Mostrando postagens com marcador Contistas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contistas. Mostrar todas as postagens

7/16/2019

Guadalajara (Memória), de Ronald de Carvalho



Guadalajara

Coberta ainda pelos nevoeiros pardos da manhã, Guadalajara, pintada de azul e branco, parece uma talavera. Dentre a cortina dos plátanos imóveis e dos eucaliptos parados no ar, sobem, cortando de chofre a claridade prateada e fina, as torres pontiagudas da catedral. Rompendo a penumbra das folhagens pulam, de trecho a trecho, as curvas macias das cúpulas forradas de azulejos. O espaço é uma inquietação de pedras que se arremessam tragicamente para o céu.

Essa madrugada colonial é uma lição permanente da história do novo mundo. O ambiente da América absorve, nas suas solidões verdes e ásperas, os vestígios do homem europeu. A paisagem índia contraria o desenho espanhol. A rendilha churrigueresca dilui-se na atmosfera virgem das arvores mexicanas. E, quando o sol tapatio, abrindo toda a sua luminosa corola, arde no firmamento, Guadalajara fagulha em tons violentos e agressivos. O zarape de Saltilho ou de Caxaca vence, nas suas geométricas coloridas, o misticismo castelhano. O índio levanta-se, mais uma vez, nesse primeiro minuto de aurora, para repelir o conquistador.


---
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O exemplo de Obregon (Memória), de Ronald de Carvalho



O exemplo de Obregon

"Desse tumulto, como onda que empolasse o dorso e, de improviso, avultasse sobre o referver das paixões partidárias, arrastando, no redemoinho impetuoso, o turbilhão das vagas menores e incontáveis, que se agitavam inutilmente, surgiu Obregon.

Obregon veio da terra, e a terra imprimiu-lhe o feitio dos temperamentos exaltados. Sua mocidade foi espontânea e rebelde, como a de todos os homens que nasceram sem compromissos. Já, montado no lombo nu dos cavalos, laçando o touro tresmalhado ou competindo com os mais adestrados ginetes de Sonora, já, de espingarda pronta, escondido entre a vegetação úmida e rasteira dos mangues tranquilos ou à sombra dos bosques espessos, para derribar as garças ou os gamos selvagens, ele viveu a adolescência de um herói.

Sempre em contato com o povo, Obregon apurou o caráter destemeroso nas livres trajetórias da natureza. Não foi pedir às Universidades os diplomas de sapiência graduada. Não foi buscar, nos salões oficiais, o prestigio dos favoritismos transitórios. Não mergulhou no sofisma livresco as claridades do espírito. Sua mestra exclusiva foi a observação diuturna dos seres e das coisas. Foi a vida, em suma.

A realidade que os seus vinte anos encontraram não podia ser mais dura. O país estava confiado, praticamente, a um círculo estreito de indivíduos que jogavam, desabridamente, com os seus destinos, impedindo o surto da consciência coletiva. O povo sem mestres e os campos sem amanho estavam entregues às mais solertes explorações. Sobre todas as tiranias, a pior, sem dúvida, era a do espírito. Dentro do México só havia uma opinião: a de Don Porfirio. A imprensa era porfírista, o exército era porfirista, o ensino era porfirista, o clero era porfirista, a sociedade era porfirista. No seio dessa unanimidade, as massas não tinham assento, nem para concordar. Contribuíam, apenas, para as estatísticas, como um valor econômico.

Obregon viu tudo isso, de perto. Ao contrário de muitos, porém, não se satisfez com um exame superficial do momento. Não se tornou descontente por ambição recalcada, senão pelo conhecimento direto dos fenômenos que analisava. Ele sentiu, desde logo, que a Revolução decorria da natureza das coisas, porquanto o país estava governado por homens que procuravam contrariar a sua verdadeira realidade étnica e histórica. A palavra famosa de Juarez sobre a intervenção francesa, confirmava-se mais uma vez, nos derradeiros tempos do porfirismo: "Ia paz interna es imposible cuando no hay respecto al derecho ajeno".

Refletindo os anseios da maioria, Obregon compreendeu a necessidade de dar ao governo mexicano feição nacional. Para não agravar o conflito entre o branco e o íncola, tão perturbador para a vida intima da pátria, ele percebeu que era imprescindível a participação direta do elemento autóctone nos negócios públicos. Inteligente e sagaz, o índio mexicano não se adapta facilmente aos postulados da civilização ocidental. Herdeiro de raças superiores, pôde exibir, à semelhança do egípcio ou do assírio, uma nobre tradição de cultura humana, mais vigorosa que a de qualquer civilização pré-colombiana.

Ora, pois, forçar onze milhões de indivíduos à observância dos usos e costumes de cinco milhões, descendentes dos conquistadores, seria prejudicar, talvez irremediavelmente, a marcha progressiva da nacionalidade. Equilibrar essas duas forças, a imaginação do índio e a vontade do branco seria, ao revés, realizar obra de lúcida política.

Os homens capazes de tal empresa não eram, certamente, os que apoiavam o Estado porfirista. Aos intelectuais extremes, como José Vasconcelos, e aos campesinos, como Álvaro Obregon, caberia a glória de preparar as massas para a defesa dos seus direitos. Quando a Revolução, com o baque da tirania, começou o ciclo das lutas intestinas, só as antigas classes dirigentes não quiseram entender a razão da nova lei. Chegando ao poder, pela armadura de  uma vontade inflexível, depois de sobrepujar o caudilhismo de Pancho y Vila, Obregon não desmentiu as suas origens nem falseou os princípios da Revolução, a exemplo de Carranza.

Seu primeiro cuidado foi o de nacionalizar o México. Abriu escolas, aparelhando-as com os mais aperfeiçoados sistemas pedagógicos, repartiu a terra, como na parábola evangélica, entre os humildes, tornou o subsolo patrimônio da nação e organizou os sindicatos operários e agrários. O México, por tantas décadas apartado da vida intelectual, reformou-se espiritualmente. A palavra das Universidades, das academias, das escolas secundárias e primarias veio ao encontro da multidão, e, das fileiras obscuras do proletariado, repontaram tipos dominantes.

Nem um chefe de Estado me impressionou tanto pela simplicidade, como esse que soube morrer na vanguarda do seu povo. Na noite em que ele me recebeu, o Castelo de Chapultepec, dentro do bosque milenar picado de luzes vivas, não parecia um palácio oficial, mas hospitaleiro solar de outras idades. Estadistas, poetas, guerreiros e artistas confundiam as vozes, naquelas salas espaçosas, em que pulsaram corações de imperadores e caudilhos. Pensei no Renascimento. E era o renascimento de uma raça aquele príncipe, distraído dos protocolos e dos títulos, que atingira a mais alta nobreza humana, pelo caráter, aquele príncipe, cuja singeleza não tentaria, talvez, a pena dos historiadores retóricos.

---
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Porfirio Diaz (Memória), de Ronald de Carvalho



Porfirio Diaz

A nacionalidade estava temperada. Faltava, porém, um reativo que desse consistência ao amálgama. Esse reativo foi o general Porfirio Diaz. Vencedor das tropas francesas, libertador do território, Diaz assumiu o governo como um chefe
militar ascende ao comando de um exército. Dirigiu a República, durante trinta anos, a toque de clarim. Volveu os cuidados da sua administração quase que exclusivamente para as obras materiais. Por esse lado, sua contribuição foi fecunda. O México articulou-se materialmente, ganhando logar de primazia entre as Repúblicas hispano-americanas. Enraizado nos preconceitos de uma pequena aristocracia, que o rodeava, Porfirio Diaz esqueceu-se do povo. O ditador deslumbrou-se com as servidões que o seu mando improvisava. E, apesar do luxo que irradiava da sua corte, dos tesouros que rolavam dos empréstimos para os cofres nacionais, continuava de pé, agravando-se, dia por dia, como nos albores da independência, o problema fundamental do México: a quase totalidade do povo não participava da fortuna pública. Segundo a Repartição Geral de Estatística do México, nas vésperas de ser deposto o general Diaz, apenas 9.000 indivíduos possuíam terras, numa população de cerca de 15 milhões de seres.

"A maioria dos fazendeiros, escreve um historiador mexicano, possuía propriedades de mais de sessenta milhões de hectares, tornando-se, portanto, impossível o seu cultivo completo e racional. Esses grandes senhores feudais não se preocupavam com as suas fazendas, deixando-as, em geral, entregues a capatazes fiéis, que lhes remetiam para Madrid, Paris, ou Londres, o produto das suas rendas.

"As terras desses latifundistas eram trabalhadas pelo sistema de "peonagem" O peão era o servo da gleba. Não se lhe permitia, via de regra, possuir terras, nem instrumentos de lavoura. Ele devia servir ao amo, trabalhando de sol a sol, mediante o preço de 15 a 25 centavos diários. Os artigos do seu sustento e vestimenta eram adquiridos no armazém da fazenda. Dado o seu estado miserável, muitas vezes não era pago em dinheiro. Seu irrisório salário obrigava-o, fatalmente, a contrair dívidas com o patrão, dividas que o escravizavam para toda a vida, transmitindo-se à sua descendência. Os filhos de pães insolváveis pertenciam à clientela dos senhores. Don Francisco Bulnes, insuspeitíssimo panegirista de Porfirio, escreve, a propósito, em "La Crisis Monetária", que, num país onde existia a escravidão um "bom negro" custava mil pesos, enquanto, no México, um "bom índio" custava apenas cem."

Dess'arte, não seria exagerado supor que, sob as calmarias da paz porfirista, lavrasse a revolução. É curioso verificar, todavia, um fenômeno sociológico bastante raro, quando se estudam os pródromos da reação contra o materialismo do general Diaz. Coube a um banqueiro, oriundo de família de milionários, a chefia do movimento de 1910. O idealismo de Francisco I. Madero vence, pela energia da sua fé, uma ditadura de trinta anos. Permanecera, não obstante, o fermento militarista. O lirismo político de Madero teria que sucumbir aos golpes do sabre de Vitoriano Huerta. O novo ditador não representava uma garantia para o país, que reclamava as grandes reformas eleitorais e agrárias. Os partidos exaltam-se. Carranza, Pancho y Vila, Zapata, uma chusma de caudilhos se levantam. A nação transforma-se, outra vez, numa praça de armas.

---
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Às duas heranças (Memória), de Ronald de Carvalho



Às duas heranças

"Eleita a independência, defrontaram-se duas forças: a do herdeiro branco e a do herdeiro índio. Cada qual representava caracteres que se repeliam. De Iturbide a Porfirio Diaz, por algumas dezenas de anos, o entrechoque produziu-se. Ensaia
ram-se todas as fôrmas de governo, perdendo o país, nessa longa batalha, para sempre, uma riquíssima porção do seu território, e, durante algum tempo, a própria autonomia, quando o convulsionou o drama aventuroso de Maximiliano.

Nessas jornadas sem termo, empenhado num combate permanente, o mexicano lavrou as suas terras com a enxada na mão e a carabina a tiracolo. O inimigo estava em toda a parte. Irrompia das fronteiras do norte e dos litorais atlânticos. Apoderava-se das cidades, acampava na capital. Mas a guerra prosseguia nos "pueblos" do interior, nos sertões calcinados, nas canhadas e nos cerros agrestes. Cada homem era uma espada. Tudo se convertia em arma de defesa. De uma prisioneira velha, ouviu um oficial francês, do exército de ocupação, esta replica imortal: "Sou mãe de três soldados e quatro soldadas que saberão vingar-me. Nunca morremos sós."

---
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O México e a revolução (História), de Ronald de Carvalho



O México e a revolução

A história do México reflete as inquietações dessa alma instável e ambiciosa.  Antes da conquista, maias e astecas se disputavam cidades e campos, deuses e riquezas. Como na Itália medieval, um entranhado localismo caracterizava a organização política dos diferentes povos mexicanos. Em Tenochtitlan, em Mitla, em Palenque, em Uxmal, em Cnichén-Itzá, uma aristocracia de artistas levantou cidades, construiu templos e palácios de granito lavrado, casamatas, pirâmides e fortins, desviou o curso dos rios, rasgou canais e abriu, nas terras áridas, imensos lagos artificiais.

Nos bosques de Chapultepec os imperadores astecas, à laia dos cortesões toscanos, ofereciam aos seus hospedes bailados e poemas, assentando-os em mesas cobertas de baixelas de ouro e de prata. Não lhes era estranha a ciência dos pactos, a diplomacia das alianças, os ardis dos tratados bélicos.

Cortez foi recebido em Tenochtilán como aluado da dinastia. Se os príncipes indígenas não dessem fé à palavra do espanhol, dificilmente conseguiria o descobridor encontrar, nas cordilheiras, o caminho de acesso para conduzir aos altiplanos os ginetes de Castela. Vale apontar esta coincidência: Cortez chegou ao México para tomar parte numa revolução. Muito dura seria a sua peleja se, nesse momento, os astecas não estivessem a pique de travar luta com o inimigo e, sobretudo, se não traísse ele desabusadamente os seus compromissos.

Durante os séculos da colonização, o espanhol não pôde subjugar o indígena. Excetuada uma elite de fidalgos feudais, possuidora de quase todo o patrimônio nacional, a massa da população vegetava sob o regime das "encomiendas", despojada inteiramente das suas fortunas e tradições. Seu instinto de liberdade, embora amortecido, continuava latente. Estaria reservado ao clero humilde, que fora, até então, o educador vigilante das inteligências, um eminente papel na história da independência mexicana. Foram dois padres os primeiros homens que reclamaram a soberania para a sua pátria. Amotinando os índios da aldeia de Dolores, em Guanajuato, D. Miguel de Hidalgo, gravou na consciência dos seus concidadãos o episódio de 15 de setembro de 1810. Proclamando a independência, em 1818, D. José Maria Morelos ditou a primeira constituição mexicana. Foi a destemerosa propaganda desses sacerdotes, fuzilados pelas tropas coloniais, que determinou o movimento vitorioso de Guerrero e Iturbide, em 1821.

Ao revés do que sucedeu no Brasil no vice-reinado do Prata e no vice-reinado do Peru, onde se formou, rapidamente, uma classe média de pequenos proprietários, favorecidos pela agricultura e pela mineração, no México existia apenas uma casta de senhores de latifúndios enormes, sem o menor contato com o povo. Constituiu-se a nação sobre a base de uma despropositada desigualdade de fortuna. Acresce, ainda, a circunstância importante de que era também considerável o desequilíbrio dos componentes étnicos. Na "Nova Espanha" o caldeamento se operou em escala mínima, se o compararmos com os dos outros Estados Americanos. O melting-pot não chegou para o advento de uma sub-raça, em cujas veias se harmonizariam os sangues do europeu e do íncola.


---
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O Deserto e o Homem (Artigo), de Ronald de Carvalho



O Deserto e o Homem
(Artigo)

A medida que o vosso olhar for devassando essas planícies, vereis que o deserto vive, que toda aquela aparência de solitude é uma ilusão. Transposto o cabeço de uma duna mais elevada, súbito surgirá, ante o vosso espanto, um rude pastor, de largo chapéu descaído sobre a fronte, com um sarape vermelho, verde e azul pendente do ombro. E onde as árvores não brotam, não correm águas, nem se emplumam aves, está o mexicano, com a sua coragem, a sua resignação e o seu heroísmo espontâneo.

Filho do deserto, em que as suas tribos erraram séculos, o mexicano aprendeu, desde cedo, a estratégia da posse pela violência. Caber-lhe-ia, sem favor, o título de romano da América. A grandeza do México assenta na conquista e numa compreensão de urbanismo tão alta como nunca a tiveram os outros povos do nosso continente. O império asteca é um modelo de sabedoria política. O "status" do cidadão mexicano, os segredos da sua organização administrativa, a riqueza da sua estrutura intelectual fascinaram o invasor hispânico.

Nas "Cartas de Relación", firmadas por Cortez, a vaidade ingênita do europeu mal esconde o deslumbramento do conquistador que, para estabelecer a traça de paralelos condignos, vai buscar sempre, no país natal, os mais honrosos pontos de referência. Aqui, ante a fisionomia grave de uma cidade nomeia Sevilha ou Córdoba, ali, em face de um monumento severo, lembra o atilamento dos engenheiros de César.

O povo mexicano foi marcado nobremente pelo destino. Deu-lhe a natureza um leito áspero de granito, um sonoro berço de pedras, um oceano ondeante de montanhas, picos e grimpas, onde só poderia fixar-se uma espécie enérgica, tenaz e voluntariosa. Ao longo das suas praias refervem as marinhas salgadas, na asa dos ciclones periódicos; à sombra das suas florestas, no claro espelho dos seus planaltos rola, de repente, a cachoeira, das lavas fumegantes; nas entranhas do seu subsolo ardem as pedrarias e os minérios raros.

A raça, ao madrugar, recebeu a mais bela das lições: a lição de que a vida é uma disciplina perigosa. E o asteca de ontem, a exemplo do mexicano de agora, são os descendentes rudes dessa disciplina. Eles aprenderam, destemerosamente, que a existência não comporta gestos inúteis. No braço firme, que se levanta, eles vêm hoje, como antes, uma força calculada, necessária, que não deve perder-se, na mão, que brande a espada ou empunha o martelo, um harmonioso schema da energia universal.

Mexicano exprime sobriedade, resistência de animo, amor de raiz à liberdade, imaginação viril. Cruzando-se com o castelhano voluptuoso, não perderam os povos autóctones as qualidades intrínsecas. Sob as múltiplas influencias do colonizador solerte, debaixo dos punhais e dos mosquetes da soldadesca ibérica, palpitava a mesma alma dos antepassados austeros, que animara os guerreiros de Montezuma e os artistas de Chalco, Teotilhuacan e Tetzcoco. Lentamente, porém, as duas tradições se fundiram, a que viera com os espanhóis, ressoante de vozes latinas e árabes, e a que nascera no golfo luminoso das Antilhas e às margens das lagunas de Xochimilco, produzindo uma soma de fatores poderosos.

Mercê desse caldeamento, refinou o índio puro as qualidades nativas de energia. Ao primeiro relance, contudo, julgá-lo-eis incapaz do menor atrevimento. Enxuto de carnes, desproporcionado de membros, meão de altura, a cabeça achatada por desmedida braquicefalia, o rosto de zigomas salientes, iluminado por um olhar que se retrai sob as pálpebras espessas, de pestanas breves, nada revela, no mexicano, a força recalcada, e silenciosa da sua alma profunda. É um bronze rígido, cuja aparência fria e impenetrável desconcerta.

O sangue impetuoso do andaluz eloquente foi absorvido pelo metal patinado da estátua. O gesto esquivo, a palavra rápida, o riso sem alegria, quebram, às vezes, em repentinas descargas, as linhas serenas, que logo se harmonizam nos relevos da máscara.

Defrontá-lo nos atalhos serranos, cortados de agudas pedras, bamboleando o corpo ágil na garupa de jumentos peludos, à testa de longos rebanhos de bodes e cabras monteses, é um puro prazer. Tudo é decorativo, nesses espetáculos, em que os sentidos se amalgamam num diapasão de coloridos primários. Chapeirões cônicos de abas encurvadas, botões polidos, facas mergulhadas em bainhas compridas, botas altas, esporas de rodízios luzentes, toda a sua indumentária é um brilho de clarões vivos ou furtivos de couros brunidos e cobres límpidos. Chocalham campanas no pescoço dos animais, que saltam e cabriolam em pulos céleres, e o ar todo se arrepia ao contato do fogo amarelo e rubro, que irradia dos ponchos franjados.

O mexicano se desforra da melancolia, vestindo-se de luz. Seu misticismo, como o dos velhos povos orientais, é solar. Sente-se, nesse pendor do índio, como ele está perto dos elementos cósmicos, das "popoteras" inflamáveis, da monotonia dos planaltos. Sua melancolia provém do irrefreável sentimento da liberdade que não pôde atingir-se, daquele sentimento de liberdade a que o homem chega somente pelo mais alto misticismo estético ou religioso, ou pela maior amplitude de ação. Eis por que o mexicano possui o instinto do guerreiro, do santo e do artista. É Cuauhtémoc, Inês de la Cruz ou Diego Rivera. Sua alma é uma perene fuga para essa realidade transcendente, em que o ser se confunde com o Universo.


---
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

A lição do deserto (Memória), de Ronald de Carvalho


A lição do deserto
(Gravuras do México)

Q
uem penetra o território mexicano, pela fronteira do Rio Grande, recebe o choque de um contraste fulminante. Para atrás, ficam os vales estrelados de papoulas silvestres, os campos de cultura, os canais de irrigação, os "cottages", os bangalôs e as aldeias norte-americanas, cortadas como tabuleiros de xadrez, onde os cowboys passeiam a sua arrogância de peões elegantes. Para atrás, as doçuras de uma vida fácil e amável, risos de "babies" louros, de olhos ingênuos, rumores de granjas alegres, fitas retas de estradas macias, torres de armazéns de petróleo, casarões coloniais, de gosto espanhol, em cujas muralhas cresce a hera dos castelos ingleses. Para atrás, a fartura, a economia, o bom senso medíocre das contas em ordem, a filosofia tranquila dos livros de razão.

Em frente, desdobrando-se numa tapeçaria de mica, num mar de cintilações secas, ponteadas de brilhos duros e imóveis, estende-se, por todos os quadrantes o deserto primitivo. Nem um relevo humano mancha a pagina virgem da criação. Sobre a ondulação dos cômoros desolados, onde as palmeiras nanicas equilibram perfis de pernaltas em repouso, despeja-se o azul carrancudo do céu. O vento morno, que percorre os areais movediços, não traz às papilas ávidas uma gota sequer de umidade. Nem um filete d'água pôde resistir à sucção da terra, onde as gramíneas se retorcem à feição de cordas finas e esturricadas. Se quiserdes escavar um poço artesiano, encontrareis com mais facilidade uma bolsa de petróleo.

A essa trágica solidão fugiram os pássaros de voo curto. Por vezes, entretanto, paira uma sombra no ar. Tão alto a divisais, que a julgaríeis nuvem pequena de borrasca. Observareis, todavia, certa regularidade no seu movimento. A sombra que, assim, vai riscando um demorado círculo no espaço, não é a de um cirro, mas a de uma águia. É a da águia asteca, dominando o deserto.



---
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Entre Nova-York e Laredo (Memória), de Ronald de Carvalho


Entre Nova-York e Laredo
(Estados Unidos)

A ventanilha do "Observer-Car" vai absorvendo   devolvendo, em quadros instantâneos, as terras americanas. A velocidade multiplica os espetáculos, condensa as paisagens, transforma campos, vilas, e cidades em schemas dinâmicos.

Os rebanhos de touros e carneiros projetam-se sobre as arvores, colam-se às casas rústicas das granjas, desaparecem, entre bandejas de verdura, e tornam a voltar, pendurados em montículos ou esparramados em manchas pardas sobre os vales.

De vez em vez, a cúpula de um capitólio provinciano sucede aos largos mantos d'água do Missouri.

Por toda a parte, a lição da igualdade.  O "standard" arquitetônico reproduzindo o "standard" ético e social. Tudo disposto para o verão: chapéus, galhos de arvoredo, varandas de roças, trajes masculinos, vestes femininas.

Os Estados da União diferem, entre si, apenas pelos nomes.

O andar do camponês, preciso, retilíneo, seguro de si mesmo, assemelha-se ao do corretor de Wal-Street, ao do operário de Petersburgo, ao do político de Washington. Acompanhando as vacas e os bois, o agricultor americano não segue os animais com aquele instinto amoroso do pastor europeu, mas com a decisiva energia de um jogador de Bolsa. A massa viva do gado converte-se, no seu olhar duro e ávido, em operação comercial, em títulos, em cifras.

Mireio não nasceria aqui. O lirismo da terra não se infiltrou nessas almas algébricas.

Ao meu lado, na poltrona do Pullman, um senador do Arkansas procura explicar-me a geografia do seu país. Observo que só a dimensão o seduz. Tudo se traduz, no seu espírito, em pesos e medidas. Seu cérebro registra estatísticas. Ele não vê o pinheiro, vê os pinhais, não escuta a sinfonia mas enumera os instrumentos que a executam. Não o ouço mais. Suas palavras confundem-se com os sons dos aços que trepidam, incorporam-se aos ruídos metálicos do trem.

Retomo o fio do meu pensamento.

A raiz da civilização norte-americana entranha-se num desesperado urbanismo.  Os campos industrializam-se, à espera das futuras cidades, que virão, mais tarde ou mais cedo, lastrar sobre aquelas ervas, que se agitam ao vento morno de julho.

No alto do seu cavalo, o "cowboy" já tem o aspecto do policeman.

O mais humilde cultivador ó um pequeno Babbitt recalcado, que sonha com um rádio, um Ford e um banheiro de azulejos. As multidões brancas dos Estados Unidos caminham sempre em direção à cidade.

Por isso, as criações do branco são um fenômeno de justaposição. As complexas correntes migratórias aglutinam-se à feição dos bancos de coral. Produzem uma vegetação rica, mas disparatada, onde permanece, indestrutível, a constante europeia. Suas expressões mais características renovam o modelo primitivo. O Woolworth Building é gótico. O Capitólio é greco-romano. As colunas de Chicago ou de São Francisco têm cem metros ou mais de altura. Mas a quantidade não esconde a qualidade. Ao contrário. Diminui. Com má vontade, poderíamos dizer que a enormidade norte-americana é uma diminuição involuntária da Europa. O fenômeno, entretanto, não é esse. O yankismo é uma adaptação, em planos desmesurados, da técnica europeia. É uma grandeza material, de caráter provisório. Uma grandeza que busca as suas proporções. O espírito ainda não lhe insuflou vida própria.

Os Estados Unidos atravessam uma fase de civilização com andaimes. Todo o esforço da sua cultura está, justamente, em poder retirá-los, quando a obra de criação verdadeira estiver concluída.

---

Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)
Imagem: "Sanguínea de Antônio Carneiro"

Síntese de Nova York (Memória), de Ronald de Carvalho


Síntese de Nova York
(Estados Unidos)

D
entro do enorme "shake", instalado na torre de madeira, a mecânica misturou cimento, vidro, pedra britada, aço, ferro, betume e asfalto.

Giro de rodas. Rumor de bilhas pesadas, escorrendo óleo grosso.

Ranger de correntes.

Saltos de êmbolos.

Pulos de luzes tontas, disparando de puas elétricas.

Posse da matéria pela máquina.

Ginástica de cubos. Acrobacia de sólidos.

Nova York, vertical, plantada sem raízes no granito insensível, ergueu-se do chão entre vagidos longos de metais.

Cidade que não foi embalada pela voz do homem.

Jogo da razão geométrica.

Invenção do cálculo.

Equação urbana.

Lá longe, escondida no vale do Arno, uma pobre aldeia toscana, toda iluminada de sol, lança a flecha da sua igreja para o céu

---

Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Filosofia do arranha-céu (Conto), de Ronald de Carvalho



Filosofia do arranha-céu
(Estados Unidos)

O arranha-céu não é apenas um milagre da mecânica. É, antes do mais, um índice sociológico, uma representação de valores políticos. Ao revés do templo ou do castelo senhoril, cuja construção estava subordinada às necessidades de um ente superior, que fazia sentir, por toda a parte, o influxo do seu poder exclusivo, o arranha-céu é uma pequena comuna, onde todos quantos ele abriga estão sujeitos a uma só lei de igualdade civil. Essa igualdade liberta o indivíduo das hierarquias e aumenta-lhe o senso da responsabilidade em face dos seus semelhantes.

A galeria dos espelhos, em Versalhes, é a moldura de um Rei. Móveis, tapeçarias, cristais e gentis-homens eram, ali, efêmeros acessórios da majestade real. Constituíam simples acidentes, onde se refrangiam os raios do Rei-Sol. Puras massas de paisagem para o jogo de um Príncipe.

A nave de Catres, os largos espaços das basílicas romanas criaram-se para o esplendor da ideia de Deus.

A lógica da catedral e do palácio inspira-se numa disciplina abstrata: no respeito ao Homem-Deus e ao Homem-Senhor.

A lógica do arranha-céu inspira-se no sentimento da comunhão, nas leis da economia, que repelem quaisquer resíduos decorativos, e nas leis do direito público, que reduzem as relações sociais a um pacto de igualdade.

O arranha-céu é filho da Revolução. Seu primeiro arquiteto foi o Emílio, de Rousseau.

---
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Port of Spain (Conto), de Ronald de Carvalho



Port of Spain

CAPÍTULO 1

Horace Page, filho primogênito do Sr. governador da Trinidad, aproveita o domingo para jogar golfe com as duas irmãs miss Dorothy e miss Catherine, e com a amiga de suas irmãs, miss Mary Homer, filha de mr. G. T. Homer, armador de Southampton.

Os olhos azuis dos quatro ingleses louros se embebem no campo verde, e sugam as claridades matinais da paisagem com a gula ingênua das mansas pupilas saxônicas.

Saltam gafanhotos, em pulos curtos e indecisos, batendo nas botas de couro cru.

O mato chia debaixo do sol, que encera e cresta as ervas gordas do chão.

Zumbem insetos na folhagem.

Os gramados vaporam cheiros ácidos. Estalam gomos de bambu.


CAPÍTULO 2

Na casa do Sr. governador, com a sua varanda coberta de trepadeiras preguiçosas e o seu aroma de chá bem fervido, cai do mastro pintado de branco a bandeira de sua majestade.

Tudo está no seu logar.

As arvores estão atentas!

Mangueiras imóveis.

Bananeiras imóveis.

Mamoeiros imóveis.

Palmeiras imóveis.

A paisagem é uma parada.

A natureza espera o sr. governador para se mexer.

Sentido!

O Sr. governador entra no seu cabriolé de verniz amarelo, abre o chapéu  de sol encarnado e mete no bolso os "Salmos de David", em papel de arroz, edição de Oxford.

Cercas de campos, troncos e pedras tudo se perfila!


CAPÍTULO 3

Só os molequinhos caraíbas, atolados, até os joelhos, nos mangues manchados de caranguejos azuis, ignoram a disciplina britânica.

O cabriolé de verniz amarelo do Sr. governador da ilha de Trinidad pôde passar à vontade.

Nem por isso os molequinhos caraíbas deixam de parecer pequeninos bronzes indiscretos, de onde jorram, de quando em quando, fios e fios de ouro em fusão.

Ouro que os ingleses desprezam.

Ouro que o sr. governador não apura nos seus relatórios ao governo de sua majestade.

Ouro que os molequinhos caraibas esbanjam, indifferentes às leis de economia e aos provérbios judeus do sr. governador geral da ilha de Trinidad.


CAPÍTULO 4
OU DA MORALIDADE

Miss Dorothy, miss Catherine e miss Mary Homer pensam que os molequinhos caraíbas são imorais.

Mr. Horace Page é como o seu pai: não pensa nada.


---

Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Sesta (Conto), de Ronald de Carvalho


 Sesta

Mademoiselle Blanche Durand é sobrinha do mais rico perfumista da rua Bonaparte, na Ilha de Nossa Senhora de Guadalupe. Seu "bangalô" tem uma varanda que dá para o mar.

No "bangalô" de mademoiselle Durand há uma vitrola de Broadway, uma mesinha redonda de pés torcidos, onde estão os caramujos mandados por suas primas da ilha de Maria-Galante, uma flauta para as digestões de mr. Durand e uma estante para os romances de Delly. Mademoiselle Durand, da sua rede, entre as mangueiras e os castanheiros, olha, de quando em quando, para o grande portão de madeira do fundo do jardim.

Mademoiselle Durand espera o correio de Paris.

Calor!

Misturam-se, na folhagem morna, azuis de araras, amarelos de tucanos.

Silêncio... silêncio...

Dentro da rede clara, mademoiselle Durand é toda a sesta lasciva das Antilhas.

Mademoiselle Durand mostra, no estojo das gengivas roxas, os dentinhos pontudos como pontinhos de luz.

Sonha com as modas de Paris.

A rede não se mexe

E a sua mãozinha chata, pendente de um montão de rendas, parece a cabeça de uma cobra negra, espiando a sombra quieta dos coqueiros sobre o chão.
---

Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)