sábado, 22 de junho de 2019

Artur Lobo: O testemunho de um amigo (Memórias)



O testemunho de um amigo

Exercia a profissão de jornalista em Pitangui, quando, entre os jornais de permuta, veio um que era novo. Chamava-se O Contemporâneo: foi o primeiro que li, pois que nele tudo me agradava — a paginação, o estilo, anunciando a bela ousadia de um espírito rebelado contra as normas, então muito carranças da imprensa mineira.

Recordo-me de haver saudado o colega em entusiástico local, tanto, apreciara a maneira por que ele se apresentou na lide.

Foi assim que vim a saber da existência de Artur Lobo, em plena juventude, em pleno sonho de poeta, compondo os seus primeiros versos na Tebaida onde vivia, a cidade de Sabará, que inúmeras páginas lhe inspirou.

Conhecemo-nos pessoalmente no Rio: Artur, imberbe, ar infantil, modestamente trajado, foi dar comigo num distante arrabalde, em sítio em que dominava o operariado.

Havia ele publicado um folheto intitulado Ritmos e Rimas, no qual bem claro se notava a promessa do poeta parnasiano que foi depois. Provinciano desajudado de padrinhos, Artur passou pela sensaboria de se ver criticado com a ferocidade característica dos que, àquela quadra, se presumiam os impecáveis da literatura, no Rio de Janeiro.

O autor magoou-se com a crueldade do trato, caindo num quase desalento de cuidar mais de letras. Esforcei-me por lhe levantar o espírito abatido por coisas de nonada.

Tornamo-nos amigos; mantivemos assídua correspondência juntos trabalhamos em O Contemporâneo, posto notasse eu não ser Artur muito agarrado ao jornalismo, pois mais lhe sorria e o encantava a literatura.

Tentando o gênero difícil que é o “conto”, logrou láureas com o Escândalo, vencedor no concurso da Semana, de que era diretor Valentim Magalhães. Mas Artur não descurava a consciência das musas, compondo já lindos versos de amor; já formosas rimas de acentuado indianismo, preparando destarte o seu segundo volume a que deu o título, um tanto esquisito, de Quermesses. A esse tempo, mercê da afeição que lhe consagrava, o coronel Rodolfo Abreu, o nome do poeta mineiro, começava a romper o silêncio que lhe reinara em sendo publicado versos seus no País, onde granjeou também as simpatias de Figueiredo Pimentel.

Motivos de ordem intima forçaram o velho Silva Lobo, progenitor de Artur, e um dos caracteres mais severamente austeros que tenho conhecido, a transferir residência para a capital da Bahia, para onde também foi o poeta, que, a esse tempo, unira o seu ao destino do jovem sabaraense. Naquela cidade, Artur aproveitou lazeres para tanger ainda a teorba e, reunidas em volume, esses seus versos receberam o nome de Evangelhos.

Regressos da Bahia, foram todos, se não laboro em engano, morar em Ribeirão Preto. No ano da revolta, em 1893, Artur Lobo, que desejava imensamente residir no Rio, localidade de sua predileção, passou uma temporada nessa cidade, contando com a nomeação de um cargo no Correio; por ocasião da reforma. Era eu então inspetor escolar, e quase diariamente estávamos juntos. Porque quiséssemos cavar uns cobres, combinamos escrever uma Mágica. Lemos vários capítulos da Ilíada, sonhamos uns mundos fantásticos a que não faltou o monstro de vigor, e escrevemos a Princesa Flor de Abril: a prosa era de nós ambos, os versos de Artur, uns versos suaves, cristalinos, musicais. Faltava apenas um “quadro” do terceiro ato, que me cabia escrever, quando Artur propôs-se a falar a respeito da nossa peça com um ator que, pareceu-lhe não nos seria infenso visto dever obséquios ao nosso poeta.

Ingênuo amigo! Contava com a gentileza do artista, quando, tão sabido é que gente do palco timbra, no mais das vezes, em se esquecer dos favores que nós jornalistas lhes fazemos. O ator, na importância da popularidade, recebeu o Artur como um ministro recebe um pobre diabo pretendente: de mau humor, e logo lhe cortou a palavra declarando que, para a peça ser representada, era preciso tivesse, como autor, um “nome de cartaz”. Nenhum de nós o tinha...

Sem desanimar, Artur mostrou o nosso trabalho ao ator Flávio Wandeck que o leu os senões que devíamos corrigir, as falhas que devíamos suprir e achou a mágica — muito representável.

Como seu irmão Alfredo, também Artur conhecia música, mas não para se abalançar a compor, e a peça, muito intercalada de canto, exigia o estro de musicista, que cheguei arranjar, mas logo com o pedido de certa quantia adiantada. Recuei do propósito.

Em setembro, rebenta a malsinada revolta. Deveres de família levaram-me a Minas; quando voltei, a capital era uma caserna infernal e Artur Lobo, tornara, creio-o, a Sabará. Daí a um ano ou mais, colaborava eu no grande diário paulista (O Município) e Artur Lobo, já em Uberaba, escrevia-me umas cartas de forte cunho indianista que publiquei na seção “Efêmeras”, a meu cargo. Artur, entendido em ourivesaria, metera-se a comerciar joias nas suas excursões, foi dar com os ossos em Barretos, onde encontrou, exilado do mundo, arredio do Parnaso, transformado em “leguleio”, o primoroso poeta Silvestre de Lima.

Despojado em 1897 do cargo que procurei honrar, tive que apelar magistério em Minas e, em junho, parti eu para Belo Horizonte, assumindo a direção da Capital, em cujas páginas dei publicidade a um trecho de capítulo do romance Um Escândalo, de feição realista, com personagens desenhados, à perfeição, tirados de Sabará.

Quando se inaugurou a capital, Artur, muito contrafeito na sobrecasaca, representou o País; e não houve meio de ele discursar. Vivia triste, metido consigo, aborrecido. Na noite seguinte, houve passeata; eu tanto fiz, tanto insisti, que Artur, em plena praça da Liberdade, disse, de improviso, uma oração que lhe valeu estrondosa salva de palmas.

Estreitava-se a nossa convivência, era eu assíduo na casa do velho Silva Lobo, palestrávamos muito; e, porque se tivesse exonerado do cargo de professor de português e literatura da Escola Normal, cargo que licitara em concurso, Artur, na capital, iniciava nova profissão: de procurador de partes.

Em 1898, convidei-o para colaborar no Belo Horizonte. Acedeu, e escreveu sob o título Caricaturas uns perfis, muito espirituosos dos figurões da época, assinados por Caran d’Ache. Em 1899, fundando o Diário de Minas, o Dr. Mendes Pimentel, que tinha em elevada cotação o talento do Artur, chamou-o para redator-secretário. Redigia ele a crônica da semana, a seção Impressões, estas últimas, com outros artigos que publicou em a Tribuna do Povo, de Uberaba, estão reunidos em um volume póstumo, Lazeres, sendo este o título da seção por ele mantida no hebdomadário uberabense.

Para o Diário escreveu o esplêndido romance Rosais, moldado pela escola simbolista, que, por intermédio do conhecido homem de letras Dr. Nelson de Senna, foi traduzido para uma revista chilena.

Rosais deu largo nome ao autor.

Comigo escreveu ele uma série de contos infantis que pretendíamos reunir em volume sob o título de Livro de Zezé. Artur começava a história, eu terminava: nossos estilos confundiam-se.

Com pronunciada inclinação para a política, tendo sido francamente silvianista, florianista intransigente, galardoado com o posto de tenente da Guarda Nacional, Artur, na segunda fase do Diário de Minas, de que foi redator-gerente a convite do Sr. Francisco Sales, definiu a sua posição de defensor situacionista. Ao deixar o cargo de gerente do Diário, foi nomeado para a prefeitura, tendo tido antes bem afreguesado escritório de procuratórios.

Para a companhia de Soares de Medeiros escreveu Artur numa revista, em três atos, O Gregório, música de Ramos de Lima. Foi isto em 1900. No ano seguinte, embora bastante enfermo, publicou o romance O Outro, interessante estudo do duplo eu, a revista teatral Volta do Gregório, representada pela companhia Silva Pinto.

A 25 de setembro desse ano (1901), expirava Artur Lobo contando trinta e dois anos, pois nascera a 9 de setembro de 1869, num arraial chamado Coração de Jesus do município de Montes Claros.

Seu pai exerceu o magistério primário na Bahia e no norte de Minas: foi ele quem ensinou os rudimentos de leitura e de música a Artur, que, adolescente, estudou humanidades no acreditado colégio dirigido pelo monsenhor Reis (Ateneu Fluminense), no Rio de Janeiro. Feitos os reparatórios para o curso de engenharia de minas, matriculou-se na Escola de Ouro Preto, mas não tardou que se reconhecesse sem inclinação para carreira de tão positivo estudo, incompatível com os devaneios de poeta, já lhe povoando o cérebro.

Parnasiano a princípio, simbolista depois, deixando-se influenciar pelo decadismo, Artur Lobo, no verso e na prosa, deixou bem nítidas as transformações porque passou o seu espírito que, como diz o clássico, cedo nele madrugou, como quem adivinhava não demoraria o anoitecer da existência.

Na história literária de Minas, como na história da sua imprensa, o nome de Artur Lobo ficou, e exemplifica a perseverança no trabalho, a fé ardentíssima na carreira das letras. Quanto deixou, e não quis o destino fosse muito, atesta bem alto o talento do mineiro nortista sempre afável e risonho, adverso as exigências da moda, imberbe quase, com sestro de pender ligeiramente a cabeça para um lado, acompanhando a frase com o gesto expressivo, voz clara, sonora, melancólica no tom grave. Quando ele morreu, os jornalistas belo-horizontinos propuseram que se lhe erguesse uma herma no Parque, perto das árvores de que tanto gostava, no seu afeto de Panteísta... Propuseram só...

Os mortos, nem mesmo deixando traços bem feridos da sua individualidade neste mundo, são menos esquecidos que os outros desaparecendo obscuros.

E, para que esta homenagem, sem o brilho que devera ter, relembre bem a figura do homem que Uberaba conheceu como professor, como jornalista, como funcionário forense, como político, como orador, levando-lhe, no momento em que o infortúnio o golpeou cruamente, o bálsamo de carinhosas consolações, — transcrevo uma das pequeninas cartas que, na sua letra larga, com os N N parecendo U U, Artur Lobo dirigia-me de Uberaba em 1896, mandando a poesia Morte de Ita.

Assim escrevia:

Meus sufrágios hoje se alevantam em prol da paz do teu espírito e são meus votos que, deleitoso e suave, se divise o fio de sua preciosíssima existência, oh operoso e infatigável apóstolo que evangelizas a Palavra Sagrada entre a profana multidão dos ímpios e dos incrédulos.

Deste silencioso e empampanado jirau donde meus olhos contemplam o mirabolante espetáculo da vida, tão imprevisto e singular como as composições fortuitas de um caleidoscópio, remeto-te a singela necrologia de Ita, o velho índio vitimado de marasmo senil, conforme atestou o pajé no registro civil cá da tribo, o qual, em razão dos hábitos do ofício, deixou de celebrar a morte daquele venerando e inobliterável ancião na toada épica e grandíloqua que merecia o infausto passamento de tão lourejado herói.

Reparei a falta, e reabilitei a memória daquele varão, compondo, às horas mais sugestivas da tristeza e da saudade, estas lacrimejantes estrofes que digerirás com aquela paciência e beatitude, tão peculiares aos apóstolos que doutrinam a hermenêutica da Palavra Sagrada à profana multidão dos ímpios e dos incrédulos.

Que os sacis não te persigam e Tupã se amerceie de ti.

Oca, lunação III.

Dixi.
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AZEVEDO JÚNIOR
Almanach Uberabense (1909)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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