domingo, 2 de junho de 2019

Meio de fazer fortuna (Fábula), de Ana de Castro Osório


Meio de fazer fortuna

Era uma vez um homem que tinha três filhos. Viviam juntos, e governavam-se bem, com o trabalho da terra. Mas um dia achou-se muito doente, e chamou os filhos para se despedir e lhes dar um derradeiro conselho:

— Eu vou morrer e cá lhes deixo as minhas riquezas todas. Pouco é, mas deste pouco podereis fazer muito, se o souberdes governar. Nada é inútil debaixo do sol; o caso é saber quando e onde se deve aproveitar. Sois novos. Ide buscar fortuna. E adeus...

Morreu o bom homem, e os três rapazes fizeram as partilhas do que ele deixara. Coube ao mais velho uma seitoira, ou foice; ao segundo, um galo; ao terceiro, um gato. Cada qual tomou conta do seu haver, e marchou, caminhos em fora, à cata de fortuna.

O da foice andou, andou, e por toda a parte encontrava foices iguais ou melhores do que a sua, e por isto não lhe davam apreço à herança. Muito desconsolado, dizia com os seus botões: "Ora o meu Pai o que havia de deixar! De que me serve ter uma coisa que toda a gente possui? Mais valia não ter nada, e trabalhar, como até aqui, sem sair da minha aldeia".

Mas tanto andou, tantos países percorreu, que foi dar consigo a uma terra onde as ceifas eram feitas com trabalho enorme. Arrancavam as plantas pela raiz, uma por uma, e assim as iam juntando. O rapaz achou ocasião de fazer fortuna, e disse:

— Tenho aqui um instrumento com o qual a ceifa se faz mais depressa e melhor. Se eu o quisesse vender, não haveria dinheiro que mo pagasse!

Disseram-lhe que não acreditavam, sem que ele ceifasse diante deles. Mas quando o viram trabalhar tão bem e tão depressa, pediram-lhe por tudo quanto havia que lhes vendesse aquele maravilhoso instrumento. Ele exigiu grossa quantia, que de boa vontade lhe deram.

O rapaz, feito um ricaço, voltou para a sua aldeia, comprou terras, para as cultivar, e viveu feliz o resto dos seus dias.

O segundo filho, o dono do galo, também foi correr mundo, em busca de ocasião para aproveitar a sua herança. No entanto, por mais que viajasse, por mais terras que visse, em toda a parte encontrava galos tão bons ou melhores do que era o seu. E pensava: Ora o meu Pai dizia que tudo neste mundo tem utilidade, a questão é sabê-la procurar! Para que servirá este amigo, senão para fazer um caldo?!...

Mas, obediente ao conselho, foi seguindo até chegar a uma terra onde lhe pareceu que não haveria galos, pois em toda a noite não lhes ouviu a voz. De madrugada levantou-se, e viu alguns homens a atirarem pedras ao sino. Perguntou logo:

— Que andam vocês a fazer?

— Então vossemecê não sabe?! Nós todos os dias fazemos isto, para acordar o sineiro. Porque, se continua ferrado no sono, deixa de tocar o sino logo ao nascer do sol. E vossemecê bem vê que toda a gente do campo precisa de se levantar cedinho.

— Ora, que tolice! Eu nunca vi fazer um disparate assim! Não era preciso esse trabalho, se tivessem, como eu tenho, um animal maravilhoso que marca os tempos da nossa labuta diária. Mal rompe a manhã começa a cantar, mais alegre do que um clarim em dia de festa. Ao meio-dia dá sinal para os homens do campo pararem com o trabalho, jantarem e darem graças a Deus. E à meia-noite manda os retardatários recolher a vale de lençóis, que são horas e mais que horas.

O povo, quando isto ouviu, não largou mais o homem. E deram-lhe tudo quanto ele quis, em troca do galarós.

Também este herdeiro, enriquecido por um bom conselho, voltou para a terra, onde viveu fartamente o resto dos seus dias.

O terceiro filho partira também, com o seu bichano, à procura de terra onde ele fosse novidade, a transformar numa fortuna.

Andou, andou meio mundo, e, já descorçoado, pensava em voltar pobre como fora, quando chegou a uma vila onde não deu notícia de gatos, nem nos telhados, nem às portas, nem a cabriolar ao sol. À noite viu que toda a gente ia buscar as suas camas e as rodeava de canas e paus, tornando-as, assim, verdadeiras gaiolas.

— Então que é isto? Que andam vocês a fazer? (perguntou).

— O senhor não sabe?! É que nesta nossa terra há tanto rato que não nos deixam dormir, e a muita gente já têm comido pedaços da cara. Não há remédio senão fazer isto, para nos defendermos.

— Vocês não têm juízo! Bastava que me comprassem um bichinho que eu aqui tenho, para se livrarem dessa praga.

E largou o gato, por um momento que bastou para fazer nos ratos grande mortandade. E depois chamou-o e prendeu-o. Contentíssimos com o achado, os homens deram-lhe, em troca de tão raro animal, quanto pediu, e mais ainda. E com muitos agradecimentos se despediram do rapaz, que voltava para a sua aldeia com a riqueza obtida a troco da sua herança.

Quando ele já ia a distância, é que se lembraram de lhe perguntar:

— Que come o bichinho?

O rapaz, que ia andando, respondeu:

— Do que come a gente.

Que foram entender os novos donos do gato? Que come gente. E em tão grande estimação tinham o animal que imediatamente deitaram sortes, a ver quem se havia de matar para dar de comer ao bicho que podia livrá-los da praga dos ratos. Caiu a sorte a um velhote. Mataram-no, e deram uma porção de carne a comer ao gato. Mas este voltou o focinho, enjoado, mal a cheirou.

— Se não lhe agrada é por ser carne velha (disseram eles). Mata-se um homem novo. O sacrifício vale a pena, se nos livrarmos de uma praga geral.

Assim fizeram, levando o manjar todos os dias ao terror dos ratos e ratazanas, que tinham muito bem guardado e preso, por temerem perdê-lo.

O gato não comeu, e de dia para dia foi emagrecendo, a olhos vistos.

— O bichinho tem fastio, e quer carne ainda mais fresca (diziam os sabichões daquele povo sem gatos).

E dispunham-se, embora desolados, a matar mais gente, se o animal não tem conseguido fugir e tratar da vida. Porque é bem certo: quem não sabe é como quem não vê. E torna-se capaz dos erros mais cruéis, querendo acertar sem saber.

O gato, vendo-se livre, atirou-se a perseguir os ratos e a comer quantos podia, para se vingar da fome que passara. E depois veio, muito manso, buscar a companhia dos homens, e regalar-se com os restos da comida feita para gente.

E assim, em pouco tempo, afugentou e manteve em respeito os ratos e ratazanas. Todo aquele povo ficou muito contente por ver vencida a praga que tanto o atormentava, sem ser necessário mais sacrifícios.

Mais contentes ainda, porque não tiveram que chorar nenhum erro, ficaram os outros povos, o dos homens que aprenderam a ceifar, e o que comprou o galo, para os despertar de antemanhã. E não menos os três herdeiros de um bom conselho, que lhes permitiu fazer fortuna.

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Fonte:
Ana de Castro Osório: Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa (Editado a partir da edição da Bibliôtronica Portuguesa)

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