domingo, 2 de junho de 2019

À conta de Deus (Fábula), de Ana de Castro Osório



À conta de Deus

Um dia o Senhor, cansado já de ouvir as lamentações e queixumes que partiam da Terra e lhe chegavam ao Céu, chamou São Pedro e disse-lhe:

— Anda daí, Pedro! Vamos ver o que se passa no Mundo, que, a ser verdade o que me chega aos ouvidos, mal andei em me sacrificar pela Humanidade, que não encontra meio de ser feliz nem prefere os caminhos do bem e da justiça.

S. Pedro foi buscar as suas sandálias de viagem e apresentou-se, pronto, diante do Senhor.

Andaram, andaram por montes e vales; percorreram aldeias e cidades, e de tudo quanto se passava, e do que viam, o bom do Santo ia tomando nota, para depois ser estudado no Céu e se dar remédio ao que remédio tivesse.

Até que chegaram a um campo onde viram uma casa bem arranjadinha mas pobríssima, e uma mulher limpa, alegre e desembaraçada, trabalhando sozinha sem se distrair.

— Que fazes tu, mulher?

— Eu, Senhor, trabalho quanto posso de dia e de noite, porque o meu homem está doente e os meus filhos são pequenos, de modo que não tenho quem me ajude. E graças que tenho forças para trabalhar! —

O Senhor abençoou-a e continuou o seu caminho, na companhia de São Pedro, que ia anotando quanto se passava.

Ao chegarem a outro campo, distante, viram uma outra mulher muito rota e desmazelada, deitada debaixo duma árvore, junto duma casa em ruínas.

— Olha lá, mulher, tu que fazes?

— Eu, nada, Senhor!

— Então nem trabalhas, nem olhas pela tua casa? Não coses a tua roupa, não lavas, não cuidas da terra?

— Para quê, meu Senhor? Eu estou à conta de Deus.

O Senhor abençoou-a também e continuou, com São Pedro, o seu caminho. Até que, tendo visto quanto ia pela Terra, os Santos viajantes chegaram ao Céu. E começou São Pedro a pôr em ordem as notas que tinha colhido, para darem os remédios próprios a tantos e tão diferentes males.

Ao chegarem ao caso das mulheres, disse o Senhor:

— Vê bem, Pedro, que não falte nada à boa mulher trabalhadeira, que assim cumpre a lei divina.

— Já o notara, Senhor. E, com a vossa graça, todo o seu trabalho será produtivo, e obterá prosperidade.

— Mas não deves esquecer também a pobre mulher que encontramos debaixo da árvore. Castigada justamente com a pobreza, por não trabalhar, a deixamos. E no entanto merece melhorar, porque tem fé verdadeira e se entrega à minha conta.

— Mas, Senhor, que posso fazer por ela, se, embora tendo fé sincera, não quer cumprir as suas obrigações de trabalho na terra?

— Dá-lhe maior luz aos bons sentimentos. A quem se entrega à minha conta, não quero que falte nada. Dá-lhe o prêmio de, com a minha graça, adquirir o hábito de trabalhar tanto como a primeira.


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Fonte:
Ana de Castro Osório: Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa (Editado a partir da edição da Bibliôtronica Portuguesa)

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