domingo, 30 de junho de 2019

Cristo não volta (Conto), de Alberto Pimentel



Cristo não volta
(Resposta ao "Voltareis, ó Cristo?" de Camilo Castelo Branco)



 
CARTAS ENVIADAS AO "PRIMEIRO DE JANEIRO"
Castelo de Paiva, junho de 1873.
 Meu amigo:
Como tem navegado Douro acima e conhece bem as planícies e montanhas que a uma e outra margem se encontram, umas espraiando-se ao nível da corrente, outras erguendo-se ameaçadoras e áridas para o céu, não me dispenso de contar-lhe um caso triste e verdadeiro, porque o presenciei eu, se bem que mal possa ser cronista, porque estou ainda na comoção da surpresa.
Encontrei-o no Porto, e disse-lhe que tinha de partir para Castelo de Paiva. Efetivamente parti no dia fixado. Não jornadeei por terra, o que seria incomparavelmente mais rápido, porque me julguei obrigado, a bem de meus próprios interesses, a acompanhar o barco carregado por minha conta. Larguei do cais da Ribeira, cercada meia-noite, para aproveitar a maré até Pé de Moira. Obedeço a um pedido não declarando o dia. Cerca das onze horas da manhã estava em Pé de Moira, onde os marinheiros e arrais almoçaram, comendo uns peixes fritos na barraca de ramas de pinheiro, que o meu amigo conhece, e bebendo pela tradicional bilha de barro vermelho.
Aí me profetizou o arrais que o termo da viagem seria moroso, porque não havia vento e o barco ia muito carregado.
Resignei-me.
Armou-se um tolde com a vela, acendi o meu cachimbo, bebi também, e comecei a ler os jornais que trazia no bolso, disposto a viver sobre água o tempo que fosse preciso.
Oh! enfadonha coisa este antediluviano processo de locomoção! Digo antediluviano em razão de Noé se ter salvo embarcado no dia da grande submersão da terra.
Li os jornais de fio a pavio, como se diz não sei se em bom português, reli-os, decorei-os. Cheguei a devorar os anúncios com uma sofreguidão de canibal. Engoli e digeri todos os barateiros e todos os precisa-se. Compreendi então o que há de profundamente triste em precisar; eu também precisava de chegar a casa o mais breve possível e todavia a terra firme estava para mim como a água para Tântalo. Vi-a; e tudo se ficava em vê-la.
Foi-me anoitecendo ainda a grande distância de casa. Custou-me a transigir com a necessidade de passar segunda noite no rio. Que me importava a mim o luar, a ardentia das águas, as vaporações embalsamadas da natureza? Não sou poeta; já tive um pouco disso, é verdade, mas o que mais ambiciono presentemente é dormir na minha cama, comer à minha mesa, e calçar as minhas botas.
Finalmente não havia remédio senão conformar-me às circunstâncias; o homem nasceu para joguete; fui pois o que tem sido e há de ser perpetuamente o meu semelhante.
Cerrou-se-nos inteiramente a noite ao sopé das Vitoreiras. O arrais deu voz de lançar ferro; os marinheiros iam cansados de tirar o barco à sirga e logo saltaram em terra para queimar sobre gravetos o seu bacalhau. Puxei do meu taleigo e comi uma fatia de presunto de fiambre e outra fatia de queijo.
Depois que gregos e troianos se banquetearam com o frugal repasto, tratou-se de acamar e dormir.
Os marinheiros acobertaram-se com as mantas e romperam, trauteando pelos narizes, em hinos a Morfeu. Eu é que não nasci pagão; fui remisso em render culto à tétrica divindade mitológica. Mexi-me, remexi-me, rebuli-me e por mais de uma vez acendi o meu rolinho de viagem para dar batalha a pulgas, percevejos e demais bicharia, que passava dos marinheiros para mim e de mim para os marinheiros.
Cerca das onze horas da noite pareceu-me ouvir de repente o baque de um corpo em terra, mas um segundo depois não pude duvidar ao ouvir um grito surdo como o de quem caia contra o solo. Chamei aflitivamente os marinheiros, que despertaram roncando interrogações.
— Que foi? Que é? perguntaram eles.
— Aí fora caiu gente!
— Quem havia de cair, senhor!
— Ouvi distintamente a queda, e um grito depois.
— Um grito!
— Posso afirmar; ouvi gritar com toda a certeza.
Instiguei-os, pedi-lhes instantemente que me acompanhassem. Eles acenderam o seu lampiãozinho e seguiram-me. Fomos marinhando pelas fragas à procura de agulha em palheiro. Os marinheiros começavam a rir alvarmente e a dizer que eu era dado a medo de bruxas. De repente pareceu-me porém ouvir gemer. Intimei silêncio. Os marinheiros trocaram entre si um olhar irônico, que para logo se volveu crédulo, porque distintamente ouviram um gemido.
— É alma perdida! disse um com voz trêmula.
— É naturalmente corpo perdido, objetei eu. Calem-se. Vamos a ver se nos orientamos.
Após um longo intervalo, ouvimos gemer do novo, se bem que mais debilmente. Podemos orientar-nos. Eu marinhei à frente dos homens, arrancando da mão de um a lanterna. A pequena distância pareceu-me ver um vulto estendido no chão. Baixei o lampião e reconheci um corpo de mulher. Os marinheiros estavam atônitos e como que receosos de aproximar-se. Fui eu quem, pousando o lampião, levantou o corpo. E — surpresa extraordinária! — vi uma bonita mulher, se bem que mortalmente pálida, nova, franzina, com o rosto ferido, ensanguentado. Estaria viva ou morta? Não sabíamos. A verdade é que estava fria como cadáver. Os marinheiros, capacitados de que não era bruxa, ajudaram-me a transportá-la ao barco. Deitamo-la, aspergimo-la, lavamos-lhe os ferimentos e nem tempo tivemos — eu pelo menos — para pensar no extraordinário do acontecimento. Hoje é que eu, ainda que mal, reflexiono e me confirmo que não há romance que seja absurdo.
***
A formosa desconhecida continuava a estar imóvel e fria, apesar dos cuidados que lhe prodigalizamos e que, atentas as nossas circunstâncias, não podiam ser completos.
Sabe que eu não sou piegas nem romântico, — o que significa o mesmo, porque o romanticismo é a pieguice do espírito — mas confesso-lhe francamente que me horrorizaram a solidão, a escuridade, a massa negra das águas e a massa negra das serras, o desamparo do homem entre a água que é fria e a rocha que é dura, entre ambas que são mudas e surdas, — finalmente, o desagasalho, a impossibilidade de encontrar socorro!
Como o Douro me pareceu diferente daquele extenso e caudaloso rio nosso conhecido, meu e seu, quase sempre plácido, povoado de barcos, animado de cantares, marginado de casinhas e campanários que de longe a longe se penduram das fragas, numa palavra, acidentado de tons variados e por mais de uma vez festivos!
Ordinariamente, quando se viaja, tem-se saúde. Vem a gente a ler no barco, a fumar, a conversar os marinheiros, a incitá-los a que cantem ao desafio, a comer a sua canja e a beber a sua pinga!
Nada nos apavora então! Quando o barco passa por baixo das Vitoreiras, e se vê lá no alto, ameaçando eternamente despegar-se, aquela enorme avalanche negra, informe, nem sequer lembra que os fraguedos, que se encastelaram um dia, por uma evolução da natureza, podem rolar e precipitar-se alguma hora, por outra evolução imprevista. Contenta-se a gente com ouvir da boca dos marinheiros uma tradição do sítio.
— Ali, dizem eles, é que os homens traídos trazem as mulheres a despenhar-se.
Eles não dizem isto por estas palavras, mas digo eu. E a gente facilmente acredita que haja homens que se deem ainda o incomodo de jornadear por algumas horas para despenhar as mulheres adulteras, que já estão despenhadas, e que haja mulheres, que depois de conhecerem o vício, tenham a virtude de se deixar morrer!
A viagem pelo Douro, de dia, em boa disposição de espírito e corpo, tem alguma coisa de idílio, de Arcádia, de crendice, coisas impossíveis de encontrar hoje em qualquer outra parte. É uma espécie de Pantana, onde o carneiro assado parece saltar-nos aos dentes, e a borracha trepar-nos aos beiços, e onde a gente, olhando para as mãos, encontra cinco facas e cinco garfos! Onde é hoje que se pode encontrar a realidade deste ideal de Pantana, a não ser numa viagem pelo Douro? Quem é hoje que come com a mão, desde que o Monteverde publicou o Manual enciclopédico, e nos exames do liceu se ensina a dar ao queixo, quer dizer, a comer com as mandíbulas?
Mas como o quadro muda de noite, santo Deus! quando terra, céu e água são escuros, e está ao pé de nós um corpo frio, imóvel, quando o nosso espírito pergunta a si mesmo, para resolver um mistério, se aquela mulher, formosa e inanimada, gentil e desconhecida, será morta ou viva!
E não haver um sal que se lhe dê a respirar! um espelho para lhe receber o hálito, se ainda o tem! uma voz que nos anime! um espírito que compreenda a nossa tribulação! porque os marinheiros do Douro são os puros cadeirinhas do rio! Fazem tudo mecanicamente; têm força: puxam por ela. Perdão, pelo que eles puxam é por nós, pelo barco, e por eles mesmos. Podiam ter nascido bois, e nasceram homens. Também os cadeirinhas podiam ter nascido burros de carga e nasceram galegos. Que a natureza emendasse a mão em qualquer feitura humana, compreende-se, porque também aquele artista, que estava a fazer o demônio calcado pelo arcanjo, mudou de tenção, por quebrar os chifres ao demônio, e aproveitou a escultura para fazer um santo deitado.
O que é certo é que a natureza humana, tirante os marinheiros de Riba Douro e os cidadãos de Riba Minho, é tão nobre, tão dedicada, — e perdoe-se-me a vaidade de a estudar em mim mesmo — que logo me esqueci da urgência de abreviar a viagem, de descarregar em Castelo de Paiva os meus gêneros, e concentrei todas as minhas atenções naquela mulher que não conhecia, que vagueava a desoras por uma serra, com risco de rolar ao Douro, sozinha com a sua ideia, que era provavelmente uma grande dor.
Permita-me — entre parêntesis — que chame à dor moral uma ideia e não um sentimento. Isto é filosofia minha. Quando se acorda pela manhã, e se lembra a gente do sofrimento da véspera, é que continua a sentir o que na véspera sentiu. E que tal! aprova? Eu quando fui de uma vez ao Porto, acompanhar o meu patrício Barros que ia fazer concurso para uma cadeira de filosofia num liceu do sul, e ouvi argumentar um tal Albuquerque de óculos verdes, adquiri a convicção de que também podia ser filósofo, mais pelo que ouvi ao Albuquerque do que pelo que ouvi ao Barros.
A verdade é, meu amigo, que a nossa alma verga ao perigo como o aço ao joelho.
Pusessem no meu barco um ferrabrás, um mata-mouros, um espadachim, ao pé daquela mulher, e ainda que esse estentor não tivesse esposa, nem filha, nem — ó prodígio! — tivesse mãe, ele sentiria o que eu senti, a abnegação das situações anormais, a ânsia de valer a quem está carecido de socorro, a necessidade de saber se aquela mulher estava morta ou viva!
Cobri-a com todas as mantas que havia no barco, as dos marinheiros e as minhas, a ver se provocava a reação; lembrei-me de que tinha aguardente comigo, friccionei-lhe os braços e os pés, e, ao agasalhá-la, ao conchegar-lhe a roupa, senti que tinha no bolso papeis.
Bem podia ser que ali estivesse a chave do enigma.
***
Com quanto eu seja um pouco preguiçoso em escrever, e ainda ontem lhe tenha enviado a segunda carta sobre o extraordinário caso das Vitoreiras, não posso resistir à tentação de voltar hoje ao assunto para lhe comunicar que por carta recebida agora do correio do Porto fui ameaçado de não sei que medonhos perigos no caso de prosseguir na verídica história da morta ou viva.
Em nenhum ato da minha vida blasono de valente, mas também não é meu costume recuar por cobarde. Continuarei pois a narrativa encetada, em proveito da humanidade, porque, repetindo o que dizia na primeira carta, é uma tremenda lição. E depois que ideia se fará no Porto da policia de Castelo de Paiva? Julgarão isto sertão de feras, serra deserta, região ignorada? Eu não sei. O que posso afirmar é que a tenebrosa carta nem me cheirou a certidão de óbito, nem estou em terra onde a supradita carta, dado que eu fosse simplesmente poltrão, pudesse converter-se em realidade impunementemente.
Não, meu amigo, eu protesto contra todas as mordaças açaimadoras de escândalos. Isto assim não pode ser, — que triunfe sempre o forte e sofra sempre o fraco. Bem sei que é costume recatar os escândalos e, quando muito, publicá-los desfigurados. Mas — erro imperdoável! — o escândalo é muitas vezes a lição e algumas vezes pode ser a cura. É preciso que se espalhe, que se discuta, que se comente, com vagar, como eu estou fazendo, para que a precipitação não cegue o entendimento.
Este caso da morta ou viva tem surpreendido muita gente, mesmo em Castelo de Paiva. Era eu a única pessoa que estava na confidência dele, porque fui a única testemunha ocular. A princípio julguei dever guardar segredo. Ao cabo, porém, de muitas noites de insônia, resolvi dar-lhe publicidade. Sabido apenas por mim, não aproveitaria a ninguém; divulgado, algum proveito poderá-levar à sociedade.
Há que tempos se anda aí a falar da emancipação da mulher! Mentira, hipocrisia, infâmia!
A sociedade lança mão da tese-emancipação para mais escravizar a mulher, como os governos costumam exibir o rótulo melhoramentos materiais quando tentam vexar os povos com novos tributos.
Querem estes filósofos de má morte emendar a natureza. A mulher não nasceu para senhora nem para escrava; a mulher é companheira. Como esta palavra está a dizer, ela deve compartir conosco alegrias e dores, risos e lágrimas, flores e espinhos. Falar-lhe em emancipação é supor que havemos sido déspotas ao ponto de lhe roubarmos a liberdade relativa que lhe devíamos ter dado, e que lhe queremos restituir; é proclamar a nossa própria vileza; é arrogar-nos fatuamente a importância de libertadores do gênero humano. Escravizá-la é aviltar nossos filhos até à condição de filhos de escrava e julgarmo-nos nós mesmos nas circunstâncias de nossos filhos.
Não há emancipação nem escravidão: o que deve haver simplesmente é sociedade conjugal.
Portanto eu, filósofo montanhês, estarei sempre na brecha para atacar qualquer das duas falsidades, qualquer dos dois extremos, que são viciosos, estando pois a virtude mais uma vez no meio-termo.
Estas cartas são um brado ardente contra o aviltamento da mulher, cuja honra se quer sujeitar a um capricho, esquecendo-nos de que desonrando-a a ela nos desonramos a nós mesmos. Não façamos da mulher a guitarra com que nos recreamos durante uma serenata e que ao romper do dia, ébrios de mau vinho e mau prazer, atiramos pela janela fora. Quem a recolherá depois de a ver no monturo? O trapeiro, apenas. E todavia a guitarra era mimosa, quando suspirava ao luar; tinha uma voz doce e melodiosa que despertava vagos pensamentos na alma; podia ainda murmurar cadências se continuasse a ser dedilhada por mãos delicadas. Mas nós, que a princípio mal pousávamos os dedos nas cordas, que a julgávamos intermédio entre a nossa alma e a natureza, porque era ela, a guitarra, que estava falando por nós e respondendo pela natureza, deixamos por último cair em cheio a mão sobre o frágil instrumento e fizemos estalar uma corda, que precedeu o estalar de todas as outras.
Pois a corda que estalou chamava-se — honra; depois dela estalaram todas as outras, que se podem chamar — pundonor, brio, fé. A mulher, quando chega a este destino da guitarra, já não tem pundonor, porque não se peja de haver caído; não tem brio, porque não pensa em reabilitar-se; não tem fé, porque já não acredita na própria reabilitação nem na reabilitação das outras.
Vai, como a guitarra partida, para o muladar do trapeiro ou para a loja do adelo.
Ou morre ou se vende.
Não, filósofos da filosofia de Maomé, que sustentais o crê ou morres, não, em nome de nossas mães, de nossas irmãs, de nossas esposas, de nossas filhas, havemos, nós, os que temos dignidade e coração, de quebrar aos vossos pés essas duas lâminas de aço cortante que limitam o vosso pérfido dilema. E como o havemos de fazer? Desvendando a mulher, avisando-a, apontando-lhe o exemplo.
Meu amigo, — perdoe-me esta dissertação que era precisa, depois de lhe haver anunciado a recepção de uma carta ameaçadora, e previna os seus leitores de que eu daqui em diante entrarei diretamente no assunto.
***
Quer que lhe explique o meu demorado silêncio?
Dias depois de publicada a terceira carta, recebo pelo correio outra de letra desconhecida.
Abro e leio:
"Ilustríssimo senhor:
Vejo que é um homem esforçado e brioso, para quem todas as ameaças são nulas. Perdoe-me o havê-lo compreendido mal, tomando-o como pusilânime. Lance tudo à conta do meu desespero de me ver justamente acusado em muitos relanços das suas cartas, e falsamente incriminado noutros. Foi uma infâmia, que a sua magnanimidade perdoará, e que o meu arrependimento redimirá. Peço-lhe porém — se alguma confiança lhe mereço ainda depois de perdoado — que me ouça, antes de continuar as suas cartas, para que, melhor informado, possa conhecer as particularidades da verídica narrativa. Um inconveniente obsta porém à minha ida a Castelo de Paiva: é o ser uma terra muito pequena e açular eu a curiosidade do público ocioso com a minha presença aí, depois da publicação das suas cartas.
Nesta conjuntura não será grosseira impertinência pedir-lhe um sacrifício por amor da imparcialidade com que quer ser juiz na minha causa? Pois bem, ao magistrado que me tem de julgar perante a opinião pública, e que deve escutar com igual benevolência réu e queixoso, exoro, suplico vivamente que se digne marcar sítio onde me possa dar audiência para ouvir da minha justiça.
Não receie ciladas. Se não fosse realmente um homem corajoso, lembrar-lhe-ia que prevenisse a autoridade da hora e local da entrevista."
Respondi imediatamente:
"Ilustríssimo senhor:
Tenho de ir a Penafiel depois de amanhã. Portanto, se não quer ser visto, espere-me às onze horas da noite na capela de São Roque.
Não receio ciladas. Deixemos a autoridade em paz."
Fui.
Efetivamente pude orientar-me melhor nos episódios que precederam o caso das Vitoreiras, o que de nenhum modo quer dizer que eu modificasse absolutamente o meu primeiro juízo.
Ainda assim cumpre-me restabelecer a verdade dos fatos.
Da parte dele não houve a mínima culpa no incidente daquela noite. Foi sim um grave erro da sua parte, o erro de ceder à loucura de um momento, que deu lugar a esse ato de desespero da formosa desconhecida.
Ele, porém, não estava avisado da fuga, como pude verificar pelo confronto dos depoimentos de ambos.
O que é certo é que o vi chorar...
Nunca o seu coração está tão endurecido que não tenha a sensibilidade que refrigera com lágrimas as dores íntimas.
Todavia aguardemos o desfecho dos acontecimentos, esperando, como o Dr. Pangloss, que tudo seja pelo melhor no melhor dos mundos.
Isto até aqui, meu amigo, foi para si.
Daqui em diante vai prosseguir a narrativa, reatando-se no ponto em que ficara, como se não se houvera dado este episódio que acabo de referir, e que todavia me permitirá ser mais explicito.
Senti, disse eu na segunda carta, que a desconhecida tinha no bolso papeis.
Só ali podia estar a chave do que para mim era enigma.
Mas, ao mesmo passo, um escrupulosito: Ser-me-ia permitido ler essa correspondência?
E logo a contrapor-se ao escrupulosito uma reflexão: Não a traria ela consigo, prevendo que as suas debilitadas forças lhe faltariam no caminho, para esclarecimento de quem quer que a encontrasse morta ou viva?
Resolvi ler os papeis.
Eram um maço de cartas, atadas com torçal vermelho.
À primeira vista, fiquei perplexo.
Reparando melhor, dei tino de haver entalado, entre o torçal e o rolo, um bilhete.
Esse devia ser o esclarecimento desejado.
Era, em verdade.
Dizia simplesmente isto:
"Chamo-me F., da casa de... vou para..., fugida à justa punição de meu pai e apenas confiada na proteção do pai de meu filho, que deve nascer se a morte não surpreender a mãe nesta ousada resolução.
Tu, que me leres, perdoa-me.
Se és pai, põe todos os teus cuidados na guarda de tuas filhas: se és mulher, e estás descida a iguais abismos, vê no espelho da minha desgraça a profundeza do teu erro."
Tinha-se feito a luz.
Aquela mulher era filha de um homem respeitabilíssimo que há muitos anos se soterrara numas serras do Douro depois de haver percorrido o mundo, semeando dinheiro e anedotas, batendo os melhores cavalos, balouçando-se nos melhores tílburis, jogando, bebendo, reptando, apostando nas corridas, atirando aos pombos, pompeando nas águas de Spa, debruçando-se num camarote da Grande Ópera, merecendo referências a Júlio Janin, enchendo o mundo, o folhetim, o romance e até o teatro.
Há quem diga que o nosso conhecido Antony, transportado do lar desonrado para a cena igualmente desonrada, fora apenas uma copia desenhada pelo crayon ultrarromântico de Alexandre Dumas numa hora mais ultrarromântica que o próprio crayon.
***
Finalmente, ao recolher de uma das viagens ao estrangeiro, casou com uma senhora da primeira sociedade lisbonense. Quase o surpreendeu o ser amado.
Não conhecia o amor senão da capa dos livros e dos vaudevilles. O casamento era para ele apenas uma comedia que vira em França e na qual homem e mulher se davam excelência e cumprimentavam ao jantar. Pensava pouco mais ou menos em observar o regime matrimonial da comedia, mas completamente se enganou, porque, sentindo-se amado, começou de encontrar no amor tesouros que lhe eram desconhecidos desde a mocidade. Atravessara o mundo, sem atravessar a família: não conhecia o amor, porque só na família o ha. A alegria das festas, fora do lar, irradia como a espuma do champagne à luz de candelabros, mas entorna-se e dissipa-se como ela.
Supunha ele haver-se apaixonado uma vez, aos vinte anos. A 2 de abril de 1829, fazendo a primeira viagem a Paris, ouvira cantar a Malibran, que era então a rainha da opera, num concerto matutino dado na rua Taitbout, em favor dos órfãos adotados pela "Sociedade de moral cristã." Ficara doido, embriagado, e logo obteve uma apresentação à cantora, que o recebeu ao dessert.
Nessa mesma noite cantava a Malibran o papel de Desdêmona no teatro dos Bufos. O teatro trasbordava de espectadores; a receita do espetáculo subiu ao algarismo de 18 mil francos.
Não obstante ser imensa a multidão, a cantora pareceu enxergá-lo e distingui-lo com um sorriso, — destes sorrisos que as mulheres de teatro espalham como bilhetes de benefício...
Isto acabou de enlouquecê-lo. Todo o teatro tinha visto: a Malibran sorrira-lhe!
Nesse mesmo ano foi a cantora a Londres. Acompanhou-a, seguindo por toda a parte o rastro de glória que ela abrira ao passar por entre a admiração britânica.
Em janeiro de 1830, estavam ambos em Paris: ela e ele.
Foi nesse mês e ano que Paris a ouviu cantar o segundo ato do Matrimonio segreto, com as duas maiores notabilidades cantantes da época, — a Sontag e a Damoreau-Cinti.
A vida do nosso touriste foi, durante o tempo que seguiu a Malibran, uma serie de viagens, — as mesmas que ela fazia, — de ceias, de piqueniques, de prazeres, que acabavam sempre ao amanhecer, porque os falsos sorrisos desmascarar-se-iam à luz da manhã, e, digamo-lo também, foi um inferno de ciúme.
Ele tinha tamanha emulação de quem lhe dava a ela um broche, como de quem lhe dava simplesmente um bravo. Isto, meu amigo, acho eu desarrazoado; mas diga-me se não tenho razão, visto que vive em terra onde há teatros.
Ora o nosso herói, que, para maior facilidade, chamaremos X, julgava-se perdidamente amado, e perdidamente namorado.
Duplo erro!
O que lhe sustentava essa rosada ilusão eram as flores, as luzes, os cristais, as ovações, as perolas e os sorrisos da Malibran, o público, as ceias, os bailes, toda essa vida exteriormente sedutora, apenas arquitetada sobre este pedaço de vidro, que no mundo se chama a glória.
Mas — desapontamento horrível! — o pedacinho de vidro quebrou, cessaram as cintilações prismáticas, e o castelo encantado desabou.
Foi nesse mesmo ano de 1830 que a Malibran atou com o celebre violinista Beriot as íntimas relações que os tornaram inseparáveis.
Foi numa ceia que ele soube a fatal notícia por intencional chocarrice de um conviva.
Esteve para erguer-se e reptar Beriot, mas Beriot era um homem serio, e não o havia ofendido.
Desistiu.
Amuou, corou, empalideceu, começou a tornar-se ridículo.
Malibran, que fez reparo no despeito do seu admirador, levantou-se e apresentou-lhe a Lablanche, que estava à mesa.
Coruscou no cérebro de X a ideia da vingança. Começou a galantear a Lablanche, a ponto de que em 1832 percorreram todos a Itália: Malibran, Lablanche, Beriot e X.
Já viu o meu amigo mais doida mocidade, mais desbaratada vida, e ao mesmo passo tamanha nudez d'alma ainda mesmo na época em que o corpo se envolve na ampla capa de D. Juan?
Um benefício recebeu porém desse divagar pelos prazeres ruidosos. Saturou-se do mundo. Felizmente, a sua vinda a Lisboa facilitou-lhe o único meio de conhecer a única coisa que desconhecia, — a família. Entrou no lar pela porta do casamento quando pela janela saia a extravagância ainda desgrenhada das ceias e de charuto na boca.
A propósito de charuto, meu amigo: dê-me tempo de fumar um.
***
Continuemos a falar do pai da nossa gentil desconhecida.
Acabei o charuto: podemos conversar por um pouco.
O amor completou a regeneração que a experiência do mundo principiara.
Casou.
No coração da esposa encontrou tesouros de raras virtudes. Alvoreceu-lhe em torno uma aurora de tão doce luz, que pela sua mesma suavidade desbancava as cintilações cristalinas das ceias, e os clarões que iluminavam em cena a figura da Malibran.
Toda a gente o presumia ainda rico: a verdade era que a realidade não correspondia à opinião pública.
Havia gastado como um príncipe russo. A capa de D. Juan não tem bolso, de modo que enquanto as mãos tangem o bandolim da aventura vai o dinheiro caindo no chão.
Casado, encarou com mais gravidade no seu futuro, e achou que não podia aguentar-se nas pompas de Lisboa.
O casamento tem quase sempre isso de bom: desperta a consciência adormecida pela crápula.
Pediu informações aos feitores, e as informações confirmaram a suspeita.
Chamou à puridade a esposa e disse-lhe:
— Perdoa-me, anjo, se te vou magoar com a minha primeira confidência, mas devo-te a verdade toda. Eu não sou tão rico como geralmente se supõe. Gastei muito, quase esbanjei na sociedade o patrimônio da família. Quero porém que tu vivas feliz, e para atingir a tua felicidade apenas encontro abertos dois caminhos: ou o trabalho honesto ou a tranquila solidão. Se desejas viver no estrangeiro, poderei obter uma embaixada; mas se preferes viver no meu e teu país, temos que recolher-nos à província, e viver na doce tranquilidade que o mundo da capital não conhece. Só te peço que sejas franca. Decide, e a tua vontade será-lei.
A resposta foi esta:
— Partiremos amanhã para o teu solar. A felicidade está onde a gente a tem; tê-la-emos lá. A vida no estrangeiro seria a prolongação da tua mocidade; ora eu tenho direitos incontestáveis ao teu coração. Quero-o, pois. E onde melhor o possuirei do que na solidão do lar, onde, fechada a porta, seremos nós os únicos habitantes do nosso mundozinho de felicidade? Vamos lá, meu amigo. Nem sabes como me sinto alegre! Quanto mais te distanciares do passado, menos ciúmes terei dele. Vamos lá.
Foram.
O solar, construção coeva dos primeiros tempos da monarquia, era mais acervo de ruínas que palácio de nobres. As pedras haviam-se desconjuntado, e a hera marinhava pelas fendas até ensombrar as janelas. Nos longos corredores havia a escuridão sinistra dos cárceres. As salas, denegridas pelo tempo, eram de uma vastidão que punha medo. A mobília, tão deteriorada como o edifício, tinha o aspecto fúnebre de fantasmas que à meia-noite se fossem sentar encostados às lousas do cemitério. Os grandes contadores de pau preto negrejavam a pequenos intervalos como ossadas de gigantes carbonizadas em forja de ciclopes. Por entre a escuridão e o silêncio da casa algum pipilar de andorinhas, que penduraram o ninho entre as ruínas. Também às vezes no cemitério, no meio da côncava sombra dos chorões, assim chilreiam uns passarinhos que fogem quando apresentem gente, porque estão habituados ao sossego das campas.
As sombras da casaria deserta apavoraram a noiva de X. Uma noite uma coruja fora piar a uma das janelas do solar. A pobre senhora estremeceu e chorou.
Acudiu o marido a abraçá-la meigamente.
— Tinha sido melhor, disse ele, optarmos pelo estrangeiro. Isto aqui é triste. Ainda se as andorinhas se não calassem de noite...
— São os nossos únicos amigos, respondeu a dama. Se esta casa não é completamente sepulcro, a elas o devemos. Mas, meu amigo, as andorinhas me bastam para conforto. Eu chorei porque estava triste; não foi que tivesse medo. Não te inquietes...
— Não, anjo, não. É preciso sairmos daqui...
— Para o estrangeiro não, não?
— Sossega, filha. Pois que estes montes te amedrontam menos que estas paredes, e que te resignas ao sacrifício, ficaremos. Limitar-nos-emos a mudar de casa. Amanhã tratarei de ajustar a edificação de um prédio que tenha em conchego o que aqui perdemos em vastidão. Bem vês que mais nos aproximaremos ainda. Eu quero ouvir a tua voz a todo o instante. E depois, como sabes, o berço das crianças costuma ser pequenino, e tu vais ser mãe. A nossa nova casa será pois o berço de nosso filho. Escolho o laranjal. O vento que passar agitando as folhas embalará o berço... Queres?
— Se quero!
***
Construída a casa ao centro do laranjal, entrava a felicidade pelas janelas com os murmúrios e os olores de fora.
Ficara deserto o solar na eminência em que assentava. Negrejava como o cavername de navio naufragado sobre rochas. Eram as ruínas do passado, os escombros do feudalismo que dormiam o seu sono de séculos; o cottage do laranjal era alegre como a liberdade extensiva a nobres e plebeus: — aos nobres, porque já lhes não pesava a tarefa de mandar; aos plebeus, porque já não eram servos de gleba.
As corujas invadiram as ruínas em competência com as trepadeiras que bracejaram desafogadamente, e as pávidas visões da esposa de X ficaram lá sepultadas para nunca mais a perturbarem enquanto costurava o enxovalzinho da criança que ia nascer.
O fidalgo pasmava do poder regenerador da família, que lhe tinha raspado da alma a última lepra da extravagância. Não via mais mundo do que aquele. Andava a toda a hora a olhar para o berço vazio, ansioso de ver sobre o travesseiro o relevo de uma cabeça pequenina. Não faltava já o lençol de rendas nem a coberta de damasco: o que faltava era a criança. Pusessem ali dentro uma alma, e a felicidade ficaria completa.
Chegou finalmente o dia de se realizar o venturoso sonho. Desdobrou-se a cobertazinha adamascada, acamaram-se as rendas para não magoar o corpinho delicado, e ali dormiu a criança o primeiro sono velada pelo pai que nem ousava beijá-la para não a magoar.
Aos cinco anos a criança tinha já um portezinho senhoril que era de namorar os olhos. Muito redondo o vestidinho; os cabelos anelados e auri-luzentes; o pequenino corpo escondido na fita que lhe servia de cinto.
E chilreava, e esvoaçava, como se tivesse a casa por gaiola.
À medida que a pequerrucha ia crescendo, crescia com ela o amor paternal. Sorriam de a ver sorrir, e choravam de a ver chorar.
O grande receio era de que morresse.
Esta é a loucura de todos os pais.
Querem roubar à tirania da morte uma vida que lhes não pertence. Esquecem-se de si mesmos para se absorverem numa existência que não lhes é essencial, mas complementar.
Não a eduquem à revelia, deixando-a entregue aos instintos bons e maus que nascem com ela. Visto que o filho é o complemento dos pais, completem-se pelo filho.Adaptem-no, quanto possível, à sua maneira de pensar e sentir; façam dele a coda da santa melodia chamada família. Não se riam de que a criança faça aquilo que eles nunca fizeram. Não lhe aplaudam o bater com o pezinho no chão, o desfolhar as flores que lhe são defesas, o mexer nos objetos que devem respeitar. Bater com o pé no chão é a princípio um movimento mecânico, nervoso. Com o decorrer do tempo corresponde ao movimento uma ideia má e um mau sentimento. Então esse ato já não é mecânico simplesmente; é a manifestação da raiva, do desespero, do ódio. A esta perniciosa educação é preferível a morte. As plantas novas tomam o jeito que lhes dão. Deixem crescê-las sem enleá-las, que elas assombrarão todo o pomar.
Ora o amor é cego, e não vê nada para fora de si.
Foi isto o que aconteceu.
A criança cresceu com a mulher. Os pais, para que outro amor lha não roubassem, deram de mão a todas as visitas de gente moça. As únicas relações que se conservaram foram as do voltarete: eram duas. O capitão-mor tinha cinquenta e cinco anos; tinha além disto reumatismo e óculos azuis. O outro parceiro era um morgado de quarenta anos, que estivera em Paris com o pai da menina e servira de capa a varias escaladas. Tinha casado e parecia um homem morto. O casamento tem tanto de bom como de mau: é como os cárceres. A uns presos aproveita a reclusão; outros saem da cadeia mais desmoralizados.
Os primeiros estavam representados em X; os segundos no morgado.
Bem casados e mal casados, diz o mundo.
O amigo do fidalgo tinha verve e bigode: duas tentações.
Ainda sabia dar o laço da gravata: um mau sintoma.
Fumava charuto: um perigo.
Contava das suas viagens, dizia que tal cantora, que conhecera, tinha os olhos bonitos e as unhas feias; que o nariz da Malibran não era tão correto como o pescoço: uma desgraça.
Numa palavra: era entendedor.
A menina da casa, enquanto eles jogavam, estava por ali.
E o pio que podia acontecer naquela casa era o entendedor estar lá.
Por mais que ele quisesse dominar o seu temperamento, ser bom e digno, leal e cavalheiro, o coração, que estava comprimido nas rixas conjugais, aproveitou a ocasião e pós a cabeça fora da grade a pedir esmola de amor.
A inexperiente menina ouviu-o, sem saber o que fazia.
Tinham-na ensinado a não fugir daqueles dois homens: não fugiu.
***
Mau é brincar com fogo: o incêndio irrompe.
O amigo da casa começou a fazer reparo nas graças da menina, e achou que tinha os dentes alvíssimos, os olhos formosos, os cabelos soberbos.
A menina, por sua parte, entrou de deixar-se influenciar agradavelmente pela amena eloquência do único homem estranho que falava naquela casa.
Era ele o único orador dos serões íntimos; a única voz que sobrepujava o frêmito das cartas na mesa do voltarete.
Depois a menina lisonjeava-se de que um homem, que tinha corrido o mundo, e conhecido mulheres celebres por talento e formosura, a conceituasse inteligente e gentil.
Estava-se preparando naquele seroar despreocupado a ruína de Troia.
O apartamento é um mau sistema de educação. A borboleta, que não conhece o perigo da chama, arroja-se à luz.
Era melhor tê-la avisado para que demorasse a morte quanto lhe fosse possível.
Após as amabilidades vieram os galanteios, e após os galanteios as confidências.
A menina ouviu e acreditou.
Começou-se a dizer por fora que a menina era amada pelo morgado.
Só não o diziam, nem ouviam, os pais da menina e a esposa do morgado.
Decorreu tempo, e a menina deixou de sair a passeio; ao mesmo tempo o morgado deixou de ser assíduo.
A menina fez-se triste; o morgado andava preocupado.
Lutavam ambos com a resolução do mesmo problema: encobrir uma vergonha comum.
Foi nessa época que o morgado teve de ir ao Porto por causa de pleitos que se ventilavam nos tribunais.
Pediu-lhe a menina que a tirasse da casa paterna, antes que rebentasse o escândalo.
O morgado prometeu demorar-se apenas alguns dias no Porto, e voltar depois de recolhidas grossas quantias, cujo embolso dependia da solução do pleito, a seu ver bem encaminhado, para se passarem ambos a Espanha.
Houve porém uma camponesa que os viu estarem-se despedindo em lugar afastado. Contou-o à noite à lareira. A revelação da camponesa espalhou-se. Chegou aos solares, e aos ouvidos da desventurosa esposa do morgado.
Pensou a infeliz senhora que poderia ainda atalhar o incêndio, e mandou um portador com uma carta à mãe da menina.
Faltaram-lhe as forças para ir pessoalmente.
Chegava o mensageiro a tempo que a menina estava chorando à janela do seu quarto.
O coração, que é sempre feiticeiro, adivinhou.
O mensageiro, que trazia recomendação, não fez caso.
Saiu-lhe a menina ao encontro. Pediu-lhe com lágrimas nos olhos e na voz que lhe entregasse a carta e fosse dizer à morgada que a havia depositado nas mãos de sua mãe.
— Veja que me perde, podendo salvar-se com uma simples mentira! Se tivesse uma filha, seria mais clemente.
O mensageiro era pai: entregou-lhe a carta.
A menina leu-a, e cuidou morrer de aflição e vergonha.
Dizia a morgada que as senhoras da terra, — as quais eram amantes de vários morgados casados, — já não levantariam o olhar, se a encontrassem nos caminhos, para a amante de seu marido.
Era um modo de dizer que o escândalo tinha estrondeado, e que Jesus Cristo não voltaria mais ao mundo, porque nenhuma das voluntárias pecadoras se arreceava de ser a primeira a apedrejar a pecadora incauta.
De feito, Cristo ainda não voltou, nem já agora voltará, porque ainda os vendilhões da honra alheia entram ao templo da família, e as mulheres adulteras erguem vozes e pedras contra a que resvalou para o abismo em que elas estão.
A menina tratou de emaçar as cartas do morgado e de meter no seio o bilhetinho que já tivemos ocasião de ler.
Esperou que fosse noite, e meteu-se a caminho.
Onde ia a pobrezinha?
Procurar o morgado ao Porto.
Foi andando, andando, rasgando os pés nas búrguas das serras, rompendo a escuridão, arquejante, tímida do menor ruído, resoluta da coragem que dá o desespero, até que, cerca das onze horas da noite, caiu extenuada ao sopé das Vitoreiras.
Neste lance entronca a minha primeira carta bastante a explicar o mais que se passou.
Como se vê, o morgado não estava prevenido da fuga da menina e sob a aflição da surpresa escrevera as ameaças da primeira carta que recebi.
A gentil desconhecida, como a princípio eu lhe chamava, tornou em si depois de empregados muitos esforços para reanimá-la. Meu tio padre, chamado por mim precipitadamente, encarregou-se do piedoso encargo de recolher a menina em sua casa, e de negociar a sua entrada no convento de*, onde se enclausurará depois que seja mãe.
O morgado, lendo casualmente no Porto uma das minhas cartas, publicadas no Primeiro de Janeiro, escreveu-me a impensada missiva e logo se deu pressa em partir, e em me convidar à entrevista que aceitei.
Tomará conta do filho, logo que nasça, e aproveitará decerto esta tremenda lição.
Ainda agora me não parece dislate repetir a pergunta: Morta ou viva?
Viva para si mesma, e morta para o mundo.
Que desgraça!
Ah! Cristo não voltará outra vez; a ter de voltar, já se haveria amerceado de tantas misérias humanas!



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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