quarta-feira, 15 de maio de 2019

(Fábula), de Teófilo Braga


O bolo refolhado

Era uma mulher casada com um homem muito ruim, que lhe batia todos os dias por qualquer coisa. Uma vez, ao levantar-se para o trabalho, de madrugada, disse ele para a mulher:

— À noite quando vier, quero para a ceia bolo refolhado. Olha lá, toma cuidado no que digo.

A mulher não sabia o que era bolo refolhado, e foi ter com uma vizinha, para ver se ela lhe ensinava. A vizinha, que tinha muita pena da vida que ela levava, disse:

— Deixe estar, que eu cá lhe arranjo isso; com certeza que o seu homem se enganou; há de ser bolo folhado. E levou-lhe à tardinha o bolo.

Quando veio o homem do trabalho, pediu a ceia, e como não achou o bolo refolhado, berrou, ralhou, deu muitas pancadas na mulher; ao outro dia a mesma coisa. A mulher, coitada, foi ter com a vizinha, e ela disse-lhe:

— Arranje-lhe vossemecê uma galinha guisada, que pode ser isso o que ele talvez queira.

Volta o homem à noite, e mais pancadaria na mulher, por não lhe ter feito para a ceia o bolo refolhado, como mandara. Ao ir para o trabalho, outra vez a mesma recomendação. A desgraçada mulher não sabia como acabar aquele fadário, e foi ter com a vizinha a chorar.

— Deixe estar, vizinha, tudo se arranja! Venha cá ter comigo à tardinha, vestida com as calças e o jaquetão do seu homem. A pobre mulher foi. Assim que chegou a casa da vizinha, também a achou vestida com as calças e casaco do marido dela; e partiram ambas com os seus varapaus para o sítio por onde o homem ruim havia de vir do trabalho. Puseram-se cada uma de um e outro lado do caminho. Quando o homem vinha a passar, diz uma:

— Bate-lhe, São Pedro!
Por que, São Paulo?
— Porque pede à mulher
O bolo refolhado.

Moeram ao som desta cantiga o homem com pancadas, e depois de bem moído fugiram. O homem lá se arrastou para casa como pôde, e assim que viu a mulher pediu-lhe perdão de tê-la maltratado tanto tempo, e contou como lhe tinha aparecido no caminho São Pedro e São Paulo, que o desancaram em castigo de pedir o bolo refolhado, que era uma coisa que ele não sabia o que era.

(Algarve — Lagos)

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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