terça-feira, 4 de junho de 2019

O médico que fez milagres (Fábula), de Ana de Castro Osório



O médico que fez milagres

Houve, outrora, um homem que apenas possuía de seu um livro de Medicina.

Com isto resolveu ganhar a vida e fazer fortuna. E com menos sabedoria a têm feito outros. Não é pois para admirar que tal pensamento lhe viesse à cabeça.

Saiu de casa com o alfarrábio debaixo do braço. E de tal maneira se houve que, em pouco tempo, criou grande fama.

Corria gente de toda a parte para consultar o notável Médico, e o dinheiro corria também à proporção. Ia num sino a fortuna do homem.

Depois de ter curado muita gente, foi o doutor chamado a casa dum nobre e rico senhor, que estava com um forte catarral. Entrou, franziu a testa e, depois de meditar alguns instantes, mandou que matassem um cordeiro e que sem demora lhe trouxessem a pele. As ordens do sábio foram logo cumpridas, e ele, quando lhe entregaram o que pedira, enfiou a pele na cabeça do padecente. Ia morrendo asfixiado, mas afinal curou-se, de tanto suar com o extravagante remédio.

Cresceu, com esta maravilhosa cura, a fama do ilustre curandeiro. A família do doente tecia muitos louvores à sua perícia e delicadeza, e o próprio Fidalgo não se cansava de o elogiar.

Por esse tempo veio uma grande malina, e os hospitais estavam cheios a mais não poder ser. Iam os Médicos verdadeiros, curavam que não curavam, mas os hospitais enchiam-se e já não havia onde recolher os infelizes. Foi chamado o grande homem para ir ao primeiro hospital e dar algum remédio ao triste estado de coisas a que se chegara. Entrou, revestido de toda a importância e, fazendo uma rápida visita aos doentes, disse:

— Este, aquele e aqueloutro estão irremediavelmente perdidos, e então nem vale a pena tratá-los. Serão queimados. E com a cinza curam-se os que estão melhorzitos.

Os doentes, que ouviram a sentença condenatória e não sabiam quem seria queimado, saltaram logo das camas e todos, sem esperar a escolha, fugiram do hospital, mais ou menos ligeiramente, conforme as suas forças lhes permitiam. Muitos, que nem podiam fugir, morreram de susto. Mas isto é que não constou cá fora. Pelo contrário: a fama do homem cresceu a ponto de dizerem que era tão bom médico e tão sábio que lhe bastava aparecer para curar os enfermos.

Tal fama correu mundo até chegar, devidamente correta e aumentada, ao Palácio real onde a Rainha estava, havia já três dias, em perigo de vida. Dera-se o caso da nobre Senhora ter tido pouco cuidado quando estava jantando. E assim atravessara na garganta um osso que não passava, nem para baixo nem para cima, e a não deixava comer nem falar.

Foi mandado chamar o notável Médico e conduzido em carruagem até ao Palácio real, porque todas as honras eram devidas a tão grande lumiar da Ciência. Entrou no quarto de Sua Majestade com todo o desembaraço e sangue frio autorizados pela eficácia dos seus enérgicos remédios.

Pediu uma quantidade de barro amassado em água, mandou sair toda a gente do quarto, e depois, sem mais cerimônias, obrigou a senhora a voltar-se, e pespegou-lhe com uma chapada de barro nas costas. A Rainha voltou-se cheia de indignação. E tal esforço fez para falar, que logo o osso lhe saltou pela boca fora.

Foi uma alegria enorme no Palácio ao verem a Rainha salva daquele perigo. E o nosso herói, cumulado de fazendas e honras, saiu triunfante e ainda com maior fama, se possível!

Enfim, o homem foi sempre feliz. Considerado na vida e chorado na morte por toda a gente. E ainda hoje se contam os seus atos de sabedoria.

A audácia, quando feliz e usada a tempo, também faz milagres... se Deus os consente.


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Fonte:
Ana de Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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