domingo, 2 de junho de 2019

Lição proveitosa (Fábula), de Ana de Castro Osório


Lição proveitosa

Andavam, um dia, dois Frades franciscanos a pedir esmola, para obras na Igreja do seu Convento, que ameaçava ruína.

Batiam a todas as portas, e aceitavam tudo que lhes davam, muito ou pouco, de pobres ou ricos. Assim foram andando até que chegaram a uma grande casa, onde morava uma senhora viúva e muito rica. Como iam cansados sentaram-se um bocado antes de se anunciarem. Nisto ouviram dentro uma grande bulha, e perceberam que era a viúva ralhando com os criados por lhe faltar uma sardinha. Fazia tal alarido e estava tão zangada que os dois Frades olharam um para o outro sem saberem o que pensar. Dizia ela:

— Falta aqui uma sardinha! Vocês querem fazer-me pobre? Estão todos apostados em darem cabo do que eu tenho!...

E por aqui fora, uma ladainha, que ninguém a podia aturar.

Os dois Frades voltaram-se um para o outro, e o mais velho disse ao companheiro:

— Meu irmão, em vista do que estamos ouvindo, parece-me que nada temos que fazer aqui!

— É verdade, irmão, pois quem faz tamanho barulho por falta de uma sardinha, decerto nada nos dará para a nossa pobre Igreja! No entanto, parece-me que é da nossa obrigação fazermos o pedido.

— Não, não! (respondeu o mais velho). Pela esmola que nos negará semelhante avarenta, não vale a pena bater.

— Enfim... Eu estou por tudo. — Resolvido isto, levantaram-se os Frades para seguirem a jornada, já decididos a pedir nalguma pobre choupana albergue para a noite. Mas a viúva, chegando à janela, viu-os, e chamou-os logo.

— Então que é isto, meus Irmãos?! Assim vos ides embora sem bater à minha porta? Entrai, que sereis respeitados e agasalhados, quanto merece o vosso santo hábito.

Os Frades, bastante admirados, voltaram atrás, e entraram em casa da viúva. Ela mandou logo pôr a mesa e servir uma bela ceia; depois mandou fazer as camas e, despedindo-os, disse-lhes que fossem descansar, que no dia seguinte falariam. Os dois companheiros foram para o quarto, muito bem arranjado, que lhes fora destinado, não sabendo que pensar do que lhes acontecia.

No outro dia apareceu a viúva, cumprimentou-os com toda a delicadeza, mandou servir um lauto almoço, e depois perguntou:

— Então, meus Irmãos, qual é a causa  da vossa visita? Eu estou pronta a servi-los no que estiver na minha mão.

Os Frades olhavam um para o outro, e o mais velho, com bastante acanhamento, respondeu:

— Nós andamos a pedir esmola para se reconstruir a Igreja do nosso convento. A Ordem é muito pobre, e só por este meio poderemos obter dinheiro para fazer obra tão dispendiosa.

— Muito bem, muito bem (disse a viúva).

É uma boa obra, que estou pronta a secundar. Ora esperem os meus Irmãos que eu vou buscar alguma coisinha.

Foi dentro, e dali a instantes voltou com trinta moedas em ouro, que apresentou aos franciscanos. Tão admirados eles ficaram que nem se atreviam a pegar-lhes. Então perguntou a viúva:

— Que tendes, Irmãos, que não quereis o meu dinheiro? Muito desejo saber a razão desse espanto e o motivo porque se iam ontem embora, sem bater à minha porta. Os Frades, muito atrapalhados, não queriam dizer; mas, como ela insistia, o mais novo sempre se resolveu a contar que a tinham ouvido fazer tanto escarcéu por falta de uma sardinha, que nem se atreviam a bater para fazer o seu pedido.

— Essa agora, meus Irmãos! Essa não é de quem tem tanta sabedoria como vossas reverências! Se eu não poupasse uma sardinha não poderia juntar este dinheiro que lhes dou com tão boa vontade. Ora vão, meus Irmãos, vão à sua vida. E fiquem sabendo que, quem não arrecada o pouco, não tem o muito.


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Fonte:
Ana de Castro Osório: Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa (Editado a partir da edição da Bibliôtronica Portuguesa)

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