terça-feira, 4 de junho de 2019

Bater na mulher com razão ou sem ela (Fábula), de Ana de Castro Osório



Bater na mulher com razão ou sem ela

Era uma vez um homem que vivia muito bem com a sua mulher. Nunca tinham um ralho; não havia a mínima questão; o que um queria, queria o outro. Enfim, eram muito felizes. Mas, um dia, o homem encontrou-se com um compadre, que lhe disse:

— Então tu não bates na tua mulher?

— Eu não. Nem tenho razão nenhuma para lhe bater.

— És parvo! Nas nossas mulheres bate-se com razão ou sem ela. Só os tolos é que não batem nas mulheres!

O homem, com medo que lhe chamassem tolo, começou desde então a bater na mulher, sem quê nem para quê.

A casa, que dantes era um paraíso, tornou-se um inferno! Já ninguém se entendia.

A mulher procurava adivinhar-lhe as vontades e fazia tudo o que imaginar podia para o satisfazer. E ele, zás, pancadaria brava!

A pobre mulher, sem ver nenhum remédio para aquela desgraça, pensava em morrer. Um dia, porém, compreendeu que lhe tinham virado o marido com maus conselhos. Cansou-se de ter paciência e disse com Deus e consigo:

— Espera que eu te arranjo! Hei de pregar-te uma peça, que te hás de ver parvo. E então é que passarás por tolo.

Comprou uma lebre; esfolou-a e, à noite, quando o homem se preparava para lhe bater, disse:

— Tu não sabes uma coisa, homem?!...

Aconteceu um caso que me tem dado que cismar.

— Então o que foi?

— O nosso galo apanhou uma lebre!

— Isso não pode ser!

— Pode, pode! E a prova é estar aqui a lebre já esfolada, e amanhã levar-ta para o almoço. —

O homem, de satisfeito que ficou com a novidade, passou aquela noite sem lhe bater. De manhã levantou-se muito cedo e foi para o campo ver uns trabalhadores que trazia numa propriedade. A primeira coisa que fez foi dizer-lhes:

— Eh rapazes! Trabalhem de vontade, que hoje temos lebre para o almoço.

Ficaram todos muito contentes, dando vivas ao patrão, e trabalharam com alma para merecer o bom guisado. À hora do almoço chegou a mulher com um grande cabaz, coberto com uma toalha branca de neve. Trazia muita comida boa, mas da lebre nem coisa que se parecesse! Vai ele perguntou:

— Ó mulher, que fizeste à lebre?


— Qual lebre? Eu não sei o que queres dizer. Pois tu compraste alguma lebre?

— Ora essa! Então tu não me disseste que ontem o nosso galo tinha apanhado uma lebre?

— Ó homem de Deus, tu estás doido! Pois isso pode lá ser? Um galo apanhar um lebre?!

E fugiu, a lamentar-se, dizendo que o seu marido estava doido e que tinha por mania dizer que um galo apanhara uma lebre.

As vizinhas ficaram prevenidas, para lhe acudirem, se ele quisesse bater-lhe, pois decerto estava doido o pobre homem, e em doidos ninguém se pode fiar.

A mulher fechou-se em casa, comeu a lebre com todo o sossego e guardou a pele.

À noite vem o homem para casa a barafustar, e queria bater na mulher. Mas a vizinhança acudiu. E todos começaram a dizer que ele estava doido e que havia de ir à Igreja confessar que a mulher é que tinha razão e que era ele quem merecia o castigo. O homem, meio convencido, disse que sim, que iria. E nessa noite não bateu na mulher.

Quando a viu dormir levantou-se muito devagarinho e revolveu a casa toda a procurar a pele da lebre. Tanto fez que a encontrou escondida num canto. Meteu-a no bolso da jaqueta que havia de levar à missa, foi deitar-se muito disfarçado e adormeceu. A mulher, que tudo tinha visto, levantou-se por sua vez, tirou-lhe a pele do bolso, queimou-a, e meteu-lhe lá duas estrigas de linho.

Ao outro dia foram para a Igreja muito calados, cuidando ambos na peça que iam pegar ao outro. No fim da missa o homem levantou-se do meio do povo, e disse:

— Os senhores afirmam que eu estou doido e que minha mulher é que tem juízo, porque nunca teve a lebre que eu vi em casa. Pois eu dou provas do contrário. É que nós, os homens, somos mais finos do que elas e não nos deixamos enganar pelas suas palavras. E por isso eu digo, com o meu compadre, que devemos bater nas nossas mulheres, com razão ou sem ela!...

E, metendo a mão no bolso da jaqueta, puxou o embrulho que lá tinha posto e bradou:

— Cá está a pele da lebre!

Tudo desatou à gargalhada por ver as duas estrigas, em lugar de tal pele.

Então é que ele ficou envergonhado. Confessou que a mulher tinha juízo, e jurou, diante de toda a gente da freguesia, viver como tinha vivido antes do estúpido amigo lhe dizer — que devia bater na mulher com razão ou sem ela.


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Fonte:
Ana de Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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