saía do seu quarto esfregando os olhos.
— Já não existe! disse eu soluçando.
— Morto! exclamou José, e lançou-se desesperado em meus braços.
Dois anos tinham-se passado; de meus antigos companheiros um dormia à sombra dos ciprestes do cemitério, outro tinha partido para onde não o sabia eu.
Por uma tarde de estio eu tinha ido passear ao hospício de alienados de São Paulo. Entre os desgraçados que aí viviam deparei com um cujo aspecto causou-me uma impressão extraordinária.
Seu olhar era sinistro e medonho, seus dentes cerrados continuamente, rangiam como os de um animal feroz.
— Quem é este homem? perguntei a um guarda que me seguia.
— É um ente estranho, respondeu-me o guarda, dizem que em um acesso de furor dera uma facada em uma filha jovem em véspera de casar-se. Principiou a sua loucura por fugir dos homens e da sociedade, morou há três anos em as ruínas da Glória...
— Ah! esperai, clamei eu contemplando fixamente o louco.
Era o desconhecido; sim, era o hóspede das ruínas, porém horrivelmente mudado. Ao conhecê-lo, todo o drama sombrio do passado passou-me pela cabeça, as lágrimas rebentaram-me aos olhos e eu escapei-me correndo como um doido do hospício dos doidos.


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Digitalização, pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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