segunda-feira, 17 de junho de 2019

A Boneca (Conto), de Pedro Ivo



A Boneca
De quantos espetáculos gratuitos é dado gozar a um homem do Porto, não há nenhum mais da minha paixão do que o das feiras do São Miguel e São Lázaro!
Se os feirantes pudessem adivinhar o bem que lhes quero, e os votos que faço, para que Deus lhes conceda bom tempo, não havia um só que deixasse de me dar o São Miguel e o São Lázaro!... Era o homem mais presenteado deste mundo!
Gosto daquelas feiras!... Delicia-me aquele barulho, faz-me rir aquele originalíssimo concerto ou desconcerto de assobios, tambores, trombetas e rebecas, que, soando de todos os lados, ensurdecem a gente, e nos irritam os nervos.
Gosto daquelas duas feiras, repito! mas dou a preferência à do São Miguel.
Há maior espaço, mais desafogo, mais para onde uma costureira ingênua ou criada inocente se retire, para jurar em segredo ao namorado eterno amor, na esperança de lhe apanhar o São Miguel.
O leitor acha talvez pueril o prazer que encontro naquele espetáculo...
É porque ainda não pensou no partido que dele pode tirar!
Dá margem a profundos estudos psicológicos!
Encoste-se a uma barraca, com sincera vontade de ver, de analisar, de estudar e verá como, ao cabo de meia hora, há de saber muito segredo, muita aflição velada por um sorriso, muita lágrima represada, que uma palavra bastaria para fazer saltar dos olhos!
Imaginemos, por um pouco, que estamos numa barraca e analisemos.
Estudemos, por exemplo, este sujeito bem trajado, que contempla todas as quincalharias com olhos desanimados.
— Maldita seja a pequena!... Que diabo hei de eu levar a uma criança daquela idade?!... Aquele serviço de chá?... São capazes de me levar um dinheirão por aquilo!... Se lhe desse uma boneca?... Ora adeus! Quando Deus quer, tem meia dúzia delas! E o pior não é isso!... O pior é ser preciso — dar-lhe alguma coisa... O pai ralhou-lhe; mas — afinal, quem meu filho beija, minha boca adoça... E é que não tenho remédio senão dar-lhe alguma coisa!... É o meu chefe!... Às vezes vê-se um pobre diabo preterido; quebra a cabeça para descobrir o motivo, e, afinal, prende a coisa numa sensaboria destas!... Mas... que lhe hei de eu levar?!... Vejamos noutra barraca...
E o homem bem trajado retira-se, mas... deixá-lo ir; já — deu o que tinha a dar.
— Então, Sr. Sousa... Olhe que nos há de dar o São Miguel! — diz uma travessa menina de dezoito anos, falando por si e por duas amigas da mesma idade.
— Oh! minhas senhoras... Com o maior prazer!... O que vossas excelências quiserem... — responde o Sr. Sousa, rapazote de vinte e três anos, com um destes sorrisos a que vulgarmente se chama amarelos.
Não façam caso do que ele diz! Olhem-lhe para a cor do sorriso, pois é ali que está o segredo!
Aquele sorriso... chora!
— E eu que só trago quinhentos e vinte!... — eis o que diz o sorriso.
Deixemos o mancebo, e aproveitemos esta família.
Oh! que horrível pequeno!... Que berreiro!...
— Eu quero aquele tambor... Eu quero uma espingarda, papá!... Eu quero aquela espada... mamã!... Eu quero aquele cavalo!...
— Está bom!... cale-se... O menino escusa de chorar... Vá... cale-se!... O papá vai dar-lhe o São Miguel — diz a mamã, vexada pela triste figura que o filho está fazendo.
— Compra-lhe alguma coisa, Augusto... — diz timidamente a esposa.
— Pronto!... vamos a isso!... — responde o papá, que não quer passar por avarento na opinião dos circunstantes.
O bom do homem compra uma espada; mas, como, feita a compra, o pequeno recomeça a ladainha dos queros, o chefe de família diz severamente: "O menino não tem querer!" e acrescenta em forma de satisfação às testemunhas daquela cena: "Isto de crianças é preciso não lhes fazer a vontade em tudo!"
Três passos adiante, — diz ele com mau modo à esposa:
— Aí está... Eu bem não queria — que trouxesses o pequeno!... Aí estão doze vinténs bem empregados!...
— Coitadinho!... — diz a mamã dando um beijo no filho. — Não querem que sejas criança...
— A senhora não sabe o que diz... — volve o marido impaciente.
A esposa fita-o indignada, leva em seguida o lenço aos olhos, trava da mão do filho e apressa o passo.
Ora Deus queira que aquela espada de lata não tenha dado o primeiro golpe no nó matrimonial!
Alto!... Isto é gente fina... Que perfeito cavalheiro!... E a senhora?... e a menina?!...
Que elegância, que distinção de maneiras!... É pena que em tão aristocráticas feições se note tanta melancolia!
— Então, Júlia... escolhe!... Anda tu, filha...
Vá!... Comprem o que quiserem!... Eu estou por tudo... — diz ele.
A filha eleva os olhos tristes e interrogadores para os da mãe... Que lhe responderam os desta?... Não sei!... Soltando um suspiro e lançando um derradeiro olhar de resignada mágoa para todas aquelas tentações, a pobre menina responde:
— Hoje... não, papá... Outro dia...
— Bem... Quando quiseres...
E elas aí vão com aquele perfeito cavalheiro, quando fora de portas, déspota grosseiro e egoísta abjeto quando o mundo o não pode ver!
Psiu!... Escutemos!... Aquele estudante parece altercar com aquela costureira!
— Eu já disse ao Sr. Maia que não é verdade!... — diz a rapariga quase a chorar. — Aqui a Ana que diga... Ó Ana, até que horas trabalhamos nós ontem?...
— Até às oito e meia...
— Combinação... — rosna o estudante, voltando as costas e dirigindo-se a um grupo de rapazes.
No rosto contrariado, mas resoluto, do mancebo lê-se: "São Miguel não abichas tu... Ainda me não saí mal!..."
Os olhos da jovem, exprimindo dúvida e ternura, dizem claramente: "Se eu tivesse a certeza que foi só para me não dares o São Miguel!..."
Como se lhe estivesse devassando a mente, exclama de repente a Ana, fazendo um gesto de desdém:
— Anda daí, tola... Teve medo que lhe pedisses cinco réis de anéis!
Aqui tem o leitor o que constitui, por assim dizer, para mim, o principal encanto das feiras de São Miguel e São Lázaro.
Deixe-me, agora, contar-lhe uma história — a história de uma boneca!
Não há muitos anos, mas ainda não era a Cordoaria o ameno jardim, onde a infância folga por entre maciços de flores e sob o sorriso do sol, sem que lhe enegreça o espírito a vista dos dois monumentos, que a meu ver simbolizam as duas mais horríveis calamidades que podem aniquilar um homem — o hospital e a cadeia! — ainda não há muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da feira, divertindo-me a meu modo.
Cansado das inúmeras figuras que tinha visto passar por aquela espécie de lanterna mágica, dispunha-me a dar por findo o espetáculo, quando novos personagens me chamaram a atenção.
Eram os meus vizinhos ricos.
Aqui é preciso uma rápida explicação.
Das famílias da minha vizinhança, só conheço três.
Uma vive na loja da casa que habito. É uma tribo de crianças, que fazem o martírio e a alegria da pobre mãe, e tem por chefe um honrado sapateiro.
Alguns deles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem anjos caídos do Céu sobre um monte de lama.
São os meus vizinhos pobres.
A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e ocupa a casa imediata.
É, como se costuma dizer, gente que vai muito bem com a sua vida.
A filha, que terá dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e carnudas, cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à pressão.
São os meus vizinhos remediados.
A terceira é a dos meus vizinhos ricos.
Casa nobre, jardim espaçoso, cavalos, criados, nome inscrito nas listas dos acionistas de todos os bancos e no rol dos credores do Estado — nada falta àquela ditosa gente!
Compõe-se igualmente de marido, mulher e filha.
Que formosa criança!... Terá oito anos.
Franzina e pálida, com os cabelos negros, os olhos grandes e cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos compridos e esguios, terminados por unhas de uma — cor de rosa transparente, que não sinta antecipada inveja do feliz namorado — provavelmente ainda a crescer —que há de um dia ter o direito de lhas cobrir de beijos.
Qual destas três famílias será mais feliz?...
Pelo que tenho notado, não têm que invejar umas às outras.
São todas felizes; cada qual a seu modo.
Vi, pois, chegar os meus vizinhos ricos.
Parou o carro, o criado saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu vizinho saltou, tomou nos braços a filhinha e depô-la no chão, e oferecendo, em seguida, a mão à esposa, para a ajudar a apear, dirigiu-se com ela e com a menina para a barraca onde eu estava.
Não havia ali segredo — a surpreender.
Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que parecia agradecer àquela formosa criança a manifestação de qualquer desejo.
No fim de meia hora possuía a minha pequena vizinha com que fazer a felicidade de dez crianças menos abastadas.
Tinha o necessário para montar completamente a casa de uma boneca... rica.
Faltava apenas a dona da casa-a boneca.
Todo risos e atenções, o lojista apresentou o que tinha de melhor.
Depois de muita hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, consultar a mamã, a gentil criança acabou por escolher uma magnífica boneca de dois palmos de altura, cabelo em bandeaux e olhos azuis.
Uma boneca como as outras: cabeça e colo de massa, corpo de pelica recheada, braços e pernas de pau.
Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este mudou todas aquelas preciosidades de sobre o balcão da barraca para dentro do carro.
A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocrática criança.
Saí — dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa veriadíssimas considerações, sugeridas pela quase indiferença com que aquela menina recebera brinquedos, que representavam um par de moedas.
Que contraste com os olhares de cobiça, com que outras raparigas da mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabeça de pano, horrível artefato português, em que os olhos são representados por dois pontos de linha azul, o nariz por um alinhavo de retrós cor-de-rosa, a boca por outro de fio vermelho, e os cabelos por flocos de lã preta!
Quando cheguei a casa, já na dos meus vizinhos remediados não havia luz.
Na dos meus vizinhos pobres, o pai batia a sola, cantando ao som de três assobios e duas campainhas de barro com que os anjos, por lavar, provocavam os ralhos da mãe.
Quando, no — dia seguinte, cheguei à janela, seriam onze horas da manhã.
Na rua agenciavam nova camada de imundície os filhos do sapateiro; na casa imediata não se via ninguém — estava a pequena na mestra; no palácio, sentada num tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda, divertia-se a minha pequena milionária fazendo rodar, com auxílio de uma linha, uma magnífica caleche descoberta, puxada por cavalos brancos.
Dentro da caleche pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.
— Aí está a tua caricatura, minha feiticeira!... — disse eu de mim para mim. — Ensaias nas bonecas o que vês no mundo a que pertences!... Estás a aprender a copiar... Sempre este mundo!...
Retirei-me da janela.
Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma cena.
A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se vestia três e quatro vezes!
Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao respeito com que a dona a tratava!
Chamava-lhe Sr D. Luísa; dava-lhe excelência; sustentava finalmente com a boneca um destes diálogos de senhoras da alta sociedade, em que se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma.
Um dia — estava eu de costas voltadas para a janela dos meus vizinhos ricos — ouvi um grito de susto.
Era devido a um acidente, a que está sujeito quem anda de carro.
Voltara-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da janela.
O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a vítima; vendo, porém, que a ferida havia forçosamente de deixar cicatriz, e lembrando-se — de que só lhe bastava querer, para que lhe dessem outra nova, agarrou-a pelos pés e ia atirá-la com despeito à rua, quando mais perto de mim bradou voz tímida e suplicante:
— Não atire!... Dê-ma...
Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu não dera fé até então.
Assim invocada, a menina rica franziu levemente as sobrancelhas e lançou um olhar de rainha para o sítio de onde vinha a súplica.
Vendo uma criança pouco mais ou menos da sua idade, serenou e, encolhendo os ombros, respondeu:
— Já não presta!... Está esmurrada!...
— É o mesmo!... Dá-ma?... — bradou a outra,
cujos olhos brilhavam de cobiça.
— Dou... — volveu a rica, encolhendo nova
mente os ombros.
E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da vizinha, que tremia, receosa de que aquele tesouro fosse despedaçar-se nas lajes da rua.
Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a outra, para mostrar à mãe a que ela ainda não podia acreditar que fosse sua!
Por espaço de meses foi a boneca a principal ocupação da nova dona.
A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em que ela se vestia quatro vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excelência! Chamavam-lhe Sra. D. Ana; falavam-lhe de arranjos domésticos, do desmazelo da criada, da missa das almas, de coisas, finalmente, completamente estranhas para ela!
E a desgraçada perdia as cores; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos azuis; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia se tornava mais escura: parecia uma nódoa, um estigma!
Nos primeiros tempos, enquanto durou o vestido que trouxera no corpo, ainda poderia enganar olhos pouco conhecedores.
Não tardou, porém, que arrebiques de mau gosto, fitas velhas, rendas amareladas, chapéus impossíveis viessem contrastar com a elegância do vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja de uma adeleira.
Mas o vestido foi-se tornando velho; desapareceu o brilho e, com ele, as ondulações do moiré, até que, um belo dia, vi a boneca vestida de cassa — no Inverno! — xaile, e manta na cabeça.
Muito mal lhe ficava tudo aquilo!... Àquela boneca custava-lhe decerto o ver-se tão mal arranjada.
Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e balbuciei:
— É justo!... Cada qual segundo as suas posses.
Por esse tempo, entrei em relações com o meu vizinho sapateiro.
O honrado homem soubera que eu me queixara da bulha que os filhos faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a primeira ocasião para me pedir desculpa.
Vendo-me conversar com o pai, tinham-se os filhos animado a aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem grave risco de sofrer as consequências da sua travessa familiaridade.
Entre os filhos do sapateiro, porém, há uma pequenita de onze anos, com quem simpatizei logo à primeira vista.
Chama-se Maria.
Por um destes acasos da Providência, que parece às vezes comprazer-se em criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.
Acostumado às travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro, fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou.
É bem verdade que ele conhecia o valor daquela criança, porque havia verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse:
— Esta é a minha Maria!
E tinha razão!
Não podia ser mais discreta do que já nesse tempo era.
— É quem vale à mãe!... — acrescentou o velho. — Ali, onde a vê, faz o serviço de uma mulher!... Há seis meses, quando a minha santa esteve doente — bem pensei que não arribasse! — a pequena era quem cozinhava e olhava pelos irmãos!... E caridade como ela tem?!... Olhe que aquela pequena esteve três dias sem se deitar... ali... ao pé da mãe! Foi preciso eu obrigá-la, que ela não a queria deixar!...
E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lágrima, que, havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.
Fazia gosto ver aquela pequena com o seu vestidinho de chita escura e a cabeça coberta por um lenço branco.
Desde que o pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca mais passei por defronte da porta da loja sem dar pelo menos os bons-dias à pequena.
Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas com uma boneca deitada nos joelhos.
— Eu conheço aquela boneca!... — disse eu de mim para mim.
E, não podendo resistir à curiosidade, bradei:
— Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?...
— Foi ali a menina da vizinha! — respondeu a pequenita, corando — de prazer.
Era escusado dizer-mo.
Maria pegara na boneca, e voltara-a de face para mim. Não podia duvidar... Era ela; lá estava a mancha, o estigma cada vez mais visível na fronte.
De tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha-se com ela. 
— Quem te viu e quem te vê! — pensava eu.
Às vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lha podiam apanhar, que tratos que sofria a desgraçada!
Roçada por aquelas mãos, — de que um carvoeiro se envergonharia, empregada como péla, submetida a torturas, era, ainda assim, singularíssimo o aspecto da triste!
Dava ares de uma duquesa que, por necessidade, houvesse sido levada a fraternizar com o povo.
A mísera mudara mais uma vez de nome!... De Sra. D. Ana passara a ser Sr a Rosinha, e tratavam-na por vossemecê.
Trajava vestido de chita, capote velho de pano verde e lenço na cabeça.
Era um prazer para mim o escutar as conversas que Maria sustentava com a boneca.
Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria, encarregando-se de perguntar e responder por ela, obrigava a pobre boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver falta — de trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que mais familiares eram á pequena.
Outras vezes passava a boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na, mandavam-na buscar água à fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e acabavam por a despedir.
Já o leitor vê que, apesar da bondade de Maria, deixara de ser feliz.
Iam longe os bons tempos em que ela, rica, morava no palácio vizinho!
Desmaiada — de cores, quase perdido o cabelo, semiapagados os olhos, desfeito o carmim dos lábios, a boneca não prometia longa duração.
Foi este, pelo menos, o prognóstico que fiz a última vez que a vi, tentando em vão agradar à última dona, que o seu destino lhe dera.
Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!
Um dia — chovia a cântaros! — o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua, espadanava em cachão para cima dos passeios, arrastando na passagem mil imundícies.
Eu estava à porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava melancolicamente para a água negra, que corria. Nisto, ouvi um grito, que partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto... Um objeto, arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço, voando, e foi cair no leito do enxurro...
Olhei... Era a boneca!...
A mísera, arrastada pela água, vogou rua abaixo até esbarrar numa pedra; mas o redemoinho envolveu-a e, depois de a fazer girar três ou quatro vezes, obrigou-a brigou-a a passar pelo estreito traçado entre a pedra e o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir sumir-se nas profundezas da primeira boca-de-lobo que encontrou na passagem!
Será pieguice, será o que o leitor quiser; mas confesso-lhe que me impressionou o fim da pobre boneca.
Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado — à vidraça do sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:
— Por que deitaste fora a boneca, Maricas?! — Não fui eu... — balbuciou a pequena, chorando. — Foi ali o Joaquim!...
— E por que fizeste tu aquilo, Joaquim?...
— Ora!... — respondeu o garoto com enfado. — Ora!... Estava velha... e feia!...
Curvei a cabeça ante aquela razão e segui o meu caminho. Dez passos adiante dei com os olhos numa mulher, pobremente vestida, e pareceu-me que escondia o rosto no cabeção do capote, como que receando que eu a conhecesse.
Não foi, porém, tão rápido aquele movimento, que não lhe pudesse, ainda que de fugida, distinguir as feições.
— Conheço esta mulher!... — pensei eu.
E, parando, voltei-me para a seguir com a vista.
Ao chegar à esquina, não resistiu a voltar-se para trás, provavelmente com medo de que a seguisse.
Vendo-a então de frente, estremeci!...
A história da boneca era a história daquela mulher!
Caíra... e descera!
E eu.. que a conhecera, festejada no seio da opulência, e acabava de a ver passar, tentando encobrir nas dobras do capote o estigma que a vergonha lhe imprimira na fronte, cravei instintivamente os olhos na boca-de-lobo por onde vira desaparecer a boneca e murmurei, pensando na mulher:
— Velha e feia!...
Aquela... espera-a a vala comum!... a boca-de-lobo em que se somem os pobres!...
— Pobre mulher!...
— Pobre boneca!...

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