sexta-feira, 17 de maio de 2019

O afilhado de Santo Antônio (Lenda Portuguesa), por Teófilo Braga



O afilhado de Santo Antônio

Um homem tinha muitos filhos, e já não tinha a quem convidar para compadre; nasceu-lhe mais um, e ele disse: — Seja teu padrinho Santo Antônio. O pequeno cresceu, e andava com os outros irmãos no monte, quando se perderam e foram dar a uma cabana, onde morava uma velha, que lhes fez muita festa:

— Entrai para aqui, meus meninos, que eu dou-vos biscoitos.

Os pequenos entraram; a velha assim que os apanhou de dentro meteu-os dentro de uma arca, para os engordar e comer depois. De vez em quando dizia:

— Botai de fora o dedinho.

O afilhado de Santo Antônio metia pelo buraco o rabo de um ratinho que tinha apanhado e a velha deixava-os ficar mais tempo; por fim o rato fugiu, e a velha vendo que estavam gordos, abriu a caixa e disse:

— Ide-me, meus meninos, buscar uma manadinha de lenha.

Quando eles andavam à lenha, veio Santo Antônio, e avisou-os, que a velha o que queria era assá-los no forno porque ela não tinha amassadura; e que a tudo quanto ela lhes mandasse fazer, dissessem sempre que não sabiam, e que ela os ensinasse. Foram para casa; a velha atarracou o forno de lenha, e aqueceu-o; depois foi buscar a pá, e disse para os pequenos:

— Saltai aqui um bocadinho.

— Saltai vós, tia, primeiro, para sabermos como é.

A velha põe-se a saltar na pá, e os pequenos à uma pregam com ela dentro do forno, dizendo:

Pela graça de Santo Antônio
Carregue-se para o inferno este demônio.

Assim que a velha começou a arder, saíram-lhe dos olhos dois cães lobados, que ficaram à obediência dos meninos e caçavam toda a caça para eles. Soube-se que havia um dragão numa terra, que comia uma pessoa por dia, e tocava a vez à filha do rei. Ora o rei dava a filha em casamento fosse a quem fosse que a salvasse. O afilhado de Santo Antônio foi com os seus cães lobados e matou o dragão; cortou as pontas das sete línguas, e soltou a princesa. Quando o rei viu a filha, clamou:

— Quem foi que te deu a vida?

— Foi um pobre rapaz, com dois cãezinhos que trazia.

O rei deu ordem que viesse à sua presença o rapaz; mas um embusteiro que tinha cortado as cabeças do dragão é que se apresentou; o rei queria que a filha casasse com ele. Ela não quis, e pôs-se à janela a chorar, quando passou o rapaz:

— É aquele, meu pai. É aquele:

O rei chamou-o; veio todo envergonhado, e ainda trazia as pontas das línguas do dragão. Não havia que duvidar; fez-se o casamento com a princesa, e foi o afilhado de Santo Antônio que fez feliz toda a sua família.

(Airão)

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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