domingo, 2 de junho de 2019

O falso testemunho da Lua (Fábula), de Ana de Castro Osório


O falso testemunho da Lua

No princípio do Mundo, antes de haver homens, Deus Todo-Poderoso, desejando ver de perto a obra que criara, desceu da Sua cadeira de ouro, no mais alto dos Céus, e veio à Terra, deitar-lhe a bênção.

Lúcifer, que era o mais belo dos Anjos, e também o mais forte e orgulhoso, ao ver sem Deus o trono celestial, encheu-se de soberba, e nele foi sentar-se com toda a majestade, fazendo-se adorar por muitos Anjos que perderam a lembrança do que deviam ao Senhor.

Quando, após o seu passeio pela Terra, e satisfeito com a Sua obra, Deus-Pai regressou às alturas e quis sentar-se no trono de onde tudo criara e governava, encontrou-o ocupado por aquele Anjo mau.

Deus Nosso Senhor não quis logo usar do seu poder. Sem olhar a tão grande falta de respeito, disse, com bondade:

— Levanta-te, Lúcifer, que esse lugar não te pertence.

— Quem está bem deixa-se estar (respondeu o rebelde).

— Levanta-te, Lúcifer, que esse lugar não te pertence (tornou o Senhor, já com voz de quem ordena!)

— Quem está bem deixa-se estar!

E, voltando-se para o Sol, que parecia admirado com tanta audácia, Lúcifer perguntou-lhe:

— Não é verdade, ó Sol, que quem está bem se deixa estar?

— Não deixa, se o lugar lhe não pertence. E essa cadeira é o Trono do Senhor de todos os Astros!

Assim respondeu o Sol, confessando o Criador.

Lúcifer voltou-se, então, para o Vento, que parara a ver a contenda entre o Pai do Céu e o Anjo rebelde, e perguntou-lhe:

— Não é verdade, ó Vento, que quem está bem se deixa estar?

— Não deixa, se o lugar lhe não pertence. E esse Trono é só do Senhor das terras e das águas, da calma e das tempestades!

Assim respondeu o Vento, em nome de toda a Terra.

Mas o Anjo soberbo não quis submeter-se, nem depois de ouvir os testemunhos da verdade. Voltou-se para a Lua, que sorria, e perguntou-lhe:

— Não é verdade, ó Lua, que quem está bem se deixa estar?

E a Lua respondeu com palavras enganosas:

— Deixa. E fará seu o lugar que não estava ocupado!

Então Deus Nosso Senhor abriu o coração à Justiça eterna, e fechou-o à Bondade e ao Perdão, e, com todo o Seu poder, fulminou o Anjo Mau. Este foi de repente arrancado ao Trono Divino, que não lhe pertencia, e lançado fora dos Céus.

Com Lúcifer caíram, durante o espaço de uma lua, os Anjos que lhe obedeceram e se revoltaram contra o Senhor. E todos vieram padecer a merecida pena sobre a Terra e nos Infernos.

E para castigo do falso testemunho da Lua, também Deus a condenou a não ter luz própria e a só viver e brilhar da luz que lhe empresta o Sol.

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Fonte:
Ana de Castro Osório: Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa (Editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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