quarta-feira, 29 de maio de 2019

A Flor da Tuberosa (Conto), de Clóvis Beviláqua



A Flor da Tuberosa

Era uma flor como nunca vi outra. Não é que fosse maior, nem mais nevada, nem mais perfumosa do que as suas congêneres. Mas é que, no recorte das pétalas, no engaste dos sépalos atrofiados, e no próprio aroma, havia alguma coisa de peculiar, de individual, que a distinguia, de todas, ao primeiro lance de olhos.

Não pude bem explicar esse fenômeno, porém muitas vezes ele me provocou longos cismares, demoradas cogitações. Pensei, muitas vezes, no panteísmo e imaginei que podia bem ser aquela flor uma das válvulas poderosas por onde a essência divina imanente no universo achava mais grato manifestar-se. Mas se o panteísmo é um desvario religioso, podemos negar, em absoluto, que a matéria seja animada de uma vida própria, que o hilozoísmo seja a verdade primordial, mas intangível, a grandiosa realidade que se esconde eternamente sob a enganosa aparência dos fatos que nos impedem de ver por traz deles a força que os move? E, se for assim, porque se condensará maior e melhor porção de vida na substância nervosa de nosso encéfalo do que nos tecidos delicados duma flor?

Certa filosofia nos diz que não conhecemos das coisas senão a feição pela qual elas nos afetam, aparências mudáveis, insubsistentes, a que deve corresponder uma substancia que nos escapa eternamente, embora a possamos sentir palpitar sob as evolutas intermináveis das eternas metáboles do universo. E antes que os ocidentais concebessem esse modo grandioso e profundo de interpretar a natureza, já na índia ele se impunha à generalidade dos espíritos pensantes, sob a denominação de Mahamaia, perpetua ilusão, fantasmagoria irredutível que envolve e esconde a verdade inaccessível para nós, e que somente as inteligências privilegiadas podem suspeitar. Neste pensamento elevado e comovente se põem de acordo os sectários da religião bramânica e os da religião budista.

E, se for assim, se esta for a verdade suprema de uma concepção do mundo que se aproxima da realidade, que mistérios inesgotáveis e intraduzíveis mesmo no gemer dos ventos, no cintilar dos astros, no colorido das flores, na inconstância das nuvens que se esgarçam ou se condensam no espaço por cima de nossas cabeças?

Tais pensamentos e muitos outros ainda agitavam se em meu espírito, tomavam voo, em tumulto, confundiam se, desapareciam e depois voltavam, como os pombos que esvoaçam em torno do pombal amigo, saindo com um fragor de asas e voltando em seguida mais plácidos, para visitarem os ninhos tépidos que lá ficaram.

Mas deixemos esses pensamentos e falemos da flor que os suscitou.

Eu gostava muito de vê-la, com suas longas pétalas muito alvas, pendida na haste esguia, numa curva tristíssima, como quem já perdeu as esperanças e as ambições, sempre aljofrada de límpidas gotas de orvalho, que tinham, no branco acetinado de sua corola, a profunda tristeza de uma lagrima humana.

Nascera a planta na fenda de um rochedo escarpado, sem vegetação, açoitado cruamente pelo sol. Aí, isolada como ela, também desabrochara a flor, a única que jamais produzira, que lhe esgotara todas as energias, — a branca flor que eu amara, a mimosa angélica.

Lambendo, como um cão humilde, o pé do alcantil, desusava um tênue fio d'água cristalina e murmurosa que, aos raios do sol, tinha cintilações metálicas, de um brilho áspero, vivíssimo.

E a meiga flor abandonada, no azedume da dor intima que a consumia, inclinava-se para a água, como si a dominasse um pensamento suicida.

Que fundo pesar ninaria a frágil existência daquela mísera e bela flor? Como parecia sofredora! Por que exilada do jardim, ali viera expandir a vida mesquinha?...

Eu a amava mais assim...

Transparecia-lhe do todo um íntimo desgosto e eu sentia que a amava mais por vela infeliz.

Um dia desprendida do caule, caiu n'água a branca flor. Um lampejo de alegria iluminou-a então... Ou talvez fosse um raio de sol que se insinuara por entre suas pétalas. Mas é certo que elas se animaram num gozo de vida mais alegre, e a flor desceu vagarosamente o curso do regato, boiando venturosa à flor das águas.

Além, muito além, mimosa mão de moça a colheu.

“Vou viver feliz, dizia baixinho a flor, palpitando entre os dedos rosados. Mais vale um momento aqui entre estes dedos cetinosos ou ao calor do seio desta virgem tão bela do que uma vida inteira no isolamento daquele duríssimo rochedo.”

A moça apanhou-a, mirou-a, aspirou-lhe o perfume, e, depois, esmagou-a entre os dedos dizendo: “está murcha, é pena.” E seguiu seu caminho, sem mais lembrar-se da mísera.

Dias depois eu fui visitar, como tinha por hábito, minha velha amiga, a planta. Já amarelecendo as folhas, ia morrendo lentamente sem poder soltar um queixume que eu entendesse. Deve ser dilacerantemente triste a magoa que se amordaça no silêncio...

Inclinada ainda sobre o pequeno arroio, olhando insistentemente para o lugar onde caíra a flor, a única que jamais produzira, que lhe esgotara todas as energias, parecia interrogar por ela, com a dor funda e alucinante da mãe a quem morreu a filha.

Em torno, a natureza era muda e fria; e o regato descia murmurando por entre as lajes, como a rir.



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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)
Imagem: Clóvis Beviláqua por Leopoldina Celli

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