sábado, 8 de junho de 2019

O artista Eça de Queirós (Ensaio)



O artista Eça de Queirós

Este foi um artista que completou dignamente o ciclo da sua rotação. Passou pelas revoltas acesas do demolidor, feriu os melindres da pátria, menoscabou-lhe as crenças, achincalhou-lhe as tradições, numa esfuziante saraivada de sarcasmo e desdém, e quando sentiu a vida declinar-lhe, interrompeu a obra admirável de panfletário e construiu essa torre de bronze, onde encastelou a velha alma lusa, tal qual ela se nos apresenta, com as suas grandezas e as suas imperfeições — A Ilustre Casa de Ramires.

Esta obra lapidar não foi recebida com grande agrado pelos que se tinham habituado ao Eça irreverente e blasfemador de A Relíquia e de O Primo Basílio; entretanto, ela, por si só, salva e redime toda a longa opressão da sua ironia cruel, derramada por muitos livros destruidores, em que foi vergastado o velho Portugal, pela sua impotência, pela decadência da sua grandeza e pela sua ruína política, econômica e social. Eça, como artista, foi muito coerente, desde o seu primeiro instante de escritor. A arte não tem pátria nem fronteiras. Os motivos que ele encontrou para formar a sua obra eram tristes e medíocres; ele os engrandeceu com a sua fecundidade intelectual, iluminou-os com a sua poderosa verve de meridional; e os seus livros puderam assim representar a sua nação e o seu tempo, numa espantosa caricatura. Nem se lhe neguem, por isso, predicados de patriota. Ele o terá sido a seu modo; mas acima desta preocupação pôs a verdade da sua análise e a interpretação das suas sensações. Viajando por países estrangeiros, comparou e observou; da comparação e da observação vieram-lhe as severidades de juízo e a contundência de análise.

Ele faz a tragédia do Primo Basílio, o drama de Os Maias e a comédia grotesca de A Relíquia com a mesma ironia vergastante de analista enfastiado da época e do meio que lhe coube representar e de modo a situar-se superiormente a uma e outro, o que é um característico do gênio.

Não trouxe para a arte novos processos, não foi chefe de escola, não se abrasou na febre de ideais novos, mas só de tratar a língua com um amor e com uma inteligência, em que nenhum outro escritor português ou brasileiro o igualou, só de criar nela novos e imprevistos elementos de construção, só de romper com ela horizontes não sabidos, e de descortinar amplas e deslumbrantes perspectivas, só de extrair dela fecundos e inéditos motivos de emoção, fez ele a sua silenciosa, a sua profícua, a sua formidável revolução.

Língua moderna entre as línguas latinas, a portuguesa, à medida que se ia emancipando do castelhano, com que se fundiu em princípio, foi se aproximando, após a invasão dos bárbaros e o domínio dos árabes, da fonte matriz, então cultivada com amor. E justamente esta aproximação, de tão proveitosos resultados, deu-lhe essa truculência de formas, essas asperezas sintáticas, que têm feito o desespero de inúmeras gerações de escritores. Ela foi a filha bem-amada do idioma virgiliano, de que herdou vícios e qualidades, mais que qualquer outra. O castelhano cedo se fundiu com as algaravias de celtas, godos e árabes, deformado a cada elemento preponderante nele introduzido. Assim os outros idiomas. Só o português foi fiel à sua origem. Debalde na terra lusa outros povos predominaram e tentaram introduzir as suas formas linguísticas. O português soube abroquelar-se e dessas incursões ficaram apenas vestígios em certos termos e em pouquíssimas locuções.

Ao contrário das outras línguas latinas, esta não se degradou em dialetos distintos e a sua unidade foi que ele tomou parte, conscientemente ou não. Eça, sem fundar escola, foi um naturalista confesso, mas um naturalista na sua acepção mais estreita, isto é, sectário dos processos radicais da escola. Quando, porém, a sua independência se fez, ele soube dar à sua obra uma generalidade relativa, dentro do seu meio. Assim fez-se um simbolista humano e accessível, criando tipos universais, mas de alma humana e ao alcance das compreensões vulgares. É um perfeito e maravilhoso símbolo o do Defunto, como o é o do Milhafre, como são entidades simbólicas esses Ramires, evolução da alma e da civilização portuguesas, cheios de uma vida tão poderosa, de uma tão empolgante sugestão, que para sempre se gravam no espírito do leitor, como criaturas vivas.

Esse D. Gonçalo, o Ramires contemporâneo, ao mesmo tempo poltrão e impetuoso, de alma honesta e de transigências infames, é uma criação viva e forte. Ele exprime bem a última caracterização de uma raça que dos senhores feudais, guerreiros fortes como deuses, viajantes arrojados, descobridores e sábios e que hoje palpita na agonia de uma degenerescência fatal, oscilando perpetuamente entre o espírito histórico das grandezas pretéritas e a inanição atual, toda cheia, contudo, de uma nobreza ingênita, sem forças embora para fazê-la efetiva e contínua.

Como um formidável contraste ele criou o perfil truculento de D. Tructesindo de Ramires, o feroz senhor, de que Gonçalo escreve a história num estilo antigo, páginas que se incrustam dentro do livro moderno, produzindo um hibridismo peregrino e um efeito violento de evocação de um passado que não voltará mais, com o deperecimento de energias da atual civilização.

Depois de ter caricaturado o Portugal decadente deste momento em O Crime do Padre Amaro, em Os Maias, em O Primo Basílio, em O Mandarim, em A Relíquia, depois de o ter cauterizado a fogo com As Farpas, ele apresenta em Fradique Mendes o ideal do tipo que quisera representar nesse meio para ele abominável; e como para justificar e esbater a crueldade da sua obra anterior, põe em A Ilustre Casa de Ramires o Portugal de hoje em face do Portugal de antanho e criou esse D. Gonçalo, perfeito nas suas imperfeições, lógico nos seus contrastes e nos seus desfalecimentos, natural e humano, cedendo ao princípio e aos impulsos do seu coração admirável, depois às solicitações dos seus interesses e das suas covardias, sacrificando por uma ambição mesquinha a honra da família e por fim, conseguida a sua aspiração, inutilizando o fruto dos seus esforços e dos seus sacrifícios, depois de ter verificado quão miserável era a compensação que para eles tivera.

E, finalmente, em A Cidade e as Serras, a sua derradeira obra póstuma, dá o supremo beijo de amor nessa pátria tão amada, que ele estremece com ímpetos tão íntimos e de uma tão selvagem maneira. Aí diz quanto ela é boa e hospitaleira, quanta doçura ela encerra no seu coração, longe dos tumultos da apodrecida civilização que tudo corrompe; quanta fecundidade há no seu seio materno; e como ela merece ser adorada e ser respeitada. Este período de reconciliação é notável e diz bem o que era a alma desse artista. Rusgas de amante cioso arredaram-no da sua bem-amada; encastelado no seu orgulho, não houve ironias e despeitos e humilhações com que a não maltratasse. E essa mesma obsessão em magoar provava a intensidade do seu amor. Dia porém chegou, em que os rebeldes assomos ruíram, em que a forte soberba se abateu e ele finalmente se lhe atirou nos braços, com ofego e ânsia, procurando reparar os estragos feitos pela sua longa e obstinada guerra.

Toda a sua obra anterior é de punição e de sarcasmo; estes últimos livros, porém, são feitos de piedade e, o que é mais triste, de desalento. Abandonar a pátria e se refugiar na África, ou desertar da civilização para se embrenhar nas serras, é sempre a mesma forma de manifestar o seu desgosto pelas coisas que o cercam. Fradique desespera da Arte, Gonçalo da pátria, Jacinto da civilização, isto é, o artista, tendo olhado em torno de si, com o olhar perscrutador do filósofo, compreendeu a inanidade de todos os esforços, abateu-se ante a impossibilidade de um destino mais alto, para si e para a sua pátria, do que o que é a todos comum e então aproveitou o seu último alento em amar, com um amor tanto mais veemente quanto por longo tempo ele o teve recalcado bem no fundo do coração.

Esta foi a feição de artista de José Maria Eça de Queirós, o codificador das formas literárias da língua portuguesa e o criador das novas formas que hão de ficar no século XX como o limite para que tenderão todos os artistas, tanto lusos, como brasileiros.


---
FROTA PESSOA
"Crítica e Polêmica, Rio de Janeiro, 1902.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...