terça-feira, 4 de junho de 2019

A guitarra do Braz (Conto), de Conde de Arnoso


A guitarra do Braz

À noite, mal a sineta da fábrica dava o sinal de levantar o trabalho, o Braz enfiava à pressa, por cima da blusa azul muito luzidia do uso, a jaqueta de pano, pegava no chapéu e a correr, embrulhando nas mãos um cigarro, ia encostar-se ao parapeito da ponte de Alcântara à espera da Gertrudes, que à mesma hora despegava do trabalho na fábrica de tecidos em Santo Amaro. Os vadios do sítio, os trabalhadores, os marujos, que ao escurecer se juntavam ali, já o conheciam, e, apenas o viam desembocar na rua da Cruz, diziam uns para os outros, com ar de troça:

– Lá vem o gajo, e a gaja é que não tarda uma loja de barbeiro!

Efetivamente a Gertrudes era sempre das primeiras a passar as portas. Ao sair da fábrica separava-se das companheiras, que aos grupos, rindo e conversando, se demoravam pelo caminho. O Braz apenas a avistava embrulhada no seu xale de lã, saía-lhe ao encontro e ao seu lado, muito preso da luz dos seus olhos meigos, da sua voz que lhe saía arrastada da boca pequenina, acompanhava-a invariavelmente, todas as noites, até à rua das Trinas, onde a Gertrudes o despedia pretextando – que o pai já estava em casa, que era muito desconfiado, que nunca mais a deixaria voltar só da fábrica, se os visse juntos. O Braz apertava-lhe as mãos e deixava-se ficar até que ela desaparecia lá em cima, na esquina a rua. E voltava triste para casa, repetindo as palavras que lhe ouvira.

Ela morava numa casa térrea ao lado da fábrica de estamparia. Teria então os seus vinte anos, e todas as suas recordações se prendiam àquela casa onde vivia desde criança com a avó, uma santa mulher que lhe queria como às meninas dos seus próprios olhos! Dos pais nada sabia, só se lembrava vaga e confusamente d‘uma cena terrível de lágrimas numa desordem de policias, de gritos, de apitos e de soldados da municipal. Um domingo, já depois de homem, tentou arrancar à avó essa história que ele pressentia se ligava com o desaparecimento dos pais. Era uma tarde de dezembro. De quando em quando a chuva caía em grossas bátegas lavando as pedras da calçada, escoando-se pelas valetas. A intervalos aparecia o sol, um sol de inverno baixo e frio mas muito claro que enchia de brilho as gotas, que compassadamente continuavam a cair dos beirais dos telhados. Com os raios do sol o canário animava-se dobrando o canto, e saltava contente de poleiro para poleiro na sua gaiola de arame, suspensa da verga da única e estreita janela de peitoril que alumiava toda a casa. Sentados à banca depois de jantar, o Braz olhava pela porta aberta para a água que corria nas valetas e recordava-se com saudade do tempo em que, garoto ainda, muito pequeno, antes de entrar para a fábrica, se divertia improvisando barcos das folhas secas das árvores, e os seguia, metido na enxurrada, até se sumirem pelas bocas esboroadas das sarjetas! A avó, do outro lado da estreita mesa, com os cotovelos fincados sobre a toalha, lavada daquele dia, com a cara rugosa apoiada entre as mãos enregeladas, se desviava os olhos do neto era para os fixar na estampa da Virgem, pregada com quatro taxas na parede fronteira e que de lá lhe sorria acenando com o menino Jesus amoravelmente seguro contra o seio! Tinha feito do seu Braz um homem. Era feliz. E essa alegria disfarçava a sua velhice com um véu de mocidade. Como na rua passasse um pequeno chorando com o fato molhado muito unido ao corpo e tolhido de frio chamasse pelo pai, pela mãe, numa voz tremelicante cortada pelos soluços, o Braz, apiedando-se da desprotegida criança, exclamou:

– Coitado!

E em seguida encarando a avó, acrescentou:

– Nunca me falou dos meus pais. Ande, madrinha diga-me tudo; no fim de contas não sou um enjeitado.

A pobre velha empalideceu como se lhe tivessem dado uma facada. Quis falar e não pôde; apertara-se-lhe um nó na garganta. Estendeu os braços lançando-os ao pescoço do neto, e, com a cabeça pendida sobre o próprio ombro, chorou por largo tempo num grande desafogo. O Braz aflito ameigava-a; quando a viu mais sossegada, como se realmente tivesse ouvido toda a história, perguntou baixo como quem se arreceia da resposta:

– Então foi o pai quem teve a culpa?

– Sim, foi teu pai; a mãe não o quis deixar. Lá foram ambos...

O Braz, mudando de tom e de conversa, satisfeito esforçava-se por fazer esquecer à madrinha o que tanto a atormentava. Sentia-se aliviado. Tendo vivido sempre no aconchego das saias da avó, sem a convivência dum homem e trabalhando na fábrica ao lado de mulheres, repugnava-lhe ao seu coração que fosse a sua própria mãe quem tivesse arrastado a desgraça àquela casa. Como fora o pai, a coisa era outra. Só as mulheres eram boas. A avó era uma santa, a Gertrudes um anjo. E esta maneira de pensar explicava o seu caráter. Impressionável mas irresoluto, tímido e passivo, deixava-se levar como uma criança. Assim se alguma vez se atrevia a insistir com a namorada para a acompanhar a casa, depressa se convencia com qualquer desculpa, a ponto de não saber mesmo a rua onde ela morava. Por isso nos dias santos não a via. Deixava-se ficar por casa a pensar no seu amor. A avó, que ignorava a paixão do neto, ralhava-lhe por ele não sair:

– És mesmo um bicho de mato!

E sem compreender que com os seus sustos de mulher infeliz, as suas pieguices era ela a causa inconsciente da vida que o Braz fazia, acrescentava:

– Não que nem sequer tens um amigo.

O Braz não replicava, deixava-a dizer.

Nessas ocasiões tinha desejos de falar na Gertrudes; mas não se atrevia.

Havia meses que durava este namoro. Uma noite, porém, ela não apareceu. As companheiras passaram aos magotes pelas portas de Alcântara alegres e contentes, animando o sítio. O Braz, com os olhos esgazeados, procurava em vão a Gertrudes. Pouco a pouco tudo aquilo foi caindo numa grande solidão. De longe a longe parava um americano. O condutor gritava – Alcântara. Um ou outro passageiro apeava-se. Em cima, nas companhias da municipal e no quartel dos marinheiros, as cornetas tocavam melancolicamente a silencio; somente nos cafés de Alcântara saíam em notas estridentes os compassos de velhas valsas tocadas em pianos desafinados. O Braz, fora de si, fez naquela noite, umas poucas de vezes, o caminho desde as portas até à rua das Trinas. Só tarde é que entrou em casa. A avó esperava-o. Pela primeira vez teve para ela um movimento rude. Ao outro dia foi com repugnância para o trabalho ansioso pela noite para esperar a namorada no pouso do costume. Tão infeliz como na véspera, decidiu ir na manhã seguinte à fábrica de Santo Amaro indagar das companheiras o que era feito da sua Gertrudes. Era à hora do descanso. Os garotos corriam na rua brincando uns com os outros; os homens conversavam às portas das tavernas onde estavam afreguesados; as mulheres, aos grupos, sentadas ao longo do passeio fronteiro à fábrica, aqueciam-se ao sol. Nos degraus das Flamengas o Braz viu a Inês, uma rapariga com quem a Gertrudes tinha ido um domingo à festa de Santo Amaro, aproximou-se dela e perguntou-lhe:

– Então a Gertrudes está doente?

– Doente? Isso sim! Na terça-feira ao despedir-se de nós, da Rita e da Joana, disse-nos: Adeus raparigas, vou ter tudo quanto me falta; nunca mais voltarei à fábrica, sejam felizes. Perguntamos-lhe se ia casar. – Sim, vou casar... e desatou a rir deitando a fugir ali pela ponte nova, que até parecia que levava o diabo no corpo.

O Braz sentia fugir-lhe a vista e pálido encostou-se à parede.

– Está a caçoar! Ela era lá capaz de fazer tal.

– Tão verdade como eu estar aqui; assim Deus me ajude.

– O pai rebenta-a, contestou o Braz.

– Pai! Ora bem embaçado, pai foi coisa que nunca teve. Chegue daqui à rua do Machadinho, vá à carvoaria e lá lhe dirão quem mora defronte.

Nisto a sineta principiou a badalar, e o largo portão da fábrica escancarou-se para dar passagem a toda aquela gente. O Braz, mordendo os beiços, procurava represar as lágrimas que lhe umedeciam os olhos. A Inês pegando nos restos do seu almoço, embrulhados num lenço, disse-lhe:

– Adeus, Sr. Braz! Olhe que não vale a pena!

E, juntando-se às companheiras, apontou do portão para ele, que se deixara ficar sem saber o que havia de fazer, como um idiota, a chorar!

***

A Ignez falara verdade; a Gertrudes havia muito que não podia aturar o Braz. A sua natureza viva e esperta não compreendia os longos silêncios apaixonados do namorado. Enganava-o e agora... tinha desaparecido. Ele andava perdido como doido. Ao princípio continuou a ir à fábrica, mas já não era o mesmo operário amigo de trabalhar. Tudo lhe repugnava até mesmo a companhia da avo. Caíra numa tristeza sombria, carrancuda e desesperante, que o levava a evitar tudo o que antes lhe era prazer e alegria. Fugia de casa para andar como um vadio encostado pelas esquinas. A avó sentia despedaçar-se-lhe o coração ao ver o seu neto tão diferente do que era! Mas, como lhe queria muito, nem sequer se atrevia a fazer-lhe uma pergunta com medo de o exasperar.

– Se eu fosse cega, diria que mo tinham trocado! – pensava a infeliz à noite deitada na cama, de ouvido à escuta, sem se mexer, a fingir que dormia, à espera do seu Braz! Ele recolhia tarde, e, as mais das vezes, já nem ia à fábrica. A figura da Gertrudes fina, esbelta e graciosa

perseguia-o, aparecia-lhe constantemente desenhada na sua fantasia, boa e simples idealizada pela paixão! Tinha alucinações. Como se a tivesse diante de si, estendia os braços para a matar apertando-a contra o peito; mas ela fugia-lhe, e via-a então sumir-se lá ao longe, rindo às gargalhadas, como no dia em que se despedira das companheiras!

Começou a beber e no vinho afogava a sua dor. Com um grão na asa era uma risota, a alegria das tavernas. Ligou-se com um faia, e numa noite em que o cartaxo lhe caiu na tristeza, contou-lhe a triste história dos seus amores.

– Homessa! Queres a rapariga? Anda comigo. Manda ao diabo a fábrica, apanha o bago que houver lá por casa, que eu por esta... – e fez uma cruz com os dedos que chegou à boca, desviando para o lado, num movimento rápido de língua, a ponta do cigarro – te juro que em três dias a havemos de encontrar.

O Braz deu um pulo de contente, pediu mais vinho e bebericando combinaram que naquela mesma madrugada principiariam a bater Lisboa. Como a taverna fechou às onze horas da noite, passaram para o café ao lado. O faia excitava-o com as histórias do bairro alto, do arco do Bandeira e do marquês de Alegrete. Aquilo ali, em Alcântara, era nada, comparado com tudo isso que ele conhecia a palmos. O dono do café viu-se parvo para por fora os seus tardios fregueses. às duas da noite lá saíram depois de muito empurrados. O Braz levou o amigo até à ponte. Sentaram-se na soleira das grades da estátua de São João.

Era dali, – e apontava para o lado – que eu esperava todas as noites a Gertrudes! E como se deixasse enternecer, o outro enfurecido gritou-lhe:

– Olé! Lá maricas é que me não serves. Se és um homem bem vai a cantiga. Anda, despacha-te.

É ir buscar o bago, que eu aqui te espero. Se não voltas, Amanhã te ensinarei; e de pé, diante dele, dando um piparote no chapéu, fazendo uma escovinha, fez com a mão direita o gesto convincente de quem espeta uma navalha.

– Está dito; se me demorar é que a avó está acordada.

– Não tem duvida; daqui não arredo sem ti.

À medida que o Braz se ia aproximando de casa, dissipavam-se-lhe os vapores da excitação alcoólica; caía em si.

Quando chegou à porta, abriu-a mansamente. Ao cerrá-la, pareceu-lhe que a avó se mexera na cama, voltou-se, e imóvel, suspendendo a respiração, certificou-se que se enganara. Havia em volta de si um silencio completo. Quis caminhar direito à gaveta da banca, onde sabia que estavam guardadas as economias de quinze anos de trabalho; mas, maquinalmente, entrou na sua alcova, que um simples tabique separava da avó. Vestido como estava estendeu-se sobre a cama. Tinha medo. Medo do respirar sereno e sossegado daquela pobre velha que tanto o estremecia! Não, decididamente não faria o que tinha prometido. Iria acordar a madrinha; desabafaria com ela; voltaria à fábrica. Que importava a Gertrudes? Mas, a este nome, acudiu-lhe a promessa que o outro lhe fizera de a tornar a ver. Levantou-se, e cautelosamente, foi direito à banca. Com um puxão seco arrombou a gaveta, e do pé de meia, dissimulado a um canto, tirou uma mancheia de libras. De vagar, como tinha entrado, saiu de casa. Todavia os passos do neto acordaram a avó, que dum pulo saltou abaixo da cama, cobrindo-se apressadamente com a saia, que lhe servia de cobertor, e da porta, que o Braz deixara aberta, reconheceu-o à claridade indecisa da manhã, que vinha rompendo, ainda a correr, olhando para trás como um ladrão!

Ansiada, tentou chamá-lo. Não pôde. As pernas fraquejaram-lhe, soltou um gemido e caiu redonda no chão, para trás, estatelada como morta. Quando voltou a si chorava amargamente e na gaiola de arame, suspensa da verga da janela, o canário repenicava a sua cantiga favorita, saudando alegremente a madrugada!

***

Decorreram três anos. Durante esse tempo não houve miséria que a avó do Braz não sofresse. No meio de todas as suas desgraças só uma esperança a amparava. É que ele, mais dia, menos dia havia de voltar. Rogava a Deus que lhe desse forças para viver até então. Perdoar-lhe-ia e morreria contente, tendo-o a seu lado para lhe fechar os olhos! E nesta esperança que uma fé profunda alimentava, aturava todos os trabalhos calando os sofrimentos da sua penosa existência. Como o Braz não tinha levado todo o dinheiro, os primeiros meses de abandono passaram sem maiores privações. No dia porém em que ela teve de trocar a última moeda de prata, pareceu-lhe que o balcão da tenda, sobre o qual o caixeiro experimentou o toque dos cinco tostões, era o único obstáculo que a impedia de cair num buraco muito fundo, que se abria diante dos seus olhos! Velha como estava difícil lhe foi encontrar trabalho. Ao cabo de muito tempo, depois de muito procurar, de ter empenhado um a um os tarecos da casa, conservando apenas do tudo quanto antes possuía, a cama do seu Braz e a enxerga em que ela agora dormia sobre o chão; depois de ter passado fome, uma caridosa família, mais por dó, ajustou-a aos dias. Como lhe davam de comer, o pouco dinheiro que ganhava chegava-lhe à justa para pagar a renda da casa. Ela bem sabia que lhe não seria difícil encontrar uma outra mais pequena, mais barata e até mais perto das senhoras que servia; mas era tal o apego que tinha à casa onde sempre vivera com o seu neto, que mesmo agora, nua como estava, despida de todos os trastes, que eram outras tantas recordações de dias bem mais felizes, lhe era uma consolação viver entre aquelas paredes, testemunhas consoladoras desse tempo, que um pressentimento muito intimo lhe segredava se havia de repetir ainda! E com os raros cabelos já de todo brancos, cansada de trabalhos com que mal podia, magra, tão magra que a pele encarquilhada mais parecia encobrir um esqueleto que vestir um corpo vivo, se se não deixava morrer sossegadamente assim como quem adormece ao cabo dum dia de longa fadiga, era que essa esperança nem sequer um instante a abandonava!

No entretanto o Braz, dominado pelo faia, que o levara a roubar a avó, sem nunca desesperar de encontrar a Gertrudes, foi-se pouco a pouco habituando à vida desregrada dos fadistas com que convivia. Aprendera a tocar guitarra tornando-se completo no gênero, e o seu nome depressa ganhou celebridade no bairro alto, a ponto de nas tavernas e nos cafés baratos se discutir apaixonadamente se era ele se o Calcinhas que melhor tocava o fado corrido. Nas esperas de touros, à noite, no Campo Pequeno, iluminado pelas luzes das lanternas das tipoias, que num giro intermitente lhe davam o aspeto duma campina enorme, coberta de pirilampos, era sempre em volta dele que se reunia a mais fina sociedade. E era dali que os rapazes do Chiado o levavam para as suas ceias de estroinas.

Cantava muito bem, e tinha como poucos, o dom de improvisar. Os seus fados, sempre tristes, ajustavam-se numa grande harmonia com o soluçar dolorido da sua guitarra. Quando tocava chegava mesmo a esquecer a Gertrudes, ou antes afigurava-se-lhe que saciava a sua paixão, e, cerrando os olhos, cuidava vê-la, ao seu lado, embebida na sua alma que lhe saía em versos, as mais das vezes errados! Era a guitarra que o consolava de todas as suas penas. Se se lembrava da avó, da vida tranquila que passara ao seu lado, agarrava na guitarra e principiava a cantar. Às vezes, perseguido pelo remorso, tinha vontade de ir ter com a madrinha, ou pelo menos ir até Alcântara, procurar saber o que seria feito dela; mas acovardava-se com medo das lágrimas da velha, e demais sentia que já não tinha forças de abandonar a vida aventurosa em que se lançara. Aquilo também havia de durar pouco, andava adoentado e sorria-lhe a ideia de morrer um dia, de repente, no meio da fadistagem! Pouco a pouco, desprezando todas as doenças que contraíra, foi caindo num grande abatimento. Emagrecera muito e sentia nas pernas uma invencível fraqueza. Escondia dos companheiros o seu estado, e, para os acompanhar, fazia esforços terríveis.

Uma noite de grande fado no Dáfundo, quando se quis levantar da cadeira onde toda a noite estivera a tocar, não pôde; era como se lhe pesasse sobre os joelhos o peso de cem arrobas. Para o meterem na tipoia que o trouxe para Lisboa, foi preciso pegarem-lhe ao colo. No dia seguinte levaram-n’o para o hospital. Atacado por uma paraplegia, saiu de lá ao fim de três meses numa cadeira de rodas, que com o produto duma subscrição os companheiros lhe compraram. Durante todo o tempo que esteve no hospital pensava muito na madrinha; e um dia em que o João, o toureiro, o foi visitar, pediu-lhe para ir saber novas dela. À proporção que se julgava perdido, renasciam no seu coração todos os afetos carinhosos pela avó. Recomendou-lhe que, se porventura falasse com ela, lhe não dissesse o estado em que se achava; mas que a prevenisse que, dentro em breve, voltaria a ir viver para junto dela, de onde nunca devia ter saído! acrescentava com os olhos de doente languidos e umedecidos! Quando o medico lhe anunciou que lhe ia dar alta, mandou chamar o João.

– À manhã saiu daqui; quero ir direito para casa da avó. Levas-me?

– Decidido.

– Entrouxa a roupa que eu tiver no quarto do Caretas, e manda-ma hoje mesmo para Alcântara.

A guitarra traz-ma. Apenas chegue à rua quero ver se ainda sei tocar. A caminhada é comprida; mais que a um moco de cego preciso de te distrair. Irei a tocar por essa baixa fora!

– Dentro em pouco estarás fino; a tua doença agora é o hospital. Fora daqui, verás como as pernas te principiam a dançar.

***

A avó esperava ansiosamente o neto. O João, ao anunciar-lhe a sua vinda, escondera-lhe a gravidade da doença.

– Uma fraqueza nas pernas, que há de passar; é questão de dias.

Também que lhe importava a ela; ia vê-lo, e isso era o essencial; não andava – melhor! Nunca mais lhe fugiria!

Quando porém ele entrou, sentado na cadeira de rodas, impelida pelo toureiro, transfigurado pela doença, pálido, com a cara coberta de pústulas, um bigodinho petulantemente levantado dos lados; o cabelo muito rareado, todo puxado para diante, aparecendo por debaixo do chapéu inclinado para o lado, de aba direita e muito larga com a copa muito baixa; a quinzena muito esticada e curta; as calças apertadas abrindo em baixo em boca de sino; abraçado à sua guitarra, a avó sentiu um baque no coração. – Como ele mudara! Nem parecia o mesmo. – Diante do toureiro conteve-se; mas, apenas ele saiu, caiu de joelhos em frente da cadeira de rodas, e agarrando-se às mãos do neto principiou a fazer-lhe mil perguntas sem nem sequer dar tempo a ouvir uma resposta. O Braz sossegava-a – que nunca mais voltaria a abandoná-la. E, informado do novo modo de vida que a madrinha agora levava, acrescentou:

– Enquanto me não curo, aqui estarei metido. Depois também hei de trabalhar.

– Ficas tão só! Eu passo todos os dias fora, em casa das minhas benfeitoras.

– Tenho a minha guitarra; cantarei ao desafio com o canário.

– O canário?... – e a velha apontou, olhando com tristeza para a gaiola de arame, ainda suspensa da verga da janela, mas que uma enorme teia de aranha, muito suja de poeira envolvia agora assim como um fumo de luto com que a tivessem coberto!

***

Nas visitas que o toureiro fazia ao Braz, fácil lhe foi conhecer que não era a abundancia e a fartura o que mais havia naquela casa. Arranjou então que ele fosse às noites tocar para uma taverna da rua de Alexandre Herculano, para servir de chamariz aos fregueses. O taverneiro fornecia-lhe em paga o almoço e o jantar de cada dia. Ao princípio era a própria avó quem, ao recolher do trabalho, o conduzia até lá. Curvada, já meio trôpega, tinha de parar de quando em quando para vencer as desigualdades da calçada, para evitar os solavancos, impelindo a cadeira de rodas docemente, como se levasse diante de si um carrinho com uma criança adormecida! O Braz afligia-se, sentindo atrás de si a respiração ofegante da avó; conhecia o horror que ela tinha à  taverna, o sacrifício que fazia em ser ela própria quem lá o levava; mas que fazer, se a taverna era agora o seu ganha pão! Felizmente o taverneiro, descobrindo na guitarra do Braz uma verdadeira mina para a sua casa, acabou por o mandar buscar todas as noites por um garoto que o servia. A doença se não progredia também não dava esperanças de cura. Todavia o Braz de cada vez tocava melhor; dir-se-ia que toda a força, todo o movimento que a paralisia lhe roubara, se lhe concentrara nos braços e nas mãos. Comprimia e feria as cordas da sua querida guitarra com tal força e justeza, que as notas saltavam-lhe dos dedos vibrantes de nitidez. As horas passadas na taverna alegravam-n’o, sem contudo conseguirem roubar ao seu canto a feição melancólica que lhe era predominante. Quando a taverna regurgitava de fregueses, e se armava uma desordem, o taverneiro, pela banda de trás do balcão, fazia um sinal ao Braz para apaziguar a baralha. Então, acompanhando-se na guitarra, o Braz levantava a sua voz dolente; e, pouco a pouco, como por encanto, ao burburinho tumultuoso de muitas vozes falando a um tempo, sucedia o silencio de quem escuta. Em volta dele fazia-se um circulo que os mais afastados procuravam romper para melhor o ouvir. Serenada a tempestade, calava o canto; e, com a cabeça pendida sobre o braço da guitarra, executava ainda durante alguns minutos variações duma grande dificuldade sobre o mesmo acompanhamento. Uma noite em que ele, muito rodeado, cantava a glosa do seu fado favorito:

Ainda depois de enterrado
Debaixo do frio chão,
Teu nome escrito acharás
No meu terno coração.

dando a cada verso a expressão da mais infinda tristeza, entrou na taverna uma mulher calçada com botas novas, de biqueiras de polimento, pespontadas a branco, com tacões muito altos, arrastando a comprida cauda dum vestido esfarrapado, com um lenço de seda amarelo, já muito desbotado, na cabeça, um xale preto, de velho merino, traçado por debaixo do braço, deixando a descoberto o seio, mal resguardado pela camisa. Dirigiu-se ao balcão, e, batendo fortemente com a mão espalmada, pediu dois decilitros, que bebeu dum só trago. O Braz em voz gemente, acabava a última décima:

..............................
Porque a morte, nem o fado
Riscam teu nome gravado
No meu terno coração!

quando os seus olhos, marejados pela comoção que sempre sentia ao repetir aquele fado, se encontraram com os dessa mulher que o fitava indiferente.

Angustiado, abafou com ambas as mãos as vibrações das cordas, fez um esforço enorme para se levantar da cadeira a que a doença o prendia; e, impotente, soltou um grito dilacerante, ao mesmo tempo que fazia voar em estilhas a guitarra, quebrando-a de encontro ao braço da sua cadeira de rodas!

Levantou-se em toda a taverna um grande clamor. O taverneiro, vendo o Braz meio desfalecido, desviou os fregueses:

– Arrumem-se homens; deixem-no respirar. Isto foi coisa que lhe deu. E chegava-lhe ao nariz uma botija de vinagre.

E ela, a Gertrudes, sem reconhecer no fadista estropiado o seu namorado de outro tempo, teve apenas esta exclamação:

– Olha o raio do homem que deu cabo da sanfona!

E saiu insensível, tomando pela borda do canteiro, em cujas águas se refletia a sua imagem, repetindo numa toada alegre os versos que lhe tinham ficado:

Porque a morte, nem o fado
Riscam teu nome gravado
No meu terno coração!

A lua enchia de claridade o vale, recortando lá em cima, no cume da montanha, os jazigos e os ciprestes dos Prazeres. Do fundo lodoso do canteiro, prateado àquela hora, subiam vapores fétidos, pestilentes, nauseabundos, como se realmente as águas do rio, em lugar de contornar lá ao longe a montanha coroada pelo cemitério, tivessem as suas nascentes ali, na decomposição dos cadáveres duma cidade inteira!


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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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