domingo, 2 de junho de 2019

Filho és, pai serás (Fábula), de Ana de Castro Osório


Filho és, pai serás

Era uma vez um homem que tinha um só filho e o criara com todo o carinho, vivendo com ele na melhor harmonia e com satisfação de ambos. Mas o filho, um dia, casou e trouxe a mulher para viverem todos juntos em casa do pai.

Ao princípio tudo correu bem, porque o bom homem trabalhava muito e ajudava o casal, mas os anos foram passando e o velho alquebrara e caíra na doença, da muita idade e canseiras, e já não era ajuda e sim pesada carga, com a qual a nora se sentia muito aborrecida.

Assim começou uma existência atormentada para o pai, pois não se passava dia sem que a nora lhe lançasse em rosto o que comia sem ganhar, tratando-o com arremesso e má vontade.

Sempre que estava com o marido não o largava com queixas contra o sogro, dizendo que já não o podia aturar, que era um peso enorme para a sua vida de trabalho e que não estava para mais sacrifícios, e acrescentando quanto se lembrava, de modo a convencer o filho do muito que sofria por causa do pai.

Ao princípio o marido mandava-a calar e respondia-lhe:

— Tem paciência, mulher. Então que se há de fazer?! É meu pai, coitado!

— Pois sim, sim!... É teu pai, mas sou eu quem o atura, e não tu. Está muito porco, suja-me tudo. Não posso, não posso sofrer mais!...

E todos os dias era a mesma coisa até que, uma vez, bradou:

— Hoje acabou-se, ou sai o velho ou saio eu!...

O homem, que gostava muito da mulher e não queria que ela se fosse embora, disse, muito aborrecido:

— Mas que hei de eu fazer, para onde o hei de mandar?

— Olha (respondeu a mulher), leva-o para a montanha, onde não há viva alma, e as feras se encarregarão de nos livrar das suas impertinências.

O filho ainda tentou harmonizar as coisas, mas como não pôde, foi ter com o pai e convidou-o a ir com ele a uma festa muito bonita que havia na montanha.

— Mas como hei de ir, meu filho, se não posso andar?!

— Isso não importa, senhor pai, que eu o levarei às costas.

Assim foi. A mulher arranjou-lhe um farnelzinho, e muito satisfeita se despediu dos dois, que seguiram o caminho da montanha, levando o moço o pai às costas.

A meio da encosta, que era ladeirenta e pedregosa, porque já ia muito cansado, parou. E sentaram-se ambos numa pedra, comendo o farnel com todo o sossego.

Depois tornou o filho a pegar no pobre velhote e subiu, subiu, até chegar a um descampado onde só se viam os corvos e as águias e se ouviam os uivos dos lobos.

De novo parou, disse ao pai que aguardasse ali, com paciência, que ele descortinasse o caminho, e tratou de se ir embora, sem mais querer saber da sorte que esperava o desgraçado.

Passaram-se anos, a mulher morreu, um filho que tiveram cresceu e fez-se um homem laborioso e amigo do pai. E um dia também lhe chegou a vez de se casar.

Também a nora veio para casa, e enquanto o pai trabalhava e tinha o seu vintém para lhe dar, eram bom e bem tratado. Mas o tempo foi correndo, o velho perdendo as forças, e daí começou a nora a embirrar com ele e a protestar e a rezingar por não o querer em casa.

E tanto fez e tanto disse e chorou e se queixou, que da mesma forma o rapaz, descoroçoado, lhe perguntou o que havia de fazer e ela o aconselhou a ir levar o velho para a montanha, dizendo-lhe que havia lá uma festa, à qual desejava que ele assistisse.

Assim se passou tudo. E, como o velhote não podia andar, também o filho o levou às costas.

Chegando ao mesmo sítio onde, em novo, tinha descansado o velho pai e comido o farnel, também pararam para descansar e tomar alimento.

Então disse o velho:

— Descansa, filho, descansa, que foi aqui que eu também descansei quando levei o meu pai para o sítio onde tu me levas...

— Que diz, pai?! Então já esteve neste lugar?!

— Já... Eras tu menino e o meu pai muito velho e rabugento, como eu!... Como a tua mulher, também a minha, que foi a tua mãe, me cansava o bicho do ouvido a dizer que o não podia aturar e a queixar-se dele. E tanto fez, tanto fez que me convenceu, como a tua te convenceu a ti, a levá-lo para a montanha, para que as feras nos livrassem de tantos cuidados e trabalhos!... E quando chegar o tempo, também o teu menino te fará o que eu fiz ao meu pai e tu me estás agora fazendo!

O rapaz caiu em si e bradou:

— Não será assim, pai! Suba para as minhas costas e voltemos para casa.

Ao chegar à porta com o velho pai, começou a mulher a bramar, desesperada, por ver o sogro voltar de novo para lhe dar trabalhos e fezes.

— Deixa, mulher!... Tem paciência e avém-te conforme puderes, que eu para a montanha não levo o meu pai, para que o nosso filho não aprenda o caminho e mais tarde nos leve também a nós! Lembra-te do que diziam os antigos: "Filho és, pai serás, assim como fizeres, assim acharás".

A mulher tomou paciência e o velho viveu até ao fim da vida em sossego e com o respeito dos seus.

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Fonte:
Ana de Castro Osório: Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa (Editado a partir da edição da Bibliôtronica Portuguesa)

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