sexta-feira, 10 de maio de 2019

O enterro de uma fada (Conto), de Wenceslau de Queiroz


O enterro de uma fada

Morreu a fada Azilka!

Nas folhas brancas de um lírio, quando pela manhã muito cedo regava as flores do meu jardim, deparou-se-me para o enterro o seguinte convite:

“Morreu fada Azilka! Convidam-se todas as flores, todos os gênios do ar, todas as aves, enfim, todos os parentes e amigos da finada, para assistirem ao saimento que será às dez horas da noite, quando o crescente fúlgido da lua difundir doloroso e suave clarão nas áleas areadas do jardim.”

Estranho espetáculo, pensei comigo, deve ser o enterro de uma fada.

Nessa noite, à hora marcada para o enterro, dei-me pressa de entrar em casa. Procurei uma janela que desse para o jardim, e por uma fisga da vidraça, convenientemente encoberta por uma cortina azul, obliquei o meu olhar curioso.

O enterro já desfilava na álea principal do jardim: para o outro lado do préstito moviam-se em fila os pirilampos com as competentes lanterninhas de duas luzes; escaravelhos e grilos, de cor escura, como vestidos de luto, caminhavam na frente, tocando estes uma marcha fúnebre, tristíssima e monótona composição de um grilo-maestro, já falecido; ao centro do préstito, quatro besouros, negros como carvão, carregavam o féretro — uma pequenina pétala de rosa, onde se via, mãos em cruz sobre o alvíssimo colo, a fada Azilka; e, finalmente, logo atrás do caixão fúnebre, desfilava um acompanhamento enorme de rosas, de violetas, de clematites, de anêmonas, de lírios, de dálias, de cravos, de margaridas, de cecéns e outras flores, vindo em seguida as aves, uma variegada quantidade de aves, e depois os insetos, e depois... Estranho espetáculo!

Maravilhado, comovido, encantado de tal arte eu fiquei, que o enterro da fada Azilka se transformou inteiramente diante de meus olhos; já eu não via o enterro de uma fada... Ah! eu te via, ó minha amada, naquele caixãozinho de pétala de rosa; tuas mãos, pálidas como os círios dos templos, ali estavam; os teus olhos, a boca, o seio, os cabelos, tudo que te pertenceu outrora.

Com os olhos amarados de lágrimas, quando a saudade funda me bateu no peito como um sino em remota ermida, quando senti diante de mim aparecer o teu vulto branco, ó minha querida morta — saí de junto da janela e caí de bruços sobre o leito, abafando soluços no travesseiro.

Assim nem pude ver o lugar em que enterraram a fada Azilka.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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