terça-feira, 7 de maio de 2019

Lava de um crânio (Contos), de Teófilo Braga



Lava de um crânio

Quantas risadas se escutam perdidas no ar, que às vezes são um punhal invisível, brandido por mão diabólica, um veneno propinado a ocultas, que infunde na vida o desalento, o tédio, a indiferença por todos os grandes sentimentos que nos agitam e nos elevam! O riso é a expressão mais enérgica do desespero, quando ele tem um timbre satânico, que gela, e se repercute na alma como o estampido de uma detonação que fulmina; então, mata mais do que a ponta de um estilete penetrante, embebida no acônito baço, que fere e não deixa ver a cicatriz. Quem não há soltado uma vez na vida uma dessas risadas, que não seja uma loucura, uma impiedade, uma provocação, uma mentira, talvez um crime? Um dia ri também desse modo; é remorso que ainda hoje me punge.

Eu vivia ignorado, obscuro, trabalhando na minha água-furtada, alimentado pela febre da aspiração, pelo pensamento de exageradas vigílias; era a contumácia da desesperação que me dava forças, e me fazia caminhar incansável sem saber para onde. Este vácuo da existência amputava-me para todas as distrações, via em tudo uma futilidade, sentia-me mau, com uma vontade de torturar, de contradizer, de estar sempre em hostilidade com todas as ideias que não fossem as minhas. A dialética fora para mim uma arma, que ao passo que a manejava com mais presteza, me tornava mais intolerante. A solidão dera-me por um excesso de vida subjetiva uma suscetibilidade táctil, tornava-me perscrutador, analista; pretendia ler em todas as fisionomias, deprimi-las perante a minha consciência, como um juiz boçal, que não pode convencer-se de que o réu que interroga esteja inocente. Saía para as ruas, a luz oprimia-me, a multidão atropelava-me, sentia-me olhado, como nos tempos do absolutismo teocrático aquele que vergava ao peso do anátema.

Um dia saí para respirar o ar livre de uma bela manhã de verão; uma veia sarcástica, provocadora, não deixava harmonizar-me com a serenidade da natureza. Vinha pelo mesmo passeio um sujeito magro, fumando uma ponta de cigarro. A distância ainda comecei a analisá-lo; cada vez que o fitava sentia em mim uma hilaridade irrepressível; parecia-me uma cara insignificativa. De mais perto representava-me uma encarnação do grotesco, do cômico objetivo, como se encontra nas goteiras das catedrais da Idade Média. Trazia uma vestimenta velha, esfarrapada, que produzia uma antítese perfeita com a sua idade. Mais ao pé, vi que tinha um fulgor de vida nos olhos, o movimento, a expressão de uma intensa atividade interior. Eu tinha caminhado para ele com um riso mofador, com pretensões a observá-lo, este casquilho em quinta mão, e fui-lhe ao encontro a pretexto de acender um charuto.

Conheci então o valor da frase com que o povo exprime um desgosto íntimo e repentino: caiu-me o coração aos pés. Via naquele fato esfarrapado de escovado, a luta de uma alma, que arcava com a miséria, de um homem, que aspirava à decência, e que prosseguia temeroso, como conhecendo que a vestimenta o degredava e o destituía de importância, que um descuido qualquer o expunha aos apupos da vadiagem. Assim explicava comigo aqueles ares afetados de elegância, que despertaram a risada, que ressoou só dentro em mim. Era também criança, tinha uma figura trigueira, uma certa vivacidade de movimentos, uma timidez que se não acusa e se transforma em reconhecimento à menor consideração.

Pedi-lhe lume com um tom levíssimo de ironia. A afabilidade desarmou-me; o coração doeu-se ao primeiro impulso da sua crueldade. Tinha vontade de confessar-me seu amigo; era-o nesse instante, com todas as veras de alma.

Dias e noites a imagem do pobre rapaz a flutuar-me na mente; eu estava indisposto comigo, procurava equilibrar a vida de modo que pudesse alcançar essa virtude sublime da bondade, filha quase sempre da serenidade e da superioridade de espírito. Era ainda cedo para mim. Não tornara mais a vê-lo: julguei-o uma aparição diabólica, que viera inverter uma ação inocente da vida numa preocupação, que me perturbava a tranquilidade.

Uma noite, saia eu do teatro: o frio regelava os membros, a escuridão era profunda como as trevas visíveis de que fala Milton. Esperei à porta que escampasse. Por um acaso feliz deparei ao meu lado com o mesmo sujeito que um dia soube inverter-me um riso insignificativo em remorso. Tinha ainda a mesma compostura, esse apuramento que fazia rir os que não soubessem penetrar os dolorosos mistérios da sua existência.

O pobre rapaz, não sei que franqueza leu no meu rosto, que se chegou para mim. Pôs-se a comentar o espetáculo; pouco depois, estiou e partimos juntos. Até aqui nada de interessante.

— Quanto mais estudo (disse-me ele, cansado de andar e de falar), tanto mais se me alarga a solidão do espírito; cada dia encontro menos pessoas com quem prive, caminho, e a cada passo me vão ficando mais longe. Quem não entender isto e se revoltar contra a minha frieza, dirá que é orgulho, e egoísmo até; os que se doerem de mim dirão que é misantropia. A meditação é como um segredo, que pesa quando não há a quem se conte; mas se eu encontrasse uma mulher a falar-me de amor, sacrificava-me a ela, para vê-la mais ditosa que a pobre Frederica de Goethe. É a primeira vez que conversamos. O meu amigo deve estranhar esta liberdade; sou assim, amo a franqueza quando não busca rodeios para convencer, e tem a força da expansão sincera, a ingenuidade simples, que não sabe aliar a amizade com as pragmáticas. A franqueza deste modo admira-se, e eu tanto mais, porque a tenho visto sempre usada como pretexto para dizer insultos impunemente. Acho-me solitário no meio da sociedade, e tenho ainda não sei que terror de me ver perdido, atropelado entre as massas. Vivo assim desde criança; como criança fui também poeta, cantei porque tinha medo, queria distrair-me. Eu chamo-lhe meu amigo, porque me escuta; era quanto bastava para lhe ficar reconhecido. A maior parte das pessoas que me ouvem riem-se de mim. Falo sobre a gênese das religiões, a origem dos governos, as relações da arte com a sociedade, todos os grandes problemas que nos agitam; abanam a cabeça, e dizem com ar compassivo: “Utopias dos vinte anos.” Outras vezes, descrevo a formação da terra, procuro explicar as evoluções da antropogenia com a cosmogonia, o aperfeiçoamento dos seres e a sua decadência pelo grão do calor que a matéria conserva e vai irradiando; obedeço à pressão da causalidade que me obriga a explicar a mim mesmo os fenômenos que vejo, e riem-se, perguntam-me onde estudei, que diplomas tenho das Academias, e voltam-me as costas ludibriando-me, porque não querem admitir a ciência sem a autoridade, veem como profanação um leigo explicar o que só está à altura da inteligência dos catedráticos. Tenho tido muitos destes desgostos na vida. Os homens que têm certa bondade, também me dizem, que a idade me fez todo idealista, que os anos me darão um caráter prático de que careço. Às vezes, tendo passado a noite em vigília a pensar, cheio de frio, com fome, canso-me a falar, para receber, ao cabo de um esforço inaudito, uma gargalhada brutal. Deus sabe quanto custa afazer-me à solidão absoluta. A solidão, é verdade, devasta o espírito, porque obriga à representação interior, dando-lhe um relevo maior do que a realidade. Serão utopias tudo quanto tenho na cabeça? É uma lei natural. Há na vida intelectual dois períodos, um de criação, outro de realização. Hoje concebo um ideal que não posso determinar; porque há de vir tempo em que saberei somente dar forma ao que senti. Convém não rir desapiedadamente de todas as teorias da mente febril da mocidade, por que ao aproximar-se a idade estéril da força, quem há de realizar o que não ideou? Bem sei que um grande poeta disse antes de mim: “Uma grande vida, é um pensamento da mocidade realizado na idade madura.” Em tudo isto vejo uma força desoladora no homem, que o domina em tudo, e era pela análise dela que poderíamos entrar na essência dos atos da sua vida — é o egoísmo. Quando o homem se vê compelido a reconhecer uma superioridade no seu semelhante, forma dele um semideus, porque, então já não é outro homem que o sobrepuja. Cristo é uma ideia transmitida às gerações, que elas concretizaram num nome para compreende-la. E depois, porque um homem igual a nós a manifestava, o egoísmo salva-se fazendo-o — filho de Deus. Arranca-se a Ilíada das mãos de Homero, porque o orgulho do homem não consente que o homem o exceda. Vico representa na sua hipercrítica a humanidade. Perguntamos, quem inventou a alavanca antes de Arquimedes demonstrar a sua lei? quem descobriu o parafuso, a serra, bases de toda a mecânica? O egoísmo ocultou quanto pôde o segredo; apenas a mitologia responde com uma divindade alegórica, um Saturno, Perdice, Pan e Triptolemo.

— O pobre rapaz falava de um modo precipitado, convulsivo, como se lhe faltasse o ar. A escuridão da noite não deixava ler-lhe no rosto a volubilidade da expressão. De repente, parou à porta de um casebre velho, situado numa viela estreita e infecta. Pediu-me para subir. Eu não podia resistir-lhe; cada palavra vibrava-me cá dentro como um arranco. Fomos tateando nas sombras, por um caracol de escadas carcomidas, que nos faltavam aos pés. Ia-se-me esclarecendo o mistério daquela existência. Por fim chegamos a um quarto pequenino e baixo, com um ar mefítico, saturado de fumo de tabaco. Ele acendeu uma vela de sebo roída dos ratos, que tinha presa no gargalo de uma garrafa; a enxerga com uma manta embrulhada achava-se a lastro. A miséria arrepiava-me. O pobre rapaz deitou-se sem forças; vi-lhe então, à luz mortiça, uma palidez cadavérica. Tive medo do seu silêncio. Ele estava envergonhado de tanta indigência, e procurava rir-se, ridicularizando-a:

— Não estranhe ver-me nesta trapeira; há uma analogia entre ela e a minha cabeça, onde as ideias refervem em tropel confuso, e se conflagram e se destroem. Estas teias de aranha são às vezes a minha distração nas horas de enfado; divirto-me como o Máscara-de-ferro, como Spinosa, Magliabechi e Sílvio Pellico. É em que me pareço com os grandes homens. Deixemos isto; conversemos a serio diante de quem não sabe rir-se de mim. Eu também tenho pensado na organização de uma sociedade perfeita, como Platão e Cícero, Campanella, Thomas Morus e Fénelon; mas só encontro essa perfeição no momento em que os vínculos do direito que prendem as nossas relações sociais, e os mistérios e terrores que as religiões incutem, fossem excluídos pelo desenvolvimento completo da ideia do Belo; quando deixássemos de praticar uma ação, que vai contra as máximas do direito ou da religião, não por ser injusta ou imoral, mas porque repugna ao sentimento do belo. A Arte sobretudo! é ela só que nos pode alcançar conjuntamente a perfeição plástica. Assim a anarquia, a negação absoluta de todo o governo fora de nós, constitui o ideal do estado; a lei era a consciência de cada um, a consciência sempre incorruptível a todo o interesse egoísta. Porque a Arte é sintética, mais do que a religião, a filosófica e a moral, porque só ela faz o acordo incondicional das vontades por uma emoção universal. Como chegar um dia a esta perfectibilidade! Não se vai lá de repente, a natureza não dá saltos. As revoluções pela ideia podem tudo; não se confia nelas, nem se empreendem, porque os resultados só os goza o futuro. É esta ciência nova da Sociologia que há de levar mais longe a humanidade. A Idade Média, o grande letargo depois da civilização da Grécia e Roma, foi ampliada pela passividade mística do cristianismo; é uma impiedade que ninguém talvez acredita. A esmola, a onzena sobre a bem-aventurança, era o princípio da dependência e da desigualdade, a aniquilação do trabalho e da atividade; a reprovação dos juros, o estigma impresso sobre o judeu, elemento industrial na sociedade nascente, eram a inercia do capital e do espírito de empresa. A verdadeira doutrina é um catecismo popular de economia social. É por esta ciência que nos há de vir a libertação, desde que o homem reconheça que produz mais do que consome. O trabalho é o único título da propriedade, a santificação da vida. O trabalho é para mim uma consolação, um orgulho; sou como Plauto, que fazia rodar um moinho, e nas horas de descanso escrevia as suas comédias; como Spinosa, que gravava vidros para se alimentar nas horas em que se absorvia no quietismo do pensamento e ampliava a síntese física de Descartes à moral humana; eu toco na orquestra de um teatro; de dia penso.

E o pobre rapaz parou em meio, de cansado; depois recomeçou, fazendo-me a história do trabalho:

— O homem ao destacar-se do último elo da cadeia dos seres, sentiu-se forte e senhor da terra. A natureza oferecia-lhe por toda a parte seus peitos uberastes, e este regozijo de harmonia ligava a sua existência à vida panteística do universo. A grandeza do homem neste ciclo genesíaco, simbolizaram-na os escritores sagrados no reflexo de graça e de inocência que descia das alturas sobre a sua cara; os escritores profanos, menos inspirados pelo idealismo espiritual, retratam-na na plástica, nas formas gigantes do corpo e na majestade homérica de uma estatura heracleana. Neste primeiro dia, foi o homem como os anjos, via e falava face a face com a divindade; neste primeiro dia foi um gigante da terra, dominava pela força ciclópica. Ambos os dois mitos têm um fundo de verdade revelada pela inspiração e intuição do passado aos profetas da história. Senhor e rei na criação, o homem deixou-se enlear no seio voluptuoso da natureza. Admirou e caiu adorando. Nesse instante descobriu a sua nudez, e escondeu-se; sentiu a fome e a sede e as dores do desterro. O outro mito, mais violento e terrível, para filiar nessa queda o naturalismo e antropomorfismo, fá-lo mergulhar no bruto, e o sátiro, o minotauro, é o homem a confundir-se na categoria inferior dos primatas. À queda sucedeu a reabilitação, como ao ocaso a nova aurora de luz. Era a lei eterna das antíteses. Foi o trabalho o sinal da reabilitação, será o caminho para a apoteose. Sic itur ad astra. Nos mitos do Oriente, tenebrosos e trágicos, o trabalho é um estigma que pesa sobre o homem, é a dor, a atribulação, é a terra produzindo cardos e espinhos, fecundada pelo suor do seu rosto. É o enigma da vida a ser iniciado pelo sofrimento e o sofrimento a retratar a vida nômada da raça primitiva, na sua passagem através do deserto. Nos mitos do Ocidente é sublime o ideal do trabalho: aí é a glória dos semideuses, é a vida errante mas heroica. Chiron ensina o mistério da força. Os trabalhos de Hércules, os trabalhos de Teseu, eis outros tantos passos para a elevação do homem, perdidos hoje completamente nas sombras imperscrutáveis do mito. Nos trabalhos de Jasão e dos Argonautas está simbolizada a inauguração do comércio de toda a raça jônica. No Oriente, o trabalho é uma fatalidade religiosa, um anátema do primeiro passo do homem. O cristianismo, criado no berço de todas as religiões, vindo da Ásia, transportou consigo o mesmo dogma fatídico, mas com expiação. Suavizou o golpe da espada flamejante, que lançou o homem fora do Éden. Exagerou a culpa para perdoar o castigo; suscitou no interior do homem uma luta, luta escura e tremenda, um eu a combater outro eu, a carne a revoltar-se contra o espírito, a confusão e o caos onde havia a ordem e a harmonia, e para este dualismo desesperado apontou como panaceia — o trabalho. Desta ideia proveio um dilúvio de sangue para reabilitar a raça futura; foi o sangue dos mártires; a arca flutuante a igreja; o ramo de oliveira, representando a paz universal e a fraternidade a cruz. Só tarde estes símbolos foram compreendidos; tinham sido como o enigma da Esfinge, que devorava os que iam passando. O cristianismo ao ideal do trabalho-pena ligou a universalidade. Na Idade média a ordem social era classificada pela propriedade territorial; a posse era a característica do senhor, o trabalho da cultura o ferrete do servo. A Idade média feudal é uma antinomia na história; a influência manifesta do cristianismo é a comum. O abraço dos povos pelo trabalho do comércio e da indústria, eis o segredo das riquezas de Pisa, Gand, Veneza, Gênova, Bruges e Florença, ao pé da barbárie dos estados feudais. Virtus unita fortius agit. No dia em que o homem descobriu a alavanca, o parafuso, a força da água, foram outras tantas fadigas de que aliviou seus ombros, sobrecarregando-as na natureza. Hoje o trabalho não é o selo da culpa segundo a antiguidade bíblica, não é o sinal da escravidão como na Idade média, nem o tributo dos párias, como concebia Aristóteles: hoje é o símbolo da dignidade do homem. São as máquinas que vão conseguindo pouco a pouco esta realeza do homem sobre o universo. O hino do trabalho eleva-se por toda a parte, e as estrofes perpetuam-se ao estrepito das grandes descobertas de Galvani, Fulton, Watt, Pascal. Pelas máquinas ganha o homem tempo à custa da força, mas força despendida pela natureza. Virá uma época em que ele se liberte do trabalho material; abre-se então outro horizonte mais vasto — o trabalho da inteligência. Prometeu ergue-se dos rochedos caucásicos, não para roubar o fogo celeste, porque é Deus, mas para atear aquele que ocultou longo tempo no encéfalo. O homem desprender-se-á da animalidade para absorver-se no anjo. Se ele se destacou de uma animalidade inferior, não está terminada a sua progressão ascensional. Esta teoria explica já a prodigiosa atividade e precocidade intelectual deste século.

A voz foi-se-lhe enfraquecendo, até que se calou; estava macilento, tiritando de frio; a vista com um brilho fosforescente, felino. Depois de alguns instantes de silêncio, disse-me com um modo seco, que não compreendi logo:

— O suco gástrico é bastante corrosivo e dilacera-me as fibras do estômago.

Conheci que era a fome que lhe dava esse aspecto, essa consumpção em que o via prostrar-se. Disse-lhe que esperasse um instante, e sai à pressa para comprar numa espelunca uma posta de peixe. Quando voltei, a luz bruxuleava quase a extinguir-se; o pobre rapaz estava voltado para a parede. Sacudi-o. Achei-o frio, com a rigidez cadavérica.

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