sexta-feira, 21 de junho de 2019

“Brasil, país do futuro” (Resenha)



“Brasil, país do futuro”

Stefan Zweig é uma figura encantadora. Famoso no mundo inteiro, dono de um talento criador marcante, ele, num instante, conquistou todas as simpatias dos brasileiros.

Desconhecido aqui, até há pouco tempo, o seu primeiro livro provocou, desde logo, uma irreprimível curiosidade. "Maria Antonieta” apareceu, de fato, numa época em que certos livros apócrifos conseguiam público e conquistavam leitores.

Houve mesmo um tempo em que se começou ler a torto e a direito e, muito principalmente, a torto...

Ninguém queria saber quem era o autor de uma determinada obra. Bastava um nome arrevesado e o livro principiava a ser vendido. A desvalorização do produto, entretanto, trouxe como consequência inevitável a descrença no livro e o mercado do livreiro sofreu, com isto, um colapso quase mortal.

Ficaram os autores autênticos e as obras de mérito.

Foi justamente num período assim que Stefan Zweig apareceu entre nós, creio que com "Maria Antonieta".

Quem seria o autor? Em uma das páginas daquela biografia, tão deliciosamente traçada, havia um retrato e uma dedicatória: "Aos meus leitores brasileiros, Stefan Zweig".

Existiria Stefan Zweig?

Não tardou, no entanto, que o leitor autenticasse o autor.

Destarte, o nome do biógrafo tornou-se rapidamente conhecido e "Maria Antonieta" rodou na máquina, aos milhares. São destes livros que não necessitam dizer em que edição estão...

Depois desta encantadora história da irrequieta figura de Luís XVI, estava assegurado o êxito extraordinário de Stefan Zweig.

Seus livros caíram no goto da gente, como em geral se diz, e o seu nome tornou-se popular em todos os quadrantes do Brasil.

Para provar que Stefan Zweig existia de verdade, ele veio, em carne e osso, até aqui.

Gostou do Brasil e gostou tanto, que nos deu um presente maravilhoso, escrevendo um livro sobre a história do nosso povo, como nação.

“Brasil, país do futuro” é o reflexo da profunda impressão que lhe causou a nossa terra. E porque se impressionou conosco, olhou comovidamente para a nossa história. Não vamos discutir o que esse livro contém de mau ou de bom, de certo ou de errado, de discutível ou de dogmático. De qualquer maneira "Brasil, país de futuro” assinala, marca, afirma a existência de uma grande nação, de um país maravilhosamente criado para um grande e esplêndido destino, mas que, apesar disso — com que tristeza o digo! — tem sido esquecido e mal compreendido pela maioria dos homens que nos têm visitado.

Os que escreveram, com verdade, sobre a nossa gente, o nosso povo, os nossos costumes, a nossa história, como Debret, Rugendas. Daniel P. Kidder, Saint Hilaire e outros, só tiveram repercussão entre nós. Eles escreveram para nós. Ficaram em família. Constituem preciosos documentos para os brasileiros, que, por isso mesmo, os estimam e os admiram.

Com Stefan Zweig dá-se outro fenômeno. Ele fez um livro para o Brasil e para o mundo. Já está traduzido em quase todos os idiomas e os editores mais famosos do estrangeiro anunciam a sua obra!

Pela primeira vez, outros povos, outra gente, outros costumes, outras almas e outras índoles vão conhecer o Brasil. Vão viajar pelo Brasil, vão saber, em suma, que o Brasil é realmente o país do futuro! É sob esse aspecto que deve ser olhado o livro de Stefan Zweig.

Não nos importemos, portanto, com o detalhe histórico, com a minúcia do historiador, mas unicamente com o que representa para nós esse presente de Stefan Zweig, que é uma dádiva “caída do céu”...

"Nos últimos dias de minha permanência no Brasil — diz textualmente o citado autor — viajei para o interior ou melhor para lugares que julguei situados no interior.

Viajei doze, quatorze horas para São Paulo, para Campinas, pensando com isso aproximar-me do coração deste país. Mas, quando de volta examinei o mapa, verifiquei que com essas doze ou quatorze horas de viagem de trem apenas havia penetrado até um pouco abaixo da pele, pela primeira vez comecei a fazer ideia do incrível tamanho deste país, que propriamente já quase não deveria ser qualificado um país, mas sim um continente, um mundo, com espaço para trezentos, quatrocentos, quinhentos milhões de habitantes e uma riqueza imensa sob este solo opulento e intacto, da qual apenas a milésima parte foi aproveitada”.

Este trecho bastaria para se entender bem o objetivo de Stefan Zweig, em “Brasil, país do futuro”.

Ele não pretendeu escrever nada de definitivo sobre o Brasil, mas apenas descerrar e cortina que nos separa de outros povos que ainda nos ignoravam. O livro de Stefan Zweig não é um livro de historiador. É um trabalho de escritor, na expressão exata desta palavra. E, assim, deve ser lido, sentido e aplaudido.


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GASTÃO PEREIRA DA SILVA
Revista "O Malho", dezembro de 1941.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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