quarta-feira, 29 de maio de 2019

Miloca (Conto), de Clóvis Beviláqua


 Miloca

A febre tinha começado à tarde, com arrepios de frio e uma forte dor de cabeça. Nesse dia, Miloca estava mais impertinente que de costume, teve fantasias extravagantes, exigiu impossíveis, irritou-se, chorou, até que afinal, vencida pela fadiga, adormeceu numa rede de algodão, tecido em malhas finas, de azul e branco, em que o pai costumava dormir à sesta. Quando foram tirá-la daí, viram que uma febre intensa escaldava-lhe o corpinho tenro.

Tinha sete anos então. Cabelos castanhos caíam-lhe em cachos, da cabeça pequenina e bem feita, emoldurando um rostinho cheio, de ordinário pálido, mas a que o estado pirético dava agora uns tons rubros, de inglesa.

Quarenta e nove dias esteve enclausurada no quarto. Durante todos eles, vinha o médico tomar-lhe o pulsinho magro, passava-lhe a mão pelos cabelos e sobre a testa, acariciando-a, e, depois escrevia uma receita.

— Olhe beba isto que fica boa. Mas ela tinha horror ás poções, aos xaropes, ao quinino, a tudo. Então ele, pachorrento e bondoso, sentava-se na cama, ao lado dela tirava do bolso uma boneca, um brinquedo, um mimo qualquer, dizendo: — eu lho dou, mas é preciso tomar o remédio. Ela punha-se a chorar, queria a boneca, mas não queria beber aquilo que era muito ruim. Ele insistia, que bebesse, que não era mau, e fingia tomar um gole para animá-la. Afinal a pobre pequenita segurava no copo, fechava os olhos, e, fazendo as carantonhas mais cômicas, ingeria a beberagem.

O pai e a mãe estavam sempre ali, ao lado delia, afagando-a, prometendo quinquilharias para ela se acomodar, para aceitar os remédios.

Vendo-se alvo de tantos desvelos, envolvida numa atmosfera tépida de lisonjas e submissões, tornou-se caprichosa.

Um dia quis almoçar nuns pratinhos de boneca. Colocaram-se as fatias torradas num piresito, o chá num bule mínimo, ela derramou-o, gravemente, numa xícara do tamanho de um dedal de moça, e não houve hipótese de fazê-la repetir a operação. Uma senhora, entendia de si para si, não devia tomar mais de uma chávena de chá. Nos dias de festa em sua casa, ou nas casas de cerimônia, nunca tinha visto moça alguma cometer tal despropósito.

Depois a febre cedeu. Mas ainda não consentiram que ela estendesse o seu passeio além da alcova, uma vasta peça, é certo, porém, ainda assim, uma prisão.

Espreitava pelas frestas da porta e via, lá fora, o azul vasto e límpido, que ia morrer tão longe, tão longe, como que a convidá-la para uma carreira pelo campo. No jardim, uma rosa se abrira e estava a fitá-la, com uma fisionomia alegremente expansiva, a sorrir, nacarada e fresca.

Que saudades lhe vinham de sua liberdade travessa, que ímpetos de saltar, de correr, de brincar, com as outras pelo quintal, de contemplar o largo rio rolando, sereno e majestoso, a sua enorme massa d'água, de ir à missa com seu vestidinho novo, de ver os pássaros em revoadas alegres perderem-se na mata, de alargar a vista pelo espaço sem fim, de sentir a vastidão do mundo, embriagar-se de ar, afogar-se em luz!

Afinal sua mãe veio dizer-lhe: — hoje pode cair; mas não vá apanhar sol.

Ela veio saindo, um tanto trôpega, morosa, muito magrinha, com os olhos claros muito abertos, achando em tudo um ar de novidade. Depois correu ao jardim, percorreu todos os cantos da casa, foi à porta da frente, olhou a rua, tomando posse... Agora sim, podia brincar a larga, voltar à vida de outrora, feliz e livre, sem remédios amargos e sem as reclusões mais amargas ainda em sua insipidez.

No rostinho descarnado de convalescente, cintilavam de alegria os olhos pretos; os lábios encurvavam-se num sorriso perene nunca fora tão ruidosa em seus brincos infantis.

Numa só hora revivera os dias que passara jungida ao leito pela moléstia pertinaz.

Porém, quando mais intensa lhe ia n'alma a doce alegria da liberdade, o prazer de ter revivido, aflando-lhe o regaço de criança, surpreendeu-lhe uma lembrança ingrata que a fez estatelar um instante, suspendendo o folgar, banhada numa onda de gelo interno. E' que vira, sobre uma banqueta, na sala de jantar, o seu terceiro livro de leitura, a sua lousa, o seu caderno de escritas, cobertos de pó, esquecidos e lembrou-se dos aborrecimentos, dos dissabores que já lhe haviam dado, e por eles imaginou os que lhe dariam ainda.

E viu que sua liberdade tinha peias, que seu prazer tinha espinhos.

Ah! se não fossem os livros!... Ah! se não fosse a escola !...

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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