sexta-feira, 21 de junho de 2019

"Inocência" (Análise Literária), de Visconde de Taunay


Resenha do Livro  “Inocência”, de Visconde de Taunay
Por: Paulo Marçaioli
“Vê tudo aquilo o sertanejo com olhar carregado de sono. Caem-lhe pesadas as pálpebras; bem se lembra de que por ali podem rastejar venenosas alimárias, mas é fatalista; confia no destino e, sem mais preocupação, adormece com serenidade” (TAUNAY, Visconde. Inocência, pg. 15).
Já foi dito que o romance “Inocência” do escritor e engenheiro militar Visconde de Taunay poderia ser descrito como uma versão de Romeu e Julieta situada nos sertões do Brasil de meados do século XIX – no caso a história se passa entre 1860 e 1863. Seria necessário fazer algumas ponderações acerca desta assertiva. Indubitavelmente, o livro foi um sucesso a seu tempo e jamais deixou de ser solicitado pelo público. A obra foi publicada em 1872 e desde então vem sendo republicado em sucessivas edições, além de ter sido traduzido em nada menos do que 10 idiomas, incluindo o japonês. Todavia, para o leitor de hoje é provável que o desenlace amoroso entre o jovem Cirino e a pequena Inocência nos surja hoje como algo de certa forma artificial e improvável
Inocência é filha de um sertanejo mineiro que reside com sua única parenta nos rincões do Mato Grosso. Ao teor da cultura local, a mulher é retida quase como uma prisioneira no recinto doméstico, longe do alcance dos olhares dos matutos e viajantes daquelas paragens, sob a mais estrita vigilância do pai que, como mineiro, tem aquele temperamento meio desconfiado meio hospitaleiro que ainda hoje dizem respeito às particularidades das gentes de Minas Gerais.
Cirino é outro tipo popular, no caso filho de farmacêuticos que percorre os sertões promovendo a curo de moléstia através de um método que envolve parcialmente o conhecimento científico disponível da época e em parte as ervas, as plantes, o Jaracatiá, o Quino e as demais fontes naturais oriundas da sabedoria popular. No que se refere ao lado científico do doutor Cirino, sua intervenção se base basicamente na obra de Chernoviz1.
Mas, como dizíamos, parece-nos que o problema amoroso não se revela, ao menos hoje, como o aspecto de maior interesse da obra. “Inocência” se situa nos marcos da primeira fase do nosso romantismo literário – as descrições da natureza se embaralham com a estética romântica de modo que o cenário, a vegetação, os rios e os animais possuem uma dinâmica própria, infundem sentimentos e sensações no leitor e também nos personagens, informam o espírito do sertanejo e possuem uma beleza literária toda à parte.
Aparentemente, poderia se cogitar que a obra de certa forma antecipa a temática regionalista que seria muita depois desenvolvida pela 2ª geração modernista das quais Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz são os prováveis maiores expoentes. Mas o romance parece-nos ser antes de tudo Brasileiro e não regionalista. Através de uma composição pitoresca e diversificada dos tipos sociais que informam já uma ideia de nacionalidade, o sertão já se revela como um universo de tipo nacional. Cirino é paulista, tributário dos bandeirantes, “mamelucos [que] saíam para ir por esses mundos a fora bater índios brabos e caçar onças, botando bandeiras até na costa do Paraguai e no Salto do Paraná, tanto assim que deram nas reduções e trouxeram de lá imundice de gente amarrada” (pg. 81-82). Cirino tem um temperamento retido e é consequente e leal aos seus sentimentos amorosos. Há o tipo carioca representado pelo José Pinho, sempre reclamando do trabalho penoso, um tipo falastrão e indolente, mas também bondoso. Além do mineiro, há mesmo o estrangeiro Meyer, um alemão, cientista, que viaja pelo Brasil em busca de insetos e borboletas em missão científica patrocinada pela nação germânica. A presença do estrangeiro revela algo que já havia sido capturado pela sociologia Brasileira – a cordialidade e hospitalidade do povo brasileiro tão comemorada pelos viajantes de fora. É certo que a hospitalidade, a caridade e a confraternização, convivem, no caso, com a desconfiança de Pereira quanto às intenções do cientista no que se refere à sua filha Inocência.
O romantismo em “Inocência” se revela também pelo tom nacionalista da obra, pela descrição da paisagem, particularmente do cenário natural do cerrado, e pela composição de personagens diferentes que expressam os tipos sociais predominantes: o fazendeiro Pereira, a sua reduzida escravaria, os viajantes sertanejos, as pequenas vilas com seus juízes de paz, coronéis e vigários. Um certo fatalismo envolve o problema do amor, culminando num final trágico, aparentemente inevitável. Mas Taunay sugere em algumas passagens que a própria forma como a mulher, o sexo delicado, é tratada nos pontos mais periféricos do Brasil seria na verdade a causa da fatalidade. Meyer, o alemão, sugere que o pai de inocência não a casa pela força. Inocência tenta se insurgir com o enlace forçado com Manecão e é repelida com violência pelo pai. Cirino intenta discutir com Pereira sobre sua noção negativa da mulher.
Não há por outro lado uma força moral ou uma coragem arrebatadora que possibilite que Cirino e Inocência, uma vez se amando, se insurjam contra o casamento forçado da jovem com Manecão. Os dois sucumbem à tragédia apenas cogitando algum lance de ousadia, como a fuga. Talvez, o fracasso do enlace amoroso dê um verniz mais humano à história, na medida em que Cirino e Inocência apenas reagem de acordo com suas possibilidades, sem um heroísmo que fizesse da história ainda menos verossímil para o leitor dos dias de hoje. O que é certo é que “Inocência” ainda está preso a alguns pressupostos do próprio modelo literário romântico, dentre eles a tragedicidade do amor, que é o limite da obra. Seu interesse todavia ainda é bastante relevante como fonte preciosa acerca do passado brasileiro, dos tipos sociais, das expressões da língua popular, da força predominante da fé cristã, do problema da mulher, das práticas medicinais que combinam alguns conceitos científicos e a sabedoria popular. O livro é parte de um movimento literário amplo em busca da construção da nacionalidade brasileira cujo ponto de chegada é o modernismo em suas diferentes gerações.
“De vez em quando, naquela silenciosa rua em que tão bem se estampa o tipo melancólico de uma povoação acanhada e em decadência, aparece uma ou outra tropa carregada, que levanta nuvens de pó vermelho e atrai às janelas rostos macilentos de mulheres, ou à porta crianças pálidas das febres do Rio Parnaíba e barrigudas de comerem terra.
Também aos domingos, à hora da missa por ali cruzam mulheres velhas, embrulhadas em mantilhas, acompanhando outras mais mocinhas, que trajam capote comprido até aos pés e usam daqueles pentes andaluzes, de moda em tempos que já vão longe”

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[1] Pedro Luiz Napoleão Chernoviz foi um médico, acadêmico e editor polonês que consolidou sua carreira e fama no Império do Brasil.

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