quinta-feira, 20 de junho de 2019

Eça de Queirós: tradicionalista e revolucionário (Ensaio)



Eça de Queirós: tradicionalista e revolucionário

Eça de Queirós não é apenas um nome, um romancista isolado no conjunto totalizador de uma literatura: Eça de Queirós é toda uma geração, é o divisor comum de duas épocas marcantes, é o tradicionalista sem comparação, pelo apego às velhas coisas naturais e sociais da sua terra e é também, paradoxalmente, o revolucionário inveterado, irônico e sagaz, em face das suas tendências renovadoras, tão vivas no jornalista combativo, em que há sempre um observador e um pensador, no romancista veemente, que deforma e caracteriza os homens e os costumes, para modernizar-lhes os figurinos ou traçar-lhes em menos serôdios e rotineiros, diretrizes avançadas, descortinadoras de novas perspectivas.

Em Eça de Queirós, só a natureza não é objeto de ironia e de crítica. Principalmente a natureza do seu torrão natal. O céu maciamente azul, o silêncio luminoso, os montes, os vales, a água mansa dos rios, o grande sol, todas essas criações são perfeitas. Nas trovoadas de granizo e vento, nos aguaceiros impertinentes, nas tempestades, como aquela que abalou, em Tormes, os domínios avoengos do príncipe Jacinto, há sempre uma poesia superior e cândida. A miséria alheia, quando procede de desalentos mórbidos ou doenças incuráveis, como o heroísmo dos fortes e a simplicidade dos humildes, são também respeitados e cercados de comovedora ternura na obra de Eça de Queirós. Porque tudo Isso é imutável e eterno — e está dentro do mundo e da vida, como o espírito português está dentro de Portugal. Eça de Queirós os surpreende como eles são, fixando-o com a magia do seu estilo. Esse será um dos aspectos do seu tradicionalismo.

Já em outros setores, na política, na sociedade, nas letras, fazendo jornalismo ou fazendo romance, Eça de Queirós empurra para o lado a máquina fotográfica, que respeitou as linhas e a forma geral e natural dos quadros, para empunhar o pincel dos pintores rebeldes, com que nervosamente gatafunha, em cores vivas e brutais, todos os ridículos e todas as paixões da sua época. E então que o vemos como ele foi, mais caracteristicamente, em toda a sua existência — um revolucionário.

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Revista do Arquivo Municipal
Prefeitura do Município de São Paulo, 1950.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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