quinta-feira, 23 de maio de 2019

Monteiro Lobato: Literatura de cárcere (Ensaio)



Literatura de cárcere

De século em século opera-se uma revisão nas ideias humanas e vai para o refugo muita coisa tida antes como verdade absoluta. Hoje, por exemplo, temos como líquido que é justiça pegar num homem, fazê-lo julgar por juízes e metê-lo por dez, vinte, trinta anos num calabouço. A verdade de um século atrás era que isso se fazia como castigo. Essa verdade foi para o refugo, substituída pela verdade de hoje: não castigo, mas defesa social. A verdade futura será bem outra, visto como se patenteiam dia a dia o inócuo desta defesa, o seu resquício de crueldade medieval e a sua falta de correspondência com o grande ideal moderno que é produzir.

Inócuo da defesa, porque, cumprida a pena, o condenado se torna muito mais perigoso, graças à maré de ódio que lhe encheu o peito. Cruel porque não há distinguir entre um apodrecimento em vida e uma tortura da inquisição. Antieconômica porque retira da produção uma unidade e fá-la peso morto, a cargo dos que produzem.

Para julgar o nosso sistema de defesa social basta uma pergunta: a quem aproveita a reclusão dum ser humano? À sociedade? Não, porque vai pesar sobre ela na sua categoria de não-produtivo à força. À vítima, ou à família da vítima do ato delituoso? De forma alguma. A si próprio? Não é matando o coração de um homem que o tornamos melhor homem.

Não aproveita a ninguém; no entanto, o peso tremendo da nossa infinita estupidez perpetua esse regime — e agrava-o, hoje que de vasto hospital passou o Brasil a vasta masmorra.

Só em São Paulo há qualquer coisa que denuncia inteligência e nobre compreensão do problema.

A penitenciária como existe lá, amplíssima oficina de ótimo aparelhamento técnico, capaz de atenuar o horror da reclusão pelo trabalho remunerativo, deixa-nos entrever quão diferente será no futuro o regime penal. São Paulo já é século vinte; o Rio e o resto do Brasil inda é Pina Manique puro.

Há dias, nesta coluna, falei de Amador Santelmo, uma das vítimas da incompreensão reinante em matéria penal. Referi-me a um seu livrinho que não terá nunca prêmio da Academia — mas que comove estranhamente como expressão ingênua da dor dos triturados.

A reclusão é uma singular reveladora da alma humana! Revela-a, sobretudo, a si própria. E Santelmo, que, cá fora, livre, jamais teve olhos para uma mariposa, na prisão enterneceu-se com uma, viu nela uma companheira, compreendeu um pouco do universo. Esta página sua merece ser transcrita.

“Um companheiro de infortúnio teve a delicada lembrança de mandar-me uma gentil mariposa dentro de uma caixinha. Tirei-a da caixa e coloquei-a sobre uma toalha felpuda, na minha cama, esperando que ela se fosse para sua casa, mas não foi.

Pareceu-me que não gostava muito da toalha, porque passeava com dificuldade, embaraçando-se nos fios crespos e arrastando sobre eles o seu vestido de noiva.

Abri então uma folha de papel almaço, onde a botei a passear. Gostou, pois mostrou-se mais contente, andando mais desembaraçada, sempre a arrastar o vestido branco, mas sem sair do papel.

Horas passei assim, vendo-a passear, esperando que ela fosse para sua casa, mas não ia.

Eu por um lado não queria que ela se fosse; por outro queria, porque havia de ter alguém à sua espera.

Vendo que Nívea (eu já a tinha batizado e foi sua madrinha o retrato de uma pessoa que tinha comigo), vendo que Nívea não se ia embora, julguei que tivesse fome e dei-lhe pão, porém ela não comeu. Dei-lhe fruta, e também não provou. Não sei que é que comem estes bichinhos de Deus!

E assim passamos o dia. Eu estava contente por ter uma companheira com quem conversar. E tão gentil! Tinha o corpo bem feito e o vestido branco enfeitado de arminho.

Por que não se ia ela embora, ver seus parentes ou filhos que a esperavam? Estaria zangadinha com o marido?

Entretanto a noite chegou sem eu dar por isso. A lâmpada do cubículo acendeu-se e a mariposa, a gentil Nívea, agitou-se satisfeita, abriu as asas, sacudiu o vestido branco, mostrando a graça do seu lindo corpo, e ergueu voo em direção à lâmpada. E ficou num doido corrupio em redor da luz.

Que mistério terá a luz que tanto atrai as mariposas? É como o sol, que atrai os mundos, os olhos, o coração...” 

Há alguma coisa neste analfabeto que aprendeu a ler consigo no cárcere e saiu escritor.
Outra página interessante é a que fala dum vigarista.

— “Estou preso por passar o “conto” em quem o queria passar a terceiros.

Imagine que o otário comprou-me dez contos de notas falsas por dois bons. Ora, eu que não quero “trabalhar” com “mixas”, e antes quero ser pirotécnico ou fabricante de dinamite do que pegar em notas falsas, vendi-lhe, em vez de notas, papel branco em pacos. Ele é que devia estar aqui, porque queria notas falsas para passar. Quem é então o vigarista?

Mas nem por isso lhe quero mal. Todos no mundo passamos o conto do vigário. Passa o conto o negociante que vende um gênero por outro, o padre que reza sua missa, o doutor que mata o doente, o marido que engana a mulher, a moça que engana os homens com seios postiços, o jornal que mente, o cinema que faz reclame, o governo que desgoverna.

E até Deus passa o conto mostrando um céu azul, que não é azul, um mar verde, que não é verde, estrelas que não são estrelas, a luz da lua que não tem luz, e até a vida, que é um conto do vigário, pois não passa de um sonho, um pesadelo neste planeta de misérias.

Mas o caso típico do conto é o conto do casamento. O Sr. vê uma mulher, gosta dela, namora, casa. Na noite de núpcias já veem os dois o conto em que caíram, porque a mulher também caiu no conto do homem. E quando isto não acontece, vem depois o conto do filho adulterino.

Ouvi enervado o aranzel filosófico do vigarista e depois perguntei:

— É também vigarista o juiz que pune os vigaristas?

— E dos bons! O juiz é um vigarista ilustre que a sociedade elegeu para passar o conto nos vigaristas pequenos, que passam o conto nos vigaristas grandes...

Pouco a pouco foi-me ele convencendo de que a vida é uma interminável cadeia de contos do vigário. Por fim disse-lhe:

— Contudo o senhor vai sofrer aqui as consequências do conto do juiz.

— Está enganado! respondeu-me. O meu advogado, que é um vigarista insigne, vai passar o conto no juiz e eu tenho que ser posto em liberdade pelo conto do habeas-corpus, que é o conto do vigário que a Lei passa na Justiça...” 

Para nós não é assim. Mas para uma inteligência divina, bem pode ser que seja assim...



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In: Na Antevéspera
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019) 

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