quinta-feira, 30 de maio de 2019

Redivivo (Conto), de Domingos Olímpio


Redivivo
Leonardo Pereira era um velho agiota, um desses ferozes egoístas, que perpetuam a lenda dos milagres de poupança produzindo milhões por vinténs acumulados, grandes fortunas, em cujos alicerces misteriosos se encontra, quase sempre, um crime, como pedra angular.
Todos os atos de sua triste vida de solitário, roído pelo verme da desconfiança, que é um miasma do isolamento, estavam subordinados a regulamentos e horas certas com uma disciplina, um rigor austero, que constituíam a essencial preocupação do seu desolado espírito.
— O tempo, o nosso rico tempo — costumava ele exclamar quando o caceteavam com prolongadas lamúrias — é o mais precioso dom de Deus.
Como não tivesse mulher, nem filhos, nem afeições, que o distraíssem dos métodos adotados, podia observar, sem mínima discrepância, as prescrições a si mesmo impostas, no intransigente empenho de conservar a saúde, prolongar a existência e, principalmente, poupar o dinheiro amontoado com muita limpeza, com indizíveis sacrifícios.
Gabava-se de não ter gastado um vintém com doutores e drogas. A sua sobriedade arquiespartana o preservara das indigestões, dos efeitos dos condimentos irritantes, das intoxicações pelo álcool, pelo tabaco, e das dispepsias consecutivas a tais desregramentos sólidos e líquidos.
Parecia construído de ferro aquele homenzinho, mirrado como um cigarro vazio, metido consigo, com a sua lisura, as suas hipotecas e as suas apólices, tendo por gozo único a inefável delícia de ver proliferar o seu limpo dinheiro, regado com o suor do rosto engelhado, como um pergaminho amarrotado, e à custa de abstinência daquilo que constitui, para os outros homens, a alegria do viver.
Nunca lhe passara pelo coração o arminho de um afeto, nem a garra da paixão nele deixara dolorosa cicatriz. Nunca lhe ensombrara o lume vivo e plácido dos pequenos olhos amarelos de ave de rapina a sinistra visão de mulher cobiçada. E, não conhecendo o acre sabor capitoso dos frutos dos pomares do amor, refratário ao aguilhão dos desejos despóticos, não tendo depurado a alma no crisol do sofrimento, não se compadecia das dores alheias, das mágoas cruciantes, que foram, muita vez, rebentar junto dele em lágrimas, como rebenta em flocos de espuma o escarcéu do dorso impassível da rocha.
Achava nimiamente ridículo o pranto, a imprecação contra a sorte mesquinha, as lamentações da pobreza envergonhada, os transes mortificantes das acerbas necessidades da família, as opressivas injunções da honra e do dever.
Quando lhe expunham contingências irremediáveis de acudir mulher doente, educação de filhos, adquirir o pão ou enterrar algum deles, respondia placidamente:
— Por que não fez como eu? Olhe, meu amiguinho, eu não passo por semelhantes maçadas... Vocês comem a polpa saborosa e se engasgam com o caroço da fruta.
Quando lhe inchava a ambição espicaçada pelo excessivo lucro em perspectiva, e garantido por meticulosas cautelas, ele fazia o negócio, ponderando invariavelmente:
— Veja bem que lhe empresto o meu limpo dinheiro de cara alegre; não faça cara feia quando lho cobrar. É bem certo que quem dá se parece com Deus: quem cobra tem feições de Satanás.
Não tinha amigos para não passar pelo dissabor de perdê-los: os amigos são ilusões que fogem depois do primeiro empréstimo.
Um dia, ao regressar da Caixa da Amortização, o rígido velho esteve em risco de ser esmagado pela colisão de dois caminhões, em disparada, na confluência das Ruas Direita e dos Pescadores. Salvou-o, milagrosamente, um guapo cavalheiro; mas, ao chegar a casa, verificou faltarem vinte contos do dinheiro recebido.
Leonardo ficou como cobra que perdeu o veneno: gritou; berrou como um possesso; voltou ao sítio do sinistro a procurar o maço de dinheiro, e passou muitos dias e noites pelas ruas, cafés, restaurantes e, até, pelos teatros, a ver se encontrava o caridoso salvador, de quem suspeitava.
Todas as pesquisas, feitas por ele, pessoalmente, ou com o auxílio da polícia, foram infrutíferas. E o desgraçado, sacudindo todo o organismo anquilosado pela tortura dessa mágoa, entrou a sofrer crises, em que, aos acessos de melancolia, sucediam superexcitações de epilético, perseguido pela visão diabólica do guapo cavalheiro, ou refinado gatuno, desperdiçando em orgias, cercado de: formosas mulheres lúbricas e radiante de gozo, o rico dinheiro, um pedação de sua alma mesquinha.
Melhor fora ter morrido, triturado pelas pesadas rodas e pelas patas dos burros.
Depois de alguns meses desse penar atroz, numa fulgurante manhã de junho, a sol alto, o velho permaneceu encerrado no quarto.
A megera, que exercia junto dele todas as funções domésticas, ficou sobressaltada com essa primeira infração tio ferrenho regulamento, e comunicou o estranho fato à vizinhança, muito interessada no desenlace trágico daquela existência, inútil para ela e para a sociedade.
Houve enorme rebuliço de curiosidade perversa. Encheu-se a casa. Os parentes, separados do velho por ódio intransigente, acorreram pressurosos ao faro da herança, agradecendo, sinceramente, piedosamente, a Deus, o haver liquidado aquela criatura, que não iria parar ao inferno por não ter alma: era um pedaço de carne seca que apodreceria, inspirando repugnância aos vermes e à própria terra da cova que tivesse a desgraça de o encerrar.
Chamada a polícia, foi arrombado o quarto com todas as formalidades legais.
O desgraçado estava estirado no leito sórdido, hirto, inerte, na placidez do derradeiro sono, conservando, nos lábios lívidos, aquele terrível sorriso, com que emprestava a dez por cento ao mês o rico dinheirinho, bem limpinho e amalgamado com o honrado suor do rosto.
Morrera sem sofrer, sem agonia, por uma absurda injustiça do destino, pois a opinião geral era que ele deveria morrer aos poucos, martirizado por um cancro, ou uma dessas moléstias atrozes, que vão mastigando, lentamente, uma a uma, todas as fibras do organismo. Os parentes sugeriram, logo, a busca do testamento, a arrecadação dos bens e os preparativos do enterro, ' mas a criada, por instinto ou pelo desespero de ver desaparecerem com aquele cadáver o teto, o pão, a roupa, exigiu a presença de um médico: ao que a polícia acedeu por ser indispensável a verificação do óbito.
Defunto sem choro era triste, quanto mais sem médico, quando lhe sobravam posses para essa derradeira extravagância.
Penetrando no quarto mortuário, como quem vai convicto de não ser útil, o médico mandou abrir portas e janelas para que ar e luz lavassem a espelunca; ordenou fossem retiradas as roupas nauseabundas, molambos infectos, e ficou só no quarto, fitando olhos de professor no esquálido corpo, abrindo-lhe depois as pálpebras, palpando-lhe o pulso e curvando-se, solenemente, para auscultar-lhe o tórax.
Súbito um clarão de vitória irradiou no semblante do médico, e um grito terrível estrugiu nos ouvidos dos parentes atônitos, da criada aflita e dos curiosos desiludidos.
— Este homem está vivo!...
— Vivo?!... É possível?!... — bradaram todos numa explosão de assombro.
— Sim, bem vivo, tornou o médico. Trata-se de um caso vulgar de catalepsia...
Dentro em meia hora, após injeções e fricções, Leonardo respirou fatigado e voltou à vida, como quem desperta de pesado sono, e muito contrariado por ter ficado na cama como um mandrião, até tamanho meio-dia.
***
A segunda mágoa daquele homem anestesiado foi a de pagar um conto de réis ao médico, que o salvara.
Pagou, depois de muito regatear, por lhe ponderar a criada — "que o doutor o arrebatara à morte terrível, ao martírio indizível de despertar dentro do túmulo ou de acordar morto. Demais era uma dessas despesas que se fazem uma vez na vida e outra na morte, porque isso de salvar um homem, ou ressuscitar um morto não é coisa que acontece todos os dias".
Desde aquele ataque, porém, Leonardo ficou apreensivo, dominado pela ideia fixa de adoecer outra vez, não pelo medo da morte, mas pela hipótese de lhe vasculharem a burra, e, principalmente, pela contingência de nova despesa.
Quebrara-se o encanto da saúde de ferro do empedernido capitalista: não tardou o segundo ataque, novas esperanças dos parentes, regozijo dos vizinhos, desespero da criada, desilusão sobrevinda pela intervenção do médico, e a conta de outro conto de réis.
— Se isto continuar assim, — murmurou Leonardo com pranto na voz angustiada — toda a minha fortuna será consumida em ressurreições!...
Depois da quarta crise, ele achou que era demais. Que fizera a Deus para ser assim castigado tão cruamente? Não; não era possível viver ameaçado daquela despesa... A morte, mil vezes a morte, irremissível, definitiva...
— Olha, Teresa — disse ele à criada — se eu adoecer à quinta vez não chames aquele doutor unhas-de-fome, que me rói por uma perna... Vai nisso a tua felicidade — um farto quinhão no meu testamento...
Ao quinto ataque, a vontade do homem foi respeitada. Teresa não tinha que se arrecear da miséria e bem se lhe importava que o generoso patrão voltasse à vida, o que já seria um escândalo.
Foi chamado outro médico, que atestou, a olho, — síncope cardíaca.
Um coche de primeira classe, à frente de longa fila de carruagens, conduzia para o cemitério do Caju o cadáver do usurário.
Seguia o préstito lentamente, imerso em nuvens de pó, ao trote fatigado de burros, banhados de suor, quando se ouviu uma voz desesperada a gritar:
— Para!... Para!...
Era o médico, que lera nos jornais a notícia do enterro, e vinha em um tílburi a desesperada carreira.
— Este homem está vivo! bradou ele. Não é a primeira vez que lhe acontece morrer!... Vão enterrar um vivo!...
— Horror!... exclamaram os convidados.
E, antes da intervenção dos parentes, que protestaram contra a perturbação da cerimônia fúnebre e a profanação do cadáver, o médico subiu ao coche, violentou o caixão e aplicou as injeções do costume ao suposto morto.
Despertando da catalepsia, Leonardo fitou, assombrado, olhos de ressuscitado, no médico salvador, que era o seu espectro...
— Ui!... bradou ele num ronco de horror. — O senhor!... O senhor!... Até no caminho do cemitério me persegue?!... Vamos, diga logo... quando lhe devo?...
— Dez contos — respondeu o médico.
— Siga!... Siga o enterro!... bradou o usurário, caindo de costas dentro do caixão, e fechando com as mãos hirtas as tampas agaloadas.



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Digitalização, pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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