quinta-feira, 6 de junho de 2019

Amor, amor (Conto), de João Grave



Amor, amor

— O amor tem as suas singularidades, creiam! — afirmava Nuno a um grupo de senhoras com quem estava conversando, na praia, à hora idílica do banho, sob um toldo de lona, donde a sombra descia, veludosa e suave.

E como no rancho havia doces raparigas de olhar claro e pensativo apenas entradas nos mistérios da adolescência, ele, exagerando propositalmente, fez uma larga e irônica divagação sobre as paixões amorosas.

— Aos dezoito anos, por exemplo, não haverá coração feminino que não sonhe exaltadamente com a romântica aparição dum príncipe louro e juvenil que traga a flor dos olhos extasiada nas estrelas e que surja de repente na curva duma estrada, à beira duma floresta, nas sumptuosidades decorativas dum baile, exibindo a sua palidez e a sua tristeza de incompreendido.

— E aos vinte? — preguntaram as senhoras, em coro e sorrindo.

— Aos vinte, as almas ingênuas ainda vagueiam pelas floridas regiões da quimera, idealizando bardos coroados de violetas e de mirtos perfumados à moda helênica, que venham, nas noites de luar, fazer ouvir as suas teorbas e os seus arrabis sob os balcões namorados, esperando as meigas confidências das vozes soluçantes. Dos vinte anos em diante, as baladas começam a aborrecer.

— Ora essa! — murmurou o coro, sarcasticamente.

— Decerto, minhas senhoras. As realidades da vida são incompatíveis com os poéticos estados de graça.

— E então?

— Então, como a partir dessa idade a mulher se torne mais positiva, mais refletida e mais terrestre, a sua ambição lírica transmuda-se. Já não faz questão de príncipes e de trovadores: deseja, simplesmente, um homem rico que possa satisfazer Lodos os seus caprichos de luxo, de elegância, que disponha do dinheiro necessário á realização de todas as suas vaidades.

— Oh! que mau psicólogo é!...

— Mau psicólogo? Retifiquei há muito a precisão das minhas análises psicológicas. As criaturas com a minha experiência têm a obrigação de se não enganarem e de não serem ligeiras nos seus juízos críticos.

Estava uma linda manhã dos fins de setembro, já entristecida por uma vaga melancolia outonal. Dos céus altos caía sobre a paisagem uma luz branda que dourava as perspectivas. O mar espreguiçava-se indolentemente na nitidez da claridade, enrugando-se sob o azul translúcido como um cetim desdobrado ao vento e tocando-se, de longe a longe, da brancura das espumas, tênues e frágeis como rendas. A essa hora, o ar era mais ligeiro, impregnando -se do cheiro acre das rezinas dos pinheirais, e o sol dardejava como uma rosa de fogo. Às vezes, passavam, deslizando, escorregando sobre as águas, talhando sulcos luminosos e leves nas ondas, pequeninos barcos abrindo a asa alva das velas à lenta aragem: e ao fundo, o horizonte era todo cor de rosa e ouro. As crianças, com cabelos em anéis sobre a brancura dos bibes, brincavam, saltavam, de pés nus, na areia, que refulgia: e à volta de Nuno, escutando os seus paradoxos ou as suas blagues, agitava-se e pairava animadamente, todo um bando de raparigas que traziam no peito um sonho de ternura.

— Se querem que lhes diga — continuou ele — asseverarei que os homens, tão mal julgados pelo Eterno Feminino, são incomparavelmente mais sinceros e constantes nos seus sentimentos, do que as mulheres.

— Que mentira! — acudiram muitas vozes ao mesmo tempo. Os homens!... — protestaram desdenhosamente.

— Sim, minhas senhoras, os homens!

E acendendo um cigarro indolentemente, cantou:

La dona e mobile
Qual pluma ai vento...

— Isso é o que diz, inconsideradamente, a canção do Rigoleto.

— A canção é verdadeira.

— Provas! Venham provas! — pediram de vários lados.

— Certamente! — respondeu Nuno.

Recostando-se na sua cadeira tosca e soprando com delícia, à brisa matutina, baforadas de fumo que se azulavam na atmosfera, espiralando-se e dissipando-se, Nuno exclamou:

— Querem então provas duma paixão masculina bem sincera, bem leal e constante? Então ouçam: — Conheci outrora um homem extraordinário que, na mocidade, amou sem esperança uma bela mulher que fez a tortura, o encanto e a saudade da sua existência.

— Ama-se justamente assim nos romances! — interrompeu uma dama, rindo com ironia.

— E na vida, creia. O caso que vou narrar, por mais falso que pareça, é absolutamente verdadeiro; mas, peço que me não interrompam, para que as minhas recordações se não obscureçam... Disse que esse homem amava sem esperança, porque a mulher por quem se apaixonara era casada de poucos meses e porque o meu amigo foi sempre um homem de princípios em quem a obrigação, o dever moral, prevaleciam através de tudo, mesmo dos mais fundos egoísmos.

— Oh! então foi, decerto, educado por São Francisco de Assis — atalhou com zombaria a mesma voz impertinente.

— E por que não seria educado pela própria consciência? — replicou Nuno.

— Em amor, a consciência não passa duma fútil imagem literária — atalhou a sua contraditora, uma loura de olhos azuis, leitora assídua de Paul Bourget.

— Nesse caso, o meu amigo constituía uma exceção à regra geral, porque tinha uma consciência íntegra... Durante longos meses de angústia, a sua adoração, que tanto o fazia sofrer, foi aumentando sucessivamente e, para se dominar, para recalcar dentro de si o segredo que o sufocava, empregava os maiores esforços. Procurava ver, todos os dias, a sua deusa tirânica, seguia-lhe docilmente os passos, sem vontade, incapaz de rebeldias vitoriosas contra aquele amor que considerava absurdo, mas por tal forma disfarçava a sua perturbação, que nunca se traiu aos olhares mais subtis. Constantemente a surpreendia, feliz, descuidada, com a sua alegria, a sua beleza dominadora, a massa dos cabelos negros enrolados no alto da cabeça, os olhos perscrutadores e dum verde quase líquido, que riam sempre e lhe iluminavam a fronte. Insurgia-se contra este despotismo que o trazia alheado, indiferente, esquecido das coisas sérias da existência, numa abstração espiritual, num cismar vago flutuando em atmosferas imateriais, prometia a si mesmo libertar-se, fugir, recuperar a serenidade perdida, mas terminava por sucumbir. A ideia da separação era-lhe dolorosa, intolerável, e ia-a adiando sempre para o dia seguinte, pensando que teria muito tempo para ser infeliz. Contava então vinte e dois anos e entrava apenas nas duras realidades do mundo.

— Quanto desinteresse e que anomalia! Porque nessa idade, como o senhor disse há pouco, o que seduz é o dinheiro, a ambição do prazer
material — bradaram triunfantemente as senhoras.

— Perdão! — atalhou Nuno. Eu falei acerca das mulheres. A minha teoria não pode aplicar-se aos homens que, ordinariamente, mostram um absoluto desapego pelos bens temporais... Mas escutem! Não conseguindo por mais tempo vencer o seu desespero, abafar a sua dor, o meu amigo decidiu-se a partir.

— Bem diz o provérbio: — longe da vista, longe do coração.

— O provérbio desta vez falha, minhas senhoras. Não afirmei eu que o meu apaixonado era uma exceção à regra geral? Afastado da criatura que lhe havia inspirado um tão puro e forte amor, quis-lhe ainda com mais ansiedade e mais constância. A sua veneração tornara-se por tal modo absorvente que foi a preocupação, o cuidado conjuntamente amargo e terno da sua vida. Viajou, trabalhou muito, enriqueceu e os anos, passando sobre ele, envelheceram-no...

— Já sabemos o resto. É escusado continuar.

Como nas novelas, esse namorado infeliz merecera a proteção das divindades benéficas, que eram suas madrinhas e que na infância lhe embalaram os sonos cândidos e inocentes. Vendo-o triste e acabrunhado aos quarenta anos, decidiram levar-lhe a ventura a casa, e uma tarde, reunidas, assassinaram o marido da mulher que o trazia enfeitiçado, deixando-a viúva...

— Ou ela se divorciou...

— Sim! Ou ela se divorciou, o que dispensava as crueldades. Depois, já quando estava inteiramente livre, ou pela viuvez ou pelo divórcio, o que tanto importa, o seu amigo casou com ela. Enfim, sós!...

Na praia ia uma jovial balbúrdia de risos, de gargalhadas, de exclamações. Algumas banhistas retardatárias entravam na água, arrepiando-se de frio e deixavam boiar os corpos, de curvas harmoniosas, ao lume das vagas, como esplêndidas florações de carne. Outras, saíam do mar, com as roupas encharcadas desenhando-lhes as formas vigorosamente; e Nuno, um momento distraído a contemplá-las, imaginava que novas Vênus, como nas alvoradas helênicas, nasciam das conchas marinhas.

— Não foi assim? Diga! — reclamou o bando sarcástico.

— Não, minhas senhoras. Por mais que fantasiem não encontrarão o desfecho da minha história verídica.

— Oh! então!...

— Se ela é absolutamente real e a verdade se não compraz com frivolidades!... Até aos quarenta anos, o meu amigo foi completamente fiel à visão amorosa dos seus tempos moços e confiantes.

— Apre, que dedicação! — interrompeu, gracejando, o rancho das ouvintes.

— Não é assim? As mulheres desconhecem, bem sei, esta lealdade, que é uma das raras virtudes do coração humano. Só o sexo forte oferece ainda destes exemplos eloquentes. Não o dizia eu há pouco?

— Não divague! — acudiram as senhoras já interessadas e um pouco vexadas pelo sarcasmo de Nuno. E depois?

— Depois, o meu amigo, um dia, condenado a uma velhice solitária e desamparada de dedicações, teve de súbito o desejo de voltar a ver os sítios em que fora feliz. Passara pela existência sem lhe sentir o encanto, a doçura, a meiguice: e parecia-lhe justo este regresso ao passado, onde ficara abandonada, pelo seu afeto, uma pura flor de beleza. Para lá se dirigiu, como um peregrino, como um romeiro piedoso, transfigurado por uma emoção, que a saudade suavizava: e ao chegar à aldeia onde conhecera, em auroras findas, a mulher inolvidável, ia recordando tudo o que o enlevara e toda a felicidade que perdera. Eram ainda as mesmas as árvores que lhe tinham dado sombra propícia na mocidade, encontrava as mesmas vivendas com diligentes menagères lidando no interior, desabrochavam nos jardins as mesmas rosas — e, no entanto, uma grande mudança se havia operado, tanto no meio envolvente como na sua alma. O seu sentimento, que outrora confiara, desalentara-se, resignando-se à melancolia das dores irremediáveis: e as crianças que antigamente conhecera, galrando em ranchos joviais e contentes, estavam agora casadas e tinham filhos. O meu amigo, pensando nisto, considerava a sua irreparável falência — a falência dum lar que fosse o seu refúgio, a constituição duma família que o rodeasse de bem-estar. Tão depressa a vida foge! A gente fecha os olhos, adormece um instante e quando acorda, desconhece o que nos cerca.

— E nada mais? — preguntaram ansiosamente as senhoras.

— Esperem! A história ainda não acabou!...

O meu amigo, movido pela intensidade das suas evocações, quis contemplar, outra vez, a morada silenciosa da mulher que tinha amado com tanta abnegação e um incomparável espírito de sacrifício, e procurou-a entre as outras vivendas. Lá estava ainda, com os seus telhados de largo beiral onde as andorinhas faziam ninho pela primavera, entre arvoredos e jardins. Diante dela, as suas recordações adquiriram maior lucidez. Perdia-se em suposições e hipóteses. Albina seria viva?

Teria ela compreendido algum dia, com esse quinto sentido que as mulheres possuem, a sua muda adoração, teria surpreendido a intensidade do seu amor num olhar mais febril e revelador? Decerto que não! Parecera-lhe sempre tão serena, tão quieta!

Assim meditava eu, por uma destas tardes de setembro, em que uma vaga nota outonal e meiga melancoliza já a natureza com tintas de uma suavidade indizível, ao ver passar para o cemitério essa pobre criatura que mal teve tempo de viver e que, por certo, nunca soube o que eram os prazeres e as alegrias inefáveis do mundo. Expirara no momento doce em que as andorinhas emigram e em que na atmosfera erra uma fina serenidade elegíaca, ao amarelecer das folhas e ao empalidecer dos ocasos religiosos e tristes. Eu conhecera-a pequenina, ao colo da ama, entre toucas de renda e cambraias vaporosas, com uma beleza angélica a iluminar-lhe a face cândida, que nenhuma impureza, que a mancha mais leve ainda tinham maculado. Resplandecia de inocência e castidade na primeira alvorada da sua infância, e não sei que virgindade, que halo imponderável de sideral poesia a aureolavam de esplendor. Os que dela então se aproximavam, era como se recebessem a visitação duma divindade visível.

Vi-a, depois, em plena irradiação da sua graça juvenil, lembrando uma dessas princesinhas espanholas com longos cabelos que parecem feitos de ouro e de soda esfiada e que Velásquez, historiador de realezas, imortalizou em telas incomparáveis. Toda a alma inocente se lhe refletia nos olhos.

E com que adoração, com que amor os pais lhe queriam! Era a luz purificadora dum lar, a felicidade das criaturas que viviam absorvidas, extasiadas na refulgência etérea da sua formosura. Deus concedera-lhe a piedade tocante e a mais linda mocidade que ainda admirei. Certamente que do chão que os seus pés calcassem, desabrochariam jasmim;, como nas suaves lendas e nos milagres da igreja. Santa Beatriz, quando orava, deixava cair da boca pálida lírios brancos; o bordão de São José refloriu um dia em açucenas, que os ventos ardentes e os sóis calcinadores não conseguiram crestar; Santa Isabel transformava as esmolas em flores. E ela era assim! Em todo o seu ser delicado e frágil havia um mistério infinito e perpétuo: a mãe, quando a apertava nos braços comovidamente, murmurava com fervor:

— Tu não pertences à terra, meu amor! Mas que Deus se lembre do que tenho padecido e te conserve para sempre na minha companhia!

E cobria-a de exaltados beijos. O pai jamais a olhou sem que as lágrimas lhe não turvassem a vista; e, quando em casa havia aflições, desesperos e agonias, abraçava-se nela, invocando a proteção celeste e suportando com resignação todas as amarguras e todas as dores.

— O meu tesouro é este! — exclamava com paixão e confiança.

A filha afagava-os amorosamente e chorava de contentamento; e os anos deslizavam com placidez, sem um sobressalto mais agitado. Refloriam vergéis e pomares, no peito dos desalentados fazia-se a paz e cada primavera que surgia alegrava o mundo inteiro, como um perdão que do céu caísse misericordiosamente.

Volveram tempos: eu tive de sair da aldeia para os combates ásperos da vida; e, durante a longa ausência, não tornei a ouvir falar dela. Mas conservava a sua imagem dentro da alma, translúcida e luminosa, como um sonho de ideal beleza. Às vezes, reconstituía-a na minha imaginação, com a sua evocadora e ingênua pureza e sentia encanto em relembrá-la.

Quando voltei, encontrei-a em plena juventude, e comparei-a a uma árvore que por minhas mãos plantasse e que, dum verão para o outro, sem eu saber como, se cobrisse de flor.

Na adolescência, tinha um ar olímpico de deusa, uma fronte espaçosa e alta que os cabelos fulvos aureolavam duma nuvem dourada e uns olhos que dir-se-iam pervincas — dessas pervincas que aparecem nos primeiros dias dos invernos serenos, aveludadas, macias e de tons ainda não esvaídos.

— Como esta vida é! — dizia eu, ao considerá-la vagarosamente. Bastam algumas horas para que ela transfigure as almas. Num dia, nasce-se, ama-se, sofre-se e desaparece-se. E como a existência humana é desgraçada! À volta de nós, tudo remoça — troncos, veigas, folhas, ervas humildes. A paisagem tem o seu noivado imortal; nas sebes, ao raiar das auroras cândidas, quando as espinhosas se desentranham em cachos de florescências, cantam e sonham ninhos; as sarças enegrecem de amoras ou embranquecem de cetins brandos, como se sobre elas caísse o pó dos astros, pelas noites de luar; os jardins vicejam. Depois dos invernos lacrimosos, as estrelas acendem-se e cintilam, a lua ascende, os azuis do céu brilham! Oh! mas entre os homens a primavera é rápida e bem depressa declina e a velhice não perdoa!

Luísa — chamava-se Luísa — trazia então dentro da alma, como um jasmim de luz espiritual, a quimera do amor; e este segredo cândido maior relevo dava à sua beleza astral de mulher. Para ela, o mundo era uma ressurreição maravilhosa, desenrolando-se em constelações, em vergéis, em arvoredos, onde as aves cantavam sempre e onde uma humanidade já perfeita entoava os seus hinos cheios de fé e de ternura.

Novamente parti e a sua recordação foi-se apagando na minha saudade, como fumo que as aragens levam para longe e esfarrapam no ar diáfano; e um dia, já quando na minha lembrança não restava dela traço mais vivo, impressão mais profunda, eis que deparo com ela, de noite, à esquina mal iluminada duma rua da cidade onde me encontrava.

Foi ela que me reconheceu e murmurou uma palavra débil, murmurada com timidez, com receio.
— Quem é a menina? — preguntei.

— Já se não lembra? Sou a Luísa, a sua amiga de tempos felizes... Hoje estou assim.

Piquei transido! Que caminhos de horror e de crime ela percorrera, a que pântanos descera, para chegar àquele estado de miséria inconcebível, mas ainda toda esplendente do fulgor que na mulher nunca se apaga por mais que se roje nos lameiros da miséria?

— Pois és tu, Luísa!

— Não admira que se não recorde! Todos me esqueceram e até eu me não lembro. Não sei o que fui nem o que sou! Só sei que a minha dor é tão grande, que a cada momento peço a Deus que me leve... Mas a morte não faz caso das infelizes da minha condição!

— Como foi isso? Como vieste tu para este inferno?

— A sorte!... O meu destino era este! Rompeu num choro convulso, que fazia estremecer o seu pobre peito magro.

— E teu pai?

— Morreu! Minha mãe também morreu. Só eu fiquei!... Tenho fome!...

Silenciosamente levei-a para casa, onde ceou.

Devorava com a pressa alucinada de quem tinha modo; e enquanto comia, olhava-me espavoridamente e com um ar de dúvida, como se eu fosse um inimigo.

Diante dela, eu evocava tudo o que fora essa desventurada rapariga, que se transviara na vereda luarosa da felicidade e que de queda em queda, fora perdendo tudo o que nela havia de sagrado e de divino — de divino, porque as mulheres, pelo seu mistério, pela sua bondade, pelo seu sentimento, estão mais perto de Deus, do que os homens a quem o desalento e o mal do mundo esterilizam a crença e a piedade. Uma voz secreta, vinda talvez das paragens remotas da alma, dizia-me:

— Podias ter sido esposa devotada, mãe admirável, viveres entre beijos e canções, na companhia adorável dum homem que te amasse e compreendesse tudo o que de sublime existia no teu coração. O teu lar havias de alumiá-lo de graça e de candura; entre os trabalhos e as desditas, o braço que se encostasse ao teu ganharia forças e o peito junto do qual o teu pulsasse, confiança, fé e audácias para os triunfos. Mas perdeste-te no mar da existência e, no naufrágio, não encontraste uma tábua a que te agarrasses...

— Foi a sorte! — repetiu ela.

— Sim, foi a sorte! — concordei eu com tristeza. Devia ser a sorte...

— As criaturas trazem já do céu marcado o caminho que terão de andar. O meu era este! Não podia fugir à vontade de Deus. À vontade de Deus ninguém foge!

E entre soluços arquejantes, contou-me a história da sua perdição. Uma noite, a mãe doente chamou-a, deu-lhe um beijo, lançou-lhe a bênção e murmurou:

— Vou deixar-te, meu amor. Estás sem ninguém no mundo.

O seu olhar embaciava-se a pouco e pouco, ao sopro frio da morte, e as suas mãos iam arrefecendo. Morreu uma hora depois, por mais que Luísa a chamasse, entre prantos angustiados.

— Como a cova é surda!

Cheio de saudades da morta, o pai partira um mês mais tarde, sem que Luísa pudesse acudir-lhe.

Ele bem lhe estendia os braços na agonia, pedindo:

— Ergue-me, filha! Estou a cair num buraco muito fundo. Não vejo nada... Levanta-me, que te não quero deixar!

Mas Luísa era fraca e não teve poder para ampará-lo.

— E depois v — interrompi eu.

— Depois, foi isto!...

Ficara sem ninguém que por ela se interessasse, confessou ela com as lágrimas nos olhos, que já não eram tão lindos como outrora, nem tinham aquele azul aguado que tanto me seduzia, pela transparência da cor. Mal a soube para sempre abandonada dos carinhos e do amor da família, o noivo fugira, esquecera-a. — ele que lhe tinha prometido, e com que juramentos! — uma adoração que nunca se extinguisse. Outros homens vieram, todos a desprezaram.

— Que havia eu de fazer? — preguntava Luísa toda trêmula de vergonha, por ter de revolver os seus pudores e as suas misérias de mulher.

Sim, que havia ela de fazer, sozinha, sem corações que a sua dor, a sua solidão, a sua angústia interessassem? Foi passando de mão em mão, enquanto a sua beleza atraía os indiferentes. Mas agora, para arranjar a côdea, esmolava as esquinas, nas ruas escuras, porque andava toda rota. Umas vezes, soldados bêbedos agarravam-na brutalmente e cobriam-na de beijos bestiais; outras, os garotos espancavam-na.

— Oh! se eu morresse!

Desde essa noite nunca mais a tornei a ver; mas soube pelos jornais — os jornais trazem tudo: são os historiadores da miséria! — que a polícia, encontrando -a caída numa praça, a levou em maca para o hospital. No dia em que quis visitá-la, um enfermeiro disse-me que ela tinha morrido de manhã, fechando docemente as pálpebras para a luz da vida.

Fui acompanhá-la à cova — era eu o único — e ainda sinto a impressão de terror que o caixão, avançando entre a fumarada de quatro tocheiros e atravessando a cidade, me comunicou. Na capela, onde um Cristo em marfim expirava, pregado à cruz, com pingos de sangue rolando e brilhando como rubis no corpo rígido, um padre leu soturnamente o latim da oração dos mortos; e, quando ela desceu à sepultura e as primeiras pás de terra caíram com estrondo sobre as tábuas nuas do esquife, na minha alma atormentada passavam estas ideias consoladoras:

— Dorme para sempre, com a leiva úmida bem colada ao corpo. Alcançaste, enfim, a paz; ao coval não chegam os gritos de ódio e de raiva que cá em cima se entrechocam. O teu sono será eterno! Mais tarde, chegará uma hora em que ressurjas para o mundo, minha pobre Luísa! Serás árvore, quem sabe? Serás flor, e as aragens mornas, pelos estios quentes, levarão para longe o teu perfume. Serás água dum regato e fugirás e cantarás ao sol. Serás luz e dourarás as podridões. Dorme! Que ninguém te acorde, que pelo teu sofrimento, bem ganhaste o repoiso! E as tuas faces não tornarão a corar dos desejos da vida, e o teu olhar nunca mais se arrasará de lágrimas ardentes. Descansa...

Subia o luar e na cidade o ruído esmorecia. Entrei em casa, com a inevitável certeza de que a existência contemporânea é cada vez mais curta.

Devo estar muito velho! Se eu vi nascer Luísa e acabo de acompanhá-la ao cemitério, ao fim de tantos anos de sofrimento!...


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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