6/04/2019

O Rei, o Ministro e o Carvoeiro (Fábula), de Ana de Castro Osório


O Rei, o Ministro e o Carvoeiro

Era uma vez um bom Rei que, para descanso dos cuidados e trabalho de reger o seu Povo, saía a montear lobos e javalis.

Destemido e bom cavaleiro, ia sempre, depois de levantada a caça, na frente das correrias, sem aguardar qualquer ajuda na luta com as feras acossadas. Certo dia, depois de muito galopar, perdeu-se da sua gente, e encontrou-se de todo só, no meio de um grande bosque cerrado, que mal conhecia.

Meteu o cavalo a passo, e foi andando a procurar caminho. Ouviu, então, ressoar, ao longe, golpes de machado em troncos de árvores, e, assim guiado, encaminhou o cavalo para o sítio de onde vinha sinal de gente conhecedora do bosque.

Já perto, viu que todo o trabalho, que supunha de muitos lenhadores, era feito por um só carvoeiro que, preparados os fornos de terra, numa clareira do bosque, não descansava na faina de rachar e juntar lenha para fazer os montes.

Esteve o Rei, por algum tempo, a olhar e a admirar o trabalho sem descanso de um homem sozinho e sem mais ordens e obrigação do que a sua vontade. Avançou, depois, para a clareira, deu-se a conhecer, e, antes mesmo de perguntar ao carvoeiro o melhor caminho para sair do bosque, disse-lhe:

— Com tão grande trabalho que tens, deves ganhar muito dinheiro.

— Saiba Vossa Majestade (respondeu o Carvoeiro) que ganho sozinho para sustentar a família. É mais do que muito, porque é o bastante para o que eu preciso.

— E quanto ganhas e achas bastante para a tua vida?

— Eu, Real Senhor, ganho doze vinténs por dia. E para que Vossa Majestade conheça que é para mim o bastante, sempre direi mais que destes doze vinténs empresto quatro; pago, com outros quatro, uma dívida; e os restantes quatro vinténs são para vivermos, a mulher e eu.

O bom Rei, admirado com as palavras do Carvoeiro, quis saber como eram aquelas contas, e a razão porque pagava ele uma dívida e emprestava quantia igual.

O Carvoeiro explicou:

— O empréstimo que faço, é criar os filhos, que depois trabalharão para mim, quando eu já não tiver forças. A dívida que pago, é sustentar os meus Pais, que já são velhinhos, e nada podem ganhar. Os outros quatro vinténs são para os gastos de nós dois, marido e mulher.

O Rei ficou muito satisfeito com a prontidão e viveza da resposta e com o bom governo familiar que revelava, e logo pensou experimentar os sábios Conselheiros da sua Corte. Ordenou, por isto, ao Carvoeiro, que a ninguém desse a explicação dos seus gastos e despesas.

— Só o poderás fazer (esclareceu o Rei) por minha ordem, ou depois de teres visto a minha cara cem vezes. E agora ensina-me o caminho mais curto para sair deste bosque.

— Cumprirei as vossas ordens, Real Senhor. E praza a Deus dar-nos tanto ano de vida que seja possível a felicidade para mim de eu ver a cara de Vossa Majestade cem vezes.

Vinde, Senhor, que, por este caminho, oposto ao que trouxestes, depressa estareis em campo aberto. Só lamento que, passando o caminho tão perto do meu palácio, eu não ouse oferecê-lo a Vossa Majestade para descansar.

— De outra vez o farás, e eu aceitarei. Mas antes irás tu, a meu chamado, ver a Choupana Real.

Foram assim conversando, e o Rei cada vez admirava mais a inteligência festiva e arguta do Carvoeiro. E, por ele guiado, em breve saiu do bosque, e foi ter com a sua comitiva.

Quando voltou ao Palácio, mandou o Rei convocar todos os seus Ministros e Conselheiros, e disse-lhes que, no prazo de uma semana, e diante de toda a Corte, viessem explicar-lhe, com verdade e clareza, como podia um homem, com a diária de apenas doze vinténs, pagar uma dívida, fazer um empréstimo igual, e sustentar-se ainda a si mesmo e à mulher, sem prejuízo do que emprestava ou restituía. E acrescentou que todos aqueles que dessem resposta justa ganhariam a sua confiança, e os outros a perderiam, pois que não devia pedir conselhos a quem, embora estudando e meditando, não fosse capaz de resolver o que ele sabia possível, e da maior importância para a felicidade e boa conduta do seu Povo.

Ficaram os sábios muito aflitos, e os que não eram sábios estudaram de noite e dia, mas, por mais que refletissem, não atinaram com a importância do caso para o bem-estar da gente do Reino. E acabaram por decidir que Sua Majestade, propondo aquele enigma, queria apenas avaliar, pelas respostas, o saber e a agudeza dos seus

Conselheiros. E deram-se todos, alegremente, a compor os seus discursos, em prosa ou verso, para na próxima reunião da Corte os lerem.

Todos não. O Primeiro Ministro, que era um ancião inteligente e sábio e com grande experiência dos homens, ficou muito triste, logo que foi apresentado o problema, porque bem sabia o seu Rei contrário a divertir-se propondo a inútil resolução de enigmas, e compreendeu que, por isto, a resposta importava, de fato, ao bem público. E não percebera logo esse interesse e o seu justo esclarecimento. Custava-lhe muito, depois de tanto ano de estudo, e após uma vida inteira gasta ao serviço da governação do Reino, mostrar-se ignorante e falto da luz do pensamento num caso, posto de modo tão particular, que ele adivinhava ter a maior e mais geral importância. Mas até o extremo cuidado com que meditava o problema, o tornava, para ele, cada vez mais difícil de resolver.

Passavam os dias, e cada vez mais se lhe apertava o coração. Despachado o seu trabalho, saía do Palácio, e procurava os lugares mais sós, para, durante horas e à vontade, meditar.

Um dia foi até ao bosque, longe da cidade, no qual o Rei encontrara o Carvoeiro. Mandou que no campo o aguardassem os seus criados com os cavalos, e sozinho se embrenhou no arvoredo.

Foi andando, triste e cansado, até que chegou à clareira onde fumegavam fornos de carvão. Sentou-se num tronco, a olhar aquele sossego, comparando-o com as suas aflições de Governante e de Conselheiro de um Rei. E, depois de uma vez mais encarar, por todos os seus aspectos, o problema proposto, descorçoou.

Resolvido a renunciar ao cargo de Primeiro Ministro e a abandonar a Corte, deu balanço a toda a sua vida, já longa, de pensamento e ação. E vendo que a terminava por uma derrota, e a pior de todas, por mostrar a sua incompreensão do bem público, entristeceu mais ainda, e, sem coragem para se vencer, pôs-se a chorar.

Estava de cabeça baixa, apertada entre as mãos, quando na clareira entrou o Carvoeiro. E nem por ele deu.

Ao contrário, costumado ao silêncio do bosque, entendeu o Carvoeiro, ouvindo soluçar, que alguém procurara aquela solidão para livre desabafo de grandes mágoas. E, abarcando num olhar toda a clareira, viu a curvada figura de um fidalgo ancião, tristemente alheio a toda a alegria da natureza em seu redor. Mas quedou-se a distância, com pejo de se tornar espectador, embora involuntário, do abatimento, porventura momentâneo, de um coração altivo.

Escondido atrás de um tronco de árvore, esteve por algum tempo hesitando se deveria afastar-se, para não ofender quem chorava, ou ceder ao bom desejo de por alguma forma o servir e, se possível, consolar. Resolveu, por fim, ocultar que tinha surpreendido o ancião no seu abandono à desgraça, e fazer-se chamar por ele. E fingiu que recomeçava o seu trabalho de lenhador, descarregando fortes golpes do machado num tronco de árvore.

Olhando cautelosa e disfarçadamente, viu o ancião erguer-se, logo que ressoaram as primeiras machadadas, e, por intenso esforço de vontade, impor serena aparência à fisionomia, embora ainda pelas faces lhe deslizassem lágrimas. Ouviu-o, depois, chamá-lo com voz calma, e, deixando o machado, como quem interrompe a tarefa iniciada, aproximou-se do ancião, mostrando surpresa por o ver ali. Mas o Ministro, com a sua profunda inteligência, num relâmpago entendera tudo o que se passara, pois seria impossível um carvoeiro recomeçar o trabalho de lenhador, e logo na orla da clareira, sem ter vindo primeiro observar os fornos. E disse-lhe:

— Chamei-te para te agradecer a delicadeza que tiveste, disfarçando teres visto a minha dor. Isto me compensa do que sucederá na Corte, quando eu, amanhã, a abandonar.

Ao contrário do que tu fizeste, hão de querer adivinhar, através da minha voz e aparência calmas, todas as mágoas que eu sofra, e até as que não sinta. Espero recompensar-te, porque bem o merece o teu procedimento.

— Senhor, não se trata agora de recompensas, que não esperei nem mereço. Visto que tivestes a maior coragem, confessando a vossa dor para me agradecerdes, outorgando-me, assim, um prêmio que eu nunca poderia esperar, na minha humildade, ousarei pedir-vos que me declareis o motivo de tanta amargura, pois talvez Deus queira que eu de algum modo vos possa ajudar.

— Já me ajudaste, mostrando-me a virtude que pode haver no coração de um rude trabalhador. Mas não quero ficar abaixo dessa nobreza, negando-me a confiar-te o motivo da minha mágoa e da resolução, que nesta hora e lugar tomei, de renunciar ao cargo de Primeiro Ministro do Reino e de abandonar a Corte.

E como faz quem a si mesmo precisa de se ouvir, pela derradeira vez, antes de tomar uma grande e custosa resolução, o Ministro disse ao Carvoeiro o que se passara na Corte; o enigma que por Sua Majestade fora proposto aos Conselheiros, com o desejo de uma resposta certa e da explicação do seu interesse para o bem público; a impossibilidade em concluir sem base no conhecimento do que escondiam as palavras ditas ou repetidas por El-Rei; e, finalmente, o desespero por essa impossibilidade.

Ia o Ministro falando, e o Carvoeiro entristecendo, cada vez mais. Lutavam nele o remorso, por ter provocado, com o que dissera ao Rei, os tormentos daquele nobre ancião, a quem tanto devia todo o País; a obrigação, em que estava, de a ninguém revelar o enigma, só para ele simples, pois o criara para definir a sua vida; o espanto de que este pudesse ter qualquer grande significado.

O Ministro notou-lhe a angústia no olhar. E quase esteve para interromper a sua narração, e talvez interrogá-lo. Mas viu de repente a alegria substituir-se nele ao negro desespero, não obstante lhe estar nesse momento referindo a amargura que vivera no próprio lugar em que falavam, para se decidir ao abandono do seu cargo, confessando-se incapaz.

Ainda bem o Ministro não findara, disse, com esperança, o Carvoeiro:

— Tem Vossa Senhoria a certeza de, conhecendo o enigma, lhe dar uma explicação geral, com interesse para o bem público?

— Tenho a certeza de a poder concluir com segurança. Mas de que me serve este orgulho da inteligência e do estudo, se não conheço o que permitiria a sua aplicação?

— Foi Deus quem quis dar esse conhecimento a Vossa Senhoria, trazendo-o a este bosque, para nos encontrarmos, e guiando-nos por forma que eu merecesse ouvir-vos.

E ante a surpresa do Ministro, continuou o Carvoeiro:

— Sou, meu Senhor, o homem que, por graça, definiu a sua vida por essas palavras a que chamais enigma, e as disse e explicou a El-Rei.

É, pois, muito fácil o remédio. Mas toda a minha aflição era devida a ter-me Sua Majestade proibido que a ninguém revelasse o que lhe dissera.

— Manterás o segredo (atalhou o Ministro). É teu dever fazê-lo. E dever ainda maior para mim exigi-lo, exatamente por ser guardado em meu prejuízo.

— Não será guardado, Senhor (disse festivamente o Carvoeiro), porque posso respeitar a condição, que me foi imposta por Sua Majestade, para eu poder explicar-me. Entendi-o, de repente. E foi este o motivo da minha mudança, da tristeza, em que estava, para uma alegria que, por certo, haveis notado.

Sua Majestade permitiu-me que eu falasse livremente sobre este caso, depois de lhe ver cem vezes a cara. Mostre-me Vossa Senhoria cem moedas de ouro, dessas que têm a cara do nosso Rei.

Não pôde o Ministro deixar de sorrir-se perante a sutileza com que a inteligência do Carvoeiro interpretava a condição que lhe era necessária para poder explicar o seu enigma, sem desrespeito do que lhe fora ordenado. Mas, porque era para si todo o benefício daquela habilidade, quis ainda chamar-lhe a atenção para o possível perigo de ofender o seu Rei:

— Parece-te que cumpres, por esse modo, a condição que te foi imposta, e equivale a dizer que não deves repetir a ninguém a explicação que deste a Sua Majestade, a não ser por sua ordem?

Não quero o remorso de te fazer cair em qualquer desrespeito para com a pessoa do nosso Rei.

— Não podeis ter esse remorso, meu Senhor. Sua Majestade não me disse que lhe deveria ver pessoalmente a cara cem vezes.

Cabe a Vossa Senhoria satisfazer por tal forma o nosso Rei, com a explicação do interesse geral do meu enigma, que eu, não só seja por ele perdoado, mas ainda premiado, por a ter permitido.

— Pois bem, aceito como graça de Deus o nosso encontro e a explicação que me darás. 

Desprendeu do cinto uma bolsa, que nele trazia dependurada, e, entregando-a ao Carvoeiro, acrescentou:

— É tua esta bolsa de ouro. Vê bem e conta exatamente as cem moedas com a cara do nosso Rei. E guarda-as, depois, juntamente com as restantes.

Não o recuses nem me agradeças. Esse era o dinheiro para os gastos da jornada que não farei. Bem vês que não gasto mais do que supunha. E muito mais ficarei a ganhar.

O Carvoeiro venceu a surpresa que tivera ao ver tão próxima a fortuna; abriu a bolsa; contou as cem moedas; olhou a cara do Rei, em cada uma delas; e depois, disse, alegremente:

— Nunca eu imaginei merecer tal prêmio por vos ter apoquentado, Senhor. Bastava-me a alegria de vos servir e ser justo. Mas aceito a dádiva generosa, porque assim pagarei melhor a minha dívida e farei maior empréstimo, e viveremos com maior largueza, a mulher e eu.

E o Carvoeiro explicou o que era a dívida que pagava, sustentando os seus Pais, já velhinhos, e o empréstimo que fazia, criando os seus filhos, que depois sustentariam, por seu turno, os pais, quando ele já não pudesse trabalhar.

O Ministro ia ouvindo, com crescente alegria, e ao mesmo tempo trabalhando sobre aquelas palavras, tão simples, com a luz da sua poderosa inteligência, e visionando as grandes leis da vida social que elas resumiam claramente. E não pôde conter-se que não dissesse:

— Nem tu calculas quantas grandes e perenes verdades conseguiste definir com tanta simplicidade!

Mereces maior prêmio do que esse que te dei. Conto satisfazer Sua Majestade, para além do que possa esperar. Não lhe direi como cumpriste a obrigação que te impôs. Mas deixarei perceber que não sou decifrador de enigmas. Quando te interrogar, confessa toda a verdade e a sutileza de que soubeste usar. Não só te perdoará, mas também te quererá ele mesmo premiar. Lembra-te, nesse momento, de pedires a Sua Majestade que só te seja dado qualquer prêmio depois de ouvido o meu conselho.

Julgo ficar a conhecer-te bem, e tenho receio que, não me ouvindo, te prejudiques. Mas, de qualquer modo, terás sempre um amigo em mim.

E, com amizade verdadeira, seguiram os dois homens, conversando, até ao sítio onde os criados, com os cavalos, aguardavam o Ministro. Readquirira, este, perfeita serenidade, vencendo agora a alegria, da mesma forma que, na vinda, subjugara a tristeza e a amargura, para a ninguém as descobrir.

Despediu-se do Carvoeiro, dando-lhe um abraço, montou a cavalo, e galopou para a cidade. Mas, durante o caminho, ia pensando, sem que a fisionomia nada mostrasse:

— O dia de amanhã, que eu julgava de inteira desgraça, vai ser de vitória da minha inteligência. E esta mudança dependeu apenas do acaso, e de um momento de abandono do meu orgulho, e da súbita confiança de dois corações?


Não posso entendê-lo assim. Foi Deus que quis descobrir grandes verdades, aos homens, consentindo a completa explicação de um simples enigma, que, para tantos, e até para quem o criou, seria apenas gracioso.

***

Estava toda a Corte reunida no salão magno do Palácio. O Rei e a Rainha sentados nos Tronos; os Infantes, mais abaixo, em seus bancos; os Ministros, os Conselheiros e outros dignitários e representantes das ordens e das cidades e vilas, em cadeirais. Donas e donzelas, gentis-homens e Cavaleiros e demais Cortesãos aguardavam ansiosos aquele torneio da inteligência, de que poderia advir mudança nos cargos do Conselho e governação do País.

O caráter de grande solenidade, que, por ordem real, a reunião tomara, desanimou, porém, os que esperavam brilhar, com os seus discursos, num simples serão literário. Pior ainda foi quando o Rei disse:

— Desejo, Senhores, uma resposta exata e clara ao que vos apresentei para resolver. Todos os que tenham plena consciência de terem acertado, e só esses, devem declará-lo, seja qual for o seu cargo e categoria.

Isto, porém, será o menos. O que eu quero é uma explicação completa do interesse, para a república e a nobreza dos homens, que tem a realidade expressa no aparente enigma que propus à solução da vossa inteligência e saber.

Ao contrário do costume, falarão primeiro os mais novos e de menos altos cargos. Espero, Senhores, ouvir de muitos a explicação devida.

Um pesado silêncio foi a resposta às palavras do Rei.

Passados momentos, ergueu-se o Primeiro Ministro, e olhou, em redor, toda a sala, demoradamente, para verificar se alguém pretendia tomar a palavra. E porque ninguém mostrasse querer, ao menos, apresentar uma resposta ao enigma, disse, dirigindo-se ao Rei, que não ocultara a satisfação por ver confirmada, com o interesse do seu Primeiro Ministro, a importância para o bem público entendida por ele no que lhe explicara o Carvoeiro:

— Real Senhor, aguardei uns momentos para deixar que se pronunciassem outros, mais novos, sobre o problema que nos foi proposto por Vossa Majestade.

Não parece quererem fazê-lo. E não é censura, mas grande louvor, que merecem os que venceram a natural confiança da juventude, propensa a afirmar soluções, sem ponderar, antes, os seus fundamentos e verdade, e a defendê-las, apesar disto, com teimosia e paixão.

Louvor igual merecem os que, mais experientes e sabedores, mediram a dificuldade, quase invencível, de fundamentarem a explicação justa do interesse, para o bem público, do procedimento particular sintetizado num enigma, sem terem a certeza da solução exata deste.

Não vos admireis, meu Senhor, do silêncio que respondeu à interrogação. Nem diminua por isto a confiança merecida por todos aqueles que bem serviram e servem o País, a república e a pessoa de Vossa Majestade.

Também eu pensei, quase até ao fim, guardar silêncio, ou, porque maiores são os meus deveres, declarar-me publicamente incapaz de continuar a exercer o cargo de vosso principal servidor.

Quis Deus que eu ouvisse também a voz do Povo, que Vossa Majestade, com interesse e grandeza de verdadeiro Rei, interrogou, e de que soube entender o geral e valioso significado com superior inteligência.

Dizem antigos Sábios que a voz do Povo é a voz de Deus. Dizem-no com razão e verdade, se por estas palavras definem o bom senso que Deus nos deu a todos, e que, desgraçadamente, muitos e muita vez traímos, e o sentimento natural e a longa experiência de homens que se elevaram à nobreza da vida em família, e aceitaram as suas virtudes, benefícios e obrigações.

O caso, por Vossa Majestade apresentado à nossa inteligência, deixa imediatamente de ser um enigma, se considerarmos que ele é o de um chefe de família. Então compreendemos que, embora pequeno, o rendimento do seu trabalho deva e possa aproveitar a todos que dele dependem; que por este modo pague a dívida que tem para com os seus pais, que lhe deram o ser, a criação e os meios de ganhar a vida; e que, seguindo o seu exemplo, empreste aos filhos, da mesma forma os criando e educando para serem homens honestos e trabalhadores, e neles ter, se lhe for preciso, o amparo na velhice cansada. Então percebemos que empreste quantia equivalente à que restitui, por duas obrigações igualmente sagradas, e que nem aquela nem esta prejudiquem o todo que é a vida e economia familiares.

Espero, Real Senhor, ter achado, por este modo, a solução do enigma. 

O Rei ouvira satisfeito e surpreso as palavras do seu Primeiro Ministro. Umas vezes lhe parecia entender que só pela dedução e o estudo ele conseguira acertar. Outras vezes, concluía, das suas palavras, que lhe fora descoberto o segredo que ele impusera ao Carvoeiro. Mas a alegria de ver confirmado, por modo claro e brilhante, o interesse geral que soubera ver na simples explicação graciosa de uma vida familiar honesta e cumpridora, pôde muito mais do que todas as outras considerações. E quando o Ministro fez uma pausa, parecendo aguardar a confirmação do seu acerto na solução do enigma, o Rei declarou, com aplauso e alegria de toda a Corte:

— Essa é a solução do enigma que vos propus. Reconheço que era quase impossível acertar, não aplicando as palavras que vos disse, a um chefe de família. E, porque sinceramente o reconheço, não será diminuída a minha confiança em nenhum dos meus Conselheiros. Mas todos concordarão que devemos grande e muito justo louvor ao nosso Primeiro Ministro.

E não só por ter achado a solução do enigma proposto, alegando embora ter ouvido a voz do Povo, mas também por o ter esclarecido com a sua profunda inteligência e saber.

O esclarecimento foi tal que dispensaria explicação mais demorada, se não fosse de proveito, para todos nós, ouvirmos os comentários de tão sábio, prudente e dedicado Conselheiro.

Prossegui, pois, Senhor e verdadeiro Amigo.

O Ministro fez uma profunda vênia, em que não havia apenas respeitosa cerimônia, mas também e principalmente sincera gratidão, e começou, com voz pausada, o seu novo discurso:

— Real Senhor, merece Vossa Majestade, mais uma vez, os aplausos da muito sincera dedicação de nós todos, por saber e querer antepor a caprichos e curiosidade o interesse da república e o desejo de investigar o que pode mantê-la e melhorá-la.

Digno de louvor é o Rei que sabe escutar a voz do povo e compreender o interesse geral que podem ter palavras que parecem de ocasião. Direi, no entanto, que ainda maior louvor merece o Rei que não se contenta com ouvir a voz do povo, mas quer interpretá-la para o bem geral e permanente, e não apenas com o fácil intuito de satisfazer aspirações de momento, que se limitam, por vezes, a traduzir. E mais ainda o Rei que não confia somente na sua inteligência e conhecimentos pessoais, e quer também ouvir os Conselheiros que lhe merecem confiança, e comparar os seus pareceres com os dos Sábios de ontem e de hoje.

É lembrando as verdades que estes foram entendendo e consignaram, e menosprezando os falsos ou transviados Sábios que as traíram; é em nome de todos os vossos Conselheiros que hoje aqui estão presentes, e os que já passaram a melhor vida, e foram do Conselho de vosso Pai e Avós; é em nome de todos, e só por isto, que eu ousarei deter-me na explicação de palavras que traduzem, afinal, na sua aparência de facécia e dito de ocasião, a sabedoria das Nações.

O que Vossa Majestade ouviu da voz do povo, e por esta me foi também revelado, não define apenas um caso particular, muito embora digno de louvor. É exemplo e retrato de um dever geral.

Assim o entendeu logo Vossa Majestade. E seguindo a mesma luz afirmei que tão grande e pura verdade só podia tê-la entrevisto a experiência dos que se elevam à nobreza da vida em família e do trabalho e alegria de a sustentar.

Dessa vida nasceu um dever moral de união com o passado e o futuro. E posso dizer, por isto mesmo, e com os melhores Sábios, que não foram os indivíduos, por força ou concordância, que criaram as sociedades. Foram as famílias, e por este profundo sentimento de continuidade e todas as obrigações, para com o passado e o futuro, que ele impõe.

Mas o que criou as sociedades é também garantia de boa ordem, prosperidade e justiça da sua vida em qualquer época, sejam quais forem os outros problemas que tenha de resolver.

Um há, Real Senhor, que todas as épocas, melhor ou pior, enfrentam. É o que resulta do alto dever de protegermos e assistirmos os que já não podem e os que ainda não podem manter-se com o seu trabalho.

Se todas as famílias cumprirem esse dever, de acordo com as posses de quem trabalha e a justa paga que por isto lhe é também devida, os encargos serão distribuídos por todos os homens válidos, segundo as condições da vida e trabalho de cada um, e portanto com a melhor equidade.

Para os Pais que não conseguiram garantir por outra forma o seu futuro, não pode haver mais justa e honrosa proteção que a dos filhos que criaram e ajudaram a trabalhar. Deste dever cumprido nasceu um direito correspondente. Feliz de quem, na riqueza ou na pobreza, o mereceu e com ele pode contar.

Só faltando aos pobres este amparo, seriam necessários outros, os da Igreja e os do Estado. Assim, darmos à grande maioria das famílias a educação e os meios para cumprirem este dever, cada uma segundo o seu esforço e posses, também tornaria possível que nenhum amparo viesse a faltar aos que dele precisassem.

Se, muito ao contrário, o egoísmo, desregrada vida e organização das famílias, exigir a proteção para um sem número de pobres desamparados, velhos e novos, a proteção da Igreja e do Estado não poderá chegar a tanto. E, em momentos de geral pobreza e aflição, a Santa Igreja será acusada, injustamente, de falta de caridade, e o Estado será perigosa e não menos injustamente abalado por levantamentos, os Ministros e Conselheiros e todos os poderosos, em geral, difamados, e o Rei mal querido.

De tudo isto e do muito mais que todos sabeis, podemos concluir a primeira lei que nos revela o exemplo do homem que paga do seu trabalho a dívida que tem para com os seus Pais, e empresta outro tanto aos seus filhos.

E não diga ninguém que é melhor não ter estas obrigações e os trabalhos que nascem delas, porque são, afinal, para pobres e ricos, a maior felicidade. E, bem compreendido e respeitado, o alto dever, que é de todos, cabe também, ou mais ainda, embora diferentemente, aos que por fortuna pessoal ou por desgraça de já não terem Pais a proteger ou não lhes ter Deus concedido filhos, parecem libertos destas obrigações. Também eles devem pagar a sua dívida ao passado e emprestar ao futuro, por esta forma regulando os deveres da Caridade, ou por todos trabalhando com os olhos sempre fitos na grande lei da continuidade humana, que as obrigações da vida em família nos deram a conhecer.

Falo, Real Senhor, com a dorida autoridade que me deu a amargura de não ter filhos a quem diretamente empreste, compensando o muito que recebi, nem ter já Pais para lhes continuar pagando a minha enorme dívida. Considero esta maior ainda, para com todo o passado, e procuro servir no presente as gerações que terão de continuá-lo.

Resignado ao que Deus quis, não sinto diminuídas, mas imensamente aumentadas as minhas obrigações para com o passado e o futuro. E neste vejo surgir, sucessivamente, os filhos que aproveitem do que possa dar-lhes o meu trabalho, que só todo o passado tornou possível.

É a lei da continuidade para todos. É, para Vossa Majestade e para toda a Nação, a própria lei, benefício e grandeza das Dinastias. E é também a lei de todas as sociedades que querem viver e prosperar.

Em cada vida, em cada época, devemos conservar a boa herança do passado, não o esquecer e pagar a dívida que para com ele temos, e emprestar ao futuro, para que corresponda, ao menos, àquele e, querendo Deus, seja sempre melhor.

Erro grave, para não dizer crime, será o daqueles que só contam com o presente, que é afinal um momento entre o passado e o futuro, e os deve ligar e mutuamente servir e engrandecer. Erro dos que só vivem do passado, sem lhe verem as obrigações no presente e sem considerarem que chegou a hora do seu trabalho, para pagarem o que lhes foi transmitido. Erro dos que trabalhando, só pensam em preparar o futuro, menosprezando o passado e chegando até a condená-lo ou a traí-lo.

O acerto é a ligação perfeita e compreendida entre o passado, o presente e o futuro. A lei é a continuidade que a nobreza da vida em família nos ensinou.

Todo o passado, no que teve de bom, e todo o futuro desejável devem ser considerados no trabalho do presente, com a dupla obrigação que este exemplo nos deixou esclarecer. Entendemo-lo, em geral, tarde e quando, já avançados na vida, a nossa inteligência atinge a serena maturidade e o pleno poder que são frutos de muita experiência e não menor estudo.

Lembro-me, Real Senhor, de ter lido, no Poeta da Grécia, versos que declaram, com muito mais belas palavras, a seguinte verdade: nos seus atos o ancião olha, ao mesmo tempo, o futuro e o passado, e procede, por isto, com maior equidade.

Melhor elogio não desejo para a minha forma de proceder e aconselhar. Pago a todo o passado a minha dívida, e empresto, ou, por desdita pessoal, apenas dou, a todo o futuro o que sei e posso.

Apenas o Ministro, com um gesto de resignação, tristeza e altivez, findou o discurso, ergueu-se o Rei, avançou para ele e abraçou-o, dizendo:

— Emprestais a um filho, e a estes netos que são os meus filhos e a quantos deles provierem.

Elegeu-vos Deus, até no vosso isolamento, para que tudo pudésseis dedicar a esta Nação. Mereça eu, por vossos conselhos, ser um bom elo na Dinastia.

Vinde, meus filhos, saudar a quem deveis amor e respeito da mesma forma que a vosso Pai. 


Rolavam lágrimas pelas faces do velho Ministro. E toda a Corte com entusiasmo o aclamou, juntando o seu nome ao do Rei justiceiro que tão nobremente pagava ao Ministro e Conselheiro o que era devido a muito valor e trabalho, garantindo-lhe a continuidade no futuro.

***

Ficou o Rei com grandes alegrias no seu coração. Tinha orgulho de logo ter entendido, ele, ainda novo e sem grande experiência dos homens, o interesse, para a república, das verdades contidas nas palavras do Carvoeiro, verdades que tão bem esclarecera e tanto aprofundara o seu grande Ministro. Maior orgulho de merecer a dedicação e os sinceros conselhos deste sábio ancião, experiente e douto, por quem aumentara a sua admiração e confiança.

Magoava-o, porém, tê-lo afligido, a ponto de ele ter pensado em renunciar ao seu cargo no Conselho. E chegava a agradecer ao Carvoeiro ter-lhe dito o enigma das suas palavras, o que decerto fizera, pois isto mais de uma vez o percebera no discurso do Ministro.

Por outro lado, também se magoava de saber-se desobedecido, e para mais por um homem que lhe merecera simpatia, e de quem não esperava nem o desrespeito nem a quebra da palavra dada.

Supor o ato vil da compra de uma consciência, não lho admitia o que pensava do seu primeiro Ministro. Mas como conseguira a confissão e verdadeira desobediência do Carvoeiro, ou como as admitira, sequer? E como deveriam elas ser castigadas, sem ferir o seu Ministro e sem esquecimento do benefício que resultara desse mau ato?

Não podia o rei descansar sem tudo isto saber e resolver. E, assim, mandou que, bem antes da madrugada, lhe aprontassem um cavalo, pois queria sair, sozinho, para o campo.

Ainda era noite quando partiu a galope, no seu cavalo, para a floresta onde encontrara o Carvoeiro. E ao romper de alva chegou à choupana onde ele vivia, e logo o viu, entre portas, pronto a largar para a faina do dia.

O Carvoeiro saudou o seu Rei, tirando o barrete e dizendo com voz calma e respeitosa:

— Deus guarde Vossa Majestade, e lhe dê o que deseja neste dia que começa.

— Deus te salve! (Tornou o Rei, e continuou em voz severa): Venho visitar o teu Palácio, conforme o convite que me fizeste, e saber se para o campo se mudaram a deslealdade e o fingimento, que dizem morar nas Cortes e nas Cidades.

— O bem e o mal andam por toda a parte, Real Senhor, umas vezes mais e outras vezes menos. Mas não me pesa na consciência qualquer falta para com Vossa Majestade, e meu Amo, de quem quero continuar sempre a ser um leal vassalo. (E, segurando o cavalo pelas rédeas, acrescentou): Peço a Vossa Majestade para se apear e entrar na minha choupana, onde estará ao abrigo da friagem do alvor.

Apeou-se o Rei, admirado com a quietação do Carvoeiro, e entrou na modesta casa. Ardiam toros na lareira, e a sala, caiada e acolhedora na sua nudez, pareceu-lhe enfeitada para o receber. Só um lugar estava posto na mesa, com seus pratos e copos de estanho. E tinha diante um cadeirão tosco e forte, enriquecido com muitas peles de lobo.

— Foi o melhor que pôde arranjar-se, meu Senhor. E agora, se Vossa Majestade quiser dar-me, por bondade, uma honra sem igual, a minha mulher virá beijar-lhe a mão, e depois irá aprontar o almoço, que espero aceitará da minha pobreza.

Fez o Rei um gesto de assentimento, e o Carvoeiro foi buscar a mulher, que veio com timidez beijar-lhe a mão, e logo saiu para a cozinha.

Sentou-se o Rei, cada vez mais intrigado com a atitude serena do Carvoeiro e disse-lhe:

— Venho também perguntar-te porque desobedeceste às minhas ordens e quebraste a palavra dada?

— Se Vossa Majestade me dá licença (tornou o Carvoeiro) perguntarei, antes, se está satisfeito com o que se passou na reunião da Corte, em que foram explicadas as minhas palavras.

— Visto isso, confessas ter dito ao meu primeiro Ministro o que lhe permitiu dar-nos a todos uma grande lição de sabedoria. Não escondo que por isto devo agradecer-te. Mas nenhum benefício traz consigo o perdão para a desobediência e para a quebra da palavra.

Não seria capaz de o crer de um homem dado como exemplo. E muito diminui isso a minha confiança nesse exemplo, e até, Deus me perdoe, em quem mo explicou com tão alta sabedoria.

Como te poderás desculpar de teres desobedecido às minhas ordens? E como o pôde aceitar o Conselheiro em que ponho maior confiança?

— Real Senhor, peço-lhe para me dizer se Sua Senhoria o Ministro confessou a Vossa Majestade o que entre nós se passou.

— Nada me disse. E eu não seria capaz de o ofender, perguntando-lhe fosse o que fosse a tal respeito. De ti quero, agora, a verdade inteira.

— É um homem, um grande homem, o Ministro de Vossa Majestade. Quando diz cumpre. E parece prever os acontecimentos. Por o pensar esperava eu, hoje mesmo, ver aqui o meu Senhor.

E sem medo, porque julgo também conhecer o grande coração de Vossa Majestade. E calculei que bastava a alegria que teve, para me perdoar qualquer falta praticada por bem.

— Tudo isso não desculpa a desobediência e quebra da palavra.

— Eu não desobedeci, Real Senhor. Mas antes de apresentar as provas do que digo, deixe-me Vossa Majestade contar o que se passou e o que me decidiu a falar.

A um gesto de assentimento do Rei, narrou o Carvoeiro toda a cena passada na clareira da floresta, e a dor que tivera por ter sido causa de uma tão grande amargura como a que vira sofrer ao nobre ancião.

O Rei, comovido, atalhou:

— Isto me basta para te desculpar.

— Real Senhor, não bastaria, no entanto, para me desculpar eu próprio. E tanto assim que, mesmo vendo tão grande tristeza, não me decidi a abrir mão do segredo que Vossa Majestade me mandara guardar. E para mais Sua Senhoria também me proibiu que eu o fizesse, quando lhe disse que poderia falar. E acrescentou que não o consentia, exatamente por ser do seu interesse conhecer o que chamou enigma das minhas palavras.

— É um homem, um grande homem, disseste bem. E eu te perdoo a desobediência a mim e a ele por toda a alegria que me deu agora ver confirmada a sua grande lealdade. Assim eu pudesse também ter-te na conta de inteiramente leal e obediente às minhas ordens.

— Mas, Real Senhor, eu não desobedeci, de modo algum, às ordens recebidas. Se falei, foi por entender que podia fazê-lo sem quebra do meu dever. Lembra-se Vossa Majestade que me ordenou que a ninguém desse a explicação das minhas palavras sobre o meu governo familiar sem vossa ordem ou sem ver a cara de Vossa Majestade cem vezes?

— Assim o disse.

— Pois inspirou-me, decerto, o meu Anjo da Guarda, a maneira de não desobedecer às ordens expressas de Vossa Majestade, e poder, no entanto, revelar o meu segredo, e evitar assim a dor e o desespero de quem vale muito mais do que eu, e tem, por sua atividade na Governação, muito maior importância do que a minha vida.

Mas confesso que também o fiz sem receio. Perdoe Vossa Majestade se errei.

— Não te entendo. Ou não entendes tu, ou finges não entender o que seja desobediência.

— Real Senhor, Vossa Majestade não me disse que deveria ver-lhe pessoalmente a cara cem vezes, antes de ter o direito de abrir mão do segredo imposto. E, antes de falar, pude ver a cara de Vossa Majestade, cem vezes, nestas moedas. Ei-las, com permissão de Vossa Majestade.

O Carvoeiro puxou da bolsa que lhe dera o Ministro e despejou-a na mesa, com ar já prazenteiro e de quem goza com a surpresa que a outro causa.

O Rei não pôde conter o riso, vendo a esperteza do Carvoeiro, e disse:

— És na verdade, o mais esperto dos homens que eu tenho conhecido. Assim sempre Deus te inspire para bem. Mas onde foste buscar tanto ouro? (Perguntou, fingindo-se desentendido).

— Pedi a Vossa Senhoria o Ministro que me deixasse ver a cara de Vossa Majestade num cento de moedas. E assim fez. E depois quis que eu as guardasse, junto com as demais contidas nesta bolsa, como prêmio do serviço que lhe prestara já.

Mas eu só lhes chamarei minhas se Vossa Majestade o consentir.

— Dás-me agora maior alegria por tudo ver explicado sem nenhuma quebra da honra. Podes guardar todas essas moedas.

E quero também dar-te um prêmio por teres conseguido resolver tão felizmente um caso intrincado. E para bem de todos e minha satisfação.

Diz o que queres.

— Eu nada quero, Real Senhor, além do perdão que Vossa Majestade já me concedeu. Com este ouro e o meu trabalho estou rico. Vou comprar o desbaste de uma parte da floresta, meter ajudantes e continuar, em grande, no meu ofício. Que mais posso querer, além da salvação e da saúde para os meus e para mim?

— Seria injusto que eu não te desse um prêmio, por me ser dada uma grande alegria a viver. É uma nova ordem minha, que tens de cumprir. Diz-me qual é o prêmio que desejas.

O Carvoeiro recolheu as moedas na bolsa, guardou-a e começou a sorrir-se. O seu feitio festivo e brincalhão dominara-lhe novamente a inteligência. E a sorrir disse:

— Pois eu só aceito de Vossa Majestade uma coisa.

— Diz lá, homem. Se for justo desde já ta concedo.

— Só quero que Vossa Majestade me dê o direito de receber um tostão de cada marido que tenha medo da mulher.

— Isso é um disparate, ou mais uma brincadeira tua, de que não entendo o fim. Pois é possível que muitos maridos tenham medo à mulher?!

Não, cá no meu Reino pouco terias a ganhar. E não sei como o ganharias. Pede outra coisa, que eu quero dar-te um bom prêmio.

— Se Vossa Majestade não me dá isto, que peço, outra coisa não aceito. (Insistiu o Carvoeiro, já aferrado à ideia que lhe viera de repente.)

O Rei pensou um momento e disse:

— O mesmo é que recusares o prêmio dado por mim. Quererás mostrar-te mais generoso do que eu?

Não será, porém, assim. Concedo-te o direito que me pedes. Creio que não procedo bem, mas não poderá ninguém dizer que não fui eu o mais generoso.

Quando te julgares bastante rico, ou quando vires que não ganhas nada com a arrecadação desse imposto sobre o medo que dizes terem os maridos às suas mulheres, irás ver-me ao Palácio Real. Então decidirei se mereces melhor prêmio.

E agora vamos ao almoço. A não ser que a tua mulher não queira, e tu lhe tenhas medo.

— Ela o quer, para servir Vossa Majestade.

E não há que ter-lhe eu medo, porque vivemos sós, com os nossos filhos, neste bosque, longe de toda a gente.

— Nesse caso comereis comigo. E verei os teus filhos, que não ficam já melhorados, por tua culpa.

— Já almoçamos, Senhor, e, para prêmio de nós todos, basta-nos a honra que Vossa Majestade nos deu, sentado-se a esta mesa.

Almoçou o Rei, alegremente falando com o Carvoeiro e a mulher, depois de abençoados os filhos do casal.

Montou, depois, a cavalo, e voltou para o Palácio, com muita alegria, por ver desfeitas quaisquer dúvidas quanto ao bom procedimento de dois homens que estimava muito, a cada um na esfera de atividade que Deus lhes destinara, da mesma forma que para o grave encargo de reinar o fizera nascer.

***

Passou-se tempo...
Um dia, quando o Rei estava na varanda principal do seu Palácio, viu aproximar-se uma carruagem suntuosa, puxada por duas parelhas, e com o cocheiro e lacaios bem vestidos, mas sem qualquer sinal de Casa Nobre a que pertencessem.

O coche parou no pátio do Palácio, e o Rei, surpreso e divertido, viu sair, e depois curvar-se a cumprimentar, feito um figurão, o nosso amigo Carvoeiro.

Mandou que logo o trouxessem à sua presença e, depois de o saudar com alegria, perguntou-lhe:

— Prosperou o teu negócio tanto que te permita este luxo, ou como foi que a Fortuna te ajudou, para tanta riqueza?

Respondeu o Carvoeiro:

— A Fortuna foi o direito que Vossa Majestade me deu. Já conto como tenho exercido esse direito e o muito que me tem rendido. Mas, antes, permita Vossa Majestade que eu lhe fale de uma linda mulher que vi, quando a caminho do Palácio.

Real Senhor, ela tem nas faces a suave cor das mais belas rosas. Os seus louros cabelos só posso compará-los aos trigais maduros, ondeando ao vento. De perfumados morangos devem ter sido feitos os seus lábios. E as mãos, esguias, têm a beleza dos alvos lírios. Pisa o chão com tanta leveza que parece desceu a andar entre nós a Rainha das Fadas. Mas os seus olhos, Senhor, esses, não há nada no Mundo a que possa compará-los. —

Estava o Rei entusiasmado a ouvir o Carvoeiro feito Cortesão, quando este viu a Rainha entrar na sala onde estavam. E continuou, em voz mais alta:

— Enfim, Real Senhor, essa mulher é tão linda que só deveria pertencer a Vossa Majestade.

E logo o Rei atalhou, aflito:

— Fala baixo, que vem aí a Rainha.

Então o Carvoeiro desatou a rir, e disse:

— Ah, também!... Passe para cá um tostão, Real Senhor.

O Rei teve um sobressalto de surpresa, e depois outro, de cólera, que dominou. E com voz dura e serena, que tornava terríveis as menores das suas palavras, falou:

— Queres tu dizer que eu tive medo! E para que viesses brincar comigo, metendo-me um susto, ousaste escolher tão mal o prêmio que te ofereci! —

Gelara imediatamente o riso do Carvoeiro. E agora, caindo em si, debatia-se o infeliz entre o medo e a vergonha. E queria ajoelhar-se diante do Rei, que lhe não consentiu, dizendo:

— Um homem tão sábio e audaz que põe medo ao seu Rei, não deve ajoelhar-se nem pedir perdão. Tem de aceitar o castigo dos seus atos.

Medo! O que entendes por esta palavra, para assim qualificares o que senti?

Seja nosso juiz a própria Rainha, de quem quiseste que eu tivesse medo.

E vendo aproximar-se a Rainha, dirigiu-se para ela, e disse-lhe:

— Senhora, quero contar-vos o que me esteve dizendo este homem, e o erro de que sou culpado perante vós, e como o atalhei, para que sejais quem diga o seu nome.

— Tudo ouvi, Senhor (disse logo, sorrindo, a Rainha). Desde o elogio da mais linda mulher do Mundo, verdadeira ou fingida.

Qual o homem capaz de não se comover com tanta formosura?

Se foi esta a vossa culpa, pequena foi e nem carece de perdão.

— Foi essa a minha primeira culpa, e vos peço perdão. E foi outra, depois. A de ter querido evitar que ouvísseis palavras que podiam magoar-vos.

Como se chama o que senti, Senhora?

— Se tivesse havido culpa, seria remorso ou arrependimento. E bastaria para merecer o perdão. Como não houve culpa, chama-se delicadeza de sentimento.

— Pois este homem, a quem estimei, e desejaria estimar ainda, chama-lhe medo. E voluntariamente quis pôr medo convosco, Senhora, ao seu Rei.

— Senhor (tornou a Rainha), perdoai-lhe, que não o terá feito por mal, nem por menos respeito, mas por não medir o valor das palavras.

— Perdoo-lhe por vós, Senhora, e em desconto da minha culpa de lhe dar ouvidos no louvor de outra mulher, a pena de morte que merece quem voluntariamente quer pôr medo ao seu Rei, e rebaixá-lo, assim, a pior de que um servo.

Mas não devo perdoar-lhe outro castigo nem negar-lhe o prêmio por seus merecimentos anteriores, que tudo fez para destruir.

— Mereço a forca, na verdade mereço a forca. E se agradeço a vida a Vossas Majestades, é porque deixaria viúva e dois órfãos.

— Ao que sentis, bom homem (disse a Rainha), outros, com erro, chamariam medo. E é muito diversa coisa, porque é amor de marido e pai.

— E também arrependimento e remorso, Real Senhora. Sou eu agora quem pede para ser duramente castigado.

A Rainha sorriu-se, por ver tão bem aplicadas as suas palavras, e, voltando-se para o Rei, seu esposo, disse:

— Retiro-me, Senhor. E vou sossegada, porque sabereis ser justo.

Curvou-se o Rei, numa vênia de assentimento, e o Carvoeiro cobriu de lágrimas a mão que a Rainha lhe deu a beijar.

E depois que ficaram outra vez sós, voltou o Carvoeiro:

— Não mereço perdão. E o que mais me pesa é ter magoado um Rei por quem eu daria a vida. Maldito seja este meu gosto folgazão, que me fez pedir um prêmio para com ele cair em tão mau procedimento!

Bem me disse logo Sua Senhoria o Ministro que Vossa Majestade me ofereceria um prêmio, e que não aceitasse nada sem o consultar...

Mal me veio de me fiar na minha cabeça.

— Pois será ele quem vai julgar-te. Porque eu fui o ofendido, e não devo punir. (Concluiu o Rei.) —

Fez sinal a um pajem, ordenou-lhe que chamasse o Primeiro Ministro, e depois, voltando-se para o Carvoeiro, continuou:

— Levanta-te. Como homem já te perdoei. E não te quero ver humilhado perante ninguém.

— Essas palavras e esse perdão, Real Senhor, são mais do que eu poderia desejar. E nem já o castigo me poderá ser muito pesado. Creia Vossa Majestade que mais me dói o remorso do que aviltantes vergastadas.

— Sim, perdoo-te. E lamento o que sucedeu. Mas o castigo, esse, já, por minhas palavras de Rei, não está nas minhas mãos. —

Entrava, nesse momento, o Ministro na sala, e, compreendendo logo o que se passara, disse:

— E assim me arvorais, Real Senhor, em juiz do homem a quem devo tão grande benefício?

— Confio mais na justiça do reconhecimento do que na do ressentimento, mesmo depois de abandonado, ou até desaparecido.

E pelas palavras deste homem compreendi que muito melhor do que eu o soubestes conhecer. Nisto fui também culpado.

Sereis, pois, vós quem o julgará, para lhe conceder o prêmio prometido por mim e o castigar pela sua falta grave.

Que ele mesmo vos diga quanto se passou.

— Tudo sei ou adivinho, Real Senhor. E sei mais, e não o devo esconder. Sei o mal que ele tem feito em muitas famílias do Reino, usando impensadamente do direito que Vossa Majestade lhe concedeu. E menos por ganância, creio, do que para se divertir com fraquezas humanas.

— Desse mal (atalhou o Rei) sou eu o principal culpado.

— Assim seria, Real Senhor, se Vossa Majestade suspeitasse o que este homem entendia por medo ou receio de um marido à sua mulher.

Não tem, pois, Vossa Majestade, neste mal, qualquer culpa de que se acusar perante Deus, ou que entre os homens reparar.

Mais depressa eu deveria confessar-me culpado por me não ter aberto com Vossa Majestade, logo declarando como e por quem me fora explicado o enigma que significava o bom governo de um chefe de família, nem o juízo que logo fiz de quem assim me valeu. Deste erro peço perdão ao meu Rei.

— Nenhum perdão tendes que pedir-me, Senhor, pois bem sabeis a alegria que tive com os vossos conselhos de sabedoria, a qual só foi possível por este homem ter aberto mão do segredo que eu lhe ordenara, e sem cometer falta contra essas ordens e palavra dada.

— Nesse caso continua ainda este homem a merecer um justo prêmio, por Vossa Majestade prometido.

— Nem eu quero que lhe seja negado.

— Mas na verdade, Real Senhor, ele também merece um castigo. No entanto, do mais grave, da impensada falta de respeito por Vossa Majestade, o podereis talvez absolver.

Eu me explico, Real Senhor. Tem este homem uma grande inteligência, mas com o defeito, que a muitas acompanha, do gosto de com ela brincar, sem respeito por essa nobreza concedida por Deus.

Isto faz dos inteligentes mal-intencionados uma das piores pragas da sociedade. Entram na zombaria sem motivo nem desculpa, sequer, de qualquer justa revolta. E mais depressa perdem um amigo, ou ferem a verdade e a própria justiça, do que recusam o prazer doentio de uma chalaça. Livre-nos Deus de homens dessa condição e mau caráter com autoridade entre o povo ou qualquer lugar na governação.

Mas o caráter deste homem é bom. A sentença com que ele resumiu a sua vida, sabe-a Vossa Majestade expressão verdadeira do seu procedimento familiar.

O que eu lamento é que precisamente o homem que nos lembrou, mesmo sem o querer, um bom caminho da governação, baseado no incentivo dos deveres, amor e disciplina das famílias, tenho sido, também sem o querer, culpado na desunião de muitas delas.

Por este malefício, embora involuntário, deverá ser castigado. E porque Vossa Majestade quer e manda que eu julgue e dite a pena, digo que será justo que tudo quanto ganhou com o mau uso que fez do direito que Vossa Majestade lhe concedeu, seja perdido por ele e entregue à Santa Casa da Misericórdia, para ajudar viúvas e mal casadas.

— É justo. E assim se fará (disse o Rei).

— É muito justo! (exclamou o Carvoeiro). E só vos agradeço ver-me livre de tão mal fadado e triste dinheiro. Mas, senhor, eu mais ganhei (e me arrependo) em divertimento (maldito seja ele) do que em dinheiro. Deixai-me, pois, acrescentar a esse o que recebi de Vossa Senhoria.

— Não. Esse prêmio te consentiu Sua Majestade que por teu o tivesses. E ainda bem que soubeste guardá-lo para a tua família, e, qual o outro, o não foste desbaratando em luxo.

— Falta o meu prêmio. (Atalhou o Rei.)

— Se Vossa Majestade manda que eu julgue, direi que ele deve ser apropriado à vida que deu a este homem as suas grandes qualidades, e jamais a qualquer mudança de condição, para que não está preparado.

Real Senhor, a floresta onde este homem trabalhava quando Carvoeiro, simples, inteligente e bom, é de Vossa Majestade, e em parte minha, por vossa dádiva.

Se mo permitis, juntar-nos-emos no pagamento do prêmio justo a dar ao nosso amigo Carvoeiro. Que toda essa floresta lhe seja dada em propriedade plena. Que a explore por seu ofício, com o ouro que lhe dei.

Confirma Vossa Majestade a minha sentença?

— Confirmo, e com alegria. E agradeço a nova lição de alta sabedoria que de vós agora aprendi.

— Com vossa licença tenho ainda uma condição a impor. E é que ele vá também renovando a floresta para benefício de todos, e mais em particular dos seus filhos e futuros descendentes. Naqueles ou nestes haverá quem venha a merecer o prêmio de elevação de classe, caso tenha a sua inteligência, mas a respeite, e para esta subida tenha sido também educado.

Sei que tens dois filhos, mas não lhes conheço a inteligência e o caráter. Desejo dar-lhes educação, e se tiverem o teu feitio serão os continuadores da tua riqueza. Se, porém, um deles for mais refletido e amigo do estudo, eu lhe ensinarei os cuidados e trabalho da governação. E será sucessor dos meus bens. Uma e outra coisa com autorização de Vossa Majestade.

— Tendes a minha autorização, e com o respeito devido a tão grande e nobre ânimo.

Chorava o Carvoeiro lágrimas de alegria. E, com palavras de profunda gratidão, beijou as mãos do Rei e do Ministro. Mas depois o seu gênio festivo tomou de novo conta dele, e não lhe consentiu que deixasse de acrescentar:

— Mas, afinal, Vossa Majestade e Vossa Senhoria elevam-me de classe, e muito!...

Fazem-me Carvoeiro-Mor do Reino!


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Fonte:
Ana de Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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