domingo, 2 de junho de 2019

A Princesa muda (Fábula), de Ana de Castro Osório



A Princesa muda

Era uma vez um Rei que tinha uma filha e desejava casá-la antes de morrer, para não haver guerras e questões na sucessão à Coroa.

A Princesa era muito bonita e servida com o maior esmero por suas aias, damas e açafatas; de modo que não havia quem, nesse tempo, a igualasse em elegância e beleza.

Ora um dia, uma das aias que a estava toucando, encontrou-lhe um piolho.

Houve grande alvoroço no Palácio por este acontecimento aflitivo e nunca visto, pois que jamais em cabeça de linda e esmerada Senhora se encontrara uma coisa assim, horrenda e baixa.

O Rei, informado pela grande dama Camareira-mor, do espantoso fato, imediatamente ordenou que esse imundo animal fosse metido numa saca de farinha, para engordar.

Depois de ali estar algum tempo o piolho tomara tais proporções que logo o Rei mandou que da sua pele se fizesse um pandeiro.

Assim fizeram, correndo tudo em grande segredo. Quando o pandeiro estava pronto, o Rei deu um grande jantar, prevenindo os convidados, Príncipes e Fidalgos da mais alta jerarquia, de que os destinos do País dependiam daquele banquete, pois que a Princesa havia de casar com aquele que adivinhasse de que era feito o pandeiro...

A Princesa, que gostava dum nobre Cavaleiro que, embora não fosse de sangue real, era da mais nobre estirpe, pôs-se à janela e quando ele passava disse:

— Da pele do piolho se fez o pandeiro!...

Foi, porém, tão infeliz que não a ouviu o Fidalgo, e quem ficou sabendo o segredo foi um velho aleijado que andava a pedir esmola. E este, percebendo que para o Cavaleiro que passava tinham dito aquelas palavras, não lhas quis repetir.

Quando o jantar já ia no fim e todos os convidados ardiam em desejos de ver o pandeiro e adivinhar de que que era feito, tornando-se, o que tivesse tão boa sorte, noivo feliz da linda Princesa e herdeiro da Coroa, o velho Rei mandou-o buscar com todo o cerimonial. Correu o pandeiro de mão em mão, mas, por mais que todos o virassem e revirassem, ninguém adivinhou de que era ele feito.

Nesta ocasião, o pobre pedinte que ouvira a Princesa, e traiçoeiramente se queria aproveitar da sua sorte, chegou à sala do festim e gritou:

— Da pele de piolho se fez o pandeiro. — Ficaram todos muito tristes, e a Princesa chorava como se pode imaginar, pois em lugar do belo e nobre Cavaleiro que esperava, tinha por noivo um velho aleijado, feio e pedinte. Ofereceram ao homem muito dinheiro, honras e terras para desistir do casamento. Mas, ambicioso e mau, teimou em só querer o cumprimento da promessa, que era a mão da Princesa herdeira, pois assim, um dia, ele, o Mendigo, seria senhor de todo aquele País, e mandaria em todos, e se vingaria dos fortes e formosos, fidalgos e ricos.

O Rei arrepelava as barbas, com desespero, dizendo maldições à loucura com que quisera entregar à sorte a escolha de um bom marido para a sua filha. Mas como "palavra de Rei não volta atrás", a Princesa, para que a palavra do Rei seu Pai fosse cumprida, tinha por força de casar com o miserável mendigo.

Então a Princesa, revoltada e triste, disse que a palavra do Rei só a obrigava ao casamento, mas não a viver no Palácio Real, e que, casando, teria a condição do marido que lhe era imposto, e o acompanharia pelo mundo e com ele faria a vida errante de pedinte.

Ninguém acreditou, porém, naquelas palavras que exigiam dela novos tormentos.

Casaram na Igreja e, à saída, a Princesa disse para o mendigo, já seu marido:

— Sei que foram apostados guardas para te matarem à entrada do Palácio. Agora, que a palavra do Rei está cumprida, não haverá na Corte um só homem que te aceite como Senhor. Cedo ou tarde te matarão. E eu nada posso ainda para te defender. O remédio é fugirmos já. E assim cumprirei eu também a minha palavra, fazendo a vida que tinhas, de vagabundo mendigo.

Isto dizia a Princesa, porque tudo preferia a viver na Corte, e perante os que a tinham conhecido feliz, envergonhada por aquele casamento que a má sorte lhe tinha imposto.

O mendigo temeu-se da morte violenta, e ao mesmo tempo imaginou que a miséria e o cansaço depressa fariam com que a Princesa lhe pedisse para regressarem ao Palácio, e que seria então bem acolhido, ao voltar com a herdeira da Coroa, quando todos a tivessem por desaparecida para sempre.

Fugiram do Palácio, logo depois do casamento, e lá foram, déo em déo, pela estrada fora. Andaram, andaram, até que saíram do Reino e chegaram a uma floresta onde encontraram um rio que a cortava ao meio.

A Princesa, cada vez mais amargurada, não fazia senão pensar na forma de fugir àquele martírio e vergonha. E a morte já lhe parecia um grande benefício. Mas, ao mesmo tempo, a esperança de melhores dias não a queria abandonar.

Cansada e triste, parou ali e disse para o companheiro que tinha muita sede e que lhe desse uma pouca daquela água. O mendigo alegrava-se de a ver assim desanimada, esperando a todo o momento que ela exigisse o regresso ao Palácio e às comodidades a que fora habituada. E, porque era muito mau, foi-lhe dizendo que estava no começo das suas provações, e que tudo era para castigo do seu orgulho de Princesa, e que para isto quisera a sorte que ele, e mais ninguém, ouvisse o aviso que da janela do Palácio fora dado sobre a pele do pandeiro. Que nem um copo teria para beber água, devendo contentar-se por ele poder agora dar-lha no seu velho e sujo chapéu.

E dizendo isto, com um riso escarninho, dirigiu-se para o rio, e debruçou-se a encher de água o chapéu sebento.

Com o que ouvira, a Princesa ficou ainda mais indignada, e, num impulso de revolta, decidiu fugir a um homem tão mau, e deitou a correr para a floresta.

O mendigo ergueu-se de repente, para a seguir e prender, mas com isto desequilibrou-se e caiu dentro do rio.

A cheia era grande, com as chuvas de inverno que tombavam das montanhas, e o mendigo não se pôde segurar, e foi levado na corrente. Já quando estava a afogar-se, fez um esforço e, estendendo o braço com raiva, amaldiçoou a Princesa, que corria, espavorida. E, desesperado, feroz, rogou-lhe a praga da mudez.

Sentindo-se imediatamente sem fala, a Princesa desatou a chorar e internou-se mais na floresta onde passou a noite sozinha, cheia de pavor, ouvindo os gritos e uivos dos animais bravios e o grasnido e piar agourento de aves, sem bem saber se lhe fora melhor a morte que tal vida.

Apesar dos farrapos com que se disfarçara para acompanhar o vagabundo, a Princesa mostrava bem ser uma das mais formosas damas do seu tempo. Mas, de que lhe servia toda a beleza, se não era mais do que uma pobre mendiga muda?!

No dia seguinte, um Príncipe que por ali andava à caça, viu-a e achou-a tão bonita e desgraçada, que, cheio de respeito e piedade, lhe estendeu mão protetora, esforçando-se por compreender a sua dor. Nobre e generoso Cavaleiro, sabendo bem a proteção que se deve aos fracos e aos infelizes, o Príncipe levou-a para o Palácio, dizendo ao Rei seu Pai:

— Saiba Vossa Majestade que encontrei esta Senhora perdida na floresta. E fiquei tão preso de amor por ela que não procurarei outra esposa, se a sua mudez tiver algum remédio. 

Concordou o velho Soberano, porque a Princesa era de tal forma linda e atraente que muito bem se compreendia o entusiasmo do Príncipe.

Chamaram então os Médicos de todo o Reino e do Estrangeiro, que fizeram consultas e deram à Princesa remédios sem conta. Mas tudo foi inútil! Por mais que todos os Sábios a tratassem, a Princesa Muda não podia dizer uma palavra, e só por gestos e lágrimas exprimia a sua gratidão e mágoa.

Assim foram passando sete anos, sem que jamais o Príncipe perdesse a esperança de ver a formosa Senhora recobrar a fala, para poder, então, dar-lhe a mão de esposo, e a seu lado, feliz e satisfeito, sentar-se no Trono e tomar as rédeas do governo. Com o Príncipe e com a Princesa estavam também a vontade e o amor do povo, que na infelicidade, bom coração e beleza da Princesa Muda encontrara motivos para lhe dedicar maior simpatia.

Mas o velho Rei é que não quis mais delongas e, em nome da razão de Estado, chamou o filho e disse-lhe com autoridade:

— Que era tempo de se mandar procurar noiva, porque a menina encontrada na floresta, não recobrava a fala; e assim não era possível consentir em tal casamento, embora compreendendo o seu amor por ela, pois nunca se vira no Trono uma Rainha Muda.

O Príncipe chorava a sua mágoa e a sua revolta, mas teve de resignar-se à tristeza da sorte.

Foi então mandada buscar uma Princesa que estava já designada e pedida, e o Príncipe, apesar do seu amor pela Princesa Muda, não teve remédio se não obedecer ao Rei, seu pai e senhor. Com a morte na alma viu resolvido o casamento e marcado o dia para o celebrar. Ordenara o Príncipe, que a Muda fosse servida como Princesa e vestida como tal, resultando que ela se apresentou mil vezes mais formosa do que todas as outras.

Quando estava já o cortejo disposto a seguir para a Igreja, a noiva, cheia de despeito, ao ver a formosura da Princesa Muda e a opulência dos seus vestidos reais, gritou:

— Olha a Muda Mudaça, as grandes sedas que arrasta!... 

No meio do assombro geral, respondeu-lhe a Princesa Muda, voltando-se, cheia de dignidade e desprezo:

— Olha a senhora Ladrocaça, que ainda hoje chegou e já falou. E eu, há sete anos que aqui estou, é a primeira fala que dou!...

Mal o Príncipe soube do acontecido, correu, cheio de alegria, a dar a mão à sua verdadeira noiva, pois era a escolhida do seu coração, e, despedindo a intrusa, declarou que só casaria com a Muda, que, recobrando a fala completamente, lhe contou toda a sua vida.

O Príncipe mandou logo um emissário ao pai da Princesa, que ficou satisfeitíssimo por tornar a ver a filha, que julgava perdida, e demais a mais vê-la casada com um tão perfeito Príncipe, herdeiro dum grande Reino, vizinho dos seus Estados.

Houve grandes festas e regozijos, vivendo muito ano, e sempre alegres e felizes, o Príncipe fiel ao seu amor e a Princesa que, para o encontrar e por ele ser salva, passara tanta desgraça. A sorte muito a experimentara mas, afinal, para seu maior bem.

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Texto editado a partir da dição digital da Bibliotrônica Portuguesa

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