quarta-feira, 5 de junho de 2019

A Morta Romântica (Conto), de João Grave



A Morta Romântica
— Quem morreu, pregunta? Foi Angélica, uma pobre e dolorosa rapariga predestinada para o sofrimento e que, de todas as riquezas do mundo, apenas teve a das suas lágrimas. Há de lembrar-se ainda dela, certamente. A claridade da beleza que a inundava extinguiu-se apenas há 48 horas!... Não se recorda? Que fraca memória tem! Todavia, a história de Angélica é uma das mais interessantes, sob o ponto de vista emotivo... Se eu conheço essa história? Conheço-a perfeitamente, linha a linha, episódio a episódio, como a conheci a ela... 
Coitada! Acaba de enterrar-se. 
Venho agora mesmo de pousar-lhe sobre o caixão, antes d' ele baixar à campa rasa em que para sempre se sumiu, o mais perfumado, virginal e fresco botão de rosa que encontrei no meu jardim!... Devia esta homenagem à sua pureza... 
Angélica foi sepultada por uma tarde bem serena e bem dourada de sol. No cemitério, o ar era tão doce e tão profundo, que os meus olhos se fecharam de gozo. E a morta ficou num lindo sítio! Junto do seu coval anônimo, as roseiras, em abril, enroscam-se nos ciprestes como as serpentes no coração de Laocoonte, e mesmo de inverno, quando cai neve, as toutinegras que não emigram dão ali serenatas!... 
Que pena senti por ela! 
Ah! mas que o meu ato de piedade o não leve a julgar que nos amámos ou que Angélica fosse para mim, algum dia, mais do que uma desditosa criatura, a quem só por compaixão se consagra um pouco de afeto desinteressado!... 
Bem sei! Não acredita. Esse riso irônico é uma confissão. Não negue! Para quê? Bem vê que não me considero ofendido e que continuo a falar-lhe serenamente. 
No nosso tempo tão positivo ou tão egoísta, ninguém crê já na ternura dum homem por qualquer mulher de 20 anos que tenha a sua origem na obrigação, na dor pelos outros, pelos que são humildes e desgraçados. A nossa época é desdenhosa e perversa, sendo o cinismo a sua expressão mais característica. Diante da imagem tangível do bem, o que ela procura ativamente é o mal... 
Considere, porém, uma coisa. Angélica não era uma dessas belezas raras que causam deslumbramentos pelo esplendor da radiação. Só os seus olhos eram melancólicos, ingênuos, misteriosos, espelhando não sei que inocência e tendo o negro aveludado e úmido de certas violetas debaixo da água... De resto, nunca experimentei a menor curiosidade de observar se ela era bela ou feia. Perto de Angélica, o meu coração nunca — mas nunca! — bateu mais apressadamente. Juro-lhe que o meu interesse por essa infeliz rapariga, que o amor criou para o infortúnio como a muitas outras para a felicidade, foi em todos os momentos inspirado pela mágoa... 
Não há o menor mérito em tal procedimento da minha parte, está claro. Não sou um santo, mas um impuro pecador, como muitos outros. E a quantas almas sensíveis eu terei causado tristezas irremediáveis! Mas, à de Angélica, não! Pelo menos, jamais tive esse intuito... 
Ela morreu. Já nada quer dos dramas ou das comédias da vida — e eu, sem a melindrar, sem a fazer corar de pudor ferido, posso referir-lhe uma particularidade que a define com nitidez. 
Ei-la: quando, certo dia, lhe chegou aos ouvidos o boato malévolo de que era minha amante — veja que a suspeita em que há pouco me envolveu é muito antiga! —, Angélica procurou-me, com a vista toldada de pranto e a garganta cheia dos ansiados soluços que lhe subiam do peito, murmurando: 
— O que dizem de mim!... Que injustiça tamanha, pois não é verdade?... Bem sabe que me não ama... E contudo!... 
Declaro-lhe que me pareceu adivinhar, nestas lamentações, a saudade infinita duma adoração ardentemente ambicionada e idealizada e que, apesar disso, nunca dera flor no coração de Angélica. Cheguei mesmo a crer, nesse instante, que, por uma tal adoração, que tocaria de graça toda a sua vida, como rosa que desabrocha numa jarra de cristal e a cobre de aroma e cor, Angélica daria, sem hesitações e sem remorsos, a sua virtude sem mácula, a nobreza da sua reputação, a castidade do seu corpo, a sua própria vida... 
Não se ria dessa forma! Digo-lhe a verdade! Poucas vezes tenho sido tão sincero como agora. Para certas organizações femininas, exaltadamente afetivas, só há na existência uma única hora transcendente e digna de viver-se, que é a do amor. E Angélica era uma das organizações de que falo. Apesar disso, ninguém reparava nela... Oh! se reparassem! De que loucuras e heroísmos Angélica daria provas! Porque, quando se ama intensamente, não se pensa nas coisas que ficam para além, muito para além, do coração, sejam elas humanas ou divinas... Pois não é assim? 
E olhe que todas as mulheres são capazes de tal desvairamento sublime, ou puras como os mármores nitentes em que estão gravadas as estrofes dum cântico religioso, ou mais arrastadas do que a lama das ruas!...
Não concordará? Está no seu direito. E talvez até que a experiência lhe tenha dado razões para esse pessimismo...
O que é certo, no entanto, é que a solitude e o desamparo em que Angélica viveu a tornaram concentrada, levando-a a afastar-se mais dos outros, para melhor se isolar com as suas aspirações e o seu sonho...
Estou, talvez, a enfastiá-lo com a narrativa dum caso a que falta o encanto da ação!...
Para que hei de continuá-lo? Acabemo-lo, tanto mais que o facto essencial é que Angélica jaz numa cova muito funda, na comunhão sombria dos bichos e das raízes que já, decerto, começaram a devorá-la com suas bocas terríveis...
O quê? Não se enfastia? Quer, então, saber tudo? Pois bem! Ouça... Angélica ficou órfã de pai aos dois anos — e a mãe, que tinha uma pequena casa de comércio, morreu duma demorada e angustiosa enfermidade, deixando-a na maior pobreza, porque o estabelecimento, vendido ao desbarate, mal deu para pagar os credores e a conta do enterro. Isto é banal, mas é também lúgubre, não acha? Medite nesta particularidade: uma rapariga em plena adolescência, com uma certa cultura e uma inteligência que lhe afinavam a faculdade de sentir, absolutamente entregue a si mesma, sem proteções que a defendessem e aconselhassem, obrigada a ganhar por suas mãos — que não estavam costumadas aos trabalhos rudes e violentos — o pão para a boca!...
Enquanto a doente esteve no leito, consumindo-se lentamente na febre duma tuberculose que a exauria de toda a seiva e a esgotava de toda a vitalidade, Angélica sentou-se-lhe à cabeceira e foi duma dedicação incomparável. Não a abandonava um só instante, de noite ou de dia, enxugava-lhe piedosamente os cabelos que as bagadas de suor lhe empastavam na testa, sustinha-lhe com brandura a cabeça — que a aproximação da morte tornava mais pesada — nos seus braços débeis, quando a tosse sufocava a dolorosa tísica, abalando-lhe o organismo enfraquecido, extenuando-a, fazendo-lhe arquejar o peito magro e exangue, ministrava-lhe cuidadosamente os remédios e o alimento, consolando-a nas suas crises e nas suas horas de maior crueldade... Não seria mais venerável uma irmã da caridade que se devotasse aos que sofrem para conquistar as alegrias do Céu, de que S. Bruno tinha tantas saudades!...
Às vezes, nos momentos de mais serenidade, a doente, fitando na filha uns olhos absorventes de luz e em que se refletia, com o reconhecimento, uma pena imensa, exclamava, numa voz abafada de choro:
— O que mais me custa é deixar-te só e tão pobrezinha que nem uma sede de água terás!...
Angélica, entalada de soluços e fazendo esforços enormes para conter as lágrimas represadas, acudia: 
— Ora vejam em que está a pensar! Se eu lhe afirmo que se cura!... Ainda ontem o médico!...
Oh! a doce, a santificada mentira!
O clínico dizia-lhe, precisamente, todos os dias, que nada havia a esperar — e com uma ausência de sensibilidade, uma frieza de quem lida muito com a morte —, mas Angélica, escondendo a verdade e sorrindo, iludia a moribunda, alimentando-lhe o sopro da existência, prestes a extinguir-se.
Quando não tinha forças para simular por mais tempo, Angélica escondia-se da mãe e carpia-se...
Ah! poucas mulheres como esta tenho conhecido, dotadas de maior espírito de sacrifício!... E todavia, como o Destino é estranho e misterioso!
Tendo nascido para devotar-se, para amar, jamais o amor parou por instantes perto dela, curvando-se-lhe, risonhamente, sobre a fronte em que a revoada de sonhos cor-de-rosa batia as invisíveis asas de luz, para murmurar-lhe ao ouvido as suaves confidências inolvidáveis...
O quê? Diz-me que Angélica devia proceder assim para com a sua mãe doente? Decerto! Sei-o perfeitamente. Mas nem por isso deixava de revelar uma beleza moral que fazia enflorar paraísos de ternura no seu coração! Repare, além disso, em que essa rapariga admirável, que passou no mundo sempre incompreendida, sentia um gozo íntimo em dedicar-se aos outros.
Nada me impedirá, neste momento, de fazer afirmações que tanto melindrariam a sua candura e a sua ingenuidade, porque, como acabo de dizer-lhe, Angélica morreu, dorme numa álgida e funda cova, e eu mesmo lhe atirei, há pouco, um punhado de terra sobre as quatro tábuas do caixão forrado de branco. Nenhum escrúpulo me forçaria hoje a guardar silêncio, tanto mais que na vida que há horas apenas se apagou não existem impurezas...
Sim! Sim! Suspeito o que quer dizer-me! Na realidade, eu divago talvez demasiadamente, e isto fatiga os que não têm, como eu, uma grande, transfiguradora admiração por essa rapariga humilde. Preveni-o, em todo o caso, de que na história de Angélica via mais beleza estática do que ação... Não é isto?
Sempre deseja que continue a narrativa? Pois bem, continuarei. E conceda-me que eu divague à vontade. É o meu feitio, o meu temperamento. Há em mim qualquer coisa de desordenado, de anormal. Nunca consegui confinar-me dentro do espaço muito limitado dum método e nunca me submeti a uma disciplina. Sou assim. Desculpa-me, não é verdade?...
Ah! mas eu esqueço o meu assunto essencial. É muito justa a sua observação. Voltemos a Angélica...
A primeira noite em que se viu só na sua casa cheia de sombra e de solidão, a pobre rapariga rompeu num choro angustiado, dobrada sobre si mesma e enclavinhando os dedos brancos e nervosos, que ainda tremiam, nos longos cabelos desalinhados. Na sua dor — como ela me contou mais tarde —, teve ainda a lucidez necessária para verificar que para as criaturas a quem o sofrimento afinou a sensibilidade basta muitas vezes a coisa mais insignificante para as contentar na sua humildade, purificando-as pela resignação... A mãe de Angélica, durante toda a sua enfermidade, nada mais era do que um mísero corpo mirrado, fazendo um pequeno volume sob as roupas do leito, um feixe de ossos coberto por uma pele engelhada e lívida — uma pele que não era, decerto, o mimo de seda e de delicadeza que a terra afagaria com a sua boca voluptuosa e de hálito letal. Toda a energia da doente parecia concentrar-se-lhe nos olhos, que dardejavam dum brilho de febre e que com tanta insistência procuravam os de Angélica, como se quisessem ler neles uma boa-nova ou uma sentença terrível. A tísica mal respirava — e, no entanto, a sua débil respiração dir-se-ia animar a vivenda inteira, do soalho ao teto, como a luz duma candeia, minúscula abelha de ouro e de claridade que apesar disso alumia imensidades! A morrer, mesmo, a doente ainda parecia comunicar uma alma à habitação e um sentimento a tudo quanto nela se encontrava — ainda ao que era inerte! E até essa aflitiva companhia faltara, de repente, a Angélica!... Por isso é que ela se lamentava tão doridamente que, sempre que a surpreendia nos seus queixumes, me custava a reprimir a própria emoção...
Por quê? Singular pergunta a sua! Porque, naturalmente, é sempre doloroso ver sofrer alguém, embora alheio ao nosso afeto, quanto mais uma criatura que se conhece e se estima!...
Depois, nas lamentações de Angélica havia uma eloquência de tal ordem, tanta razão e uma tão justificada revolta contra a aspereza do Destino, sempre enigmático e inexorável, que eu torturava-me só por não poder acudir-lhe e reparar a clamorosa injustiça...
Mas esta revolta de Angélica foi transitória. Volvidos poucos meses sobre o falecimento da mãe, ela conformou-se com o seu desamparo, exclamando a cada momento, com uma convicção e uma sinceridade que me desorientavam:
— A sorte, se me castiga assim, é porque eu sou merecedora disso. Quem sabe que pecados andarei a expiar neste mundo?
Pobre dela! Nunca tinha sabido o que fosse alegria de viver, bem-estar, felicidade; jamais trouxera a abrir na alma a flor eterna duma adoração humana, contava 20 anos; nenhum pensamento impuro havia envenenado as suas aspirações; os seus desejos eram duma candidez que, postos sobre as brancas aras dos altares, não lhes maculariam a alvura; e, contudo, julgava-se uma pecadora ou, pelo menos, uma escolhida para a expiação de pecados que não cometera! Era a alucinação mística. A desgraça produz estes desvairamentos...
Angélica não tinha mais ninguém à sua volta: se adoecesse, não haveria quem lhe refrescasse a boca de água; trabalhava para viver; a sua mocidade em flor desbotava rapidamente, crestada pelo fogo das lágrimas... 
Que diz? Que isto é uma novela romântica à moda de Camilo? Que estou compondo, pela imaginação, um conto de sentimentalismo atroz em que uma infeliz mulher desliza, com a sua beleza e a sua graça, para encantar as almas tristes, como uma visão celeste que esvoaçasse sobre os espinhais, com um lírio na mão e perfumando tudo à volta? Que ideia a sua! E, sobretudo, que ironia!... Bem sei a que ponto pretende chegar. Oh! eu surpreendo-lhe as intenções nos gestos mais vagos e inexpressivos... É ainda um sarcasmo. A virtude e a formosura ocultam-se na sua cabana solitária, à espera do príncipe que surgirá de súbito em certa alvorada. Então, tudo se transmudará repentinamente, ouvindo-se o lírico arrulhar dos beijos e os festivos epitalâmios das bodas...
Era nisto que estava a pensar... Não era? Para que há de negar?
Afirmo-lhe, no entanto, que se tivesse formulado este seu pensamento em palavras sardônicas cometeria, além duma iniquidade, uma verdadeira maldade, que mais tarde causaria remorsos à sua equitativa consciência. Eu já lhe disse que, apesar de ser linda e de ter a divina graça de todas as mulheres na mocidade, Angélica não era um desses tipos de beleza que passam soberanamente, por entre fileiras de admiradores submissos, enlanguescendo-os...
Foi sempre, para mais, uma criatura tímida, recolhida, procurando, de preferência, a sombra, para mais se apagar, para não dar nas vistas, para se não revelar. Toda a ousadia, todo o barulho, toda a estridência, a assustavam. Não tinha coragem para sustentar com fixidez, resolutamente, tanto o olhar sarcástico ou admirativo dum homem, como o duma criança, porque temia praticar um ato censurável ou uma inconveniência que justificasse outras!
Não compreende, por tudo isto, como eu a conheci e como entabulei com ela relações íntimas e fraternas? O reparo admite-se, decerto, mas deixará de subsistir quando eu a informar de que éramos vizinhos e que todos os dias nos encontrávamos. A modesta habitação de Angélica ficava junto da minha, como se procurasse uma proteção segura. E desde pequenita que Angélica entrava na nossa casa, onde era sempre bem acolhida por minha mãe e minhas irmãs... Note a sinceridade desta narrativa e a pureza da alma de Angélica, desde que eu não hesito em associar à sua dorida memória as senhoras da minha família...
Quando ficou só, passou a frequentar a minha morada com mais assiduidade. Com uma infinita pena dela, minha mãe, que foi uma santa, chamava-a, dava-lhe trabalho — que era uma piedosa e engenhosa maneira de lhe fazer bem, sem a humilhar —, ensinava os outros a estimá-la. De sorte que eu via Angélica diariamente, nos corredores ou nas salas do casarão imenso, e nunca me esquecia de saudá-la cortesmente, o que fazia com que ela baixasse os olhos, enleada, torcendo nervosamente, na ponta dos dedos, o lenço que quase sempre trazia nas mãos. Com o andar do tempo, a timidez dissipou-se, estabeleceu-se entre nós uma certa intimidade que me encantava, porque bem sabe que nunca fui orgulhoso, apesar de ser filho de pais ricos e vaidosos das suas árvores de costado. As grandezas e os esplendores do armorial não me afastaram jamais do convívio das pessoas simples e das multidões deserdadas, preferindo-as mesmo, em muitos casos, às outras classes...
Pergunta-me a razão desta preferência? A resposta é fácil! É que as plebes sofredoras, apesar de violências que se justificam, parecem-me mais abertas, mais francas, dotadas de maior lealdade do que as aristocracias ou as burguesias. E são, incontestavelmente, mais originais e, portanto, mais atraentes... Não concorda? Está bem. Mas não nos emaranhemos em discussões calorosas acerca disso. Para quê?... Vejo que não estou aqui para controvérsias ruidosas mas para contar-lhe a história duma rapariga que, sendo digna da felicidade, não foi, todavia, feliz...
Angélica, que pertencia a essa legião comovedora dos humildes, parecia-me desejar um bem que não alcançaria nunca, parecia-me sofrer, e isto enternecia-me. Aproximei-me dela, só por isto, um pouco mais, e logo a intriga começou a tecer a sua teia malévola... É claro, eu estava nos meus 24 anos, concluíra o meu curso, tinha fama de namorador a que se não resiste, pelo prestígio da juventude, do nome, da fortuna. Por sua parte, Angélica ia nos 20, estava na sua plena manhã primaveril.
Viam-nos, muitas vezes, sentados no mesmo banco do jardim, conversando perto do mesmo alegrete de cravos brancos e rajados.
Era natural que isto se estranhasse, sobretudo numa sociedade que, deparando um homem e uma mulher a palestrar, logo julga estar na presença de Paolo e Francesca, naquela hora fatal em que liam ambos o mesmo livro e em que, ao chegarem a certa página de amor, tão perturbados ficaram, que não conseguiram ler mais em todo o dia!...
Ri? Contudo, não ousará negar a veracidade das minhas palavras. O mundo é péssimo, e creio que nunca foi melhor!
Uma vez por outra, certas insinuações abomináveis chegavam aos ouvidos de Angélica, uma vida heroica lutando com desespero para ultrapassar os limites marcados pelo Destino à sua existência.
Quando me contava essas insinuações, mirava-me com olhos de infinita doçura, em que havia um não sei quê de mistério que jamais penetrei, quase até ao fim de seu Calvário, a flor duma ansiedade que me perturbava sem eu saber porquê.
Julgava, nesses momentos, que os olhos imensos, melancólicos, interrogativos, de Angélica revelavam muito menos do que aquilo que escondiam. E também observei que, se a voz de Angélica tremia, ao queixar-se-me da dureza dos outros, no seu rosto se espelhavam uma placidez ou uma alegria que me desconcertavam! Cheguei até a suspeitar — sem que todavia desse corpo e forma a essas suspeitas, tão monstruosas me pareciam — que Angélica estimaria que os dizeres venenosos fossem verdadeiros!... Mas imediatamente me arrependia de pensar assim, se a contemplava mais demoradamente, encantando os olhos na sua candura, na sua resplandecente inocência, na sua graça de flor nova. E sentia então que, quando se encontram ao lado dum coração puro, as almas sensíveis e delicadas têm uma grande necessidade de ternura!... A impressão desagradável manteve-se, por mais que eu tentasse bani-la — e foi até sob a sua influência que eu comecei a evitar a desditos a rapariga... Porquê, Deus do Céu? Que mal me fazia ela? Nenhum, aí está!... Se, na realidade, me fizesse algum mal, com que intensidade eu a adoraria, talvez!... E atente na delicadeza da Angélica. A minha frieza repentina e inexplicável deveria tê-la ferido rudemente. No entanto, a sua boca não se abriu para uma lamentação, para uma amargura, e continuou a sorrir-me, de longe, com a mesma paz e a mesma celeste gracilidade! O seu olhar não repreendia, embora a tristeza o amortecesse — abençoava ainda... Quando recordo isto, o remorso sobressalta-me...
Está bem... Não se impaciente... Diz-me, desdenhosamente, que não sabe onde esteja o interesse de que lhe falei, nesta história!?...
Até aqui, a vida de Angélica é vulgar, nada tem de extraordinário, de intensamente emotivo.
Mas eu ainda não cheguei ao fim.
Pode acontecer, de resto, que, para o seu sentimento, seja trivial o que para mim é duma elevação e duma grandeza excecionais, como nuança afetiva e como lealdade. Mas agora há de ouvir-me. Serei rápido...
Escute: tive, certo dia, de sair de casa para uma viagem em que me demorei dois meses. Na alegria e na impaciência da partida, nem sequer me despedi de Angélica. Só agora sei que isto a devia ter melindrado amargamente, fazendo-lhe chorar, no silêncio da sua casa que ninguém procurava, essas lágrimas que, na expressão admirável dum poeta, vêm de muito mais longe do que dos olhos, porque saem dos mistérios eternos da alma. Como a passara a encontrar poucas vezes, ia-a esquecendo a pouco e pouco. Quando regressei, já nem me lembrava dela — e foi preciso que me aparecesse, pálida, mais triste, talvez mordida pelo mal de que havia de morrer, que eu de súbito tornei a recordar, mas sem um grande interesse, devo confessá-lo... Parece-lhe isto insuportavelmente romântico, não é verdade?
Todavia, estou a reconstituir um caso vivido. A existência tem destas singularidades... Não imagine, contudo, que Angélica procurou de qualquer forma atravessar-se no meu caminho, para que eu a visse. De modo algum! A pobre rapariga tinha o orgulho que nascia da sua dignidade. Cruzou-se comigo naturalmente, certa manhã em que foi a minha casa para tomar conta dum trabalho.
Sorriu com a amabilidade de sempre, falou-me, com a afabilidade costumada, em coisas vulgares e que nem sequer me ficaram na memória. Só à despedida, quando eu, gracejando, lhe perguntei se já tinha noivo e se o seu casamento se celebraria brevemente, observei que ela se fazia, de repente, muito séria, murchando o riso no vermelho-cravo da sua boca, e exclamando com custo e em palavras gaguejadas:
— Para que quer saber isso?
— Para lhe dar a prenda prometida — respondi prontamente.
As suas pálpebras cerraram-se, por um momento, e, depois duma curta pausa, Angélica, subindo a escadaria, disse:
— Esteja descansado que hei de informá-lo a tempo. A sua prenda é que eu não desejo perder, de maneira alguma...
Este incidente aproximou-nos, de novo, da confiança um do outro: e, sempre que Angélica surgia diante de mim, eu não deixava de insistir:
— E esse namoro?...
Era uma inofensiva maneira de chalacear com uma rapariga na primavera dos anos — porque a mocidade só pensa no amor. No entanto, Angélica parecia não gostar da pergunta. E não gostava, com efeito! Mas só muito tarde eu tive a certeza disso e conheci o motivo do seu desgosto... Muitas vezes, amuava, não dizia nada, partia visivelmente contrariada e empregando grandes esforços para dissimular o seu mau humor, porque era duma perfeita delicadeza de maneiras; outras, porém, corava muito, os seus olhos fulguravam dum brilho mais vivo, e eu sentia a impressão de que ela tinha, na realidade, um segredo para revelar-me. Por isso mesmo, redobrava de impertinência... Que a sua alma imaculada me perdoe! Nunca eu pensei que lhe causasse tanto sofrimento!...
Uma tarde, todas as obscuridades deste pequenino drama que lhe estou narrando se dissiparam. Não olvidei ainda nenhum dos pormenores da cena — que tenho bem presente no meu espírito —, tanto ela me perturbou. Havia uma ruidosa multidão nas ruas que um sol radioso iluminava. Era a um domingo.
No ar fino e penetrante, os menores rumores adquiriam uma prolongada vibração. Angélica, que estava por essa época em minha casa, fazendo uns trabalhos de costura, descera um momento ao jardim, onde eu andava a tratar de umas roseiras. Ouvindo passos ligeiros rangendo na areia dos arruamentos, levantei a cabeça: e, vendo Angélica, de novo inquiri, banalmente:
— E esse consórcio?...
Era a insistência fútil de quem nada mais tinha para dizer a uma criatura de coração apaixonado que, certamente, talvez esperasse ouvir da minha parte palavras menos frívolas. Angélica, parando à beira dum canteiro de tulipas em flor, fitou-me demoradamente — e eu, contemplando-a nesse momento, vi com nitidez que um sentimento estranho, decerto o do amor, tinha entrado, como um cego, na sua alma!
Há certos instantes em que os seres conscientes sabem tudo e se confessam inteiramente, sem precisarem de bulir com os lábios — e era num desses instantes que se encontrava Angélica.
— Que tem para dizer-me? — exclamei eu, querendo acabar com uma situação que me sobressaltava.
— Uma coisa importante! — replicou Angélica, tão branca, tão falta de cor, que eu temi um desmaio.
Aproximou-se mais, sem dúvida para comunicar-me o seu segredo numa voz tão baixa que ninguém mais a ouviria, a não ser eu, e repetiu:
— Uma coisa importante.
— Mas o quê?
— É que, efetivamente, há um homem que me ama... Parece-lhe impossível!... Mas é verdade. Bem sabe que eu não minto. Mentir para quê?...
O sangue refluiu-lhe ao rosto, e falava apressadamente, numa exaltação de quem quisesse evadir-se, com rapidez, duma tortura insuportável. Eu, acendendo um cigarro, atendia-a sem a interromper: e Angélica, vencendo a vergonha de que aquela confissão a invadia, continuava:
— Sim! Há um homem que me ama, que baixou os olhos para a minha tristeza. Só por isto, eu o veneraria... Bem vê... A mão que se estende lealmente para todo o desamparo merece ser beijada com ternura...
— E Angélica? — interroguei.
— Eu, é claro, admiro esse homem, tenho vontade de ajoelhar diante dele. Quando me apareceu esta adoração tão sincera estava ao alcance da dor: e agora!... Agora, chego a crer que estou muito longe dela! Depois da morte de minha mãe, não tive maior afeto à minha volta.
— E ele é sincero?...
— Tem uma ambição única: a de ser meu marido. Há semanas que vivemos nesta luta... Que me aconselha?
— Aconselho-a a que aceite!...
— Que me case?...
— Sim!... Que se case!...
Sorriu doloridamente e disse, em palavras espaçadas:
— Tenho a certeza de que, se casar com este homem — o melhor dos homens! —, serei absolutamente feliz. O problema do meu destino ficará resolvido por completo.
— Aí está! — bradei eu.
— E, contudo, decidi não casar, repelir, sem orgulho, mas com firmeza, esta generosa oferta... Por quê? Por honestidade.
— Ora essa! — atalhei, aturdido.
— Sim — bradou ela —, por honestidade. Eu não quero enganar quem, tão confiadamente, acreditou em mim, oferecendo-me toda a sua vida e todo o seu futuro. Oh! seria uma traição: e os espíritos desta elevação moral não devem ser atraiçoados...
— Uma traição! Quantas palavras inúteis e irrefletidas.
— Uma traição, certamente. E quer saber por quê?... Por isto: é que amo, que amei sempre, um outro homem!...
Esta afirmação, que me surpreendeu, foi feita num grito que Angélica não conseguiu sufocar.
— Ama outro homem? — disse eu.
— Amo! E este amor, que me faz sofrer, não o maldigo, porque me deu a conhecer infinitas doçuras. Procurei, entretanto, libertar-me dele, mas em vão...
— E quem é esse homem?
— Ah! não queira sabê-lo. Não lho posso dizer. Apenas lhe digo que ele não sabe que é ardentemente amado por mim, e que eu nunca teria a coragem de revelar-lhe este amor!... É por isso que não me caso!... Não devo fazê-lo...
E, no entanto, não viria eu a adorar a criatura admirável que me quer?...
Peguei-lhe na mão, que a pobre Angélica não retirou, e que tremia entre as minhas; uma grande comoção apoderava-se de mim; não encontrava vocábulos com que pudesse exprimir claramente as minhas ideias.

Recordo-me, porém, de lhe ter asseverado que devia casar e que os seus escrúpulos eram pueris. Angélica, erguendo impetuosamente a cabeça, que uma bela, enérgica decisão animava, acudiu, com desespero:
— Não me fale assim!... Todos os homens podem dar-me tal conselho, menos o senhor...
E, escondendo o rosto nas mãos, fugiu, numa alucinação, através do jardim em flor, chorando perdidamente.
Compreendi tudo, e a minha comoção foi enorme. Nunca mais pude tornar a ver Angélica. Saiu de sua casa na noite desse mesmo domingo sem dizer para onde ia, e só voltou dias antes de morrer!...
Aqui tem o drama de Angélica. Uma romântica? Incontestavelmente! Mas um coração raro, uma verdadeira flor humana! É provável que a este drama falte intensidade e movimento. Não direi o contrário...
Todavia, eu apenas quis contar-lhe a história sublime de Angélica — a história da sua alma, do seu sonho, da sua dor, da sua ternura, que é a que eu considero superior... Talvez esteja em erro: mas eu venho do cemitério, pousei um fresco botão de rosa sobre o caixão de Angélica, no minuto em que ele baixava à sepultura, convivi com a morta encantadora, nos primeiros momentos da sua vida extraterrestre — e quando se está ao lado da morte, as sensibilidades como a minha têm uma grande necessidade de beleza espiritual...
Eis tudo quanto acerca de Angélica tinha a dizer-lhe...
Não! Não é tudo! Espere... Agora, que ela já não
é mais do que uma forma vaga na minha saudade, começo a amá-la exaltadamente! Como o coração humano é estranho!...

Porto, janeiro de 1924.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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