domingo, 2 de junho de 2019

Quem muito fala pouco acerta (Fábula), de Ana de Castro Osório


Quem muito fala pouco acerta

Na mesma aldeia moravam dois carvoeiros que eram compadres. Um deles tinha muita família, e era por isto mais pobre, pois os filhos pequeninos só comiam e não ganhavam. O outro que, além de ser só com a mulher, tinha alguma coisa de seu, vivia com desafogo.

O pobrezinho foi um dia apanhar lenha para fazer o seu carvão, mas era nos dias pequenos, e dali a um instante anoiteceu. Tendo receio de se perder no caminho, decidiu subir para um grande carvalho, resolvido a passar a noite naquele abrigo.

Deixou os molhos de lenha e o burrinho ali perto, em lugar abrigado, e foi empoleirar-se na árvore.

Lá pela noite adiante viu muitas luzes a saltarem e a correrem para o carvalho. Ficou a tremer, por se lembrar que eram as  feiticeiras que andavam no seu baile. Efetivamente as luzes transformaram-se logo em mulheres e fizeram roda com um burrinho no meio, cantando: — Sexta, sábado! Sexta, sábado!

O homem não pôde deixar de rir, ao ver aquele tão engraçado baile. E elas, que o ouviram, disseram-lhe que descesse, porque as havia de ajudar a dançar. Não teve outro remédio, apesar do susto. Desceu e pôs-se também a cantar: — Sexta, sábado! Sexta, sábado!

Quando vinha rompendo a manhã, disseram elas para o burrinho — que outro não era senão o demônio:

— Senhor, que se há de fazer a este homem que nos ajudou a dançar?

— Carreguem-lhe o seu burro de dinheiro.

E desapareceu tudo, de modo que o homem imaginou que tinha sonhado, mas, quando ia carregar o seu burro com os molhos de lenha, achou-o com a carga feita com ouro.

Veio para casa muito satisfeito e contou à mulher o que lhe tinha acontecido.

A mulher, também muito contente, destinou logo uma certa soma de dinheiro para vestir os filhos e comprar-lhes comida que os satisfizesse pela primeira vez na sua vida. Mas depois puseram-se a contar o dinheiro e acharam que era tanto que melhor seria medi-lo.

Como tinham sido sempre muito pobres, e nunca tinham tido nada que medir, não possuíam medidas.

— Quem tem uma boa medida é o nosso compadre (disse a mulher).

— Pois manda-lha pedir, que há de ficar bem admirado por ver que temos alguma coisa que necessita de medida.

Foi um dos pequenos a casa do outro carvoeiro, que na verdade ficou espantadíssimo com o pedido dos pobres compadres.

— Que será (dizia ele para a mulher)? Os nossos compadres não tinham para cada hora e agora já precisam medidas?!

— Pergunta-lho, pois se tu não sabes, como queres que eu saiba?

— Nada. Não quero que me tomem por invejoso. Hei de saber sem perguntar

Untou o fundo da medida com pez e entregou-a ao afilhado.

Os pobrezinhos mediram o dinheiro e depois mandaram o alqueire ao compadre, mas, como ele imaginara, alguma coisa vinha agarrada ao fundo. Era uma moeda de ouro.

O homenzinho, que era grande falador e grande curioso, ficou pasmado e não fazia senão dizer para a mulher:

— Não vês o dinheiro que têm, que é preciso ser medido aos alqueires?! Como lhes viria esta fortuna? Não descanso enquanto não souber. Vou lá fazer-lhes uma visita e logo mo dirão. — Bateu à porta e disse logo:

— Comadre, no fundo da medida ia pegada esta moeda. Venho dar-lhe os parabéns por o dinheiro ser tanto que só por medida se sabe. Agora a comadre há de dizer-me: como arranjaram tanto dinheiro?

Os dois contaram tudo o que sucedera, e o homem ficou doido por apanhar assim uma fortuna. Pediu ao compadre que lhe ensinasse o sítio onde encontrara as feiticeiras, porque também lá queria ir.

— Eu ensino (respondeu o outro), mas lá ficar não fico! Como escapei duma, não quero mais.

— O que quero é que me ensine, pois ficar fico eu só.

Foram; ele subiu para o carvalho, e o outro voltou para casa.

Alta noite vieram as feiticeiras e puseram-se a cantar como da primeira vez:

— Sexta, sábado! Sexta, sábado.

Mal as ouviu, começou a fazer bulha sobre a árvore. Elas viram-no, e mandaram-no descer para as ajudar no seu baile em volta do burrinho. Muito espertalhão, saltou logo e pôs-se a cantar com toda a força, pensando merecer mais do que fora dado ao compadre:

— Sexta, sábado, Domingo também, Burrinho no meio Como dança bem!

E até de manhã esfalfou-se a cantar e a dançar.

Chega a manhã e dizem as feiticeiras para o burrinho:

— Que se há de fazer a este homem que nos ajudou a dançar?

— Dar-lhe uma carga de pau, para não ser linguareiro e atrevido de nos vir falar no Domingo.

Mal isto foi dito, saltaram as feiticeiras  sobre o homem e deram-lhe uma sova mestra, até o deixarem moído como salada.

Como não voltou a casa no dia seguinte, a mulher muito aflita foi ter com o compadre e ambos o foram procurar à floresta. Encontraram-no meio morto. E com grande custo lhes contou o sucedido.

— Vês? (disse a mulher). É para perderes o costume de falares mais do que é preciso.

Não sei se a lição aproveitou ao homem, mas a verdade é que pela boca morre o peixe. O calado é o melhor; e quem muito fala pouco acerta.

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Fonte:
Ana de Castro Osório: Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa (Editado a partir da edição da Bibliôtronica Portuguesa)

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