sexta-feira, 7 de junho de 2019

A pintura do automóvel (Conto), de João Grave



A pintura do automóvel
Eu explico como foi (disse o homem triste que estava com uma cara alegre), eu explico como foi...
Quando tenho um automóvel, limpo-o. Limpo-o por diversas razões: para me divertir, para fazer exercícios, para ele não ficar sujo.
O ano passado comprei um carro muito azul. Também limpava esse carro. Mas, cada vez que o limpava, ele teimava em se ir embora. O azul ia empalidecendo, e eu e a camurça é que ficávamos azuis. Não riam... A camurça ficava realmente azul: o meu carro ia passando para a camurça. Por fim, pensei:
"Não estou a limpar este carro. Estou a desfazê-lo!" E antes de acabar um ano, o meu carro estava em metal puro. Já não era um carro, era uma anemia. O azul tinha passado para a camurça. Mas eu não achava graça a essa transfusão de sangue azul. Vi que tinha que pintar o carro de novo.
Foi então que decidi orientar-me um pouco sobre esta questão dos esmaltes. Um carro pode ser muito bonito, mas, se o esmalte com que está pintado tiver tendências para a emigração, o carro poderá servir, mas a pintura é que não serve. A pintura deve estar pegada, como o cabelo, e não sujeita a uma liberdade repentina, como um chinó. Ora o meu carro tinha um esmalte chinó, que saía quando se empurrava.
Pensei eu: quem será o amigo mais apto a servir-me de empenho para um esmalte respeitável? Lembrei-me que deveria ser o Bastos, lavador de automóveis, com uma Caneças de duas portas nas Avenidas Novas. Ele passa a vida a esfregar automóveis, e deve portanto saber o que vale a pena esfregar.
Procurei-o e disse-lhe:
"Bastos amigo, quero pintar o meu carro. Quero pintá-lo com um esmalte que fique lá, com um esmalte fiel e indivorciável. Com que esmalte é que o hei de pintar?"
“Com Barryloid", respondeu o Bastos, "e só uma criatura muito ignorante é que tem a necessidade de me vir aqui maçar com uma pergunta a que responderia do mesmo modo o primeiro chauffeur que soubesse a diferença entre um automóvel e uma lata de sardinhas".
"Perfeitamente...", respondi eu.
"Como quer você pintar um carro…", continuou o Bastos sem me ligar importância, "…senão com um esmalte que seja ao mesmo tempo brilhante e permanente? E, ainda por cima fácil de aplicar... Isto do fácil de aplicar é comigo, mas é uma virtude, e as virtudes citam-se... Vá-se embora!..."
"Bom...", disse eu.
"Isto de esmaltes de nitrocelulose", prosseguiu o Bastos, dando-me um encontrão, não é um assunto de mercenária a retalho. Há uma coisa maçadora a que se chama ciência. Sabe o que é? Mas é maçadora para quem prepara as coisas; para nós, que as recebemos preparadas para as aplicarmos, é um alívio e uma alegria. Este Barryloid é o produto de longos cuidados feitos no primeiro laboratório de tintas, lacas e vernizes. Percebeu? Não é o primeiro produto do gênero que apareceu; porque o ser primeiro está bem se se trata de estar numa bicha, mas não se trata de tintas ou de coisas que metam estudo e provas. Não!
Nas tintas e na prática, a última palavra é que é a primeira.
"Meu caro Bastos...", quis eu interromper.
"Só Barryloid", respondeu o Bastos, virando-me as costas.
"Eu queria agradecer...", prossegui.
"Traga o carro", disse o Bastos.
Levei-lhe o carro e ele pintou-o a Barryloid. E não há camurça, nem chuva, nem poeira da pior estrada, que consiga envergonhar esse esmalte de aço. Sim: o Bastos tratou-me mal, mas tratou bem a verdade. Não há nada como o Barryloid.
... Tanto assim que, quando comprei o meu segundo carro, tratei logo de saber se ele vinha já pintado a Barryloid. Ele aí está na base da página e no fim da minha história. Passa-se a camurça, mas é preciso usar óculos fumados: o brilho deslumbra. E, o que é mais, deslumbrará, porque dura.
A minha camurça dura eternamente. O que se tem gasto muito são os óculos fumados; e os elogios dos amigos que veem os meus carros pintados a Barryloid.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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