quinta-feira, 30 de maio de 2019

O noviço (Conto), de Adolfo Caminha



O noviço
Metia pena deveras o pobre noviço, muito criança, imberbe ainda, rosto liso e sedoso como o de uma mulher nova, olhar frio e indiferente, arrastando sua triste batina de jesuíta naquele úmido esconderijo, de fera, que a luz ourejava com medo...
Oscar de Miranda tinha dezoito anos quando entrara para o convento de São Francisco das Chagas, medonho casarão perto do mar, com uma cruz no alto, cheio de mistério e de silêncio.
Um grande e impenetrável segredo envolvia-lhe a mocidade, trancando-o às alegrias do mundo e às sensações da carne.
Sua mãe, pobre viúva, que morava num casebre da Rua das Trindades, ao pé de uma igreja, levava melancolicamente uma existência de miséria e desgosto, suspirando pela morte, gemendo sua velhice inconsolável. Coitada, muita vez largava-se a pedir esmolas para não padecer fome, porque a triste queixava-se de umas dores na espinha, que a não deixavam trabalhar muito nas suas costuras e nos seus bilros. O filho, o ingrato Oscar, fugira-lhe de casa uma noite (que noite aquela!) e nunca mais voltara.
— Filho sem coração! maldizia nas horas de desespero. Deixar-me sozinha com o meu sofrimento, nesta miséria, neste desamparo...
E chorava, a pobre velha chorava amargamente o seu abandono, a sua dupla viuvez.
De Oscar sabia-se apenas, e muito mal, que entrara num colégio de jesuítas sem dizer nada à mãe, sem comunicar a pessoa alguma. Atribuíam-se-lhe umas poesias cheias de santidade que andavam nos jornais daquele tempo, e onde cada verso palpitava como um coração apaixonado e cada estrofe tinha um sabor amargo de lágrimas... O pai morrera doido num hospício de província; metera-se-lhe na cabeça que tinha visto Jesus Cristo em pessoa e que o mundo havia de se acabar num sexta-feira da Paixão. Quando chegava a Semana Santa o acesso era certo: confessava-se, não saía à rua, esperando o grande cataclismo. Ainda na hora da morte lembrou à irmã de caridade que o fim do mundo estava próximo.
Os jesuítas queriam muito ao noviço, ao "pobre menino" porque ele, Oscar, sabia cumprir com os seus deveres religiosamente e passava a maior parte do tempo ajoelhado no altar-mor, defronte do Redentor da humanidade, batendo beiços, a rezar, a rezar, como quem nada espera da vida...
A comunidade havia-lhe concedido, a muito custo, uma triste cela nos fundos do convento, junto à estrebaria — um pequeno quarto úmido e triste, sem janelas, ninho de ratos e de morcegos.
O menino estava muito bem ali, dissera frei Tiago, o superior. O convento é o purgatório da vida. Era preciso esquecer o mundo completamente, absolutamente, viver só para Deus. Mais tarde, quando o menino ficasse homem, então, sim, dava-se-lhe um comodozinho mais claro, mais largo e arejado... Ele, frei Tiago, também sofrera muito no princípio, logo ao entrar para a ordem, como não? No começo a gente padece, depois tudo corre melhorzinho...
E o noviço passava noites e noites acordado, à luz bruxuleante de uma lamparina de azeite, manuseando impressos religiosos, velhos "Fios Sanctorum", crônicas seculares, a vida de Jesus... ora a olhar o teto, — o pensamento perdido no ar, imóvel, calado, numa adinamia de todos os sentidos. Muitas vezes os guardiães da ronda iam surpreendê-lo no seu recolhimento, alta noite, quando só se ouvia o badalar sonolento da sineta, de hora em hora, e a respiração larga e sibilante dos rotundos missionários.
Por fim Oscar foi perdendo a cor primitiva e sadia do rosto, o brilho triunfante dos olhos, a maciez sedosa da pele, a sensibilidade de certos órgãos e tornou-se uma criatura à parte na humanidade, um ente nulo, sem vontade e sem energia viril, como os loucos, cada vez mais langue, muito pálido, um laivo roxo nas olheiras, galvanizado na sua invariável sotaina preta, onde já havia manchas de cera e traços de miséria. Se a mãe o visse, com certeza não reconhecia naquela abjeção de homem o seu filho querido...
No escuro e cavernoso pátio do convento brilhava às vezes a luz tímida de uma vela — era Oscar, o noviço, que ia dar de comer aos animais, — um cavalo velho e uma jumenta, que tinham pertencido a outras gerações de frades. Obrigaram-no a isso e a muitas outras coisas tristes...
— É preciso sofrer, é preciso sofrer com paciência, repetia frei Tiago. Cristo morreu por nós. Bem-aventurados os que padecem na terra: deles é o reino do céu...
Havia, porém, outros frades de gênio alegre, espíritos folgazões, que se divertiam à custa do noviço.
— Anda, vai dar de comer aos bichinhos... Bem-aventurados os que se compadecem de seus semelhantes...
— Já foste à cavalariça, ó lambisgoia? O cavalo de frei Tiago está te esperando...
E riam num deboche franciscano, à refeição.
O outro sofria, sem dizer palavra, o debique dos jesuítas.
Aconteceu, uma noite, que frei Tiago foi encontrar o noviço chorando com a cabeça entre as mãos e a murmurar uma lengalenga sem sentido, frases incompletas, de idiota, cortadas de soluços.
O frade, que ainda tinha uns restos de piedade lá bem no fundo de sua alma, aproximou-se devagar, no bico dos pés e pôs-se a escutar, muito admirado, cheio de interesse, aquele monólogo incompreensível.
Pouco a pouco Oscar foi-se ajoelhando defronte de uma imagem da Virgem, que havia na cela, e, mãos postas, o olhar pregado à parede, os lábios trêmulos, vibrando nervosamente, delirava como um alucinado. Saíam-lhe da boca invocações, queixas, preces, mágoas de um misticismo evangélico e logo pragas, ameaças, blasfêmias horríveis.
— Jesus! saltou de repente o superior. Que é isso, filho? E a sua voz conselheira e repreensiva a um tempo foi como uma forte mordaça que tivesse cosido a boca ao neófito.
Fez-se de chofre um silêncio grave, um triste silêncio de ergástulo, profundo e melancólico. O esguio perfil do velho esbatia-se na parede fantasticamente, com a sua longa barba em ponta, o capuz triangular caído para trás.
O noviço imobilizara-se aterrado.
— Levante-se, criatura, tornou o monge compadecido.
Oscar fez meia volta sobre os joelhos e abraçando as pernas do outro, beijando-lhe as mãos, aflito, desesperado, suplicou:
— Perdão, frei Tiago, perdão pelo amor de Deus. Ela está no céu, essa que morreu por minha causa, alma de minha alma, irmã de Nossa Senhora. Eu amo-a contudo, porque ela é a minha Maria Santíssima, rainha de meu coração, vera-efígie da mãe de Jesus...
— Filho, que é isto?! Estás louco, perdeste o juízo? Acalma-te, ergue-te!
Debalde frei Tiago procurava suspender pelo braço o pobre moço. Oscar pesava mais que chumbo, e arrojava-se-lhe aos pés com uma fúria selvagem, proferindo absurdas imprecações, em que passavam queixas de amor...
— Insensato, quanta blasfêmia!
O velho monge tapava os ouvidos horrorizado, indeciso, pedindo a Deus que aparecesse alguém para o socorrer naquela aflitiva situação.
Mas havia um silêncio de sepultura no pátio e nos corredores do casarão entregue ao sono da meia-noite.
Entretanto, era preciso resolver alguma coisa. Aquilo não podia continuar. Decididamente o rapaz estava doido. Fez um grande esforço para arredar o noviço, cujos músculos pareciam de ferro e, depois de uma luta de momento, breve, mas encarniçada, pôde evadir-se, abalando por ali fora, cheio de pavor, assombrado, como um assassino que foge à própria sombra.
— Espera! Espera! prorrompeu o noviço, perseguindo-o. Espera, frei Tiago! Quero-te estrangular, foste tu que me prendeste aqui dentro... Espera, demônio!
Mas tropeçou na carreira que levava, e estendeu-se no chão com todo o peso do corpo, abertos os braços formando uma cruz negra.
Surgiram luzes por todas as portas. O convento inteiro acordara com o barulho, espavorido, sobressaltado.
E, ao lívido clarão das lanternas, aquele corpo magro e sumido, entulhando o pacato corredor, inerte sobre as lajes, tinha o aspecto sinistro de um crime noturno...
Oscar de Miranda estava numa postura de crucificado, peito sobre o chão de granito. Morreu instantaneamente, jorrando sangue pela boca.
Ao redor do cadáver moviam-se os frades numa azáfama acelerada, sombrios, lúgubres, entrecruzando-se no corredor sem fim, multiplicando-se em sombras, como uma fantástica legião de demônios.
Só então foi descoberto o mistério que pesara sobre o coração de Oscar: — um primeiro amor discreto e malogrado. Lá estava, a um canto da cela, dentro de uma simples caixa de ébano, toda a história banal e pungente dessa paixão ignorada, que frei Tiago narrara agora com uma pena tocante:
— Ninguém suspeitara tal coisa, dizia ele. Uma loucura, uma verdadeira loucura!
A crônica limitou-se a registrar o fato com a fria simpleza de um depoimento.


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Digitalização, pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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