quarta-feira, 12 de junho de 2019

Manhã Bendita (Conto), de Trindade Coelho



Manhã Bendita

(A Antônio Correia de Oliveira)

Em casa do José Grilo, quando de manhãzinha lhe bateram à porta – “Truz, truz, truz!” – acordaram todos sobressaltados: – “Quem demônio seria?!...”

– Schiu! Nem pio! – fez o José Grilo para a mulher. – Moita carrasco! Mas de fora tornaram a bater: – “truz, truz, truz!”

Do seu cubículo, a Ana, filha do José Grilo, pôs-se de lá a chamar pelo pai:
– Ó meu pai! Vossemecê não ouve bater?

– Bem ouço, deixa! Algum bruto que se quer divertir. Isto é Entrudo.

Mas ainda outra vez bateram à porta, agora com força.

– Arre, bruto! – gritou então o José Grilo. – Vá bater ao diabo que o leve, ou com a cabeça às grades do inferno! Arre, bruto!

Mas pondo-se à coca de orelha fita, os olhos na telha vã do casebre, sentiu passos de alguém que fugia.

– Bem digo eu! É bruto! Aquilo foi animal que se quis divertir!

Mas palavras não eram ditas, o José Grilo pôs-se outra vez à escuta, e disse para a mulher:

– Não ouves, ó Joana?...

– Não...

– Um cachorrinho... Mesmo à porta... – E como quem lhe palpita que acertou, emendou logo: – Tate! Isto é volta de zorro!

– Volta de quê?!

– De zorro! Queres tu apostar que há novidade?!

E de um pulo saltou da cama, atirou com a manta para cima das costas, – e abriu a porta.

– Ele que dianho?...! – perguntou o José Grilo vendo um embrulho. Era um embrulho de trapos.

–...Ele que demônio de embrulho?!...

Pegou-lhe. Não pesava nada. Mas era efetivamente um recém-nascido, envolto nuns trapos velhos.

– Ó mulher! – pôs-se o José Grilo logo a chamar. – Ó Ana! Mas ele próprio veio a correr onde à mulher:

– Deixa! Deixa! Abre aí um cantinho da cama, pra este inocente!

– Pra este quê?

– Pra este inocente! Está mesmo morto com frio!
  
– Uma criaturinha de Deus, vede!

E já o José Grilo a ajeitava na cama, envolta ainda nos seus trapinhos; e enquanto a mãe enfiava o saiote, bafejava a filha, muito solícita, a criancinha:

– Coitadinho! Parece mesmo um novelinho! Tão pequenino e tão bonito! – Ó minha mãe! Mas a mãe, silenciosa, acabava de se vestir, e o José Grilo já enfiava a jaqueta.

– Ouves?! – acudiu ele para a filha. – Despacha-te! Ele quem há por aí que tenha leite? A filha do Antônio das Veredas, essa. A Brites, que lhe morreu o cachopo! Acode já para que venha cá! Despacha-te!

– A pressa... – resmungou a Sra. Joana.

E o José Grilo, inda sem perceber:

– Nada! Deixa-se agora p’r’ aí a criança, a morrer de fome!

E da porta, gritando para a rapariga que ia correndo:

– Ouves?! Que se não demore! Que se lhe paga o que for preciso! Corre! Mas a mulher do José Grilo, a Sra. Joana, embezerrada já no meio da casa...

– Ó mulher! – espertou-a o marido. – Parece que algum medo te deu! Não tenhas aflições, que não vale a pena.

…Oh, mas parecia-lhe agora ter percebido: – “Aquilo eram zelos! Capaz era ela de estar com ciúmes!... Então espera...” – E desfechou-lhe para a arreliar:

– É tal qual como se fosse nosso, faz de conta!

– Nosso, é um modo de falar! Será do meu homem, mais de alguma desavergonhada como a ele!

E o José Grilo, na sua:

– Faz de conta que te nasceu a ti.

– A alguma “cadela”, mas é!

O José Grilo abotoava o colete. Fingiu um tom de ameaça e de repreensão:

– Ó mulher!...

E ela, no mesmo tom:

– Ó homem!...

– Tu não me rezingues, olha que me desgraças!...

(E reprimiu uma gargalhada).

– E tu não negues, que negas a Cristo! O meu homem é um “santinho”! O José Grilo, sério:

– Ajeita a criança, anda! Não fazes mais que é o teu dever. Uma caridade faz-se a um inimigo.

– Ajeita-o tu!

– Vai lá ver, que estará molhado! Agora, ela fitou-o, turbada...

O José Grilo entendeu recuar:

– Então! Não querem ver?! Capaz és tu...

– De dizer que é teu?! E digo, e digo, e digo!

– Ó mulher, ó mulher!...

E ela, na mesma:

– Ó homem, ó homem!...

– Ó mulher dos meus pecados!

– Anda cá ver que é um rapaz. Vem cá se queres ver. 

– Isso! Era só agora o que cá me faltava! Agora até os filhos das outras!

E berregando que lembrava uma cabra, a Sra. Joana rompeu a chorar, – jurando que o “filho” era do seu homem!

– Ai Jesus, que estou perdida!

– Ó mulher! – acudiu o José Grilo como se fosse a um fogo. Mas ela, desaustinada:

– Má hora em que m’eu casei! Má hora em que eu fui à igreja! Ai Jesus, que vai ser de mim!

– Mau, mau... mau, mau! – entrou o José Grilo de regougar também, nem ele sabia já se de zangado.

Mas firme como uma rocha, plantou-se agora diante da mulher:

– Pois assim me Deus salve... Ouves?! A mulher fitou-o de frente.

…Mas ele – fingindo que se arrependia:

– Nada.

– Não jura! O meu homem não jura! Àq’del-Rei que o “filho” é dele! Tornou o Grilo a recuar:

(... Demônio!...)

E outra vez diante da mulher, com os dedos em cruz chegados à boca:

– Pois juro que não é meu o rapaz!

– E beijas a cruz?!

– Olha!

– E assim te Deus dê saúde, ó José?!

– Assim me Deus dê saúde!

– Preto sejas tu como o teu chapéu?

– Preto seja eu como o meu chapéu!

Já a Sra. Joana corria para o canto da casa, onde tinha a arca do bragal. Abriu-a; e uma “Nossa Senhora do Caminho” que tinha na tampa, colada com bocadinhos de hóstia, cobriu-a de beijos com muita ânsia!

Desabafou, aliviada:

–...Ai!

O José Grilo pusera-se a rir: – “O demônio da mulher picada de ciúmes!...”

E agora, como espantado e muito ofendido:

– Mas ciúmes de quê, ó mulher?!... Ciúmes de quem?!... Não farás favor de me dizer?!...

A Sra. Joana já ajeitava o pequeno, encafuando-o muito debaixo da roupa:

– Isso! Agora vê se o abafas!

Caíra em si a Sra. Joana; – mas não queria, agora, dar de pronto o braço a torcer:

–...Bem sei!... O meu homem é um “santinho!”

– Lá pra “santinho” inda me falta... Mas como o outro que diz...

– Gaba-te, cesto!

– Não é “gaba-te!” – tornou o José Grilo, outra vez para arreliar a mulher. – Eu não me meto com elas!

– Olha quem!

–...Mas se elas vêm e se metem comigo...

– José... José...

– Joana... Joana!... Se m’eu casei, tu me perdeste... 

–...Mas se elas se metem comigo...

– Que tem?!

– Que tem?!... Não hão de dizer que não tens homem! O pequeno chorava mais.

– É fome, coitadinho! – disse a Sra. Joana. – E a Brites que se demora tanto!

E ela mesma acudia à porta, a ver se chegava a filha com algum recado, e atrás dela o José Grilo.

– Não queres ver?! – espantou-se ele para a mulher. – Aquela que vem é a Doroteia! E atirando-se para fora da porta, gritou para elas:

– Não és tu! É a tua irmã! Que diabo vens tu cá fazer?!

E pregou à filha dois bofetões, – “para que soubesse dar o recado”.

Mas a Doroteia acudiu: – “que a Ana não tinha culpa. A irmã é que a mandava a ela para levar a criança, porque a Brites, adoentada, fazia-lhe mal apanhar o relento”.

– Só se lhe queres tu dar de mamar! – inda insistiu o José Grilo para a Doroteia, irreverente pela sua virgindade.

– Ó José!... – repreendeu-o a mulher. – Essas coisas nem por graça...

– Eu sei lá se “nem por graça!” O que eu sei é que não veio a outra! E leva a criança e não leva, e chega e não chega daqui ao Varandas, capaz é a criança de me morrer de fome!

Já as mulheres pegavam no menino, – aconchegando-o com mil carinhos.

E o José Grilo, da porta:

– Então vem ou não vem?!

E quando depois chegaram as mulheres:

– Com jeitinho, hem?!...

…Parecia mesmo que levava o Santíssimo, a Doroteia, e que as outras duas, agasalhando-lho ainda no colo, rezavam o Bendito...

E quando abalou a filha do Varandas, dizia o José Grilo recolhendo-se:

– Seja tudo pelo amor de Deus! Seja de quem for, é uma alma cristã!

E a mulher e a filha, com os olhos rasos de lágrimas, – beijavam-se dando os bons-dias:

– Bons-dias, mãe.

– Bons-dias, filha.

E para o pai, reparando que ainda nessa manhã lhe não pedira a bênção:

– A sua bênção, pai.

– Deus te abençoe.

…No campanário, que o sol nascente doirava na aresta, – tocavam as ave-marias...


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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