quarta-feira, 5 de junho de 2019

O amor ofendido e vingado (Conto histórico)

 O amor ofendido e vingado


A violação da fé conjugal tem sempre arrastado em seu séquito as mais grandes desgraças. Não se pode lançar os olhos sobre a história, sem que se ache disto mil exemplos funestos. Os Galos Bélgicos nos oferecem um, capaz de fazer impressão sobre os corações, que não forem inteiramente privados do sentimento da virtude.

No ano de 1539 vivia em uma terra considerável entre Gand, e Curtrai, a Condessa de Leerven, viúva, e possuidora de bens imensos. Ela não tinha mais do que uma filha chamada Adriana, a qual a uma grande beleza ajuntava muito de engraçada. A natureza a tinha dotado de muito boas qualidades, que uma má educação tinha corrompido. Seu caráter, ainda que dócil no seu fundo, era firme; ordinariamente transportado; e algumas vezes extremo. Acostumada a não ser contradita, nada a podia desviar dos projetos, que uma vez tinha concebido: a Condessa sua mãe, que a idolatrava, a deixava absolutamente Senhora de suas vontades.

Um tão grande partido foi logo procurado por muitas pessoas. Entre o grande número de seus adoradores, o Barão de Vierkove teve a felicidade de agradar a Adriana. Ele era de uma figura encantadora, e feita para o amor; sua alma sensível, e terna, não pôde resistir aos atrativos de Adriana; e como ele devia bem pouco temer seus rivais, não tardou em ser feliz. O partido era conveniente; por ser ele também o herdeiro de sua casa. A Condessa aplaudiu a escolha de sua filha, e estes felizes amantes foram unidos com magnificência, e grande contentamento de suas respectivas famílias.

Nunca união alguma deu sinais de ser mais constante. Havia pouco mais ou menos um ano que eles viviam nesta feliz, e rara inteligência, quando perderão a Condessa de Leerven.

Depois de lhe terem feito os últimos deveres, eles foram a Gand, para distraírem a sua dor. Naquele tempo o Imperador Carlos V vem a Flandres para apaziguar as perturbações, que ali se tinham levantado por ocasião das novas taxas, que ele tinha imposto; e ficou algum tempo nesta Cidade, onde fez severamente castigar os amotinadores.

O Barão, que tinha a honra de ser particularmente conhecido deste Príncipe, foi fazer-lhe sua Corte: ele foi de todos os prazeres deste Soberano, e mesmo algumas vezes fazia partida com ele. Não havia algum concerto, que o Imperador não fizesse executar por músicos italianos, que trazia consigo. Safira, célebre Cantarina, tinha tanto de espírito como de talento: ainda moça, divertida, e espirituosa, bem depressa se apercebeu da impressão, que sua voz, e seus encantos tinham feito sobre o terno Nierkove; ele esquece-se de suas protestações à terna Adriana; ele se abandona à sua nova paixão, e só vivia para Safira. Ele corre a sua casa, lança-se a seus pés, pinta-lhe seu ardor em termos os mais persuasivos, enche-a de seus donativos: enfim, ouro, diamantes, festas, tudo foi prodigalizado. Duvida-se bem qual dos dois foi o mais feliz. Quando se reúnem os talentos, a figura, a fortuna, e o nascimento, pode-se porventura achar mulheres cruéis, principalmente no estado de Safira?

O Barão só se ocupava de sua felicidade (se dela se pode gostar, quando imprudentemente se faz desgraçada uma Esposa digna da mais viva ternura): tal é a desordem do coração humano, quando ele se entrega a seus desejos, e quando a razão o abandona.

A triste Adriana não pôde conceber em seu Esposo uma mudança tão repentina: ela estava muito bem persuadida de sua infidelidade: as liberalidades do Barão já se tinham notado, e a sua familiaridade com Safira era pública a toda a Corte. A desafortunada Baronesa deixou ao tempo o cuidado de fazer tornar a si este infiel: ela se persuadia que aquilo mesmo que lhe tinha roubado seu esposo, poderia da mesma sorte restituir-lho. Além disto ela sabia que o único meio de reganhar um inconstante, era mostrar-se ignorante de sua perfídia, servindo-se somente de paciência, e de doçura. As repreensões irritam; o silêncio nos condena, e nos faz entrar em nós mesmos.

Ela tomou pois este partido; e escreveu ao Barão dizendo-lhe, que se ele tinha negócios na Corte, ela partia à sua Pátria a tratar de seus interesses; e que lá esperava notícias suas. Sem lembrança de resposta, ela partiu logo, penetrada de dor, e desesperação. Ela adorava o Barão: sua inconstância a penetrou sensivelmente. O retiro em que ela vivia, longe de extinguir seu amor, lhe deu pelo contrário novas forças. Somente corações sensíveis, que tem experimentado a mesma sorte que Adriana, podem julgar da grandeza de seus males.

O Barão, sempre encantado de sua querida Safira, parecia ter-se inteiramente esquecido de Adriana: ele sobre isto nada falava a seus amigos; e ninguém da mesma sorte se atrevia a falar-lhe: ele mesmo nunca mais lhe escreveu. Sempre ocupado de sua amante, não a deixava um só momento. Ele a retirou da comitiva do Imperador, que tinha partido para Espanha. Ele lhe procurou uma casa toda abundante; e prazeres sempre novos preveniam continuadamente os desejos da galante Safira, ambos no meio das delícias julgavam perpétua a sua felicidade!

As pessoas de honra começaram a murmurar: ainda não era costume, e principalmente em Flandres, ver-se o escândalo sem desassossego. Quanto estes tempos se tem mudado! Presentemente se faz consistir nisto mesmo a fidelidade; ninguém se envergonha de tratar como respeitáveis estas uniões criminosas quando elas são duráveis: o crime aplaudido goza hoje das vantagens da virtude. A vida pública de Nierkove, e de Safira indispunha o povo; e disto mesmo eles foram informados. O Barão para evitar tudo isto, resoluto a ir estabelecer-se em Veneza, desfez-se de seus contratos, e de suas terras, para fazer transportáveis todos os seus bens. Adriana, que não ignorava o menor passo de seu marido, não pôde resistir a este último golpe. Transportada, de furor...

Ingrato, exclama ela, é este o fruto do amor que em mim tens experimentado. A perda de teus bens não é o que me aflige: liberaliza-os à tua indigna, e vil Safira, porém restitui-me o teu coração. Torna a mim querido, e cruel esposo; meu amor te perdoa... Mas, que digo? O infiel vai partir... Pode ser que ele se aparte de mim para sempre!... Não, perjuro!... tu não me escaparás, eu saberei punir-te minha vingança fará tremer, servindo de exemplo àqueles, que como tu, desprezam a ternura de uma esposa desafortunada... Eu tenho procurado todos os meios de te recuperar; o tempo, meu silêncio, minhas lágrimas, minha desesperação, não tem podido abrandar-te... A morte só é... Que digo eu? Ai de mim!... Sim, sim, cruel, a morte só vai unir-vos.

Adriana escreveu logo a uma de suas amigas, e lhe pediu em um escrito separado que só abrisse sua carta, passados oito dias; porque ela continha cousas de ultima importância, que se deviam ignorar até este tempo... Ela fez logo por grades em todas as janelas de seu aposento, e pregar nas portas fechaduras ocultas, cujo segredo só ela conhecia. No mesmo tempo dispôs tudo de sorte que pudesse prosperar o terrível projeto, que tinha meditado. Quanto é para temer uma mulher justamente irritada! A desesperação ocupa toda a sua alma; a vingança a mais terrível lhe parece suave; as maiores extremidades meios ordinários; e sua própria fraqueza parece dar-lhe todas as forças.

Tudo assim disposto, ela finge uma doença mortal: de uma mão tremula ela escreve a seu esposo: Eu morro, e vos perdoo. Eu não vos imputo a minha morte, e rogo ao céu que vos inspire o arrependimento. Vós recebereis todos os meus bens da mão de um amigo comum, que deles será o depositário. Eu não choro a vida; porque nem tenho filhos, nem esposo, ai de mim! que me pertençam. Poucas horas tenho já de vida; ao menos concedei-me a graça de vos tornar a ver a última vez. Vivei feliz, eu morro, e vos adoro.

O desgraçado Barão caiu no laço, que era difícil evitar-se. Ele se persuadiu que não devia honradamente deixar de ver sua mulher morrendo: este passo lhe pareceu inocente, e a lembrança do depósito lhe facilitava o meditado projeto de fugir com Safira. O interesse teve muito mais poder sobre seu coração do que o amor. Safira, que não podia suspeitar a desgraça de seu amante, o persuadiu a que desse esta última consolação à Baronesa espirando. Ele parte, e em poucos momentos ele chega à sua terra. A tristeza, que ele vê espalhada entre toda a família, moveu sua piedade. Um negro pressentimento se apodera de seu coração, e sem poder dar conta de seu transporte, ele entra tremendo na Câmara de sua esposa. As gentes, que à vinda inesperada de Nierkove, tinham ordem de se retirar, os deixam sós. A furiosa Adriana fecha logo todas as portas. De repente, com os olhos errantes, ela se levanta, e vai a seu gabinete por fogo, (sem que seu marido disto se aperceba) a algumas matérias combustíveis, que ela tinha preparado; e logo torna, e se lança repentinamente sobre seu leito. O Barão aterrado quer chamar socorro, persuadindo-se que era isto efeito de transporte: porém qual foi seu espanto quando ele viu de repente toda a casa em fogo. Treme, perjuro, exclama Adriana, e reconhece uma esposa ultrajada: já que tu não tens podido viver comigo, ingrato, ao menos poderás morrer. A violência da chama, que vai a consumir-te, não igualará jamais os fogos, que me tem abrasado por ti... A estas palavras o fumo lhe tira a respiração: o Barão sobressaltado debalde procura salvar-se. Bem depressa a chama sai pelas janelas: correm a socorrê-los; arrombam-se as portas; porém já é tarde: estes esposos se acham prostrados, e já meios consumidos.

Os progressos deste incêndio foram tão rápidos, que em pouco tempo todo o edifício foi reduzido a cinzas. A notícia chegou logo a Gand: assentou-se que este fogo tinha sido efeito da casualidade; porém a carta que Adriana tinha escrito à Viscondessa Copens, sua amiga, revelou este horrível mistério. Ela queria sem dúvida deixar à posteridade um tremendo exemplo da vingança de uma mulher desesperada, e uma imagem terrível do castigo de um Esposo perjuro, e querido.

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Auto desconhecido (1818)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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