domingo, 2 de junho de 2019

A Mãe de São Pedro (Fábula), de Ana de Castro Osório


A Mãe de São Pedro

A Mãe de São Pedro era muito invejosa e muito avarenta. Pode ser que não tivesse outros defeitos, mas estes eram muito feios. E com eles desgostava bastante o Senhor.

Ora, um dia, morreu. E no primeiro julgamento feito às almas foi mandada para o Purgatório.

Com isto ficou muito triste São Pedro, que era muito bom filho e respeitador, não querendo saber dos defeitos da sua mãe. Como ele está sempre em face do Juiz Supremo, não fazia senão pedir-lhe que tivesse piedade da sua mãe e a absolvesse de toda a mácula, chamando-a ao gozo eterno da bem-aventurança.

Nosso Senhor respondia-lhe:

— Mas tu, Pedro, sabes que tua mãe não pode entrar no Céu sem se purificar daquele grande defeito da avareza e da inveja, que torna as criaturas mais semelhantes ao demônio.

Mas por fim, cansado já de ouvir as súplicas do amado discípulo de Seu Filho, o Padre Eterno chamou-o um dia à sua presença e disse-lhe:

— Toma esta folha de alface, vai com ela ao Purgatório e estende-a para que tua mãe, agarrada a ela, possa subir ao Paraíso. Como as almas sem culpa não têm peso, se estiver curada já dos seus defeitos, agarrada a esse frágil arrimo pode entrar no Céu.

São Pedro, contentíssimo, agradeceu ao Senhor, e foi de corrida debruçar-se na janela que dá para o Purgatório. E com grande alvoroço chamou a sua mãe.

Quando a alma, tisnada nas chamas do Purgatório, ouviu a voz do seu filho e viu o apoio que lhe dava para se salvar, correu cheia de alegria, abençoando a hora em que ele viera ao mundo com tantos merecimentos para ser ouvido por Nosso Senhor. Agarrou-se logo com toda a força à folha verde da alface, e começou a subir para o Paraíso.

Quando isto viram, outras almas, igualmente tristes e sofredoras, quiseram aproveitar do seu benefício e ergueram-se para também segurarem aquela nova e fugidia esperança.

A mãe de São Pedro estava, porém, tão sôfrega da sua salvação, que aos empurrões as deitou abaixo.

Mas... que sucedeu? Com o esforço que fez, a folha de alface rompeu-se, e ela caiu de novo no Purgatório para, durante mais tempo sofrer os trabalhos merecidos por esta falta de caridade para com outras alminhas padecentes.

Eis o motivo porque não foi logo para o Céu a mãe de São Pedro. Nem as almas invejosas e avarentas e sem caridade têm lá lugar.

---
Fonte:
Ana de Castro Osório: Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa (Editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...