terça-feira, 4 de junho de 2019

Pato, cabidela e tudo (Fábula), de Ana de Castro Osório


Pato, cabidela e tudo

Este exemplo dos castigos da avareza é de um Sapateiro velho e rico a valer. Ganhara sempre bastante dinheiro e como era muito somítico e egoísta não gastava nada. E assim arranjou boa fortuna, se boa podemos dizê-la.

A família e os amigos escusavam de contar com ele, pois mais depressa quereria morrer do que matar a fome a alguém ou fazer o mais pequeno favor.

Tinha o sapateiro avarento um compadre e parente a quem devia bastantes obséquios e bons serviços. Certo dia apareceu-lhe o compadre a fazer uma visita. Não gostou muito da festa, mas viu-se obrigado a mostrar-se amável e a fazer de generoso. Foi ao mercado, comprou um pato, porque foi a coisa mais barata que lá encontrou, e trouxe-o para casa.

Mandou-o cozinhar, com recomendação à cozinheira de gastar poucos temperos, e quando estava pronto convidou o amigo a irem para a mesa.

Veio a comida, mas o sapateiro é que fazia os pratos, e de tal maneira serviu o hóspede e a família, que ficou tudo com fome.

Ele, porém, estava já um tanto mais satisfeito, porque tinha sobrado pato, cabidela e arroz para a ceia e para o dia seguinte.

O compadre estava desesperado e, reparando onde o avarento metia os acréscimos, jurou vingar-se da fome que lhe fizera passar.

Quando o viu descuidado, fora de casa, tirou do armário o jantar que lhe fora negado, e comeu à vontade. Comeu tudo, e parece que também não ficou ainda muito farto. Dali foi rir e brincar para o terreiro onde o Sapateiro se assentara de má sombra, como era seu costume.

Quando bem lhe pareceu, entrou o avarento em casa e foi ao armário para se regalar com a vista dos restos do seu rico jantarinho. Quando olhou e apenas viu os pratos vazios, teve um tal desespero que caiu para o lado com um ataque.

Veio o compadre, vieram os vizinhos, e correram a chamar o médico. O Sapateiro, entretanto, apenas murmurava:

— Pato, cabidela e tudo! Pato, cabidela e tudo!...

Os vizinhos e a família que rodeavam o leito, olhavam uns para os outros sem compreenderem aquelas palavras, mas o compadre espertalhão, que bem sabia a que se referiam, declarou:

— O que ele quer dizer é que me deixa prata, cabedal e tudo. Não é isto, compadre?

E o avarento, de olhos espantados de horror, apenas continuava a repetir:

— Pato, cabidela e tudo! Pato, cabidela e tudo!...

Até que morreu, sem dizer mais nada, passando todos os seus haveres para o compadre, que foi buscar a mulher e os filhos e lá ficou a gozar em boa paz o que fora amealhado com avareza e perdido com desespero.


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Fonte:
Ana de Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliotrônica Portuguesa)

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