domingo, 16 de junho de 2019

A lenda do Milho (Lenda), de Eduardo Sequeira



As espigas dos cereais foram sempre o símbolo da abundância, e a do milho, pela cor dourada da semente era mais particularmente o símbolo da riqueza.
Na África, entre os nativos, a espiga do milho representa a propriedade do solo.
Conta o Dr. Schweinfurt, num dos seus livros de viagens, que na África, as tribos depois da respectiva declaração de guerra, colocam no extremo dos seus domínios, em local bem exposto, de modo a poder facilmente ser visto por todos, uma espiga de milho, uma molhada de penas de ave e uma flecha, o que quer significar que quem cortar uma espiga de milho ou agarrar uma ave, será morto por uma flecha.
Na Calábria há a seguinte e graciosíssima lenda relativa ao milho, que segundo Gubernatis não é mais do que uma variante, sob forma moderna, do antigo conto mitológico de Midas que mudava em ouro todo o trigo que tocava.
Uma mãe tinha sete filhas, seis muito diligentes e cuidadosas e a sétima preguiçosa em extremo. Eram todas tecedeiras, mas a mais nova, formosa entre as formosas, passava o tempo a tratar da sua pessoa e a confeccionar belos vestidos em vez de cuidar das suas obrigações caseiras.
Um domingo as irmãs mais velhas foram à missa e deixaram a coser sob a vigilância da mais nova sete pães de milho. Como se demorassem a mais nova foi comendo um a um os pães, de modo que quando as irmãs regressaram da igreja não restava nenhum.
As irmãs faltando-lhe o almoço fizeram tal barulho que teve de intervir para as apaziguar um dos mais ricos mercadores da cidade que naquele momento passava por acaso na rua.
As irmãs falando todas ao mesmo tempo dizem-lhe que a mais nova comia por sete, mas o homem compreendendo que o barulho era motivado por inveja das outras irmãs e que a rapariga fiava por sete, tratou logo de se casar com ela.
Realizado o casamento o negociante partiu para longa viagem deixando à mulher, como tarefa, um grande quarto cheio de linho para fiar.
Estava prestes o regresso do negociante e a mulher ainda não tinha fiado nada. Por mais que quisesse não o podia fazer, e as irmãs jubilosas riam e troçavam-na, contentes por calcularem que o marido logo que chegasse não deixaria de lhe castigar severamente a preguiça.
A pobre rapariga chorava, chorava, pretendendo debalde fiar o linho mesmo com lágrimas, mas nada, nada obtinha.
Um dia que estava à janela a lastimar a sua sorte passaram umas boas fadas que, compadecendo-se da infeliz, lhe disseram que ao fiar, em lugar de passar os dedos pelos lábios, os passasse por farinha de milho.
A fiandeira assim fez, e daí por diante, com grande júbilo, não só podia fiar quanto queria mas também o fio, ao contato da farinha de milho, transformava-se logo em rico fio de puro ouro.

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Eduardo Sequeira - (Lenda dos Vegetais, 1892)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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