quarta-feira, 8 de maio de 2019

O cego e o moço (Conto), de Teófilo Braga


O cego e o moço
Um cego andava pedindo esmola pela mão de um moço; a uma porta deram-lhe um naco de pão e um bocado de linguiça. O moço pegou no pão e deu-o ao cego para metê-lo na sacola, e ia comendo a linguiça muito à sorrelfa. O cego, desconfiado, pelo caminho começa a bradar com o moço: 
– Ó grande tratante, cheira-me a linguiça! Acolá deram-me linguiça e tu só me entregaste o pão. 
– Pela minha salvação, que não deram senão pão. 
– Mas cheira-me a linguiça, refinado larápio! 
E começou a bater com o bordão no moço pancadas de criar bicho. O moço era ladino e disse lá para si que o cego lhas havia de pagar. Quando iam por uns campos onde estavam uns sobreiros, o moço embicou o cego para um tronco, e grita-lhe: 
– Salta, que é rego. O cego vai para saltar e bate com os focinhos no sobreiro. Grita ele: 
– Ó rapaz do diabo! Que te racho. 
Diz-lhe ele: 
Pois cheira-lhe o pão a linguiça,
E não lhe cheira o sobreiro à cortiça?

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