quarta-feira, 15 de maio de 2019

O Palmeiriz de Oliva (Fábula), de Teófilo Braga



O Palmeiriz de Oliva

Um lavrador e a sua mulher tinham um grande desgosto por lhe morrer o único filho; quando o lavrador ia caminho da cidade, passando ao pé de uma palmeira que estava perto de uma oliveira, viu um caixote com uma chave pendurada; abriu e encontrou dentro um menino muito asseado, com uma bolsa de dinheiro, e duas cartas uma sem sobrescrito, e outra que dizia: Para quem achar este menino. O lavrador leu a carta e soube que era para tomar conta da criança e dá-lo a criar à sua mulher, e que quando ele fosse homem, lhe dessem a outra carta para ele só abrir em ocasião que se visse em grande aflição. O lavrador e a mulher ficaram muito contentes por aquele achado, e puseram ao menino o nome de Palmeiriz de Oliva, por ter sido trazido do pé da palmeira da estrada ao pé da oliveira. Ao fim de um ano vieram três cavaleiros à porta do lavrador, já fora de horas, e entregaram-lhe uma trouxa:

— Tome conta dessa menina, que já vem batizada; chama-se Rosa. E aí lhe fica bastante dinheiro para a sua criação. — E partiram à pressa.

As duas crianças foram crescendo, e tinham muito amor um ao outro e julgavam que eram filhos dos lavradores. Um belo dia parou uma carruagem à porta do lavrador; eram os cavaleiros que vinham buscar a menina que já estava grande. O lavrador sentiu aquela separação, e Palmeiriz chorou a mais não poder. Rosa ainda lhe pôde dizer que nunca o esqueceria, e já que agora sabia que não era irmã dele, que não casaria com mais ninguém a não ser com Palmeiriz.

O pobre rapaz andava triste e queria ir pelo mundo procurar aquela que tantos anos julgara sua irmã; o lavrador deu-lhe dinheiro, mais a carta, e ele foi à ventura, e passou muitos trabalhos até que chegou ao palácio do rei, que gostou tanto dele que o tomou para seu criado, e não saía da sua companhia. Palmeiriz andava sempre triste por não ter sabido mais de Rosa.

O rei resolveu a casar-se e mandou vir retratos de muitas princesas; escolheu um, e avisou para a corte donde essa princesa era. Quando mostrou o retrato a Palmeiriz, ele conheceu logo Rosa e desmaiou; o rei fê-lo voltar a si, e então ele contou como o retrato se parecia com uma irmã de criação que nunca mais tinha visto, e que ele muito amava. O rei mandou pedir a princesa, mas o pai escreveu-lhe, que ela não queria casar com ninguém e só se o rei fosse à sua corte pessoalmente, ou se lhe mandasse também o seu retrato.

O rei não pôde ir, mas mandou o seu retrato por Palmeiriz de Oliva. Chegado à corte o pai de Rosa chamou-a para vir receber a mensagem e o retrato; mas a princesa assim que viu o seu irmão de criação deu um grande grito, e botou-se ao pescoço do pai, dizendo:

— Meu pai, este é que Deus destinou para meu marido. E contou tudo ao pai, como tinha vivido com Palmeiriz até o dia em que a foram buscar. O rei escreveu então uma carta ao seu amigo, contando-lhe o caso, e como Rosa só queria casar com Palmeiriz.

— Eu podia mandar-te matar, disse o amo de Palmeiriz, mas como sempre tive por ti muita estima é que o não faço. Quero ter contigo um duelo, sem que ninguém o saiba, mas em que um de nós há de morrer.

Palmeiriz opôs-se àquela prova, porque não podia levantar mão para o seu benfeitor, e quando estava no seu quarto muito aflito, encontrou a carta destinada a ser aberta quando se visse em alguma grande aflição. Abriu a carta, e por ela soube que estava em casa de seu próprio pai; correu a contar ao rei tudo, e este abraçou-o, dizendo que ele mesmo é que tinha escrito aquela carta para o tornar a achar, quando como seu filho natural o deu a criar em segredo, para o salvar do ódio da rainha, que não tinha filhos. O próprio rei partiu com Palmeiriz para a corte do pai de Rosa e lá se fez o casamento, que ia sendo causa de tanta desgraça e que se tornou de tanta felicidade.

(Algarve)

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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