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6/07/2019

O rouxinol do Calvário (Conto), de João Grave


O rouxinol do Calvário

Conta um poema antigo, em versos puros de cristal e ouro, cheios de evocação, de embalo, de ondulação e ritmo, este doce milagre:

— Era no Calvário, ao descer da noite branda e fulgente de estrelas. Já pelos cabeços dos montes, tocados duma cor fluída de lilás e ouro, a lua aparecia, fina e branca, ascendendo em triunfo como um enorme lírio de luz, e o sol da Galileia, que toda a manhã flamejara e ardera, em fogachos de braseiro, morria serenamente no ocaso. Em ranchos silenciosos, as pombas recolhiam aos pombais ermos, as fontes, mais desoladas, choravam pelas colinas verdes e as açucenas cândidas fechavam, tremendo, as corolas de neve.

Havia apenas momentos que Jesus Cristo fora pregado na alta cruz trágica, manchando a meia tinta do crepúsculo e estendendo numa angústia os seus dois braços de sombra. Lágrimas de sangue que a claridade expirante fazia brilhar como carbúnculos desprendiam-se da fronte do Nazareno e rolavam, redondas e vivas, pelo madeiro.

O calor abafava. O centurião, hirto e brônzeo, erguia a pesada lança com um agudo ferro cintilando ao alto. De vez em quando, enxugava o suor da cara às costas da mão calosa. Jesus, com a cabeça pendente e quase desfalecido, sorria ainda, olhando com infinita bondade os homens ferozes que assistiam ao seu suplício, respirando com volúpia o cheiro acre da sangueira. A sua imaculada fronte empalidecia ao derradeiro fulgor do poente; as suas pálpebras cerravam-se.

De longe, chegavam os balidos das ovelhas regressando das pastagens ao redil, o som idílico e fugidio das canções de amor e de alegria, o tumulto da cidade sinistra, que, a distância, a lua banhava de fulgores brancos. Perto da cruz, as pobres mães desgraçadas, de braços tisnados e rostos enrugados e lívidos, levantando nos braços criancinhas inocentes, gritavam aos três justiçados:

— Vede! Vede!...

E o monte áspero, íngreme e cansado, bocejava e parecia perder, a pouco e pouco, o último alento. As suas linhas, os seus contornos, as suas cruezas, os seus ângulos agressivos, suavizavam-se na penumbra, esfumavam-se, esmoreciam da violência das tonalidades. Sobre a terra estéril e maldita, onde apenas as urzes rastejavam e as piteiras bravas espirravam, sedentas de ar, torcendo-se como numa condenação, alvejava o sudário lívido que a lua desdobrava vagarosamente.

Jesus atravessara, vergando sob o madeiro, as coléricas filas de povo que se juntava à sua passagem, disputando os lugares a murro e praguejando para ver antes de justiçado esse Rabi condenado à morte. Tanto se falava dos seus milagres, que era já célebre em toda a Judeia. Relembrava-se à porta das sinagogas, onde os doutores da lei liam os papiros amarelados; era invocado nos casais que um clarão de ventura jamais alumiara; os pequeninos que lhe sentiram na face a carícia tranquila das mãos abençoadas, diziam, gorjeando, o seu nome; os namorados olhavam-no de longe, se o avistavam por entre as várzeas em flor, meditando as suas doutrinas. Mas, nesse dramático dia, uma febre de loucura desvairava, embriagava as almas que clamavam pelo espetáculo bárbaro do sacrifício.

Vibravam-lhe blasfêmias abjetas, cuspiam-lhe nas pregas do manto, injuriavam-no, mostravam-lhe o punho fechado, numa ameaça. Os soldados romanos empurravam-no bestialmente, se as suas pernas enfraquecidas vacilavam. E só raras mulheres, sempre inclinadas à mágoa e ao perdão, lamentavam esse lindo moço, duns olhos tão fundos e meigos sob a coroa de espinhos que o diademava duma auréola de ouro e de sangue.

Uma rapariga em plena florescência e em plena beleza da mocidade, de peplum de linho bordado, surgiu com molhadas de junquilhos e de anêmonas, que lançou, chorando, aos pés de Jesus; e Ele olhou-a com placidez, a boca iluminou-se-lhe dum sorriso sereno, estendeu o braço numa bênção; mas, logo as megeras, rugindo entre a multidão, apedrejaram a compadecida moça como se ela fosse uma cadela.

E agora, ia morrendo lentamente, enquanto as rosas sonhavam, os berços e os ninhos repousavam poeticamente sob dosséis de ilusões e os lares não tardariam a adormecer.

Os rouxinóis acordaram nas balsas, naquela quieta e miraculosa noite alva como uma comunhão; o grande coração da natureza arrepiava-se de medo; e Jerusalém, onde medrava a flor escarlate do vício, dardejava de luzes, correndo ao prazer, a orgia, e sugando com avidez o mel diabólico do gozo impuro.

Sobre o Calvário, o silêncio foi pesando mais; a populaça afastou-se, gargalhando; as horas eram cheias de temor religioso. O centurião caminhava de um lado para o outro, de lança ao ombro. Os bandos de corvos, famintos de carne, crocitavam, batendo as asas negras.

Um dos condenados pediu água e desfaleceu. Cristo abriu os olhos enternecidos e contemplou as estrelas. Depois, fechou as pálpebras como num sono e ficou inerte.

O soldado espetou-lhe o ferro da lança no peito e abalou também. Então, na paz inviolável dessa noite de tragédia, um rouxinol passou sobre Jerusalém num voo ligeiro e veio pousar na cruz rude, cantando até ao raiar da madrugada fresca. Que dizia no seu canto essa ave estranha que assim enchia a solidão lacrimosa duma nota de triunfo e de alegria virginal?...

O rouxinol dizia isto: — “Antes de dealbar a aurora, a alma do justo entrará na imortalidade. Ela é enorme, encherá os tempos imemoriais,os séculos vindouros e proféticos. Lutou pela verdade e pela justiça; combateu pela fraternidade e pelo amor. E, mesmo na morte, Cristo resplandece de perpétua graça e de perpétua luz.

Por que foi que os homens crucificaram o mais puro dos homens? Jesus criou, com o esplendor do seu gênio, o ideal, a fé, um Evangelho de libertação que se estendeu ao mundo inteiro; sublimou o nosso sentimento, com a eloquência do seu verbo e o inefável fervor da sua crença; purificando-nos de ódios, de invejas e de acervos de misérias; aos desalentos amargos trouxe a doçura elísia da esperança; deu aos torturados e aos humildes a consolação sacrossanta das ilusões; vestiu os nus com um pano da sua túnica; afagou os pequeninos imaculados, serenou a fome dos famintos, alumiou os dias de claridade, as noites de estrelas, amou tudo o que era cristalino e sem mácula e tudo o que era desgraçado. Enlevou as consciências de ventura e de poesia; fez pulsar nos cérebros a força augusta do pensamento; abalou as iniquidades; revelou, como um visionário sublime, as conquistas igualitárias do futuro.

Do cimo da montanha da perfeição, a sua palavra poderosa revoou pelo universo severa e terrível, varejando os despotismos e celebrando a bondade e a virtude! Ele, que tanto chorou pelos deserdados e pelos vencidos, foi por eles arrastado nas pedras e assassinado. Disseram-lhe pragas as bocas pálidas a que tinha oferecido pão; arremessaram-lhe pedras as mãos que os seus lábios beijaram; coriscaram de raiva e de furor os olhos a que havia enxugado misericordiosamente as lágrimas ardentes. Mas a sua alma heroica, unção e candura, inocência e perdão, abençoou e perdoou.

Porque o mataram, pois, os homens? Era irmão deles este Homem sem pecados que o migar dum grande ideal guiava pelos despenhadeiros da vida. Atravessou farsas e torpezas, com o seu bordão de jasmins sempre florido; era o amor e o bem! Venceu os perigos, zombou das tentações, espiritualizou tudo em que tocou. A Natureza formou-lhe o gênio; e foi a Natureza, mãe fecunda do que palpita, lateja e brilha, que o compreendeu. A noite da sua morte será eternamente bela. Como este pálio azul dos céus é transparente e lindo! Como é alvo este luar elísio que deixa nas próprias podridões, a reluzir, ósculos de luz! O ar refrigera como um bálsamo, como a carícia duma asa, e rescende ao hálito virginal dos vergéis. E a alma de Jesus vai ascendendo para os intermúndios da suprema beleza!...

Afinal, esta morte era precisa. Era precisa, oh! condenados para quem o mal tem seduções dominadoras! Ela vem dar maior relevo moral à epopeia que começou há trinta e três anos, num casebre perdido de Nazaré, e que terminou nesta cruz que rompe da incerteza, como um formidável ponto de interrogação. Se o sangue de Cristo não corresse, a verdade da sua obra talvez se apagasse. O sangue fecunda, vitaliza, dá voo e onipotência às ideias dominadoras. Há quantos séculos toda a existência se alimenta da morte! Os trigais, os frutos, as rosas, as relvas, as florestas, sugam cadáveres. Toda a humana carne se desfaz, se pulveriza, se dispersa em poeira que as sonoras aragens revolvem nas espumas, nas folhagens, nos astros, nas areias, rias algas.

Os choupos esguios, os ciprestes, os pinheiros são corações que dão ais, de noite. Mas não se quebra o sagrado vaso que contém a essência. As formas são transitórias, as linhas corrompem-se, as aspirações efêmeras e vulgares envelhecem e tombam; mas a alma, a ânsia, os relâmpagos do gênio, vivem, cintilam, fulguram entre todas as escuridões, eternizando-se. A memória de Cristo — a redenção e o espírito — nunca mais esquecerá na humanidade. O seu gesto sem par de revoltado causará a admiração de poetas, santos, videntes e filósofos, pelos tempos fora. Medita as suas parábolas, imita a sua bondade, homem mau, se queres vencer na terra mesquinha, que é, no entanto, vitória bem trivial. Cá embaixo sufocamos. O chão é estreito para as vaidades e para as vilezas. Levanta os braços, pousa o olhar nos infindáveis horizontes, respira, sobe, enobrece-te e diviniza-te. Vê o céu como é enorme no seu esplendor e no seu mistério!...”

Eis o que dizia, no seu canto, esse rouxinol profético, sobre a cruz onde Cristo agonizava...


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

História dum ramo de cravos (Conto), de João Grave



História dum ramo de cravos

Quando nessa noite Julião entrou em casa, depois de um longo passeio pela cidade deserta e mergulhada na sombra muda e no silêncio doce para a sua tristeza, encontrou com espanto, no seu quarto de estudo, sobre um livro de versos de Alfredo de Musset, um ramo de cravos brancos e orvalhados que se exalavam em aroma e perfumavam todo o ambiente. Abriu, com sobressalto, a janela que respirava para o jardim, e chamou Rosália, uma velha criada que já servira sua mãe e que ficara sendo a companheira de uma orfandade melancólica.

— Lá vou, menino! — respondeu ela do fundo da cozinha, por onde arrastava, tossindo, os seus chinelos de ourelo.

Uma lua de balada, redonda e pulverizando-se em luz, tecia sobre os ramos das árvores, imóveis na solidão noturna, as frágeis, vaporosas rendas de luar, que se adelgaçavam, se dissipavam nas penumbras. As casarias adormeciam suavemente sob a bênção piedosa da claridade lunar. Nenhum ruído perturbava a quietação, a solitude daquele momento admirável. Julião ergueu o ramo de cravos nas mãos trêmulas e observou-o vagarosamente. Quem poderia lembrar-se dele, que era um desconhecido e um desalentado, com tanta gentileza? Ia entrando no entardecer da existência, não tinha a menor confiança na vida que não compreendia, não conservava nem ilusões nem esperanças e no seu sentimento a amargura formava lentas cristalizações.

— Que me quer? — preguntou, batendo à porta, a serva.

— Quem trouxe estas flores? — interrogou Julião.

— Quem as trouxe foi uma rapariguita, ao fim da tarde, pedindo-me para que eu lhas entregasse.

— Mas, da parte de quem vinha?

— Não o disse. Assim que mas deu, botou a fugir. Eu ainda a chamei, ainda quis saber... Ela, porém, nem sequer me escutou!... Foi assim mesmo.

— Está bem, Rosália... Pode retirar-se... Mas ouça!...

— O quê?

— Para a outra vez não torne a aceitar nada, sem explicações claras... Não gosto de romances.

— Eu sei lá o que são romances, menino!... Que queria que eu fizesse? Que as deitasse fora?... Estou a dizer-lhe como as coisas se passaram!... Ora, os meus pecados...

— O' mulher, não se apoquente! Isto é apenas uma recomendação e não uma reprimenda — exclamou Julião, aborrecido. Vá-se deitar, vá dormir!...

— Então, muito boas noites lhe dê Deus! — murmurou Rosália, afastando-se.

— Roas noites!

Julião pousou os cravos sobre a mesa, fechou a porta à chave, sentou-se numa cadeira e, acendendo um cigarro, começou a pensar naquele caso estranho tocado por um inefável calor de lirismo e de sentimento. Na realidade, que queria aquilo dizer? Que significaria uma tão delicada oferta a um homem que chegara aos trinta anos sem que diante da beleza feminina o coração lhe pulsasse no peito mais aceleradamente e sem que a sua imaginação exaltada, em instantes de febre e de aspiração, idealizasse sonhos de candura, de graça e de amor, povoados de visões angélicas que para ele estendessem braços suplicantes e lhe prometessem, com a doçura dos beijos, todas as felicidades terrestres? Aquele inexplicável episódio solicitava-o precisamente pelo seu ar de enigma. Sem o mistério que o envolvia, nenhuma impressão produziria na sua sensibilidade de doente e de solitário, gerada por um imenso orgulho — esse orgulho que o levava, na rua, a não fitar as mulheres que passavam, na radiação da sua formosura primaveril, só porque um dia pensou que podia ser desdenhado. Como era um tímido, por temperamento, por organização, concentrava-se, vivia num permanente recolhimento espiritual, sem querer sair para fora da sua personalidade, do seu “eu”: e assim se isolara cada vez mais do mundo envolvente, dos interesses afetivos, das frivolidades sociais, caindo na misantropia que o devorava e o fazia sofrer angustiosamente, porque pressentia, para além da sua: desolação, as alegrias e as venturas que iluminavam as almas de contentamento.

Ruminando as singularidades da sua psicologia e fumando com desespero, Julião procurava adivinhar a mão ignorada que mandava flores, ao descer dos plácidos crepúsculos, à sua vivenda vazia de saudades e de ternuras e entendia, finalmente, a fascinação com que o desconhecido atrai as naturezas sensíveis.

Pela janela aberta às aragens ligeiras da noite — uma sossegada noite em que a lua andava a espalhar bênçãos de luz na cidade sonolenta — entrava o luar tépido e branco que acariciava os cravos, murchando sobre o livro de Musset com encanto duma canção amorosa apenas principiada: e Julião, acendendo uns cigarros nos outros, evocava, de olhos errantes, as suas recordações mais longínquas para descortinar nelas uma aparição romântica, um vulto feminino prometedor e grácil que outrora o tivesse feito cismar e quedepois esquecesse: mas não encontrava idílio, trança de cabelo, rosa fanada, confissão meiga, carta deixada ao canto duma gaveta, que fossem uma revelação.

Na sua existência não havia minuto de enlevo, de ascensão lírica, de confidências, de palpitação, que a dourassem de poesia e lhe adoçassem a secura. Só se lembrava das angústias curtidas silenciosamente, dos ideais nunca realizados, de azedumes sem motivo que o exasperavam, do tédio sempre crescente duma vida sem finalidade — um tédio pesado que lhe entremostrava a loucura como um meio- de libertação e a inconsciência como uma felicidade que nada atenuava. Quantas vezes, alucinado por estes sombrios pensamentos, Julião se surpreendia a desejar a morte, uma rápida morte que não lhe causasse sofrimento e que o redimisse do seu cativeiro estreito! Nas raras conversas com os amigos, esta nota dum tão fúnebre espiritualismo denunciava-o constantemente nas suas palavras, era o leitmotiv de todas as suas considerações.

— Viver, para quê? — preguntava ele. Por mim, ainda não encontrei à vida outro fim que não fosse o de gastar inutilmente o dinheiro que
herdei.

— Mas, ó homem, tu ainda não viveste — respondiam-lhe. A vida não é, positivamente, a toca em que te escondes como um bicho assustado. Abre os braços com energia, ama, luta, trabalha, produz!

Diante do ramo de cravos, de que se evolavam fragrâncias perturbantes, Julião relembrava estes incidentes, e houve um momento em que, olhando em roda, pelo ermo compartimento em que a sua mocidade ia acabando com a melancolia duma flor que se desfolha, imaginou que essa casa teria mais encanto, mais conforto e mais beleza, se nela se escutasse a palavra jovial de crianças de cabelos em anéis caindo sobre os bibes brancos e se, pelas salas sonoras e recolhidas lidasse ativamente uma menagère diligente e amorosa que, nas horas negras do seu pessimismo, e apertasse num abraço e se curvasse sobre o seu ombro forte, dizendo-lhe ao ouvido uma dessas divinas ternuras que fundem todas as friezas da emoção. Mas, imediatamente o pungiu a dúvida. E se ele se houvesse enganado na escolha? Se em vez de encontrar um ser de lealdade, movido Unicamente por um espírito de abnegação e de sacrifício, encontrasse um ser de mentira e de hipocrisia, capaz de traições e perfídias? Ah! então, como se exacerbaria o conflito da sua sensibilidade e como a sua dor seria mais cruel!

Levantou-se de salto, atirando com a ponta do cigarro para o jardim, fechou a janela, e parando novamente, diante do ramo de cravos brancos, sorria com ironia...

— Naturalmente, é alguém que quer divertir-se, que pretende intrigar-me, para seu prazer E, pegando nas flores, arremessou -as com violência para o cesto dos papeis, como um trapo que se varre para a rua, indo deitar-se, muito nervoso pelas comoções intensas daquele momento de tentação. Apagou a luz e revolvendo-se entre os lençóis de linho que Rosália trazia perfumados a alfazema e a funcho, à moda da sua aldeia, não pôde conciliar o sono. Durante todo o resto da noite, a sua imaginação sobrexcitada se perdeu em devaneios e hipóteses que, na lucidez especial da sua leve sonolência, ele julgava irredutíveis verdades. Ao romper da manhã, porém, adormeceu profundamente — e quando despertou, sobressaltado pelas pancadas que Rosália lhe batia à porta do quarto, já o sol ia alto, ardendo e fulgindo no azul matutino como uma grande rosa de ouro e fogo.

— Que horas são? — preguntou, bocejando.

— Onze, menino! Está o almocinho pronto e estraga-se. Sempre me saiu hoje um dorminhoco!...

— Ai vou, mulher! É um momento!... Levantou-se apressadamente, mergulhou com regalo sensual na água fria do banho, sentindo clarificarem-se-lhe as ideias. Reconstituiu as cenas da véspera e, enquanto se vestia, pensava com delícia e gratidão na desconhecida misteriosa que mandava ao seu isolamento a doce visitação das flores orvalhadas.

Quem seria? Uma apaixonada ou uma vulgar intrigante?

Abriu a janela por onde a luz entrou a jorros, fulva, criadora, benéfica. Os pássaros cantavam alegremente nas folhagens dos arvoredos que davam sombra ao seu jardim — um florido canto de repouso e de graça em que lia Horácio nas tardes de calor. Da cidade, laboriosa e inquieta, vinha o ruído feliz da labuta diurna. A música idílica dos pregões vibrava no ar luminoso e macio.

Julião curvou-se ao peitoril, contemplando a formosura da manhã que era uma flor de pureza e de alegria abrindo sob o céu translúcido. Numa varanda, ao fundo do quintal, uma rapariga muito loura, de corpo ondulante, admiravelmente modelado, regava os craveiros que lhe floriam e perfumavam a varanda. Andorinhas aos pares passavam num voo rápido.

Este espetáculo inesperado foi uma revelação.

— Menino, menino, o almoço está na mesa!

— Já lá vou, Rosália!... — respondeu Julião, deixando-se ficar ainda à janela, absorvido em cogitações.

Ele conhecia, muito bem, a sua encantadora vizinha. Chamava-se Henriqueta, tinha vinte anos, ia todos os domingos à missa e em certas noites, tocava Chopin ao piano...-

Parecia-lhe séria, honesta, com propósitos de mulher completamente formada e nunca surpreendera homens rondando a sua casa.

Nas tardes de verão, vinha costurar para a varanda, e tinha um lindo jeito de esquecer, às vezes, as mãos no regaço, cerrando os olhos meigos. Simplesmente, nunca Julião a viu tão bela, como nessa manhã de junho, luminosa e nítida.

Seria ela quem lhe enviava flores — as flores que cultivava com tanto carinho — como uma doce promessa de amor? Esta suspeita encantou-o e comunicou-lhe audácia, olhando-a com uma insistência provocadora, tanto mais que Henriqueta não desviava o olhar nem se afastava da varanda que o aroma dos cravos incensava.

— Então, menino? — exclamou Rosália. Não quer boje almoçar?

— Agora é certo, mulher. Vou almoçar e até com apetite! — bradou ele, com vivacidade.

A partir desse dia, durante longas, dormentes semanas, Julião demorou-se gratamente à janela do seu quarto, mais do que de costume, e sempre encontrava, satisfeito, contente, Henriqueta à varanda, entre os vasos de craveiros. Habituara-se a esta saudação matinal, que o enlevava, e foi arriscando mesmo algumas palavras, a princípio hesitantes, com medo de ser escarnecido, mais tarde audazes, como se nelas quisesse exprimir a confiança no triunfo. O idílio — um suave idílio que lhe iluminou a alma — começou então, dissolvendo todos os negrumes da intimidade moral de Julião, que renascia: e foi com espanto que Jacinto — um amigo, já casado, dos tempos do Liceu — o viu entrar-lhe um dia em casa, alegre, com boas cores, de cravo na botoeira do casaco, dizendo-lhe com desembaraço:

— Sabes? Vou casar.

— O quê?

— Vou casar, homem! Que há nisto de extraordinário da minha parte?... Pois, não é tão natural?

— Certamente. Mas em ti, misantropo, solteirão, fugindo com horror de todo o convívio, de toda a sociabilidade, parece-me uma anomalia... Como foi isso?

Julião, sentando-se e cruzando a perna, olhou Jacinto com afabilidade, murmurando:

— Como foi isto?... É querer saber muito! Mas está bem! Para ti não há segredos.. , Ouve.... Certa noite de tristeza mais pungente, quando entrei no meu quarto, encontrei...

— Um ramo de cravos brancos! — atalhou Jacinto, com a boca cheia de riso.

— Sim, um ramo de cravos brancos... Mas como sabes, quem to disse?...

— Depois?... — interrogou Jacinto.

— Depois — continuou Julião mascando as palavras — havia na vizinhança da minha vivenda uma certa Henriqueta que todas as manhãs regava os craveiros à varanda. Eu olhei-a, ela olhou-me...

— Bem sei. Não tornaram a olhar- se mais em todo o dia. Isso vem no Dante, no episódio de Paolo e Francesca, pouco mais ou menos.

— Sim, mas Paolo e Francesca morreram e nós vamos viver agora!

— Ó Emília! — gritou Jacinto para dentro. Vem cá.

— Que é, meu amor? — preguntou uma voz fresca de mulher.

— Quero dar-te os parabéns, porque és o mais sutil psicólogo de saias que tenho conhecido.

— Então? — inquiriu Emília, entrando.

— O nosso amigo Julião vai casar, e creio que foste tu que concorreste para este acontecimento notável.

— Pois, o ramo de cravos brancos que decidiu do meu destino!... — tartamudeou Julião.

— É verdade, fui eu que lho mandei com todo o mistério que o intrigou e o levou a amar.

— Essa agora!...

— Veja como muitas vezes as coisas insignificantes exercem uma ação prodigiosa e renovadora em certas sensibilidades e em especiais estados de alma!

— Menino — concluiu Jacinto, com uma gargalhada — é a psicologia. Tu não possuías uma vontade nem eras movido por um interesse na vida. Eu e a Emília, que te estimávamos, decidimos despertar-te, com as flores, a vocação para as flores... E conseguimo-lo, bárbaro. Só tens que nos agradecer!


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

As ironias do amor (Conto), de João Grave



As ironias do amor

Antônio, tinha-a amado muito, outrora, quando as ilusões da sua mocidade davam flor, com a timidez, o recolhimento, a doçura íntima com que se amam as almas puras. Florinda entrava então nos dezoito anos, saía dos encantados jardins da adolescência, trazia os olhos namorados de beleza, deixava a paz da juventude para entrar nas sobressaltadas ilusões do amor e todas as manhãs, quando Antônio passava na rua em que ela vivia, encontrava sempre à janela a sua vaporosa cabeça loira a que a poeirada fulgente do sol da primavera dava um brilho de joia rara e animada. A princípio olhou-a com acanhamento, no receio de ser escarnecido: depois, o hábito foi-lhe comunicando coragem e fitava-a com mais insistência.

Uma vez, pareceu-lhe mesmo vê-la sorrir com simpatia, e esta grata, suave suspeita encheu-lhe o peito de luz, sob a alegria sem névoas duns olhos tão azuis e tão cândidos que dir-se-iam tocados de uma gota da tinta do céu.

A partir desse momento, a sua muda adoração ganhou mais confiança e tranquilidade. Constantemente pensava na radiosa visão matinal que vinha espreitá-lo da alta varanda, entre os vasos com pelargônios que, sob a claridade benéfica, se cobriam de florações novas, e de quem ele idealizava, em repousadas, meigas horas de enlevo, a castidade sem mácula, a ingenuidade, a ternura, e monologava:

— Ela já reparou!... Ela gosta de mim...

Prendera-se com tanta devoção do espírito e dos sentidos a esta aparição romântica que era uma rosa desabrochando na aridez da sua existência, que se ela um dia não lhe aparecesse, sentiria uma dor profunda: mas, como Florinda constantemente se mostrava e lhe sorria, a pouco e pouco a dolorosa suposição da sua ausência se dissipou na sensibilidade de Antônio, como um tênue fumo. No romance desta paixão, começaram a vicejar as flores divinas da felicidade — oh! uma felicidade toda imaginária, porque nunca entre os dois se havia trocado uma só palavra de cumprimento e de afeto! Mas tão seguro estava Antônio do amor de Florinda, que ia já construindo docemente uma vida futura de placidez e de veneração perpétua, em companhia dela, junto do seu regaço, dos seus pequeninos pés, com as mãos da noiva, que eram magras, brancas e de dedos afusados, presas nas suas, balbuciando as confissões que um exaltado romantismo lhe inspirava. Havia de perguntar-lhe, com a voz débil com que se fala aos convalescentes:

— Não és tu feliz?...

E pensando assim, com a imaginação povoada de esperanças, reconstituindo na fantasia ardente a fronte cândida de Florinda, que era melancólica e sonhadora, julgava que ela lhe sorriria com brandura e reconhecimento por toda aquela ventura que ele lhe oferecia e por toda a graça terna de que a rodeava.

Em momentos de maior intensidade de sentir, surpreendia-se a compor o seu lar. Seria numa aldeia de cavadores simples e crentes, entre árvores de boa sombra. Escolheria uma casa pequenina, com latadas de glicínias e limoeiros correndo ao longo das paredes — porque para duas criaturas que muito se querem, uma concha basta. Os dias, nesta solitude propícia, deslizariam com asas de seda e de luz, tão rapidamente que não chegariam a aperceber-lhes o tédio e a fadiga. Estes devaneios formavam-lhe na alma cristalizações de saudade "e mergulhavam-no ao mesmo tempo em gozo interior e em
beatitude...

Decerto que nunca tivera a audácia de se demorar sob a janela de Florinda, de oferecer-lhe uma carta em que lhe contasse todas as ansiedades, todas as inquietações, todos os cuidados do seu amor. No entanto, considerava que Florinda devia conhecer já esse amor forte e confiante, pelo olhar triste e implorativo com que a contemplava e pela súbita palidez do seu rosto, quando em certos domingos a encontrava na cidade, com a mãe:

— As mulheres são subtis — dizia ele para sossegar as suas dúvidas — e adivinham por instinto, os segredos que os homens que amam não ousam revelar-lhes.

Ora, quando este sonho feliz se cobria de rosas, Antônio recebeu inesperadamente a notícia cruel de que Florinda ia casar-se, viver talvez contente e adulada, com um homem entrado no outono da existência, rico certamente, mas que não trazia a refletir-se no olhar fulgor de inteligência, de bondade, de superioridade espiritual. Ao amigo, que lhe levara a nova perturbante, quis Antônio iludir com um riso cortante e seco e a zombaria amarga dos sarcasmos: mas ele facilmente compreendeu quanta dor havia nas ironias e numa ácida gargalhada, que afloravam à boca antes que as lágrimas aflorassem aos olhos.

— Homem, para que hás de representar, ser comediante, se eu leio no teu espírito, e perfeitamente entendo o teu despeito? — atalhou, de súbito, o amigo.

— Despeito? Ora essa!... Eu conheço a sociedade do meu tempo. A ambição não poupa mesmo estes lindos anjos femininos, que nós andamos constantemente a engrinaldar de flores e de virtudes! Em que é que eu posso julgar-me ofendido?

— Não é bem uma ofensa, o caso de que se trata. Muito pior, talvez: — é uma humilhação... E as humilhações sempre doem, não é verdade?

Antônio acendeu um cigarro, ficou-se um instante a seguir as espirais do fumo azulado que se torciam no ar, e exclamou bruscamente:

— Deixa-me só! Tenho necessidade da solidão para fazer uma romagem piedosa ao passado.

— Da melhor vontade! — acudiu o amigo, despedindo-se.

Deu alguns passos à volta da sala, espreitou durante algum tempo a rua através da vidraça e com um profundo desalento no coração começou a meditar sobre o singular desfecho do idílio que durante alguns meses fora o seu enlevo. Florinda ia casar-se! Toda a ventura que idealizara em horas de placidez e de confiança se esfumava como um fugidio nevoeiro. Tinha na alma a sua luarosa imagem e sentia invadi-lo uma impetuosa cólera contra essa doce rapariga que lhe parecera tão resplandecente de candidez e de gracilidade, tão inocente, e que afinal era fútil como todas as mulheres, entregando-se a um homem com dinheiro para satisfazer todos os seus caprichos femininos, todas as suas absorventes aspirações de luxo. Então, enfurecia-se contra si próprio, porque ainda a amava apesar de desdenhado e de traído, numa grande abdicação de personalidade, de dignidade, de orgulho. Experimentou uma enérgica revolta contra a sua fraqueza, e sentando-se, apertando a cabeça nas mãos, murmurou:

— Acabou-se! Caiu-me uma flor a uma pocilga... Para que hei de interessar- me por ela?

Recuperando, porém, a sua placidez, acalmada a sua tempestade interior, considerou:

— Terei eu, no entanto, o direito de acusá-la? A sua vontade é livre. Não posso impor a ninguém uma simpatia pela minha pessoa. De resto, nem sequer lhe falei uma só vez! Amei-a em segredo, com pudor, com recato, como um colegial!

Nunca lhe tinha falado, com efeito! Mas costumara-se à muda saudação de Florinda, que todas as manhãs o esperava à janela, sorridente, com a auréola dos cabelos de ouro novo esplendendo à volta da sua testa, que era ebúrnea e alta, inteligente e pensativa, e imaginava que só por isto ela lhe devia constância, fidelidade, gratidão! Ah! o acanhamento, o medo infantil, que lhe afogava a voz na garganta, sempre que tinha de revelar o seu amor a uma mulher! Relembrava a sua mocidade, que se ia fanando, correndo continuamente atrás de quimeras nunca alcançadas! Tinha o coração cheio de imagens mortas — e cada uma dessas imagens o fizera sofrer amargamente. A de Florinda, então, mais venerada do que todas as outras, causar-lhe-ia angústias! Resignar-se-ia... Ela ia casar, ter filhos, um braço dedicado que a amparasse. Não lhe queria mal por isso, com certeza! Mas, na sua amargura, pensava que uma mulher assim, se fosse boa e leal, seria o encanto da sua vida, faria reflorir rosas na sua melancolia, iluminaria as suas incertezas com uma fé resplandecente e purificada. E Antônio havia de ser o seu escravo mais dócil, um crente de todos os instantes. Levaria a sua abnegação a um tal ponto, que se ela precisasse do sofrimento e das lágrimas de alguém para a sua perfeita felicidade, choraria e sofreria só para que ela se não lamentasse!

— Mas, a que conduzirá este devanear absurdo? — preguntava Antônio. Ela vai casar!... E eu, desiludido, hei de esquecê-la, certamente...

Vagarosos e lentos anos se passaram, e Antônio não a esqueceu. Sabia-a venturosa e como no seu coração se tinham apagado todos os maus sentimentos por essa mulher, a ventura que a envolvia refletia-se também em Antônio, que trazia ainda a alma dorida, cheia da sua graça, da sua beleza, da poesia de uma adoração malograda e longínqua. Às vezes, passava à porta de Florinda, para melhor ressuscitar a paixão dos dias findos, e surpreendia-a a cantar à varanda, entre dois filhos louros e tendo os olhos azuis como os dela. Esta cena enternecia-o e levava-o a ruminar no que, com Florinda, perdera para sempre. Afastava-se a passos apressados, para que ninguém notasse a sua perturbação, perto daquela casa em que se refugiara uma parte do seu próprio ser. De resto, Florinda nem sequer reparava nele, como outrora, nas límpidas manhãs em que o mundo tinha, para os seus olhos, uma formosura nova. Parecia tão contente, tão satisfeita, tão sossegada!...

Antônio experimentou a necessidade imperiosa de aproximar-se mais da mulher que, em certo momento da sua vida psíquica e moral, resumira as suas supremas ambições — e procurou uma apresentação, facilmente encontrada, certa noite em que, em casa duma família das suas relações, havia uma reunião mundana a que Florinda assistia também. E como a sua beleza de flor nova radiava, entre os nevoeiros das rendas, o brilho das sedas, a faiscação das joias irizando-se à luz! Estava então em pleno esplendor da formosura: e, como não ignorava a fascinação que exercia, pela sua graça, entre os homens, expunha-se voluntariamente às admirações envolventes, para dominar os que a cortejavam.

Antônio seguia-a insistentemente como olhar, espiava os seus mais vagos gestos e expressiva mobilidade dos suas linhas fisionômicas, no secreto intuito de lhe surpreender no rosto o cuidado duma lembrança mais grata por ele, que tão puramente lhe quisera; mas, se Florinda recordava o episódio sentimental doutras épocas volvidas, nada, em todo o caso, deixava transparecer. Parecia por tal modo desinteressada que, fitando-o, nem sequer mostrou que o conhecia.

— Ah! as mulheres! Que enigmas!... — monologava. Chamamos-lhes seres de devoção e de sacrifício e, afinal, o que as caracteriza é uma pontinha de perversidade e de ingratidão pelos mais nobres afetos.

Quando um homem da intimidade da casa de Florinda lhe apresentou Antônio, que tremia e torcia nervosamente as luvas, foi com gentileza que ela lhe estendeu a mão — uma linda, magra e branca mão fulgurante de anéis — dizendo banalmente:

— Muito prazer em conhecê-lo!

Antônio, ao dirigir-se-lhe, ingenuamente pensava que ela empalideceria um pouco, que não conseguiria esconder o seu espanto por aquela audácia, que o repreendesse com um olhar mais severo — ou que o acolhesse então francamente, com uma alegria sem disfarces. Eis, porém, que o encontro há tanto esperado fora duma naturalidade que o despeitava.

— Eu conhecia vossa excelência a há muito — tartamudeou, ao ficar só com Florinda. Não se recorda também de mim?...

— Não!... — acudiu com um sorriso indefinível.

E acentuando as palavras intencionalmente:

— De resto, como vivemos numa cidade muito pequena, todos nos conhecemos uns aos outros, pelo menos de vista...

Esta zombaria desconcertou Antônio, que atalhou bruscamente:

— Eu imaginava!...

Florinda deteve-se um minuto a observá-lo, brincando com o leque indolentemente, e exclamou:

— Não!... Não me recordo, com efeito. Poderia dizer o contrário, por amabilidade, mas eu não sei mentir...

Antônio, que começava a sentir-se grotesco, ergueu-se, cumprimentou-a e retirou-se da sala... Já na rua, ia meditando na singularidade dos sores femininos que parecem trazer a verdade na boca, que mentem com tanta arte, tanta candura e tanta convicção, e que se vingam cruelmente.

— Será esta mentira de Florinda, porventura, a prova dum amor que não quer revelar-se? — preguntava ele, para lisonjear a sua vaidade melindrada.

Mas, como na sua agitação se julgava incapaz de análises profundas e de sagazes psicologias, concluiu que o amor era uma estopada, um absurdo, uma doença de sentimento.

— Por mim, considero -me curado! — afirmou.

E foi esperar, sob a frialdade da noite, que Florinda reentrasse na sua vivenda, contente, desdenhosa e feliz, pelo braço do marido, só para vê-la mais uma vez ainda.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Amor que morre (Conto), de João Grave




Amor que morre

Na doçura da tarde expirante, como uma flor de ouro e de luz que desfalece, Henrique foi sentar-se no jardim, sob uma frondosa magnólia que das suas folhagens e das suas corolas deixava cair brandamente a frescura, o silêncio e o aroma. A paz ambiente era profunda e consoladora e o azul dos altos céus desmaiava, colorindo-se de tons de fogo e de pérola para as bandas do poente.

Estava então na aldeia, onde queria passar saborosas, despreocupadas semanas de sossego para descansar da agitação nervosa e violenta da vida citadina: e os seus olhos encontravam um indizível encanto nas formas e nas cores da natureza envolvente, na poesia e na beleza das paisagens resplandecendo à claridade, nos costumes simples da boa e ingênua gente de campo. Nesse fim de tarde romântica, sob a magnólia que a brisa cobria de murmúrio, Henrique folheava indolentemente um romance francês, História de urna paixão, que o último correio lhe trouxera, e a sua imaginação perdia-se na saudosa lembrança de amores antigos que à sua vida emotiva tinham dado alguma ventura. Por entre as grades do jardim via passar as fartas manadas de bois de pelo fulvo, que voltavam dos pastos, tangidos pela aguilhada de zagais descalços.

Ao longe, entre os trigais, cantavam as ceifeiras e o crepúsculo baixava lentamente mergulhando a terra num íntimo recolhimento. Henrique experimentava, pela primeira vez, o enlevo inspirador, o afago da hora rústica que o apaziguava e afinava a sua faculdade de sentir e de compreender. Inesperadamente, porém, a voz de Batista, um criado fiel que trouxera da cidade, chamou-o:

— Menino, está aqui o homem do telégrafo...

— Ele o que quer, Batista? — interrogou Henrique, erguendo-se surpreendido.

— Diz que traz um telegrama.

— Um telegrama?

— Sim!... E urgente!

— Ó diabo, então o caso é sério...

Pousando o livro, Henrique dirigiu-se ao portão do jardim, abrindo-o, e impacientemente pegou no telegrama que o distribuidor, de boné na mão, lhe estendia.

— Batista, dá um copo de vinho a este senhor...

— Muito obrigado!...

Quando novamente ficou só, Henrique rasgou o envelope e, temendo que o despacho inesperado lhe anunciasse más novas acerca da mamã, piedosa senhora devota que não quisera deixar a sua vivenda urbana e que vagueava pelos longos corredores, embrulhada num xale de lã, como uma sombra que se diluía, foi logo ver a assinatura.

Suspirou de alívio. O telegrama não era da mãe, mas de Pedro de Brito, um jovial camarada de estúrdias.

— Que me quer este excelente Pedro e com tanta pressa? — monologou Henrique.

Mais sossegado e com o papel entre os dedos trêmulos, leu estas palavras: — “Vem já. Maria da Luz está a morrer. Antes de fechar os olhos para sempre, deseja ver-te e falar-te”. Tomou a ler, comovidamente, o telegrama que lhe anunciava um acontecimento nem doloroso para a sua alma e, por instantes, abateu-se sobre o banco de pedra, escondendo a face nas mãos e reavivando penosas recordações longínquas.

— Pobre rapariga, coitada!... — exclamou. Recuperando a energia que aquelas tristes

linhas amoleceram no seu organismo, Henrique levantou-se, entrou no seu quarto onde Batista acendia o candeeiro, ordenando:

— Vai dizer ao José que aparelhe o meu cavalo...

— O menino sai?

— Decerto... E olha, talvez não volte hoje. Tenho muito que fazer...

— O telegrama é bom ou é mau?... Vejo-o tão pálido.

— É mau, homem! Mas não te demores, não fiques aqui a tagarelar... Vai, enquanto eu mudo de fato...

Pouco depois, Henrique galopava pela estrada fora, que uma lua redonda e branca de balada iluminava. As árvores projetavam no chão sombras alongadas e movediças e as herdades, aninhadas pelos vales, adormeciam sob a bênção pura do luar. A solidão era apenas quebrada de onde a onde pelo referver das águas nos açudes ou pelo ruído monótono das azenhas.

Durante o caminho, Henrique ia relembrando melancolicamente essa Maria da Luz que estava agonizante e que ele tinha conhecido em plena mocidade e em plena beleza, em anos ditosos. Tinha uns cabelos ondulantes e negros, um rosto muito branco e uns olhos dum preto líquido, langorosos, tentadores, em que refloriam promessas. O seu perfeito corpo era de estátua e parecia haver sido modelado por um escultor que nada ignorasse das plásticas harmoniosas.

Maria da Luz fora a sua tortura, a sonhadora ilusão da sua adolescência, o terno cuidado do seu amor antigo: e os rapazes da sua geração atiravam-lhe inconsideradamente ao regaço, por um simples beijo, a dignidade e a fortuna, comprometendo-se e infamando-se. Era fria, insensível, desdenhosa; tinha um modo cínico de interromper, com gargalhadas ácidas e cortantes, as confidências dos que o seu poder de sedução escravizava, e Henrique sempre pensara que aquela mulher se mantivera refratária ao lume de todas as adorações sinceras. Vendia-se por dinheiro, mas a sua sensibilidade não intervinha nesse comércio vil.

Apesar disso, também ele a tinha amado com veneração, com febre, até ao dia em que ocorreu um drama sanguinolento que ainda agora o fazia estremecer de horror e de angústia. Esse drama fora o suicídio de Jorge, que partira o crânio com a bala dum revólver, quando Maria da Luz, sabendo-o arruinado, o repelira zombeteiramente. E, contudo, jamais pudera esquecer a sua graça estranha, o mistério dos seus olhos enigmáticos que dir-se-ia perscrutarem o mais oculto segredo dos corações. Ela era uma esplêndida floração da carne, uma das mais belas obras de arte humanas e animadas de quantas tinha contemplado, possuía o indizível encanto dos anjos despenhados que vão sobre a lama de todas as misérias gritando as fatalidades dum destino inexplicável e que conservam, apesar disso, alguma coisa de muito venerável, de muito casto e de muito cândido na sua alma... E estava a morrer, essa linda criatura que fizera a iluminura maravilhosa da gracilidade feminina no seu tempo! Que poderia ela dizer-lhe que o levasse a absolvê-la e a perdoar-lhe o mal que fizera a Jorge e a ele próprio? Suspeitava de qualquer revelação terrível, guardada obstinadamente durante tempos sombrios de tormentos morais e que fosse a explicação da sua frieza e do seu doentio cinismo...

Ah! essa frieza, esse desdém, tinha-os Henrique sofrido amargamente, porque Maria da Luz, que se entregava a todos os homens que a procuravam, nunca quisera entregar-se a ele! Henrique relembrava agora, claramente, o que Maria da Luz lhe dissera, na derradeira vez em que se encontraram. Curvando-se, sorridente, sobre a sua fronte abrasada, perguntou-lhe:

— Que é que o senhor vê em mim? Responda com franqueza!...

— Uma adorável mulher por quem eu seria capaz de praticar loucuras.

— E não vê mais nada?

Maria da Luz interrogava-o muito séria, com um brilho de fogo no olhar, esperando ansiosamente a resposta.

— Que quer que eu veja mais? Pois, não lhe basta a minha confissão? A sua vaidade não estará ainda satisfeita?

— Decerto que não...

Seguiu-se um curto momento de pausa, que oprimia Henrique. Maria da Luz, brincando com o leque, murmurara numa voz que parecia vir de muito longe:

— Afinal, os homens, mesmo aqueles que nós, pobres mulheres, julgamos mais inteligentes, não veem nada... Oh! são duma miopia, duma cegueira, duma falta de sutileza!...

Rindo sarcasticamente, Maria da Luz bateu com o leque, de leve, no ombro de Henrique, dizendo:

— Sabe uma coisa? A sua presença fatiga-me. Deixe-me só e não torne a procurar-me. É a maior fineza que pode fazer-me...

Então, ainda Jorge estava vivo, gastando com Maria da Luz os últimos contos de réis: e ela, como se quisesse exacerbar mais a sua crueldade, ameaçou:

— Se continua a perseguir-me, contarei ao seu amigo esta traição...

Tudo isso já lá ia muito longe: e Henrique, revolvendo na memória estes velhos episódios, durante a jornada, monologava:

— Que quererá ela, a dois passos da morte, a um adorador que outrora desprezou com tanta teimosia?...

A estrada rompia agora através de uma vasta planície polvilhada pela neve resplandecente do luar. Os arvoredos, na solitude, tinham atitudes singulares de quem escuta. O silêncio era profundo. Inesperadamente, luzes longínquas, ardendo, afilhando na noite como pontos de ouro, acordaram Henrique da sua reverte. Estava perto da casa campestre em que Maria da Luz se refugiara, ao adoecer. Pedro devia esperá-lo, certamente.

O desabrido galope do cavalo sobre as pedras despertava os cães de guarda, que latiam aos portões de ferro das quintas solitárias. Entrando na povoação, Henrique abrandou a marcha, dirigindo-se para a desolada vivenda onde Maria da Luz agonizava, velada por uma enfermeira, quase só — ela que antigamente tivera uma tão numerosa e gentil corte de vassalos, como rainha da graça e da formosura.

Chegou. A habitação da enferma era baixa, com um largo beiral onde as pombas arrulhavam, durante o dia. Sobre o muro que a cercava, caía um ramo de glicínias brancas. Pedro conduziu-o logo ao quarto de Maria da Luz, que arquejava, no leito, encostada a grandes almofadões. O seu corpo mirrado tinha, debaixo das roupas, o volume do de uma criança. Havia no ambiente um cheiro particular de febre e de medicamentos. A pouca vitalidade que restava à doente parecia concentrada nos olhos, negros, profundos, dolorosos, que reluziam, iluminando-lhe de claridade o rosto macilento e emagrecido. Henrique aproximou-se de Maria da Luz, com uma infinita piedade no coração por essa flor que tinha conhecido tão viçosa e radiante e que o sofrimento fanara: e como a olhasse com espanto e comiseração, ela segredou, baixinho:

— Sou eu, com eleito!...

Esboçou levemente um gesto, para que os deixassem sós e depois continuou penosamente:

— Ainda bem que veio... Agradeço-lhe a bondade... Será esta a última vez que o importuno!...

— Não, há de curar-se!... Verá! — exclamou Henrique, com lágrimas nos olhos. 

— Não me iluda... De resto, a morte não me atemoriza e estava cansada da vida, que para mim foi bem triste...

Henrique queria falar, consolá-la com a esperança de dias melhores, mas ela, fazendo-lhe sinal para que se calasse, pediu:

— Dê-me a sua mão... Assim!... É tão bom a gente saber que tem na existência um afeto... Veja como me abandonaram, a mim que gastei a mocidade com os outros!...

Interrompeu-se um momento, abalada pela tosse, para recomeçar:

— Mas, para que servem as lástimas?... Eu não o mandei chamar, para contar-lhe as minhas desgraças, mas para revelar-lhe um segredo de que nunca suspeitou e que eu não quero levar para a morte.

A sua mão fez uma pressão mais doce na mão de Henrique:

— Sabe por que eu desprezei sempre as suas ofertas, aceitando as dos outros? Não sabe!...

— Não, certamente!

— Aí está a razão porque um dia lhe disse que os homens não veem nada!... Nunca me entreguei ao senhor, porque o amava e porque este amor foi o primeiro e o último para mim!...

— Maria da Luz!... — bradou Henrique, levantando-se.

— Sossegue, não se exalte! Eu era uma pobre mulher, pertencendo àqueles que não amava; e por um capricho que ainda hoje não decifro, não quis pertencer ao único homem que verdadeiramente amei! Por quê?... Porque, no meu sentimento, o considerava diferente dos outros. E o senhor nunca me compreendeu! Odiou-me, talvez!... Acabou-se! Fiz-lhe mal, mas também padeci aflitivamente. Perdoe-me...

— Oh! meu amor!...

— Um beijo!... Dê-me um beijo, se lhe não repugna beijar um cadáver...

Henrique beijou-a demoradamente, na boca, como se quisesse sorver-lhe toda a alma, que se apagava.

— E agora vá!... Poucos dias terei de vida, mas lembre-se de mim, deste supremo instante...

— Não! Há de viver!...

— Vá, por Deus... Acendeu-se uma luz nova no meu espírito. Sinto-me tão nem!... Este segredo queimava-me! Que medo eu tive de morrer sem lho confessar!... Mas vá, chame a enfermeira. Agora, a sua presença faz-me sofrer!... Adeus, adeus para sempre!...

Alvorecia e Maria da Luz morreu daí a uma semana.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)