terça-feira, 4 de junho de 2019

O bolo refolhado (Fábula), de Ana de Castro Osório



O bolo refolhado

Estava uma boa e pobre mulher casada com um homem tão mau que, sem razão nenhuma, lhe batia constantemente. Quando não via coisa por onde pegar, inventava pretextos para se zangar e bater.

Certa manhã levantou-se e disse-lhe:

— Logo para a ceia quero um bolo refolhado.

— Não sei o que isso é.

— Ah, não sabe? É uma boa dona de casa, não haja dúvida!... Pois se não sabe aprenda, e logo não deixe de cá o ter.

A pobre mulher, muito ralada, foi ter com uma vizinha amiga que sabia muito bem de cozinha, para lhe perguntar como se fazia o tal bolo refolhado.

— Isso há de ser bolo folhado. Foi o seu homem que se enganou. Vá descansada, que logo faço um bolo folhado muito bom e lá lho levo. Ele há de gostar e não terá ocasião de lhe bater.

À noite veio o marido e, como não viu o bolo refolhado, gritou, ralhou e bateu na mulher, mas não deixou de comer e saborear o que lhe fora apresentado.

Ao outro dia fez a mesma recomendação, e a desgraçada voltou à vizinha, a contar o sucedido e a pedir-lhe nova receita.

— Olhe, vizinha, eu não sei o que o seu homem quer dizer com o tal bolo refolhado. Arranje-lhe vossemecê uma galinha guisada, talvez seja isso que ele quer. Se não for, que se explique melhor. Tantos cozinhados tenho feito e nunca ninguém me perguntou por tal coisa.

— A vizinha fala bem (respondeu a outra, magoada), mas o meu homem é tão mau que é capaz de me fazer alguma das suas.

À noite sucedeu a mesma coisa, o mau homem comeu a galinha guisada, mas começou a berrar que não era aquela ceia que ele queria, mas sim um bolo refolhado. E voltou a dar mais pancadaria na mulher.

Na manhã seguinte, nova recomendação. A pobre mulher voltou, à vizinha, que lhe disse:

— Ó vizinha, sabe que mais? O seu homem está a mangar consigo, e o que quer é bater-lhe, com razão ou sem ela. Vá vossemecê buscar as calças, o chapéu e o capote dele, e venha cá ter comigo à tardinha, que nós lhe curaremos a doença que tem e lhe daremos o bolo refolhado, com bastante açúcar e canela.

Assim foi. À tardinha apareceu a mulher infeliz, com as coisas pedidas.

A amiga arranjou também umas calças, um capote e um chapéu do marido, e depois vestiram-se as duas com os fatos dos seus homens, de maneira que ninguém era capaz de as reconhecer. Munidas de grossos varapaus foram para o caminho por onde o mau homem havia de passar, quando regressava sozinho a casa.

Mal chegou ao pé do sítio onde o esperavam com os varapaus, diz a vizinha, disfarçando a voz:

— Bate-lhe, São Pedro!

— Porquê, São Paulo? (respondeu a outra).

— Porque pede à mulher o bolo refolhado.

E começaram a dar-lhe cacetadas, ora uma ora outra, repetindo sempre as mesmas palavras:

— Bate-lhe, São Pedro!

— Porquê, São Paulo?

— Porque pede à mulher o bolo refolhado!...

E foram batendo, enquanto se não cansaram.

Depois safaram-se e despiram-se, sem que ninguém soubesse do feito e deixaram-se ficar em casa à espera dos maridos.

O homem do bolo refolhado, moído como farinha, chegou a casa e pediu mil perdões à mulher por ter sido mau e exigir que lhe fizesse uma coisa que nem sabia o que era.

— Até São Pedro e São Paulo o tinham castigado por tal crime, aparecendo-lhe, por grande milagre.

A mulher, fingindo-se muito admirada e agradecida aos bons Santos Apóstolos, perdoou-lhe logo, mas recomendou-lhe muito que não voltasse à mesma, pois com suas orações faria descer outra vez à terra São Pedro e São Paulo.

Ora isso é que ele não queria, porque ficara sabendo o que lhe custavam tais visitas, e prometeu não mais a agravar.

Daí por diante emendou-se, e viveram muito bem.


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Fonte:
Ana de Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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